sexta-feira, 11 de agosto de 2023

O ponto e o susto

Naquela manhã de 30 de janeiro de 2012, segunda-feira, como habitualmente faço, às 5h30, mais ou menos, já estava no Dique do Tororó a fazer minha deliciosa caminhada. Céu nublado e dia frio para os padrões soteropolitanos, todavia muitíssimo agradável, ensejavam uma paz bucólica, carregada de boas energias, ofertante de serotonina e dopamina.

Durante a caminhada, encontrei alguns corredores e andadores, companheiros antigos e recentes que têm o privilégio, assim como eu, de curtirem a beleza daquele belíssimo espelho d’água. Nem tudo, entretanto foi tão bonito assim, pois presenciei em frente ao Habb’s, antiga Usina Geradora do Dique, a queda de um motociclista que, felizmente, nada de grave lhe aconteceu.

Ao retornar para casa, dei início à rotina matinal: liguei o computador e deixei rolar as músicas que me trazem a lume minhas doces memórias afetivas. Em seguida, tomei um banho e sorvi uma vitamina exótica, extravagante ou gororoba para alguns amigos, nutritiva e muitíssimo deliciosa para mim. E ponto final! Ou c'est fini, no meu francês de incipiente ou de “menino exibido”.

De volta ao computador para organizar minhas atividades diárias, uma vez que no final de semana não pude fazê-lo por estar de plantão na Transalvador, onde trabalho, fui ver o correio eletrônico dos meus tempos de bancário. Modernamente, a expressão voltou às origens, regrediu, isto é, retornou para o Inglês: e-mail (abreviatura de eletronic mail, que numa tradução livre é o meu jurássico e inolvidável “correio eletrônico). “Vai lá entender essa humanidade!”, por certo diria a sorrir Jurandir Pereira (Buranda), colega da época ginasiana lá pelos idos dos anos de 1970.

A caixa de mensagem normalmente está repleta de lixos eletrônicos que separo dos aproveitáveis e descarto-os sem dó nem piedade. Dentre aqueles interessantes, dois vieram da minha ex-colega e querida amiga do Banco do Estado da Bahia, Hildair Vasconcelos, Hildita, como carinhosamente a apelidei.

O primeiro, por título “Eis o ponto”, mostrava um teste aparentemente sério, de como devemos nos prevenir do Mal de Alzheimer ou de suspeita de que já o “tenhamos”. Em cada página do slide surgia um ponto vermelho, bem pequeno, em algum lugar de uma figura, que deveríamos localizar e dar um clique sobre ele. Ao fazer isso, outra página aparecia e tudo se repetia, porém, noutra figura cada vez mais complexa e de difícil localização do tal ponto, o que acabou me entretendo por demais.

Gradativamente, a dificuldade aumentava, e mais e mais eu ficava envolvido e levando a sério aquele desafio, até que, em determinado slide, o ponto aparece bem facilmente, ao contrário dos anteriores, nem desconfiei. Ao clicar nele, vem a desagradável surpresa: na página, aparece instantaneamente um pavoroso capeta a expelir fogo pelas ventas e sangue pela boca, que ocupa toda a tela do monitor e dá uma horripilante e estrídula gargalhada. Quase caí de costas da cadeira! O coração foi a mil!

– Que zorra, Hildita! Que brincadeira mais besta! – assustado, desabafei comigo mesmo.

Ilustração de Adriel Santos. 2023
Refeito do susto, voltei a ler as demais mensagens. E outra, também enviada por minha amiga, trazia por título “A grande viagem do espírito”. Comecei a ler. Li duas ou três páginas, quando senti o cheiro forte de algo queimando. Levantei-me, de supetão, da cadeira, corri para a cozinha e deparei-me com um cenário antagônico: de um lado, uma panela queimando com dois ovos esturricados a feder e aquele fumaceiro atemorizante; de outro, um filtro aberto e uma moringa a derramar água. E eu pensei comigo mesmo ante aquela quase “tragédia”: Até você, poeta, dando mole pro capeta?

Obrigado, Hildita, mesmo assim! Se, por um lado, seus e-mails me entretiveram tanto, a ponto de quase provocar inundação e/ou incêndio no meu apartamento, a mensagem do segundo é verdadeiramente uma “grande viagem”. Tenho certeza, por outro lado, de que não foi Alzheimer, o alemão do seu correio eletrônico, mas o entretenimento causado pelo bendito e/ou maldito computador, jamais arte do encardido, isso a depender da crença pessoal. No entanto, por via das dúvidas: “Vade retro, Satanás!
”.

segunda-feira, 5 de junho de 2023

A palavra Amor

Numa tarde de Carnaval, lá pela década de 1990, eu estava sentado nas escadarias da Livraria Santamariense [sic], quando veio falar comigo o poeta e amigo Valter Batista, nosso Doxa, de saudosa memória, com uma camiseta cor de bonina e, na cabeça, um lenço cor de abóbora, com meneios típicos de quem houvera ingerido algumas boas geladinhas – podia-se notar –, que foi direto ao assunto:

— Poeta, eu tava lendo hoje seu livro “Ave Corrente”, de 120 páginas, e contei 120 vezes a palavra “amor”. Isso foi de propósito?

Antes de responder, fiz uma cara de surpresa e lhe disse um lacônico não. Reafirmei, a seguir, que foi apenas coincidência, pois nem sabia disso, todavia fiquei a matutar: “Caramba! O cara parou para contar quantas vezes eu usei a palavra ‘amor’?!”. Pois é, mesmo assim nossa prosa fluiu graciosamente e, ainda que num dia momesco, festivo, o assunto foi poesia. E muita poesia.

Como resposta à subitânea pergunta do querido amigo, dediquei-lhe a pirracenta poesia “A palavra amor”, que está na página 55, do meu livro “Meu lugar é aqui no Centenário de Santa Maria da Vitória”, lançado em 2009, durante as comemorações dos 100 anos de emancipação política da cidade, em cujo evento ele se fez presente, sorridente e participativo como de costume:

Valter Batista (Doxa) e Novais Neto. Foto: Marco Athayde, 2009.
Desculpa-me, Caro Poeta,
Se abusei da palavra Amor.
É que só o Amor me completa
E só sei rimar Amor com Amor.

Não sei versejar em protesto,
Tento fazer versos de Amor.
Por esta razão – e de resto –
Continuarei rimando Amor.

Não pretendo mudar, por hora.
Se cem vezes falei Amor,
Dez vezes, somente agora,
E mais uma vez repito: Amor.

Desculpa-me, Caro Poeta,
Eu respeito sua opinião,
Mas insisto ser esteta:
Falar de Amor sem restrição.




Valter Batista (Doxa) e Novais Neto. Foto: Marco Athayde, 2009.
Depois de alguns anos, a palavra que me deixou muito pensativo, coincidentemente num Carnaval, foi “amigo”. Termo tão carregado de simbologia, impregnado de boas energias, que gostamos de ouvir, principalmente, quando vem com ele sinceridade em ações, quando nos conforta e socorre.

Ainda assim, tão expressivo e belo termo, que tantas vezes nos acaricia o coração, acolhe e abraça, ele também o dilacera, mormente quando vem inesperado, mas verdadeiro, de quem gostaríamos de ouvir algo mais romântico, afetivo. O vocábulo “amigo”, portanto, também delimita espaço, manda ter cautela e faz ainda sutil e silencioso alerta, como se, merencórico, nos sussurrasse ao ouvido incrédulo: “somos amigo, apenas amigos, lembre-se disso”.

Diante desta dura e indubitável constatação de que fui, certa ocasião, ouvinte atento e não desejado, tentei sintetizar nesta trova, isto é, em apenas 28 sílabas poéticas, o “amigo” restritor, impassível, limitativo, que não nos deixa margem a possíveis questionamentos:

Tentei ser entendedor
Do que se passou comigo,
Precisamente no Amor,
Quando escutei: “Meu Amigo”.

Referências:

NOVAIS NETO. Meu lugar é aqui no Centenário de Santa Maria da Vitória. Salvador: Press Color, 2009. p. 55.

domingo, 11 de dezembro de 2022

Saga das gratuidades sexagenárias

Há cinco anos, isto é, em 2017, mês de outubro, viajei a Santa Maria da Vitória para curtir minhas férias junto aos familiares e amigos. Era início de mês do meu natalício, mês que completei 60 anos no dia 24, por conseguinte, um mundo de gratuidades prometia descortinar-se. Belas expectativas eu as alimentei.

Durante as férias, tudo ocorreu sem anormalidades, nos conformes, como costumamos dizer. No meu aniversário, não houve festa, o que é de costume, apenas um bolo na casa dos meus pais, saboreamos. Por outro lado, desde quando comecei a frequentar as redes sociais, publico, a partir dos meus 50 anos, uma poesia, uma trova, coisa do gênero, para festejar a data.

Quanto a escrever algo, registrar o momento, faço isso desde os meus vinte anos de idade, desde que “vintei”. E dentre os textos redigidos antes das redes sociais, tenho por um deles uma predileção especial. É uma crônica que hoje está neste blog, intitulada “O verbo que se fez carne, que se fez verbo”, de 1997 (vide Referências), quando passei a conjugar o verbo quarentar, isto é, quando fiz 40 anos.

Forante isso, como dizemos no linguajar santa-mariense, nada mais do que ficar alegre ao receber as felicitações, sempre muito carinhosas. As férias, por outro lado, passaram rápido, começava o mês de novembro daquele ano de 2017, e eu voltei a Salvador já pensando desfrutar do meu primeiro passe livre no Metrô Estação Rodoviária, devidos aos maiores de 60 anos, dentre os quais eu me incluía.

Cheguei cedo no terminal, por volta das sete horas da manhã, e me dirigi alegremente para o Metrô com apenas duas mochilas, se me recordo bem. Ao adentrar as instalações daquela estação metropolitana, fui recepcionado por um inoportuno e indigesto aviso com mais ou menos os seguintes dizeres: “Conforme Decreto de nº. 17.965, de 6/10/2017, do Governo do Estado da Bahia, a partir de 16/10/2017, segunda-feira, somente idosos acima de 65 anos terão acesso livre ao metrô. Salvador, 11/10/2017”.

Estarrecido diante daquele insosso e indesejável cartaz, o que me restou foi pagar minha passagem e esperar pelos meus 65 anos. Vale registrar que a primeira linha do Metrô foi inaugurada oficialmente em 11/6/2014, depois de 14 anos em obra. Passou por um período de gratuidade geral, logo em seguida, para alguns segmentos, dentre eles, idosos a partir de 60 anos, no qual eu iria me incluir. Quanto aos ônibus urbanos, os maiores de 65 anos já desfrutavam do passe livre.

Finalmente, após aparentes cinco longos anos, chegou outubro de 2022, quando completei os tão esperados 65 anos. Fiz, como em anos anteriores, uma trova comemorativa, publicada em minhas redes sociais. Assim, também, como naquele outubro de 2017, eu não estava em Salvador. Desta vez, fui comemorar meu natalício em Laguna (SC), cidade da “Heroína dos dois mundos” (Brasil e Itália), Anita Garibaldi e do Marco do Tratado de Tordesilhas, com minha filha Lara Novais e meu genro Thiago Palácio, onde eles moram.

Marco do Tratado de Tordesilhas e monumento de Anita Garibaldi. Laguna (SC), 2022


Lara Novais, Novais Neto e Thiago Palácio. Laguna (SC), 24/10/2022.
De volta a Salvador, cheguei no dia 30/10/2022, no período matutino, um domingo festivo, eleitoral, dia de votação do segundo turno. Ao tomar o metrô na Estação Aeroporto, observei que estava tudo liberado, passagem livre para todo mundo. Desse modo, para mim não valeu, não consegui “inaugurar” minha gratuidade como gostaria que fosse.

Durante a semana, ao pegar um ônibus, apresentei no validador meu smart card de vale transporte especial, por ser agente de trânsito, e o aparelho recusou, emitindo a seguinte mensagem: “cartão inválido”. Nada entendi e pedi explicação ao cobrador daquele coletivo, de apelido Vando, que educadamente me informou que o beneficiário ao completar 65 anos, o cartão torna-se inválido, automaticamente, e a cédula de identidade é que passa a valer.

Ainda na mesma semana, fui à Estação Brotas, do Metrô, e expliquei ao rapaz de prenome Juarez, que estava a liberar o acesso que, como seria minha primeira gratuidade naquela modalidade de transporte, gostaria de registrar em foto, no que fui gentilmente atendido. Antes, porém, de chegar àquela estação, fiquei a amiudar pensamentos mil: “e se esses caras resolveram aumentar a idade para 75 anos, numa espécie de ‘gratuidade compulsória’, como acontece com aposentadoria de servidor público aos 75 anos, vai ser o decepção total”. Mas não foi. Tudo desta vez ocorreu exatamente conforme planejado. Felizmente, iniciei o desfrute do passe livre metropolitano.

Cobrador Vando e Novais Neto. Foto: Novais Neto, 2022.

Novais Neto e Agente Juarez. Foto: Novais Neto, 2022.
Referências

COM INTEGRAÇÃO, idosos com menos de 65 anos perdem acesso gratuito ao metrô de Salvador. Disponível em: <https://g1.globo.com/bahia/noticia/com-integracao-idosos-com-menos-de-65-anos-perdem-acesso-gratuito-ao-metro-de-salvador.ghtml>. Acesso em: 9 dez. 2022.

DECRETO Nº 17.965 DE 06 DE OUTUBRO DE 2017. Disponível em: <Legislação | CCR Metrô Bahia (ccrmetrobahia.com.br)>. Acesso em: 9 dez. 2022.

NOVAIS NETO. O verbo que se fez carne, que se fez verbo. Disponível em: <https://www.novaisneto.com/2019/10/o-verbo-que-se-fez-carne-que-se-fez.html>. Acesso em: 9 dez. 2022.

Redes sociais do autor:

https://www.novaisneto.com/
https://www.facebook.com/novaisnetto
https://www.instagram.com/novaisnetopoeta/
https://www.youtube.com/@novaisneto698/videos

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Na sala de aula - A história de Chico Muleta

Os anos já se vão bem distantes, corria a década de 1970, quando este que escreve ingressou no Curso Ginasial, precisamente em 1971, depois de fazer o temido Exame de Admissão, uma espécie de vestibular do Curso Primário. Nesta época, também, só se falava no Mobral, o Movimento Brasileiro de Alfabetização, e no Ensino Supletivo, algo semelhante ao atual EJA (Educação de Jovens e Adultos).

Normalmente, as turmas desses cursos funcionavam à noite e eram formadas de alunos oriundos da zona rural, também citadinos, trabalhadores braçais, empregadas domésticas, muitos idosos, aposentados ou não, todos com objetivos comuns: aprender a ler, escrever e fazer as quatro operações matemáticas, almejando tirar o título de eleitor e, alguns, seguir nos estudos, uma vez que, certamente, não tiveram oportunidade devido a seus afazeres e/ou mesmo a falta de escolas.

Francisco José era um desses alunos, vindo da roça, já sabia ler e escrever, que aprendeu no Mobral, e pretendia seguir estudando, estava matriculado em uma turma do Supletivo do Primeiro Grau. Estudante interessado e participativo, sentava nas primeiras filas e gozava do privilégio de ser primo do professor de Ciências, Ramon Mattos, que também lecionava nas turmas iniciais do Ginásio da cidade. Ali, ele o fazia por diletantismo e gratuitamente, pelo simples prazer de ajudar.

Em uma das aulas do professor Mattos, muito querido da turma, gostava de brincar com seus alunos, ele falava sobre a composição da matéria, e não se apartava do seu livro predileto, Iniciação Científica – Ciências Físicas e Biológicas, de Marques e Sartori, tinha os três volumes dos autores.

Foto: Novais Neto. Acervo do autor.
– Toda matéria é formada de pequeninas unidades que chamamos átomo. Estes átomos se juntam e formam as moléculas, que se reúnem novamente, e vão constituir as mais variadas matérias. O átomo é algo bem pequeno, inimaginável até, só visto através de potentes microscópios eletrônicos.

– P’sor, ele é assim, vamos dizer, do tamanho de uma semente de milho alpiste? – quis saber Francisco.

– Oxente, Francisco, é bem menor ainda. Imagine a cabeça de um alfinete. Divida-o em dez partes, por exemplo. Pegue uma destas partes. É difícil, não é? Só com uma lente de aumento daria para ver. Pois bem, a molécula, que é formada de átomos, é algo ainda menor. Não dá pra ver mesmo!

— Mas, home quá! Então essa tal de molécula nem existe. É pura carga d’água só mesmo pra entupir o miolo da gente com tanta bestajada – contestou o incrédulo Francisco.

Molécula da água. Foto: Reprodução / Internet (vide link).
– Existe, Francisco. Os cientistas já conseguiram até provar que o átomo (que significa não divisível) é constituído, na verdade, de partículas bem menores ainda chamadas prótons, nêutrons e elétrons. Vá por mim, Francisco. Os átomos, as moléculas existem e estão aí por toda parte. Eles são uns fanisquinhos de nada mesmo, é verdade, mas existem, sim, embora não sejam vistos a olho nu.

— Oxente, p’sor, olho nu?! E olho veste roupa?! — para delírio de seus colegas.

— Olho nu, Francisco, é uma maneira de dizer. É quando a gente observa uma coisa sem precisar de auxílio de algum instrumento para aumentar o tamanho dela, assim, por exemplo: uma formiga, por menor que seja, a gente consegue ver, mas se for menor que uma formiga, aí já fica difícil, né. Então, pegamos uma lente de aumento, dessas que os meninos colocam contra a luz do Sol, para acender baga de cigarro, queimar papel, e aí conseguimos ver coisas bem miúdas. O microscópio eletrônico, Francisco, aumenta o tamanho dos objetos milhões de vezes, e aí se pode ver até mesmo um átomo — concluiu enfaticamente o competente mestre.

Francisco acenou positivamente com a cabeça, dando a ver que havia entendido. Se verdadeiramente eles se convenceu disso, não é algo tão certo assim. E o dedicado professor continuou a falar de molécula: molécula para cá, molécula para acolá e Francisco “viajava no mundo da Lua”. Lá pelas tantas, parece que houve um reboliço na cachimônia do pobre aluno e o simplório saiu-se com esta:

– Ô, p’sor, essa tal de molécula é aquele negócio que aleijado bota debaixo do sovaco?

– Claro que não, meu querido primo Francisco! Aquilo é muleta, algo completamente diferente, mas tem uma coisa em comum entre ambas: ela também é constituída por moléculas. Entendeu, meu amado mancebo? — finalizou o mestre, fazendo enorme esforço para conter o riso insistente.

– E eu sei lá, p'sor! Agora foi que disgramou tudo no meu coco, num entendi foi patavina de nada – indignou-se o esforçado Francisco José, que passou doravante a ser chamado de Chico Muleta, por seus colegas e, depois, por toda cidade, mas ele, Francisco José, nem se importava com isso. Sorria apenas!

Referências:

MARQUES, João Queiroz; SARTORI, José Antônio. Iniciação científica: ciências físicas e biológicas, v. 3, 7. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1971.

MOLÉCULA DA ÁGUA. Disponível em: <https://pt-static.z-dn.net/files/de8/638ef361867198285fcf9664419458c3.png>. Acesso em: 12 out. 2022.

sábado, 1 de outubro de 2022

Corujice explícita

Atenção para o nome: Lara Rodrigues Santos de Novais. É bom gravar, principalmente, o final “de Novais”. Este é o nome completo da protagonista desta crônica. Garotinha de sorriso fácil, entre 2 e 3 anos de idade, universo vocabular incipiente, sui generis e recheado de lambdacismos. Atualmente, ela está com 26 anos.

Segundo o filólogo Napoleão Mendes de Almeida, lambdacismo é a troca, na pronúncia, do “r” pelo “l”, assim como faz Cebolinha, de Maurício de Sousa. O contrário é o rotacismo, como, por exemplo, em vez de a pessoa dizer Cláudio e Clóvis, ela diz Cráudio e Cróvis.

Explicações à parte, aos sábados, quase sempre estamos lá, na casa dos avós maternos de Lara: Seu Naeth e Dona Dedé. Numa dessas idas, encontramos Seu Naeth afundado num sofá, óculos na ponta do nariz, quase a cair, em frente a uma televisão com o volume nas alturas, rodeado de revistas e jornais amassados que, ao ver a netinha, vai logo exigindo:

– Dê cá a bênção, menina véia.

Ela, toda cheia de dengo, aproxima-se, estira o braço e, timidamente...

– Bença, vô.

– Deus te abençoe, menina véia.

Só que não para por aí. Seu Naeth começa, então, a explorar o pequeno vocabulário da netinha, partindo para uma sessão de “atasanamento”:

– Como é o seu nome, menina véia?

A pequena Lara, no meio da sala, cercada de badulaques e cinco bonecas Barbie, de cores e/ou cabelos diferentes, de procedências e qualidades duvidosas, certamente introduzidas no país através do Paraguai pelos “executivos de fronteira”, não lhe dá a mínima atenção, já que seu mundo de fadas e duendes é muito mais interessante. Mesmo assim, ela responde:

Lara Novais, Naeth Santos, Márcia Gomes e Keully Pêpe. Fotos: Novais Neto, déc. 1990

– Num sei, não, vô.

– Como não sabe, menina véia. Uma menina desse tamanho não sabe o nome...

– Num sei, não – repete ela mais uma vez, já a perder a paciência.

Mas ele é insistente. E lá pela quarta ou quinta vez, repete a pergunta:

– Co-mo é seu no-me, me-ni-na véi-a? – falando agora pausadamente.

– Lala Lodligues Santos “de Meu Pai”. E plonto – viu onde foi para o “de Novais”?

É sempre assim: inventa uma palavra, distorce outra, engancha em certas pronúncias e vai construindo o seu dicionário mental. Quantos às bonecas Barbies, os nomes seguiam as vogais do nosso Alfabeto: Zazá, Zezé, Zizi, Zozó e Zuzu. Dessa forma, ficou bem mais fácil memorizar essas letras.

Certa ocasião, quando retornei de Santa Maria da Vitória, trouxe-lhe uma ruma de novidades, principalmente, frutas silvestres como pitomba, cagaita, procopa, grão de galo, bananinha de macaco, e pedi a Márcia, a babá, que lavasse um umbu e lhe desse, para que ela pudesse experimentar. E assim foi feito.

Percebi que Lara gostou da novidade. Pedi novamente a Márcia que lhe oferecesse mais alguns umbus.

– Toma, Lara, umbu – ofertou-lhe a babá, com todo carinho.

– Um bu, não, Márcia. Você me deu tlêis bus. É assim, Márcia: um bu, dois bus, tleis bus – ensina professorinha com a lógica do seu entendimento.

Da mesma forma ela analisa as palavras “um bigo”, “dois bigos”, “três bigos”. “Um berto”, “dois bertos”, “três bertos”... e assim por diante.

No trajeto da escola, no entanto, é que surgem as novidades. Curtir esses momentos é algo único na vida de quem teve o privilégio de ver crescer essas pequeninas criaturas. É formidável sentirmos como elas percebem e procuram entender o mundo dos adultos. O seu mundo é simples, belo. E mágico, sobretudo.

Ao trazer-lhe da pré-escola, certa feita, ela virou-se para mim e disse que iria me contar um segredo. Naturalmente, fiquei atento para ouvir a confissão de Lara. Antes, porém, ela me fez um solene pedido... Aliás, não vou revelar o pedido agora, creio que perderá a graça. Vamos adiante.

Todos nós, é provável, já ouvimos perguntas do tipo: “Você sabe qual é o cúmulo da força?”. “O cúmulo da força é dobrar uma rua e quebrar uma esquina”, responderá o indagador. “E qual é o cúmulo da lentidão?”. “O cúmulo da lentidão é disputar uma corrida sozinho e chegar em segundo lugar”. Desse modo, existem o cúmulo da estupidez; o cúmulo da rapidez; o cúmulo da agonia etc. Mas isso fica para um momento oportuno.

De volta ao segredo, Lara apresenta-me um novo “cúmulo”, o “cúmulo da confidência” ou “cúmulo do segredo”. Isso aconteceu quando ela me pôs no incômodo lugar de algum padre, que não me foi possível identificá-lo, que teria proferido esta frase em que ele nos garante: “Tudo aquilo que me é revelado em confissão, eu sei menos do que aquele que nada soube”. Ela, então, fitou-me os olhos e, de forma cerimoniosa e solene, fez o seu pedido:

– Meu pai, eu vou contar um segredo pro senhor, mas, por favor, meu pai, não conte esse segredo pra ninguém! Nem pra mim. O senhor entendeu? – e Lara confidenciou-me o segredo dos segredos.

Você quer saber qual foi o segredo? Perdoe-me. Sinceramente, eu não me lembro de nada do que me foi dito. Tornei-me, imperativamente, um extemporâneo vigário.

*   *   *

Agradecimento especial ao colega e amigo Luís Cláudio de Lima Pinto, por lembrar-me que seu nome, vez por outra, é vítima de rotacismo, por isso, avisa: “Olha, meu nome é Cláudio e não Cráudio, viu?!”.

Quem sou

“Matemática ultrarromântica“ na peça teatral portuguesa “Beremiz na Terra Plana“

Publicada no meu segundo livro, Ave Corrente (1991), a poesia  “ Matemática ultrarromântica ” , posteriormente, singrou mares e foi parar em...