segunda-feira, 27 de maio de 2019

Um alguém com a minha cara

Nesta crônica, mostro que muita gente tem encontrado alguém com a minha cara pelas estradas da vida. E você me acha (ou se acha) parecido com quem?

Não tenho irmão gêmeo. Sou, até onde sei, o resultado da fecundação de um único óvulo por um único espermatozoide, dando origem a uma célula-ovo, que evoluiu para um feto e desenvolveu dentro de uma placenta no útero da minha mãe.

E a relembrar as aulas de biologia, mais precisamente genética, fecundação, essa coisa toda, não sou gêmeo bivitelino, aquele que é resultado da fecundação de dois óvulos por dois espermatozoides, dando origem a dois fetos e desenvolvidos em duas placentas, que podem ou não ter o mesmo sexo. São gêmeos apenas pelo fato de terem sido gerados e desenvolvidos num mesmo período gestacional. São os chamados gêmeos fraternos ou gêmeos irmãos.

Quanto aos gêmeos univitelinos, estes resultam da fecundação de um único óvulo por um único espermatozoide, desenvolvem-se dentro de uma única placenta ou em duas placentas e são necessariamente do mesmo sexo. São os denominados gêmeos idênticos, referidos popularmente como “cara de um, focinho do outro” e que são confundidos até mesmo pelos pais.

Deixando de lado a biologia, quem me ajudou vir ao mundo foi sá Clara ou mãe Clara de Nezim Ferreiro, parteira tradicional que exerceu seu belo ofício por três ou quatro décadas, creio eu. Ela é, portanto, “mãe” de muitos santa-marienses. Nasci em casa mesmo, o normal naqueles tempos idos, num quartinho na atual tenda de Nélson Sapateiro, meu tio, na Rua Benjamin Constant. Assim sendo, a probabilidade de ter algum irmão gêmeo é praticamente nula.

Diante, portanto, desta óbvia constatação, eis que já vi muita gente com a minha cara, e outras tantas pessoas que me disseram que pareço com alguém. Nada de anormal, exceto quando me assustei diante de mim mesmo, diante de minha própria cara. A história não é longa. Garanto.

Quando cheguei a Salvador, sempre que tinha oportunidade, ia a cinemas, teatros, coisas dessa natureza. O cine preferido era o Excelsior, que ficava na Praça da Sé. Uma música me faz lembrar bem dessa época. É a de Raul Seixas, Sessão das Dez, que começa assim: “Ao chegar do interior / Inocente, puro e besta / Fui morar em Ipanema / Ver teatro e ver cinema era a minha distração […]”.



Foi numa dessas distrações no Excelsior que, tendo comprado o ingresso, fui entrando no cinema de cabeça baixa, quando percebi que alguém vinha na mesma direção. Não parei de andar, apenas movimentei de um lado para outro e percebi que esse alguém também fazia o mesmo. Quando já estava bem perto, quase a chocar-me com esse alguém, levantei a cabeça e vi uma cara igualzinha a minha. Tomei um susto e constatei que estava diante de um grande espelho. As pessoas que presenciaram o fato, pensaram tratar-se de brincadeira minha. E meio escabreado, com um riso sem graça, fui para um canto do recinto para aguardar o momento de entrar na sala de projeção.

Num outro momento, a andar pela Avenida Joana Angélica, aqui mesmo em Salvador, eis que divisei na multidão um andante bem parecido comigo e o encarei. O transeunte fez o mesmo, creio que espantado também. Passamos um pelo outro, fitamo-nos mais detidamente e sorrimos. Olhei ainda para trás e vi que ele fez o mesmo. Seguimos adiante, cismados, sem dúvida. Se há época já houvesse a música do Rei Roberto Carlos, sem dúvida, diríamos: “Esse cara sou eu”.

Ainda em Salvador, quando passava, num final de tarde, na Rua Nova de São Bento, escutei uma mulher da janela de um apartamento a gritar:

— Hélder! Hélder! Hélder!

Como a rua estava vazia e ela olhava em minha direção, retornei e aproximei-me um pouco do prédio para saber se a mulher falava mesmo comigo. No entanto, ao ver-me um pouco mais de perto, ela me pediu desculpa e disse que se enganou, que me confundiu com outro alguém.

Dia seguinte, contei o ocorrido para um colega de trabalho por nome Hélder Gama, que realmente se parece comigo, dando-lhe detalhes do local e características da pessoa. E ele não teve dúvida:

— Opaí, opaí! Ela ficou pinel! É minha namorada que mora ali, meu irmão. Não passa lá mais, não, meu bróder, senão vai ter problema, vai ter comigo... — e deu amistosa gargalhada!

A bem da verdade, acostumei-me a ouvir alguém dizer que fulano se parece comigo, afinal, já me acharam parecido com Silveira, antigo quarto-zagueiro do Fluminense, Mazzaropi, Seu Madruga, Binha, conhecido torcedor do Bahia, que já foi até candidato a presidente do clube, Charles Bronson, Salsicha, do seriado Scooby-Doo, além de outros que nem me recordo.


Fotomontagem: Novais Neto.
Um amigo são-felense, o cantor Maninho Senni, disse, num evento, que sou a excêntrica mistura de Benito di Paula e Belchior. Será que sou mesmo? Não sou eu quem vai responder, claro!

Surpreso mesmo eu fiquei, foi quando o amigo Hércules Costa postou no Facebook uma foto do Beatle George Harrison, dizendo que ele havia encontrado meu clone. É demais!

Finalmente, o dia em que me acharem parecido comigo mesmo, vou ficar muito decepcionado. Eu? Com a minha cara? É de doer! Ou de sorrir! Resta-me então perguntar a algum “espelho mágico” quanto à minha imagem nele refletida:

— Espelho, espelho meu, será que existe, no mundo, alguém mais parecido comigo do que eu? – e se o espelho não me responder, vou ficar decepcionado. Ah, se vou!

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Obs.: Crônica publicada no site Matutar Notícias em 22/3/2018, também onde está disponível no link: <https://www.matutar.com.br/arte-e-cultura/um-alguem-com-a-minha-cara/>.


Ainda a propósito de "Um alguém com a minha cara"

Após publicação desta crônica no Matutar Notícias, o amigo Chico Mallero lembrou-me de que eu havia esquecido outro episódio da mesma natureza. E não é que ele tinha razão! Ei-lo portanto, para complementar esta crônica.

Numa tarde, do mês de novembro de 2015, quando fui à casa de Chico, em São Félix do Coribe, "jogar conversa fora", ele e sua esposa Ana Helena me convidaram para irmos à cidade de Jaborandi, distante 54 km, onde um primo dele, de prenome Zé, tem um aconchegante bar à margem do convidativo Rio Formoso. Convite aceito, portanto.

Logo que lá chegamos, eu e Ana Helena nos posicionamos numa mesa onde pudéssemos apreciar a magistral revoada de garças dirigindo-se ao dormitório, rio abaixo. Algo divinal, indizível.

Bar de Zé - Jaborandi (BA), 2015. Foto: Ana Helena Bomfim
Enquanto apreciávamos a natureza, alguns meninos e meninas começaram a rodear nossa mesa, o que me deixou desconfiado. Perguntei a Chico o que estava acontecendo. E ele me disse que aquela turma me achou parecido com um ator da novela Carrossel e que ele simplesmente confirmou ser eu o ator.

Bar de Zé - Jaborandi (BA), 2015. Foto: Novais Neto
Em princípio, fiquei sem saber como sair daquela enrascada  e não desapontar a garotada. Entretanto, infelizmente, tive que desmentir meu amigo Chico, restaurar a verdade. Mesmo assim, tiramos algumas fotos com a turma para registrar o singular e agradabilíssimo momento de descontração naquela linda tarde jaborandinense.

Foto de panfleto: Novais Neto. 2015
Dias depois, em Santa Maria, ao visitar meu primo Erasmo Neves de Sá, no seu Bar Rosarius Bentus, para atualizarmos as notícias, espantei-me ao ver colado numa das paredes daquele estabelecimento um folheto publicitário recortado a estampar o rosto de alguém, com algumas intervenções a caneta preta feitas na foto pelo próprio Erasmo, para que ficasse, segundo ele, ainda mais comigo, dizendo tratar-se de um sósia meu. Bem mais jovem, é claro. Quanta imaginação!

Tirei algumas fotos do panfleto, mas Erasmo me permitiu que o retirasse, ofertando-me como "presente". E assim o fiz e o guardei, não sei para quê. Desculpe-me, agora eu sei: o panfleto complementou minha crônica. Só lamento não ter identificado o nome do artista. Você sabe quem é?

domingo, 19 de maio de 2019

O gatinho angorá de uma garotinha esperta

Neste pequeno conto, relato o caso de um gatinho que recebeu um nome incomum e, no final, surpreendeu a todos.

Ilustração de Jailson Borges (JÃO). 2019.
Num final de tarde de um dia qualquer, Ana Helena, mergulhada em seus devaneios artísticos, preocupada com os ensaios da Quadrilha Fulô do Cerrado, voltava para casa a percorrer algumas ruas de São Félix do Coribe (BA), quando ouviu a voz de uma criança:

— Homem Helena! Homem Helena, vem cá.

Ana voltou-se para o lado de onde vinha a voz. Viu que se tratava de uma menininha de seus quatro, cinco anos de idade, e foi até ela:

— O que é, minha linda? — e aproveitou para dizer-lhe que seu nome é Ana Helena e não Homem Helena. A garotinha apenas assentiu com suave meneio de cabeça.

— Ana Helena, ganhei um gatinho angorá lindo e queria botar o nome nele Chico Mallero. Será que Chico deixa, Ana? Pergunta se ele deixa, tá?

— Deixa, sim, minha linda, pode botar, ele vai ficar é muito alegre, ele vai gostar. Pode botar.

— Não, Ana, fala com ele primeiro, tá? — e Ana concordou.

Ao chegar em sua casa, Ana contou o ocorrido a Chico, que se sentiu lisonjeado com a homenagem felina e ficou todo prosa. Sentiu-se um Gato Mallero!

Dia seguinte, propositalmente, Ana passou pela mesma rua, encontrou a garotinha e falou com ela que pudesse botar o nome Chico Mallero em seu gatinho, notícia que a deixou felicíssima e com um belo sorriso bem maior que a própria boca.

Meses transcorreram e as duas não mais se encontraram. Até que, certa ocasião, eis a menininha, de novo, a gritar-lhe para lhe dar surpreendente e divertidíssima notícia:

— Ana Helena, Ana Helena! Cê num sabe o que aconteceu, Ana. Cê nem vai acreditar!

— O que foi, minha linda? Me conta! Me conta! – respondeu Ana, apreensiva.

— Chico Mallero pariu cinco gatinhos lindos. Chico é uma gatinha, Ana! – abriu o mais terno sorriso infantil, e avisou, enfática:

— Mas eu não vou mudar o nome dela, não, Ana, vai ser Chico Mallero mesmo. Ela é muito linda, Ana – e prosseguiu a sorrir graciosamente.

Por conta, portanto, dessa risível história de um felino-felina, o casal Mallero — só para usar uma expressão da moda — vive uma “crise de gênero”: a mulher de Chico é “homem” e o marido de Ana, uma “gatinha angorá”!

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Crônica para uma canção censurada

Nesta crônica, faço uma viagem aos anos 1970, em Santa Maria da Vitória e conto a relação que tive com a música “Crítica”, de Cyro Aguiar.

A música sempre esteve presente em minha vida, ora através de canções rotuladas de dor de cotovelo ou dor de meio de braço, cantadas por minha mãe, ora por meu pai, que, sentado à frente de uma antiga máquina de costura alemã, Gritzner, a costurar botinas, borzeguins e sapatos, noite adentro, assoviava as músicas Xodó, de Gilberto Gil, e Mulher rendeira, composta por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, segundo os pesquisadores, o padre Frederico Bezerra Maciel e Câmara Cascudo.

Anos 1970, cabelos longos, camisa florida e calça grená boca de sino,
em frente à casa dos meus pais, na Rua Teixeira de Freitas.
Nas décadas de 1960 e 1970, foi quando mais me vi atraído pela música. Ouvia quase (?!) todo tipo de música, desde Elvis Presley a Waldick Soriano, influenciado que fui por muitos sapateiros e seleiros vindos de Iguaí, Vitória da Conquista, Jequié e norte de Minas Gerais para Santa Maria da Vitória à procura de novos mercados de trabalho. Naquela época, aportaram em terras santa-marienses, Charqueada, Vitório, Waldick, Valdeci, Diva, Nenezinho, Dunga, Rubens, Sidney e tantos outros que a memória certamente me trai.

Uma das primeiras músicas que aprendi toda a letra foi justamente Paixão de um homem, de Waldick Soriano, a mim ensinada por Maninho de Joaquinzinho, que trabalhava de sapateiro para meu pai, posteriormente, ficando mais conhecido pelo apelido de Maninho da Churrascaria ou Maninho de Dita. Foi ele, inclusive, que me ensinou a contar até 100. Em seguida, peguei a manha e contei sozinho até 1.000. Gastei um caderno inteirinho, que era para ser usado no ano letivo. Quase apanhei da minha mãe, já que ela teve que comprar outro. Mas Maninho me acudiu.

Ainda naquele período, tanto eu quanto meu primo René Neves de Sá ouvíamos bastante as rádios Globo, Bandeirantes, principalmente, o programa O Poder da Mensagem, de Hélio Ribeiro; e a Inconfidência, de Minas. O programa de Big Ben, da Rádio Mundial (RJ), era o preferido de muitos jovens contemporâneos.

Um episódio, no entanto, marcou verdadeiramente aquela época: minha mãe me proibiu de cantar a música Crítica (1975), do soteropolitano Cyro Aguiar, acusando-me de ter criado a letra só para pirraçá-la, já que eu tinha o “bom hábito” de fazer isso com músicas que queria cantar, mas não sabia a letra e então inventava. Vejam, portanto, o que diz uma das canções de que mais gosto, motivo desta crônica, de autoria do referido sambista:

Veja como a vida passa / A solidão aumenta / E você só pensa em criticar / Acha defeito em tudo / Até me deixa mudo / Sem saber sorrir / Só fala pra ferir

Não vê que a vida passa / E a solidão aumenta / No seu coração.

Veja como você fica / Quando você olha / E depressa grita sem pensar / E fala mal daqui / E fala mal dali / Vive a resmungar e a se lamentar / Só se realiza / Quando abre a boca para reclamar

Vou-me embora daqui / Vou procurar outro lugar / Não aguento viver / Com quem só pensa em criticar / Deixe o tempo passar / E vamos ver / Quem tinha mais razão / Você vai aprender / Como viver na solidão.



Para não carregar a culpa, isto é, para comprovar minha inocência perante minha mãe, a Rádio Bandeirantes me ajudou. Certa tarde, Hélio Ribeiro, apresentador do programa O Poder da Mensagem, começou a tocar as músicas que encabeçavam as principais paradas de sucesso do País. Dentre elas, estava a que me comprometia perante minha genitora: Crítica, de Cyro Aguiar. Avisei-a e, todo entusiasmado, convidei-a para ouvir "minha" música.

— Mamãe Janda, vem ver a música que a senhora disse que eu fiz. Só sei que eu vou ficar é rico! Ela tá em primeiro lugar no Brasil. Escuta aqui no rádio.

Para surpresa minha, ao final da execução musical, ela foi taxativa:

— Num quero nem saber de nada. Você só canta é pra me pirraçar mesmo! Num é pra cantar mesmo, não. E acabou!

Nunca mais, portanto, cantei minha canção predileta, o que normalmente fazia no banheiro, onde a estimulante e providencial acústica convidava-me a desfilar meu eclético repertório, mesmo desafinado e sem saber as letras de muitas das canções que “cantava”, como as de Elvis Presley, que minha amiga e ex-vizinha Valmira Queiroz confessou-me que adorava me ouvir cantar. Quem me emprestava muitos discos, principalmente, internacionais era Fernando de dona Nena, colega de escola e de trabalho, no Funrural.

Também gostava de cantar músicas de brasileiros que adotaram nome artístico estrangeiro, o que era moda à época. Dentre eles, encabeça a lista o pernambucano de Recife, Ivanilton de Sousa Lima, Michael Sullivan, cantor e compositor de My life, canção de enorme sucesso nos anos de 1970.

Alguns cantores adotaram mais de um nome, como Fábio Jr (Mark Davis e Unkle) e Jessé (Christie Burgh e Tony Stevens). Outros, apenas um, como José Pereira da Silva (Chrystian) e Ralf (Don Elliot). São dessa safra os “estrangeiros” Dave McClean, Paul Bryan, Stevie McClean, Terry Winter, Edward Cliff e os grupos musicais Lee Jackson e Pholhas. Morris Albert (Maurício Alberto Kaiserman) foi um dos que obteve maior sucesso internacional, autor das canções She’s My Girl e Feelings. No entanto, quanto à última, ele foi acusado de plágio por um compositor italiano.

É também dessa época a música Do You Like Samba, de Cyro Aguiar, que faz bem-humorada crítica aos que ouvem estes cantores, ao debochar: “[…] Eu conheço muita gente / Que querendo ser pra frente / Bota a cara pra quebrar / Compra disco brasileiro / Pensando que é estrangeiro / E vai pra casa se esnobar […]”. E, no refrão, ele tascou inglês: “Do you like samba / I like do / If you love samba / I love you”. Fiz parte dessa referida gente, com certeza. Sem saber (e sem esnobar)!

Como já disse em algum parágrafo anterior, realmente eu gostava de cantar (e ainda gosto) músicas das décadas de 1970 e 1980. Entoava até L'ultima cosaCanzone per te. Esta última foi a melhor canção do Festival de Sanremo – 1968, na Itália, interpretada por Roberto Carlos, primeiro estrangeiro vencedor daquele festival, que completou 50 anos em 2018.

Quanto à música do Rey Roberto Carlos, Canzone per te, lembro-me da ousadia que tive de cantá-la para meu professor de Matemática, o padre italiano Augusto Baldrati que, ao final da “apresentação artística”, com minha pronúncia macarrônica, espontaneamente sorriu. E como sorriu! Porém, muito polidamente, e com seu forte sotaque italiano, me advertiu:

— Meu bichinho do mato, você está falando do jeito que se escreve! Mas não é bem assim — e ensinou-me corretamente a pronúncia de cada palavra da bela e romântica composição de seu compatrício Sergio Endrigo.

Ainda hoje, continuo a entoar quase todas estas canções em minhas viagens saudosistas e reminiscentes. No entanto, a outrora "censurada" canção do cantor e compositor Cyro Aguiar, Crítica, continua “proibida” na casa da minha mãe, agora, por um motivo até aceitável. Segundo ela, esta música lhe traz muita saudade! Aí, sim, entendo perfeitamente e evito cantá-la. Sem problema!

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Obs.: Crônica publicada no site Matutar Notícias em 1º/11/2017, também onde está disponível no link: <https://www.matutar.com.br/arte-e-cultura/cronica-para-uma-cancao-censurada/>.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

A língua do P dos meus tempos de ginasiano

Como estabelecer um diálogo supersecreto usando essa linguagem, mesmo assim, com a devida cautela. Se não, o que seria secreto, deixa de ser. Confira nesta crônica.


Tenho uma mania que certamente não é “privilégio” meu: guardar coisas inúteis, badulaques, sob o improvável pressuposto de que “algum dia vai servir”. É bem verdade, no entanto, que às vezes tal raciocínio se confirma, como pode ser constatado nesta crônica.

Alfabeto Janoka 1977. Foto do autor.
Ao revirar ocasionalmente uma caixa desses guardados, dentre eles algumas correspondências de mais de quatro décadas, deparei-me com um pedaço de papel-jornal amarelecido pelo tempo, datado de 18/4/1977 e por mim assinado, a mostrar-me algo que a memória já havia arquivado no escaninho do esquecimento para sempre, é o que suponho.

Naquele pedaço de papel, há um alfabeto datilografado e  batizado de “Janoka”, produto da imaginação de um primo deste cronista, George de Wilson Barros, e de João Nogueira da Cruz, amigo e ex-colega secundarista que não vejo há muitos anos, atualmente, morador da Capital paulista, reaproximado pelo Facebook.

A finalidade do estranho alfabeto, segundo eles me contaram, era para fazer “cola” durante as provas, a conhecida “pesca”. Achei-o bem interessante, e Joãozinho de dona Rosa, como é conhecido meu amigo, deu-me uma cópia, que datilografei e guardei juntos a badulaques e alfarrábios.

O Janoka, no entanto, tem grave limitação: só pode ser escrito, jamais falado. Afinal, são apenas símbolos que correspondem às letras do nosso abecedário e os números naturais de zero a nove. Repassei a novidade ao colega Messias Chaves, que nem deu importância, mas me ensinou a “língua do k”, sonora e facílima, que jamais tinha ouvido falar. Nela, você apenas acrescenta o “k” antes de cada letra da palavra. Com exemplo, o vocábulo “você” fica assim: k-vê-k-ó-k-cê-k-é. Fácil, não é?

Pois bem, como não foi difícil de aprender, virou febre, só rolava o “novo idioma”. Quando, entretanto, começamos a dele enjoar, eis que o próprio Messias aparece com outro, de som esquisito, que funciona da seguinte forma: após cada sílaba da palavra a ser “traduzida”, juntam-se mais duas, trocando a consoante pelas letras “f” e “r”. O termo “você” vira: vô-fô-rô-cê-fê-rê. Que coisa mais feia! Durou bem pouco. A aceitação não foi boa e nunca mais falamos em outro idioma que não fosse mesmo nosso românico Português, maltratado, é bem verdade.

Não é que, dia desses, deparei-me com o conto "A língua do P", do livro "A via crusis do corpo", de Clarice Lispector, escritora e jornalista brasileira, de origem judia, nascida em Tchetchelnik, na Ucrânia. Fiquei muito surpreso, porque também já conhecia tal língua. Só não me lembro como aprendi. Certo é que alguém me ensinou. Depois disso, ouvi uma composição de Gilberto Gil, interpretada por Gal Costa, com o mesmo título do conto de Clarice.


O conto da escritora, por sua vez, me trouxe à luz um fato ocorrido num coletivo, quando voltava do trabalho para casa, à noite. Duas garotas conversavam animadamente num banco a minha frente. Como o ônibus se encontrava vazio, percebi que elas se comunicavam utilizando um vocabulário diferente, como se fosse codificado. Agucei bem a audição e constatei que falavam a “língua do p”. Assim, aquela íntima e inusitada fofoca despertou-me a curiosidade e resolvi tirar uma de detetive.

Elas contavam — desculpem-me pela inconfidência — sobre determinada festa que haviam estado, que “cataram” alguém e que foram parar num motel, onde rolou o maior reggae. Sorriam muito, divertiam-se à beça e pormenorizavam a bela e inesquecível noitada, regada a bebidas, certas de que ninguém, por perto, naquele coletivo estivesse a entender sua enigmática linguagem.

Ilustração de Jailson Borges (Jão). 2019.
As duas garotas se esqueceram, entretanto, do alerta que faz a sabedoria popular: “mato tem olho e parede tem ouvido”. Se disso tivessem lembrado, teria sido de bom alvitre precaverem-se, porque poderia haver algum passageiro naquele buzu, sem levantar suspeita, para confirmar a veracidade do citado adágio, na condição de “mato e parede”, com ouvidos aguçados e a gravar tudo, o que efetiva e felizmente — para existência desta crônica — comprovou-se.

Chegou, finalmente, a hora de eu descer daquela jardineira. Antes, resolvi fazer-lhes uma gracinha, dar-lhes um susto. Virei, então, para ambas e disse-lhes, bem pausadamente: “Ê-pê-upu en-pen-ten-pen-di-pi tu-pu-dó-pó”. “Eu entendi tudo”, traduzindo. E anônimo, da mesma forma que entrei naquela marinete, dela saí, tranquilamente!

E as duas conversadeiras, de estranho idioma (para alguns), esbugalharam os olhos e, petrificadas, entreolharam-se. Ato contínuo, deram bela, estridente e maliciosa gargalhada. E eu me fui, deixando-as com a pulga atrás da orelha. E a deixar-lhes uma boa lição para aprender e praticar. Será?

E, assim, o alerta do dizer popular mostrou-se verídico. Cuidado, portanto! “Mato tem olho e parede tem ouvido” que, no mundo hodierno e tecnológico, evoluiu bastante: mato tem olho emétrope e parede, audição perfeita, na forma, por exemplo, de um simples smartphone.

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Obs.: Crônica publicada no site Matutar Notícias em 4/7/2017. Disponível em:: <https://www.matutar.com.br/arte-e-cultura/novais-neto-a-lingua-do-pe-dos-meus-tempos-ginasianos/>.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

A televisão dos meus sonhos

Nesta crônica, relembro a chegada da televisão em Santa Maria da Vitória, junto com a surpresa, a mudança de hábitos e um pertinente e divertido comentário por ela motivado.

Era começo da década de 1970. Apesar de a repressão militar ser o papo predominante entre intelectuais e políticos da minha terra, o que o povo mais falava, na verdade, era a chegada da televisão. Na Praça do Jacaré, havia um aparelho numa torre repleta de propaganda, em frente ao Banco do Brasil. E a Copa do Mundo de 1974 já pôde ser vista na "telinha".

A novidade tecnológica mexia com a imaginação de muita gente. Afinal, o que muitos de nós conhecia sobre televisão se resumia a figuras de revistas, propagandas em jornais e o que as rádios Globo, Mundial, Bandeirantes e Inconfidência de Minas divulgavam em suas programações diárias.

Naquele tempo, eu era estudante no Ginásio Comercial de Santa Maria da Vitória. A turma, tida como bagunceira por alguns professores, era também reconhecida como estudiosa, e que marcou época, segundo eles mesmos. No entanto, com a notícia da chegada da “telinha”, nada mais nos prendia a atenção. Por esse motivo, a direção do colégio resolveu nos liberar mais cedo numa determinada noite, para que pudéssemos matar a curiosidade e conhecer esta tal televisão.

O local para a sessão televisiva foi o Hotel de Detinha – o Sertanejo Hotel – um dos mais conhecido e frequentado de toda região, porque um dos nossos colegas, Dalvo Graia (Neno), sobrinho da proprietária, havia falado com ela e tudo ficou acertado para irmos lá. Confesso que eu era um dos mais exaltado e ansioso para ver a geringonça eletrodoméstica.

Quanto ao citado hotel, este merece um abre-parêntesis. É que nós, principalmente, os meninos, sempre estávamos por lá fuçando o lixo à procura de carteiras de cigarros vazias de marcas raras, trazidas por viajantes e mascates, tais como Astoria, Albany, Consul, Pall Mall, dentre outras, com a finalidade de fazermos “dinheiro”. Estas marcas eram muito “valorizadas”. O mais barato era Continental sem filtro, que seria hoje, a fora de uso, cédula de papel de 1 real.

Finalmente, estávamos todos lá, no Hotel de Detinha, de um cachorro dorminhoco que ficou folclórico e referência para comparação: "fulano dorme mais que o cachorro de Detinha". Alguns, que já conheciam tevê, esnobavam. Outros como eu, a maioria da turma, não se interessava muito com as informações recebidas, queria mesmo era ver a engenhoca em funcionamento.

No canto de uma sala para refeições, com alguns hóspedes à mesa, estava lá o imponente televisor a dar o ar da graça com imagem chuviscada e fantasmática. O som, cheio de interferência e oscilante, não dava para se ouvir quase nada, ademais, somavam-se o burburinho e o calor da aglomeração de curiosos que nos deixavam a todos agoniados e suarentos.

Confesso: não gostei. A televisão por mim imaginada era diferente. E eu explico o motivo. Quando garoto, sempre futuquei essas coisas intrigantes. As bonecas das minhas irmãs eu as desmontava para ver o mecanismo que as fazia chorar. Um velho rádio Semp, mimo do meu pai, certa feita eu o abri, porque na parte traseira havia uma plaqueta com a inscrição: “Rádio e Televisão Semp”. Achava eu que ali dentro deveria ter alguma coisa sobre tevê, inobservada por meu pai. Resultado: não acertei montar, o bicho não funcionou. Tomei foi um puxão de orelha, apenas para ser eufêmico.

Quanto à televisão sonhada por mim era semelhante às antigas vitrolas, onde se deveria pôr um disco de vinil, o bolachão, e numa tela apareceria o cantor em imagem cinematográfica. A trazer aquela percepção para atualidade, já naquela época, e sem ter consciência disso, bem que poderíamos dizer que este cronista anteviu o outrora festejado e, hoje, o quase fora de moda e moribundo DVD.

Ainda sobre o nosso assunto, aliás, sobre uma propaganda veiculada na TV, Domingos Serpa, colega de turma, viu-se surpreso com este comercial: “Rádio Semp, sinal de festa em casa”. E, numa aula de Português, ele perguntou para nossa professora Arturzita Santana, onde estava o verbo da oração.

Ao que pareceu, a mestra julgou-se testada pelo discípulo questionador e não gostou nenhum pouco do que ouviu, porque o verbo “ser”, em elipse, parecia bem claro para ela, e a frase poderia também ficar dessa forma: “Rádio Semp é sinal de festa em casa”, o que seria o mais comum.

Acontecimentos à parte, a chegada da televisão acabou por tirar muita gente das praças públicas. A do Jardim Jacaré, outrora muito frequentada, já não tinha tanto movimento, tanto glamour, porque muitos preferiam ver as telenovelas, os programas humorísticos, o futebol e os filmes.


Gravura de Jailson Borges (Jão). 2019.
Na minha rua, a Teixeira de Freitas, todas as noites, na casa de dona Celeste Braga, muita gente tomava conta da pequena sala e se acotovelava nas janelas para assistir, principalmente, a novela “Mulheres de areia” e o programa “Balança, mas não cai”, apesar de imagem e som serem ruins, mesmo pondo Bombril nas extremidades da antena e uma tela de vidro multicolorido, verticalmente, na frente do monitor, para ter-se a ilusão de imagem em cores. Era tudo muito lindo! E simples!

Quando a tevê começou a popularizar-se, começamos a visitar as casas de dona Alice de seu Silvino, em frente à casa de meus pais, e a residência de Eli de Nona. Já nas roças próximas à torre, que ficava no Morro do Domingão, ponto mais alto do município, também se podia ver televisão. Foi aí que um compadre coscuvilheiro, ao encontrar com um companheiro (não se dizia colega, porque colega é boi de canga!), especula ou "entra na semana" do outro, como se diz modernamente:

 Cuma vai vancê, cumpade? Cumé que tá de televisão nova? Fiquei sabeno que o cumpade comprou uma Telefunken ni Rosi Rocha, lá na Casa União. E aí, cumpade, tá gostano mesmo da nuvidade?

 É novinha, cumpade, mas num presta, não. Aquele troço num vale meia-pataca inferrujada. Ô dinherim mal-impregado, meu Deus do Céu. Iante eu tivesse comprado um vitrola de segunda mão lá ni Bolivar de Juca das Queimadas. A pistiada é o tempo intirinzim na mesma latumia: quando magea, num prusea, quando prusea, num magea.

Se você não entendeu, vou tentar "traduzir" tão original linguajar, que vai ficar assim: "quando tem imagem, não prosa, quando prosa, não tem imagem". Ou ainda: "quando tem imagem, não tem som, quando tem som, não tem imagem". Creio que é por aí. Ou, então, sinta-se livre para "traduzir".

É esta, portanto, nossa benquerida Santa Maria da Vitória, típica cidadezinha interiorana, de tantas e tantas histórias e causos a nos provocar frouxo de riso, para nunca mais dela se esquecer. 


Em tempo: Se alguém, de Santa Maria ou São Félix, tiver alguma foto da época, na qual apareçam pessoas vendo televisão, postarei com todo prazer, com os devidos créditos, evidentemente. E-mail: novaisnetto@gmail.com. Obrigado.
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Obs.: Crônica revista e ampliada extraída do meu livro "Meu lugar é aqui no centenário de Santa Maria da Vitória". Salvador: Prescolor, 2009. p. 137, 164p.

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“Matemática ultrarromântica“ na peça teatral portuguesa “Beremiz na Terra Plana“

Publicada no meu segundo livro, Ave Corrente (1991), a poesia  “ Matemática ultrarromântica ” , posteriormente, singrou mares e foi parar em...