sábado, 13 de junho de 2020

Deus em tempos cibernéticos

Nesta narrativa, para sua reflexão, apresento o que poderá ser consequência de nossos atos, voluntários ou não, com conexão divina ou mera coincidência. Confira e tire suas conclusões.

Numa dessas minhas idas a Santa Maria da Vitória, encontrei, certa noite, na Praça do Réptil ou Jardim dos Mallerossauros ou, para ser mais preciso, na Praça do Jacaré, com meu primo Adinil Neves de Sá, e levamos um longo papo. Ele, sempre muito criativo, há horas que aparece com cada uma que é só mesmo para darmos boas gaitadas.

— Primo, você sabia que Deus, hoje em dia, tá online, tá conectado?

— Sabia, não. E é mesmo, primo? Conta aí como é que é isso...

— Antigamente, quando a gente fazia uma maldade, uma coisa errada, quem pagava eram os filhos, os netos, os bisnetos. Hoje, não, quando você faz uma coisa ruim, cê paga é logo. Tem essa, não, de pagar depois – e narrou um monte de histórias que confirmariam sua “tese”.

Fiquei, por um tempo com aquilo na cabeça, e passava adiante a história para meus amigos, mas apenas a mostrar o lado hilário e criativo do primo, sem dar muito importância para a possível conectividade divina. Por via das dúvidas, nem discordava nem aceitava, curtia, tão somente.

Dia desses, já em Salvador, numa conversa com um amigo, lhe perguntei se iria assistir a algum jogo das Olimpíadas, na Arena Fonte Nova e, aproveitando, contei a ele, que se diz ateu, a “tese divina” do meu primo. Meu amigo apenas sorriu, sem dar tanta importância.

Novais e Lara Novais. Arena Fonte Nova. Salvador. Bahia. Olimpíadas Rio 2016. Fotos: Acervo do autor. 
— Vou, sim, ora se vou. E já comprei até os ingressos, quatro. Paguei duzentos paus. Vamos eu, minha mulher e os meninos. Cinquenta reais cada ingresso. Não ia perder uma oportunidade dessa de jeito nenhum.

Fiz cara de assustado misturado à reprovação e levei avante nossa conversa:

— Eu também comprei ontem à noite dois ingressos: um para a rodada dupla, Fiji e Coreia; México e Alemanha, e outro para o jogo Brasil e Dinamarca, e paguei duzentos contos. Não vi ingresso de cinquenta, só se for meia, para estudante.

— Isso mesmo. Eu e minha mulher pagamos meia. Uma coligada minha arrumou duas carteiras de estudante. Agora, somos estudantes — e sorriu, debochadamente.

— Fiquei triste. Não entendi — comentei e prossegui:

— Logo você que bate pesado em corrupto, quer ver todos eles atrás das grades, entra numa dessa! Não acredito. Uma carteirinha, então, não é nada demais? É coisa sem importância? — e parei, indignado.

Por algum tempo, fiquei a matutar o ocorrido. Depois, procurei esquecer para não me chatear com o tão querido amigo. Afinal, não sou juiz, nem palmatória do mundo, tampouco “paladino da moral e dos bons costumes”. Entretanto, tais vantagens não me seduzem. Um dia, talvez, ele vai ver que nada disso vale a pena, tão somente propaga o mau exemplo como se fosse coisa normal, sem maiores consequências.

Lembra-se daquela brincadeira do meu primo? De que Deus vive online? Pois é, parece que o castigo chegou foi cedo. Não é que, quando ele foi comprar os ingressos para o jogo mais esperado, Brasil x Dinamarca, acabou errando e comprou para outro jogo, México x Alemanha, que não lhe interessava. Mas se conformou, afinal, são dois grandes times a se defrontarem.

Chegou finalmente o dia do jogo, da rodada dupla, Fiji x Coreia do Sul e México x Alemanha. O primeiro a começar às 17 h e o segundo, às 19 h, como li num site de notícias. Como eu estava interessado mais no segundo jogo, México x Alemanha, atrasei-me um pouco para o primeiro, questão de 10 min, mais ou menos. Entretanto, para surpresa minha, a partida que estava acontecendo era México x Alemanha e não Fiji x Coreia. Liguei imediatamente para meu amigo.
Times olímpicos das Ilhas Fiji e da Coreia do Sul. Foto: Novais Neto. 2016.
— Rapaz, vem logo, senão você só vai ver o segundo jogo, Fiji x Correia, o mais fraco. Não tem mais jeito, o jornal da Internet informou errado – e finalizei.

Time olímpico das Ilhas Fiji. Foto: Novais Neto. 2016.

Time olímpico da Coreia do Sul. Foto: Novais Neto. 2016.

Diminuta torcida das Ilhas Fiji junto a torcedores do Bahia. Foto: Novais Neto. 2016.  
Ele ficou uma fera. Disse que iria processar o site, um monte de coisa que se sabe que não vai fazer mesmo. Também, meu amigo já estava muito chateado porque comprou o ingresso para o jogo errado. Falei, argumentei e acabei por convencê-lo a vir para a Fonte Nova. Ele mora perto, o que facilita bastante.

A primeira partida já havia acontecido. Foi um bom espetáculo. Estávamos no intervalo de uma hora entre um jogo e outro, quando ele chegou com sua turma. Ensopados. E me contou o ocorrido:

— Novais, inventei de vir de carro, enrolei seus colegas da Transalvador, passei pelo bloqueio, dizendo que ia pra casa, que morava no Engenho Velho de Brotas, pra tentar uma vaga em algum estacionamento ali mesmo por perto. Tava tudo cheio, marajá. Tive que ir pra Djalma Dutra, mais de um quilômetro de distância, botar o carro. E o pior: a chuva caiu feio e todo mundo molhou! Tô preocupado é com resfriado – e completou.

— E o pior, meu irmão, o meu menino não quis vir e eu tive que dar a zorra do ingresso a um amigo, pelo menos pra me fazer companhia, conversar sobre futebol. Me lasquei!

Começa então a segunda partida, Fiji x Coreia. Jogo muito fraco, sem emoção. Meu amigo e sua turma começaram a sentir muito frio, a tremer e a espirrar. Mal presságio. Ele, já totalmente desmotivado, virou-se para mim e sugeriu:

— Rapaz, vambora. Já começou tudo errado! Vambora logo pra não ficar pior – e saiu assim que terminou o primeiro tempo. Aliás, saímos! Procurei ser solidário, mesmo querendo ficar, para amenizar-lhe a raiva.

No outro dia, bem cedinho, encontrei com ele, que foi logo relembrando a história do meu primo Adinil, aquela do “Deus conectado”, que havia lhe contado dias antes, tirando-lhe sorrisos descrentes e irônicos.

— Rapaz, tá é todo mundo resfriado lá em casa. Seu primo tem razão, Deus tá é conectado mesmo, tá onlainíssimo! Sabe o que foi que fiz com aquelas merdas de carteirinhas de estudante? Peguei elas, esbagacei e joguei no lixo, de tanta raiva. E olha que foi a primeira vez que usei. Num vou esperar a segunda vez, não, marajá. Tô é fora disso!

* * *

Enviei, por e-mail, esta crônica a meu amigo, pedindo sua opinião e seu eu poderia publicá-la sem que ele se sentisse ofendido, mesmo porque não o identifiquei.

Dias depois, encontrei-o na rua e lhe perguntei:

— E aí, figura, o que achou da minha “delação não premiada”?

— Gostei, sim, tá muito boa. Pode publicar, tem nada, não. Meu nome num tá lá mesmo. Só que acho que 90% dos brasileiros fazem isso — justificou-se assim meio sem graça.

Não lhe disse mais nada, apenas respondi 
— mentalmente — utilizando o mesmo percentil que tentou justificar seu ato: “é por isso mesmo que 90% dos brasileiros têm os políticos que merecem”. E nos despedimos sem mais conversa.

Em tempo:
Crônica original publicada no Matutar em 12/11/2016. Disponível em: <https://www.matutar.com.br/arte-e-cultura/deus-em-tempos-ciberneticos/>. Acesso em: 12/6/2020. [Esta nova publicação foi revista e ilustrada].

sábado, 6 de junho de 2020

João Ladino e as siglas

Nesta crônica, apresento-lhe João Ladino, figura que vive a brigar com as siglas. Confiram e divirtam-se.

O problema do meu amigo autodidata João Ladino é com as siglas. Não é uma convivência amigável, em muitos casos chega mesmo a ser ruidosa. É que ele não consegue entender o significado de muitas delas. Ou melhor, não aceita o desenvolvimento destas siglas, quando apresentam letras a mais ou de menos, ou acham de contrariar nossa Língua Portuguesa.

Com cara de indignação, a parecer chateado, Ladino, ao me ver na barbearia de Lourinho, me questionou, antes mesmo de dar um bom-dia:

— Poeta, você sabe o que significa ECT? E UNEB? — respondi que sabia e desdobrei as tais siglas para desespero do meu interpelador.

— Mais aí tá errado. Quer ver, assunta: ECT significa Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Cadê o “bê” que não tem na sigla? Já UNEB é Universidade do Estado da Bahia. E o “ene” não serve pra nada? É compadre, não dá pra entender patavina nenhuma — e continuou:

— Isso ainda é pouco, poeta. Outras siglas contrariam a nossa Gramática. Por exemplo, a gente passa a vida inteirinha aprendendo que antes “pê” e “bê” se deve botar “eme”, nas outras consoantes não. De repente, aparecem as siglas EMTURSA, EMTRAN pondo “eme” antes de “tê”. Dá pra entender, poeta? — e continuou.

— Eu acho que deveriam ter mais cuidado com essas siglas que a gente lê como se fosse uma palavra, não as que a gente fala letra por letra como IPTU, IPVA. Tudo bem, é normal. Depois, esses mesmos entendidinhos são os primeiros a dizer que nosso Português vai de mal a pior. Eu, por exemplo, não sei nadinha de Português, mais o tiquinho que sei, gosto de usar – concluiu, enfático.

João Ladino é surpreendente. Só fez o segundo ano do antigo primário, mas gosta de estudar. Às vezes dá umas pauladas... Noutras situações, toma cada uma... Apenas por displicência e pressa. Ele é daqueles que fala e só depois pensa. Só anda desembestado. Mas João Ladino sabe, sim.

Em outra oportunidade, encontrei João Ladino no Estádio Turibão em Santa Maria da Vitória. Ele chegou para mim e, em tom de gozação, perguntou se eu sabia o que significava FIAT.

— Acho que sei, Ladino. FIAT quer dizer Fábrica Italiana Automobilística de Turim – acertei, Seu João? E esbanjei como se o ladino fosse eu.

Por sorte minha, bem recentemente, havia lido sobre a FIAT numa revista de automóveis em uma concessionária, por isso esnobei para cima do meu amigo, mas eu não sabia.

— Que acertou, que nada, homem. Eu tô falando é do FIAT 147, aquele da marcha dura, que muita gente comprou gato por lebre. Tá lembrado?

— Tô, sim. E o que significa então, Ladino, a sigla FIAT?

— FIAT, meu poeta, quer dizer: Fui Inganado Agora é Tarde. Sacou?

— Não saquei nada, Ladino. Sabe por quê? Do jeito que você falou, a sigla não é FIAT, é FEAT. Porque “enganado” se escreve com “e” e não com “i”. Não seria “Iludido”, Ladino, em vez de “Enganado”? – sugeri.

— Ô moço, quem foi “Inganado” agora fui eu. Comi “gambá errado” e nem empanzinei. Um amigo me falou e eu nem prestei atenção nisso. Tô ficando é besta mesmo!

E a propósito do acrônimo FIAT, sigla lida como palavra, recordo-me da Copa do Mundo de 1970, quando os narradores esportivos da Rádio Globo anunciavam dessa forma um de seus patrocinadores: “Fósforo marca Olho, Pinheiro ou Beija-Flor, uma companhia Fiat Lux”. A registrar apenas que a palavra Fiat nesta frase não é sigla, porém um verbo: “faça-se luz ou haja luz”, traduzido do Latim.

Ainda naquela mesma tarde, lá no estádio, resolvi brincar com Ladino, apertar mente dele, como se diz, só para ver o resultado:

— E você que é bom de bola, Ladino, vamos ver se é bom de sigla também. Você sabe o que significa CBD, que está na camisa do Rei Pelé?

Pelé, Copa de 1970, México e Romário, Copa de 1994, Estados Unidos. Fotos: Reproduções.
— É claro que sei, meu compadre. CBD quer dizer: Celeção Brasileira Defutebol.

– Tá desaprendendo, Ladino! Seleção se escreve com “esse” e não com “cê”. Além do mais, cadê o “efe” de Futebol? Você abreviou foi o “de”. E, por falar em CBD, você sabia que a CBD virou CBF desde 1979?

— Sabia não. Quanto à CBD, só vacilei mesmo foi no “esse” de Seleção. Nesta você fez um a zero com um gol contra aos 45 do segundo tempo, aliás, com um autogol, como dizem os portugas.

Parece que aquele foi o dia dos foras do querido amigo João Ladino. Não acertava uma, coitado. Esta, então, é hilariante. Ladino vestia uma camisa de malha que trazia bem no meio do peito, em letras garrafais, as iniciais OCM.

— E aí, Ladino, o que significa esse OCM na sua camisa?

— Isso aqui é mole pro Vasco, meu poeta. OCM quer dizer Ontônio Carlos Magalhães. E ponto final.

— Ontônio, Ladino? Ontônio com “O”? Antônio se escreve com “A” e não com “O”. Tá ficando “analfamãe de pai e beto”, Ladino? — brinquei de trocadilho com meu amigo.

— Ô moço, você não sabe o que é uma escola pública dessas de hoje. Vão ver que eles escreveram foi Ontônio com “O” mesmo. Tá sabendo?! Não sei se tô errado, não, meu poeta — concluiu, sorridente, e cascou fora! E mais uma vez, Ladino, falou antes de pensar!

Referências:

Foto de Pelé. Disponível em: <https://www.google.com.br/url?sa=i&url=https%3A%2F%2Fwww.gazetaesportiva.com%2Ftimes%2Fbrasil%2Frelembre-10-grandes-momentos-da-carreira-do-rei-pele%2F&psig=AOvVaw1zMc48te5anrF1Q-86oPy5&ust=1591360203619000&source=images&cd=vfe&ved=0CAIQjRxqFwoTCICO2POU6OkCFQAAAAAdAAAAABAD>. Acesso em: 4 jun. 2020.
Fotos dos escudos. Disponível em: <https://www.cbf.com.br/>. Acesso em: 4 jun. 2020.

sábado, 30 de maio de 2020

Waldick Soriano e Dona Rita de Seu Abelino

Nesta crônica, revivo pitoresco episódio da passagem de Waldick Soriano por nossa cidade, quando apresentação de artista por lá era algo raro e festivo. Confiram. 

A segunda metade da década de 1960 e os anos 1970 foram muito especiais para mim. Foram anos em que, na verdade, comecei a ver o mundo especialmente nossa Santa Maria da Vitória, que Jason Queiroz, locutor inesquecível, de português esmerado, voz grave e marcante, exaltava, ao anunciar a hora certa no Serviço de Alto-Falante a Voz de Santa Maria da Vitória, no Alto do Menino Deus ou Alto da Igrejinha, dessa forma:

— Na cidade que mais cresce no Sudoeste [isso mesmo] baiano, são precisamente 18 horas, a Hora do Ângelus – e prosseguia com a belíssima música Ave-Maria, de Franz Schubert.

Dos anos 1960, tenho alguma lembrança da Copa de 1966, quando ouvi meu pai dizer que o Brasil havia perdido para Portugal. Vi, na Delegacia de Polícia, onde é atualmente a Biblioteca Zizi Athayde, na Praça do Jacaré, cartazes de procurados pela justiça, tais como o Capitão Carlos Lamarca e o guerrilheiro Carlos Mari­ghella, dentre outros. Lembro-me dos circos tradicionais e dos circos de tourada, dos parques de diversões que se instalavam onde é hoje o Pizzaria Canecão ou na Praça Bru­no Martins da Cruz. Ou ainda, na Rua Benjamin Constant, onde fica hoje o Colégio Roberto Borges. Além disso, recordo-me dos ciganos armando suas tendas para fazerem tachos e exibirem filmes.

Já a década de 1970, desta sim, trago as maiores recordações. No ano de 1971, entrei para o ginásio. Anos turbulentos aqueles. A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, mais conhecida pela sigla TFP, organização católica tradicionalista e conservadora brasileira, sempre aparecia por lá com suas imensas bandeiras vermelhas desfilando pelas ruas da cidade a propagar slogans anticomunistas e antissocialistas.

Numa dessas visitas da TFP, Renê, meu primo, disse algo a favor do comunismo, isto é, contrário aos slogans por eles pregados, quando um de seus manifestantes correu atrás de nós. Nem sei direito se sabíamos o que era comunismo. Pelo menos eu, o que sabia a respeito, era quando Hermes, meu irmão, ou mesmo eu pegava sandália ou calção um do outro, e minha mãe, em voz alta, esgoelava:

— Num quero saber de comunismo aqui, não. Cada um que use o seu!

Ainda neste lapso temporal, o Projeto Rondon dava suas caras em nossas plagas. Suas belas e cultas universitárias (eta misturinha explosiva!) levavam muitos donzelões ao mundo dos sonhos. Numa dessas aparições, elas e seus colegas promoveram gincanas, plantaram eucaliptos na antiga Praça do Jacaré e fizeram uma emocionante despedida, que deixou chorosos e tristes muitos de nós (eu, sem dúvida, fiz parte deste grupo). Além de muita saudade, o Projeto Rondon deixou boas lembranças.

Foi no ano 1970 que se elegeu, para mandato-tampão de dois anos (1971–1972), o mais novo chefe do Executivo municipal, Belonísio Amélio da Cruz (Arena 1), aos 22 anos, em acirrada campanha eleitoral, inclusive com morte, derrotando seu oponente, Tito Lívio Nogueira Soares (Arena 2), na primeira candidatura do filho do professor de Matemática, Francês e Música, Antônio Augusto Soares, que deixou inúmeros discípulos em nossa cidade.

Por outro lado, as músicas, as paródias, muito criativas e animadas, ficaram na memória de quantos viveram aquela açulada disputa por votos. Em relação ao prefeito anterior, Péricles Laranjeira Braga (1967–1970), apoiado pelo então prefeito Rolando Laranjeira, elegeu-se, não de forma fácil, mesmo sendo candidato único pela antiga legenda Arena 1, visto que a Arena 2, para aquele pleito, não apresentou candidato.

O contexto da época era mais ou menos esse. E aí, onde entram Waldick Soriano e Dona Rita de Seu Abelino? Pois bem, em 1967, o cantor e músico baiano apresentou-se no famoso Cine União, dos irmãos Lourival e Rosival Rocha (Lolô e Rosi), cujo bilheteiro era Antônio Wa­shington Souza Simões, outrora conhecido por Tõi de Dona Maria de Zé do Pio. “Foi um grande show”, palavras de quem esteve lá, como José Alves, irmão do professor Fernando Kaofo, também presente, mesmo não sendo Waldick ainda uma expressão nacional, mas que já fazia enorme sucesso naquela região, tanto pelo talento, quanto por ser de Caetité, precisamente, de Brejinho das Ametistas.

Cine União. Praça da Bandeira. Foto: Manoel Queiroz Assis (Neto), 1972.
Segundo me contou minha amiga e ex-colega do Curso de Contabilidade, Belonísia Novaes (Belô), sua mãe, Dona Rita, não pôde assistir à apresentação do seu ídolo Waldick So­riano. A razão ela não soube me informar, todavia isso nem importou tanto, pois o destino lhe reservou a mais inimaginável e indelével surpresa. Além de Belô, meu pai sempre contava esta história, visto que a tenda de sapateiro dele ficava na mesma rua, onde é hoje a do seu irmão, o também saxofonista da Filarmônica 6 de Outubro, Nélson Neves.

Agnelo de Donaricota ou professor Agnelo, amigo de infância e ex-colega, morador da mesma rua de Dona Rita, me disse também que, após o show, Waldick saiu com seu violão a cantar pelas ruas da cidade e foi fazer serenata em antigos meretrícios ou casas de mulheres-damas, como eram também chamados, graduados que eram segundo os atributos físicos de suas messalinas, tais como: Pingo d’Água, Pingo de Prata e Pingo de Ouro. No entanto, este não foi efetivamente o ponto relevante. Lembra-se de quando me referi a “destino”, pouco atrás? Pois bem, vou lhes falar dele, agora.

Waldick Soriano, ao passar com seu Jipe pela outrora arenosa Rua Benjamin Constant, paralela à Teixeira de Freitas, ali onde fica atualmente a AMM Vídeo, eis que o veículo atolou no areão e não houve santo que o retirasse. E era justamente nesta rua, como quis o fadário, que morava Dona Rita de Seu Abelino Novaes. E mais: na calçada de Dona Rita, para espanto e imensa alegria do cantor e compositor caetiteense, havia um cartaz afixado num imponente coqueiro anunciando seu show.

Rua Dr. Francisco Rocha, atualmente, Rua Benjamin Constant. Foto: Reprodução / Revista dos Municípios
 Ministério da Fazenda / Departamento de Arrecadação /  Década de 1960.
Pronto. Para que coisa melhor? Waldick desceu de seu empoeirado e velho Jipe, cumprimentou efusivamente Dona Rita, que lhe ofereceu água, cafezinho e os deliciosos biscoitos de Dona Lídia de Seu Joaquinzim Fiscal, e por ali ficaram conversando, enquanto uma parelha de bois criados e mansos, de Seu Abelino, esposo da felizarda admiradora de Soriano, fizessem o trabalho de um verdadeiro trator, ao arrancar o surrado automóvel – na marra, na força bruta – daquele fenomenal caminho de areia, que foi determinante para o improvável encontro.

Rua Benjamin Constant. Foto: Autor desconhecido. Acervo de Novais Neto. Década de 1970.
Que fã, afinal, mesmo em seus mais imaginativos devaneios ou delírios oníricos, admitiria tamanha sorte: ter seu ídolo, bem ali a sua frente, provando de seu cafezinho? A lamentar tão somente, isso é verdade, o fato de não ter aparecido naquele belo cenário cinematográfico um de nossos inesquecíveis retratistas: Pombi­nho, Vá de Tenente, Neném ou Tião, o Tiãozinho Roupa Limpa, para registrar aquele singular e inesperável episódio, ainda que fosse num simples monóculo.

Referência
WALDICK SORIANO E DONA RITA DE SEU ABELINO. Jornal O Porto. Edição. Dezembro 2015. Santa Maria da Vitória. Bahia. Brasil. (Crônica revista e, agora, ilustrada).

domingo, 24 de maio de 2020

Malvão e Ypiranga num encontro fotográfico

Eis uma fotografia que me fez viajar no tempo e no espaço, e que resultou nesta crônica. Confiram e viajem também.

Transcorria o ano de 1964 ou 1965. Não mais, não menos. Eu, um garoto de sete ou oito anos de idade, trazia no rosto um caroço arroxeado que os leigos diziam tratar-se de um “lombinho”. Minha mãe apressou-se a procurar um médico, e o melhor e mais próximo destino seria em Bom Jesus da Lapa. Para nós, santa-marienses, Lapa do Bom Jesus ou simplesmente Lapa. Mas como chegar até lá, se tudo era muito difícil naquela época? E viajar, principalmente.

Dizem que “doença não espera”, portanto, teríamos mesmo que ir e as opções eram de carro, por precaríssima estrada de rodagem “comendo” poeira o tempo todo, ou de lancha, através do Rio Corrente. Meus pais elegeram a segunda opção, acertadamente. E, numa tarde, por volta da quatro horas, partimos na Lancha Nanci, de seu Pedrinho, para nós, os mais novos, ou Pedro de Silvina, para meu pai, Tião Sapateiro, seu amigo de infância.

O local da saída foi de um pequeno porto no Jardim Fifa, onde já havia sido residência de Manoel Bodeiro, ladeada pelas casas de Josefina Borba e de Pulu (todas demolidas), em frente a atual Associarte, outrora Museu Guarany, Açougue Municipal, Escolas Reunidas Nossa Senhora das Vitórias etc. A viagem, rio abaixo, foi tranquila. Chegamos a Bom Jesus da Lapa no rosicler matinal.

Apenas para registrar, no fundo da casa de Manoel Bodeiro, havia um tamarindeiro, que cheguei a conhecer, denominado Tamarindeiro de Baixo, já que o atual, o do barco, era conhecido por Tamarindeiro de Cima, a tomar por referência o sentido que correm as águas do Rio Corrente.

Quanto à cirurgia a que fui submetido, tudo ocorreu bem. O responsável por ela foi um médico por nome Dr. Milton, tendo minha mãe a ajuda de Alírio Moreira, funcionário do extinto Baneb, pai das médicas Cássia e Rejane, além de Alírio Júnior e Serginho, que se hospedava no Hotel Bom Jesus, onde também ficamos.

E a volta da Lapa? Esta foi de Jeep, um terror, quase morri de tanto lançar, como diz meu pai, isto é, vomitar. Um velhinho, que conosco viajava e retornava de pagamento de promessa ao Senhor Bom Jesus, socorreu-nos com paçoca de carne seca, que trazia num embornal. Além de um cafezinho amargo feito por ele na beira da estrada. Foi minha salvação. Sobrevivi, graças ao Bom Jesus!

E agora, onde pretendo chegar com esta crônica? A resposta está num personagem já citado: Pedro de Silvina ou Seu Pedrinho da Lancha. Pois bem, desde menino cultivo amizade com um de seus filhos, Argemirinho, e suas filhas Nanci e Nair. Seu Pedrinho morava numa casa de calçada alta na Rua Teixeira de Freitas, onde fica atualmente a Taga Modas, em frente ao Ponto Cidadão, que já foi depósito de cereais e o Cine Texas, próximo ao Bar de Tõi, também, no passado, Bar Bola Branca, de Tõi de Agostinho (Antônio Fé). A citada rua era, à época, um formidável areal onde brincávamos.

Seu Pedrinho, na década de 1990, em dia e mês incertos, disse-me que tinha um presente para me dar. Fui até a casa dele, quando me brindou com uma foto histórica de um time de futebol santa-mariense por nome Ypiranga, datada de 2 de julho de 1945, na qual aparecem, além dele, o poeta temporão Osias Almeida, meu tio, razão porque resolveu fazer-me este mimo. Esta foto foi verdadeiramente o motivo principal que me levou à feitura desta crônica.

Por que esta foto de 71 anos me pareceu tão importante assim? Primeiramente, porque deve ser um dos primeiros registros fotográficos de um time de futebol de nossa cidade, provavelmente feito pelo fotógrafo Jesuíno. Segundo, por que, até onde pude apurar, apenas um dos jogadores, à época com 19 anos, Ninho Piçarra, ainda está entre nós, lúcido e com saúde boa, aos 91 anos de idade  (apenas uma “inversãozinha boba” de algarismos!) completados no primeiro dia deste ano de 2017.

Novais Neto e Ninho Piçarra. Foto: Merivalda, filha de Ninho, em frente à sua residência. Fev. 2017.
Quanto à foto, tirada no campo da várzea, que ficava entre o atual Juizado de Pequenas Causas e a Auto Escola Santa Maria, um detalhe despertou-me a atenção: as poses dos atletas. Postados atrás, cinco jogadores estão de pé; à frente destes, mais cinco, ajoelhados e com a mão apoiada na perna esquerda; à frente, o goleiro, deitado, a segurar a bola. E, ainda, na fila detrás, nas extremidades, estão Osias Almeida (juiz) e Sebastião de Araújo Castro (dirigente).

Quando Seu Pedrinho me deu o retrato, identificou todas as pessoas, mas eu não me recordava onde havia guardado o papel com os nomes, por isso abusei das memórias de Tião Sapateiro (87 anos), Ninho Piçarra (91), Quinca Coimbra (92), Protógenes Braga (83), Eduardo da Philarmônica Seis de Outubro (75), Seu Henrique (96) e o “menino” Tutes (70 anos), entre o final de 2016 e início de 2017, quando estive em Santa Maria. Felizmente, encontrei o tal papel com as devidas e incontestes anotações, o que serviu para dirimir algumas dúvidas persistentes.

Na minha última visita a Santa Maria e, a olhar a foto, pensei em fazer um tributo aos nossos atletas do passado, fazendo com que jogadores de hoje imitassem suas poses. E foi o que fiz. Estive no Estádio Turibão algumas vezes e, com a permissão de Delton, presidente da Liga Desportiva Santa-Mariense (LDS), o apoio de José Pereira da Silva, Bidika e do trio de arbitragem, alguns times foram fotografados com as poses propostas.

Optei pela foto do time do Malvão, visto que as posturas corporais dos seus atletas mais se assemelharam às poses dos ypiranguenses. Preferi também, para não contrastar tanto, por uma foto em preto e branco. Vale registrar que amarelo e preto são as cores reais do Malvão, como também são as do time do Ypiranga, da Capital baiana, apelidado “o mais querido”, cujos torcedores são denominados ypiranguenses ou aurinegros.

Eis, por fim, os nomes dos jogadores, de ontem e de hoje, homenageados, e demais pessoas.

Esporte Clube Ypiranga. Santa Maria da Vitória. Foto: Jesuíno. 1945.
Esporte Clube Ypiranga: 1. Osias Almeida (árbitro); 2. Sinhô de Joana; 3. Gil Piçarra; 4. Tonil de Bento (Antonil Gusmão); 5. Juquinha Santana; 6. Olívio; 7. Sebastião de Araújo Castro (dirigente); 8. Pedro de Silvina; 9. Jordão; 10. Ninho Piçarra; 11. Sinhozinho de Jeremias; 12. Pedro Catulino; e 13. Zé de Hermógenes.

Esporte Clube Malvão. Santa Maria da Vitória. Foto: Reinilton Souza. 2016. 
Esporte Clube Malvão: 1. José Pereira (árbitro); 2. Grampolla; 3. Carsinho; 4. Arlinho; 5. Ricardinho; 6. Nauzinho; 7. Geovânio (dirigente); 8. Thieguinho; 9. Diego Calombão; 10. Jarley; 11. Marcinho; 12. Orlandinho; e 13. Rodrigo. 

Santa Maria da Vitória (BA), 31 de julho de 2017.

Em tempoEsta crônica foi publicada no Jornal O Porto, Santa Maria da Vitória. Edição Julho-2017. p. 15. (Este número teve tiragem reduzida e sua distribuição aconteceu apenas nas cidades de Santa Maria da Vitória e São Félix do Coribe, razão porque achei por bem republicá-la neste blog. Quanto às pessoas aqui citadas, vale registrar que Quinca Coimbra já havia falecido em 7/2/2017, quando a edição do jornal foi a público, e Ninho Piçarra completou 94 anos em 1/1/2020).

domingo, 17 de maio de 2020

Crônica de um homem que sumiu

Uma comunicação incompleta ou mal feita somada a esquecimento pode resultar numa tremenda confusão. E foi disso que fui vítima. Confiram e divirtam-se.

Sexta-feira, dia nove do mês de maio do ano de 2003, antevéspera do Dia das Mães. Eram mais ou menos oito horas da noite, quando Lara, minha filha, me liga:

— Meu pai, bença! Olhe, domingo é Dia das Mães e eu vou ficar com a minha mãe. Então o senhor fica comigo no sábado. Tá bom?

— Tá bom, minha filha. Amanhã, eu te pego às oito e meia.

— Oito e meia, meu pai? Oito e meia é muito cedo!

— Então eu te pego mais tarde. Ligo antes. Boa noite e um beijo.

Este foi, resumidamente, o diálogo que mantive com minha filha naquela ocasião, uma sexta-feira, como já foi dito.

Dia seguinte, precisei ir bem cedo ao centro da cidade, a fim de comprar um CD para que ela presenteasse Irade, sua mãe. Em nenhum momento me lembrei de que deveria ligar para Lara, conforme eu mesmo prometi. Ficou registrado na minha mente – não sei como – que deveria encontrar-me com ela somente à tarde.

Quando retornava para casa, por volta das 13 horas, passei defronte à Barraca de Sandiz, que fica próxima à minha residência. Eis que, Kléber Mariano, André Catimba e outros amigos, de braços levantados e gesticulando muito, me dão uma notícia aterradora:

— Rapaz, vai pra sua casa correndo. O pessoal tá lá querendo arrombar seu apartamento. Olha, já chamaram até os Bombeiros, viu? Tão achando que você tá morto lá dentro! Sua filha já ligou várias vezes pros vizinhos pra saber onde você tá e ninguém sabe. Corre, senão cê tá é lenhado.

Ao chegar perto do conjunto onde moro, percebi muitas caras de espanto a olhar-me como se eu fosse um fantasma, e de muita alegria também, ornamentavam aquele inusitado cenário. Se bem que muito mais espantado estava eu. Alguns, principalmente, os amigos mais chegados, como dizemos, deixavam transparecer um ar de alívio e de felicidade. E me abraçavam, abraçavam!

Foi tanta conversa, tanta história — e muita risada, sobretudo — que passei um bom tempo tentando entender o que realmente havia acontecido. Refeito do imenso susto, fui até meu apartamento e agora narro-lhes o episódio no qual me meti ou me meteram.

Naquele sábado, por volta das 9 horas, Lara ligou para mim inutilmente várias vezes. Como não atendi suas chamadas, passou a ligar para sua amiguinha, Rana, minha vizinha, pedindo-lhe para ver se eu estava em casa ou havia saído para algum lugar.

Rana Severo, Lara Novais e Keully Pepe. Foto: Novais Neto, 2012.
Rana e a mãe Regina passaram também a telefonar. Como não obtinham resposta, foram até meu apartamento e, insistentemente, bateram na porta. Tudo em vão. Ficaram assustadas, porque a janela do quarto estava semicerrada e ninguém aparecia.

A esta altura, muitos vizinhos já presenciavam o fato e tentavam saber o que estava acorrendo, para ajudá-las ou somente para fofocar mesmo. Regina já havia mobilizado um batalhão: moradores dos cinco blocos penduravam-se nas janelas e davam seus palpites, sugeriam hipóteses etc.

Sharon, hoje, aos 16 anos. Foto: Anália Nunes.
Aline, filha de Mab, vizinha do bloco 5, acompanhada da sua inseparável cadelinha pinscher, por nome Sharon, a ganir todo mundo, já que late a própria sombra, providenciou uma mesa para pôr embaixo da janela. Não deu certo, ficou baixo demais.

Silvana e Júnior Agapito, casal morador do mesmo bloco de Aline, arrumaram uma escada de degraus, comumente chamada de “burro”, e tentaram entrar no apartamento pela janela. Na empreitada, Júnior, com Rana nos ombros, e seus quase cem quilos, subiu no “burro”, que não suportou o descomunal peso, e abriu as pernas.

Ada Barleta, nova moradora do apartamento 103 do bloco onde resido, no afã de ajudar, emprestou um rodo de cabo bem comprido para que batessem na janela, sem êxito também. Quase quebraram foi minha janela, isso sim!

Outra vizinha do mesmo bloco, Dadai de Anália, incorporou imaginária mulher-aranha, escalou pelos combogós da área de serviço a gritar meu nome, também sem sucesso algum. Neste momento, a empregada do apartamento 203, Marinalva, apareceu na janela e tentou tranquilizar a todos:

— Eu vi Novais hoje de manhã. Foi até ele quem abriu o portão pra mim. Eu tava sem a chave.

— Viu nada! Cê deve ter visto foi ontem. Hoje ninguém viu ele, não — retruca Regina.

Em meio a toda confusão, já a esta altura, Rana diz para a mãe que Luiz, pai de Keully, tem uma cópia da chave do meu apartamento, que fica com ele para eventual emergência. A mulher de Luiz, Bianca, entra na história:

— Luiz não tem chave mais, não, Regina. Ele deixou aqui apenas uma vez, quando foi para Santa Maria da Vitória, depois pegou e não devolveu mais.

— Que Luiz é esse, Rana, então? É o que trabalhou no Baneb com Novais? — questiona Regina, toda agoniada.

— Não, minha mãe, esse é Luiz Bandeira, pai de Luizinho Bandeira, que mora no térreo. Parece que tá ficando doída, minha mãe! É o seu Luiz do apartamento 303, pai do outro Luizinho, o gordinho — explica Rana, já demonstrando impaciência.

Ligaram para Luiz, o Luiz Fernando, mas ninguém atendeu. Subiram até o apartamento dele, bateram na porta e eis que ele aparece: cara amarrada, meio assustado, e tenta justificar-se:

— Tô muito gripado e meio surdo, com uma dor de cabeça danada, por isso desliguei foi tudo, não escutei o telefone chamar, não. O que você querem? Aconteceu o quê?

— Seu Luiz, nós queremos saber se o senhor viu Novais hoje de manhã.

— Vi, sim. Ele teve aqui na minha casa bem cedo, pegou uma peça de telefone e saiu. Disse que ia ver se achava uma igual na loja de Vandinho, um amigo dele.

— Hã, viu foi nada. Luiz deve tá é com muita febre ainda. Parece que tá é delirando. Tá com a cara mal dormida danada, amarrotada – cochichou Regina a Silvana.

A duvidar daqueles que diziam me ter visto, resolveram finalmente procurar a pessoa mais indicada, a zeladora do bloco, que sempre chega bem cedo, e certamente está socada em algum apartamento batendo papo, sem ver confusão. Foram atrás dela, gritaram e a localizaram, enfim:

— Noélia, você viu Novais hoje?

— Vi, sim. Ele fez umas palhaçadas comigo e saiu pra rua, sorrindo — e caiu na risada.

Com três pessoas, agora, afirmando que me viram, e com a situação mais calma e aparentemente esclarecida, Silvana resolve dá um tempo, isto é, esperar um pouco mais, por prudência:

— Olhe, Regina, se ele não aparecer até as duas horas da tarde, nós vamos chamar o chaveiro. Tá certo? Tá combinado?

— Tá certo, Silvana. Antes, porém, minha amiga, vou correndo lá pra casa. Acho que a “visita” chegou sem aviso-prévio. Também, né, com todo esse estresse! Ninguém merece!

Felizmente apareci antes da hora fatídica. Liguei imediatamente para Lara, que me deu uma bronca do tamanho do mundo em meio a choro e alívio. Antes, no entanto, de ir buscá-la, observei que o identificador de chamadas registrava vários telefonemas de números diferentes, dentre eles — claro — diversas vezes o número da minha filha.

Situação normalizada, finalzinho de tarde daquele sábado movimentado, Lara e Rana, na sala, a recortar figuras de revistas a fim de fazer cartazes para o Dia das Mães, travaram este hilariante e inocente diálogo, que fiz de conta não estar ouvindo, pois estava bem perto, no meu quarto, tentando cochilar:

— Lara, eu tava preocupada com uma coisa.

— Que coisa, Rana?

— Com o meu anel, Lara. Ele tá com o seu pai. E se ele tivesse morrido mesmo, como é que eu ia pegar o meu anel, Lara? Me conta.

— Oxente, Rana, era só chamar o chaveiro e abrir o apartamento dele!

— É mesmo, Lara, nem pensei nisso. Agora, Lara, se seu pai tivesse morrido mesmo, eu ia pro cemitério ver o enterro dele.

— Eu também ia, Rana. Cê acha que ia deixar meu pai ir pra lá sozinho. Nunca! — complementa Lara na inocência dos seus sete anos recentemente completados.

Quem sou

“Matemática ultrarromântica“ na peça teatral portuguesa “Beremiz na Terra Plana“

Publicada no meu segundo livro, Ave Corrente (1991), a poesia  “ Matemática ultrarromântica ” , posteriormente, singrou mares e foi parar em...