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domingo, 13 de julho de 2025

Memórias do futebol santa-mariense, ano de 1991

Nesta crônica, publicada em 1992, no Jornal O Posseiro, de Santa Maria da Vitória (BA), rememoro momentos marcantes do Campeonato de Futebol local do ano de 1991, da outrora Cidade Riso, como era chamada.

Caros leitores,

Os imprevistos da vida quase sempre nos põem ante o inexplicável. Quando fatos tomam o endereço da tragicidade e levam brusca e incompreensivelmente vidas viçosas, percebemos, desse modo, quão frágil é nossa existência.

Exemplo disso é o desaparecimento estúpido de João Evangelista de Souza, Bega de Sinhô de Valdete, vitimado por acidente automobilístico em 2/5/1992 na estrada entre Santa Maria da Vitória e Santana. Jovem extrovertido, hábil e astucioso goleador do Monte Castelo, clube santa-mariense.

* * *

Em setembro de 1991, redigi a crônica “O esporte bretão em alta” para o jornal “O Posseiro”, de Santa Maria da Vitória. Entretanto, fatos alheios às vontades deste redator e do editor, Joaquim Lisboa Neto (Kynkas), impediram que o texto fosse levado a público, tornando-o extemporâneo. Agora, por circunstâncias indesejáveis ­– a morte do atleta Bega – a crônica justifica por si só a publicação.

A seguir, portanto, publicamo-la, primeiro, porque se intenta que seja uma homenagem póstuma ao conterrâneo e amigo Bega, aos familiares e aos desportistas da nossa terra. Segundo, porque a mesma tem caráter de retrospectiva, útil aos amantes do futebol. Desse modo, por estas e outras razões que vão além de explicações meramente racionais, ei-la, portanto, revista e ilustrada:

O esporte bretão em alta


Durante todo o mês de agosto de 1991, estive em Santa Maria da Vitória (BA). E para mim – o que não constitui novidade – é motivo de êxtase e grande bênção pisar aquela terra, apesar de alguns de seus dirigentes maltratarem-na, num flagrante desrespeito ao nosso rincão.

Daquela feita, no entanto, as maiores emoções e surpresas não aconteceram, necessariamente, no mundo das letras, mas no Estádio Municipal Turíbio de Oliveira, o Turibão. Todo domingo lá estava eu assistindo às rodadas do campeonato local. Vi grandes equipes e verdadeiros malabares da bola.

Ao contrário dos grandes centros futebolísticos, onde as torcidas vivem a fugir espavoridas dos estádios – consequência inegável do baixo nível técnico das equipes (além das intermináveis desilusões em copas do mundo) e da política mercenária de cartolas. Ali, os amantes do esporte se fazem presentes em números ascendentes. Creditam-se, sem dúvida alguma, ao espírito amadorístico dos atletas e a eficiente cobertura e divulgação dadas pela Rádio Rio Corrente através dos seus locutores Nildo Reimão e Mário Silva.

Na pista de jogo do Turibão, desfilaram times que, vistos por este observador (também “metido” a técnico de futebol como milhões de brasileiros os são), equilibraram o certame da Cidade Riso, tais como: Monte Castelo, Castro Alves, África e Sambaíba. As demais equipes, sem demérito algum por serem citadas em segundo plano, em muito contribuíram para tal equilíbrio. São elas: Vila Leopoldo, comandada pelo veterano e experiente Terto de Toge, Açudina (distrito de mesmo nome), Vasco (Cuscuzeiro), Rodoclube, Malvão e Monte Real (Barreiro da Canabrava).

Se por um lado, bons times encheram-me os olhos, em matéria de torcida animada, o Sambaíba Futebol Clube, do bairro, outrora rural, onde vivi minha infância e parte da juventude, tem o duodécimo jogador. Guardadas as devidas proporções, sua torcida se assemelha em muito à apaixonada massa rubro-negra do Esporte Clube Vitória (BA). O Aurerrubro, do bucólico bairro, o primeiro da cidade, vale registrar, também sabe retribuir com garra e bom futebol.

Que me perdoem os torcedores do Monte Castelo (Tampinha, também seu jogador) e do Castro Alves (Guinha, seu presidente), vocês estão assistindo a verdadeiras aulas de motivação e amor ao esporte, o que é bom para todos. Alguns – cabe aqui uma ressalva – deixavam-se exagerar nas doses da “água-que-passarinho-não-bebe” e principiam tumultos. Tudo, no entanto, que não terminassem em aperto de mãos.

Quando o jogo, vez por outra, não está agradando, lá eles encontraram uma fórmula mágica e salutar de prender o torcedor. Nos intervalos, promovem disputadas corridas (com direito a aposta e tudo mais) entre “atletas velocistas”, quase sempre “movidos a álcool”, frenesiando a multidão.

Por trás desse fato positivo para o progresso desportivo santa-mariense, há um registro triste a fazer: a repentina perda de uma assídua torcedora, dona Valdete. Todo domingo lá estava ela e com seu inseparável companheiro, Sinhô, a levar fluídos positivos a seus filhos, Bega, excepcional centroavante monte-castelino, e o irmão Christiano, o Renato Gaúcho do Rodoclube. Estão aí, portanto, belos exemplos a serem seguidos.

Quando, por um lado, o desemprego é a principal ocupação de muitos e a escola não vem cumprindo seu papel, o esporte, ainda que não garanta futuro, é um meio eficaz para integração, como também para evitar a degeneração dos jovens, segmento social muito vulnerável aos tropeços da vida.

É importante deixar bem claro, no entanto, que a escola, mesmo distante de oferecer iguais condições de progresso a todos, é imprescindível e, esforçando-se um pouco mais, as possíveis deficiências poderão ser facilmente superadas e/ou minimizada, e não haverá motivos para ignorá-la. Jamais!

O certame


O Campeonato de Futebol de Santa Maria da Vitória, edição 1991, encerrou-se em outubro, tendo participado do mesmo 10 agremiações esportivas: 3 do interior do município e 7 da sede, o que resultou na realização de 51 confrontos. Foi uma competição muito disputada, havendo equilíbrio técnico entre as equipes, razão porque levou bom público ao Turibão em quase todos os jogos.

A Associação Atlética Castro Alves sagrou-se campeã do certame 
ao derrotar o arquirrival Clube de Regatas Monte Castelo numa disputa de pênaltis, depois de empate sem gols no tempo normal e na prorrogação.

A equipe alviverde santa-mariense foi o destaque em toda a competição. Ganhou o primeiro e o segundo turnos, invicto, tendo extraordinária performance, senão vejamos: empatou 4 vezes e, em 8 oportunidades saiu vitoriosa. Seu ataque fez 27 gols contra 10 sofridos pela defesa. O goleador do time foi Tim de Lídio, que conseguiu vencer os goleiros adversários em 10 oportunidades.

Nas disputas com o Monte Castelo, continuou fazendo o mais empolgante clássico da cidade, o dérbi local, levando muitos torcedores ao extremo das emoções. E não é para menos: em 1991, os dois times defrontaram-se 4 vezes, sem que houvesse vencedor nos 90 minutos. E, a contabilizar Torneio Início, partidas e prorrogações, jogaram 360 minutos e marcaram 6 tentos.

Em termos mais práticos, para mostrar a grandeza dos confrontos entre as duas equipes, é como se elas tivessem se defrontado por 6 horas – ininterruptamente – marcado um gol a cada hora e, no final da batalha campal, lá estivesse estampado no placar: 3 a 3. Eis, portanto, o inacreditável equilíbrio.

Nas disputas de penalidades máximas, entretanto, o Castro Alves foi superior, tendo vencido todas elas: 5 a 3; 5 a 4 e 3 a 2, graças principalmente aos filhos do padeiro Lídio: Amarildo, Amauri e Tim, implacáveis nas conversões penais, o que já garantia, de antemão, 3 gols para o alviverde santa-mariense.

Restou ao Monte Castelo a grandiosa façanha de não perder uma única partida com “bola rolando” em todo o campeonato, quase sempre abrindo o placar e permintindo o empate; ter o ataque mais eficiente (34 gols marcados); ter o artilheiro da competição, Neinho de Silerino, com 15 tentos, e ser, com méritos inquestionáveis, um respeitadíssimo e quase imbatível Vice-Campeão.

Parabéns a todos que fazem o bom futebol da nossa Santa Maria da Vitória, carinhosamente apelidada Cidade Riso.

Agradecimentos:

A William Chagas de Oliveira (Guinha de Adão Bodeiro), então presidente da Associação Atlética Castro Alves, que me passou, na ocasião, toda a estatística daquela competição esportiva;

A Josenilton Ramos Sodré (Mimiu), natural de Bom Jesus da Lapa, jogador de futebol em vários times da região Oeste da Bahia, inclusive de suas seleções, residente em Santa Maria da Vitória desde de 1987.

A Nildo Reimão, um dos fundadores do Sambaíba, Wilson Pereira, Mazinho de Silerino e Bira do Bar.

Referências:

REIMÃO, Antônio Nildo. A fé é preciso… Sem exagerar. In: Jornal O Posseiro, ano 5, n. 79, maio / 1991, p. 10. Disponível em: http://www.cpvsp.org.br/upload/periodicos/pdf/PPOSSBA051991079.pdf. Acesso em: 10 jul. 2025.

sábado, 19 de abril de 2025

"Bom dia, minhas 100 pombas"

Dias atrás, ao visitar minhas memórias afetivas mais remotas, guardadas nos escaninhos atemporais, deparei-me como o início dos anos de 1970, mais precisamente o ano de 1971, quando ingressei no Curso Ginasial, no então Ginásio Comercial de Santa Maria da Vitória, que posteriormente viria a ser o Centro Educacional Santamariense (sic).

A alegria era imensa, dentro de uma camisa cáqui, de mangas compridas e calça de tergal de igual cor. No debrum da camisa, havia um traço indicativo do ano em que o aluno estudava. Aqueles que ostentavam quatro tracinhos, esnobavam. Eu ainda não. Feliz, estava meu pai, Tião Sapateiro, ao ver meu progresso, quando me fez uma revelação matemática que me deixou deverasmente curioso.

— Quando você for estudar Álgebra Elementar, começar a fazer contas não somente com números, mas com letras também, você vai ver como a Matemática é bonita.

Aquilo me fez pensar muito no que seria operar com letras e números ao mesmo tempo. Tião Sapateiro só estudou até o terceiro ano do antigo Curso Primário, porém, tinha sempre às mãos livros de Aritmética, como os do matemático luso-brasileiro Antônio Bandeira Trajano. Sua diversão era resolver questões envolvendo cálculos. E quase sempre me chamava para participar. Imagina!

Quando, finalmente, comecei a estudar a tal Álgebra, contei-lhe com alegria a novidade. Meu pai, então, apresentou-me uma história que parece haver retirado de livros dos tempos da Carochinha, tempos em que os bichos falavam e ave columbina não era presa para gavião, voraz ave de rapina. Eis o que ele me narrou, logo de manhã, quando me preparava para estudar:

Imagem gerada pela IA do Google.
— Numa manhã, um imponente gavião real pousou em uma árvore repleta de pombas brancas, e as cumprimentou, solenemente:

— Bom dia, minhas 100 pombas!

— Bom dia, gavião – respondeu uma delas, que fez algumas ressalvas:

— Cem pombas não somos nós; com outro tanto de nós; com a metade de nós; com a quarta parte de nós, e contigo, gavião, seremos 100.

Finalizada tão graciosa e imagética narrativa, meu pai fez a pergunta inevitável:

— Quantas pombas havia naquela árvore? – E, juntamente com Darci de Seu Abelino Novaes, seu amigo sapateiro, que estava na tenda, ele olhou para mim e esboçou um tímido sorriso no canto da boca, a mostra um ponto de ouro em um de seus dentes, num claro sinal de desafio.

Não sei se resolvi logo, de primeira. Não me recordo que ele tenha me ajudado, todavia, acredito que sim. E achei a resposta da imaginativa questão, que levei para sala de aula, mostrei aos colegas e ao professor de Matemática, Tércio Santana, de apelido Tutes.

Se você, por outro lado, não achou a resposta (ou sequer tentou encontrá-la), a resolução está no final desta crônica. Não se preocupe. Tentei ser bem didático.

Tempos depois, ainda estudante ginasiano, no também distante ano de 1974, o mesmo Centro Educacional onde estudava, abriu as portas para um curso de Eletricista Instalador, realizado nas férias juninas daquele ano, promovido pelo SESI/SENAI e ministrada pelo professor soteropolitano Wilson Bezerra, ex-aluno da Escola Técnica Federal da Bahia.

O curso foi muito bom e proveitoso, pois, ao final dele, consertamos a instalação elétrica do colégio e fizemos a primeira ligação com interruptor three way da nossa cidade, num comprido corredor da escola. Do curso, participaram, além deste que escreve, Charles de Adão Bodeiro, Zé Sugesta, Nem de Tenente, Isoterano, Neto de Seu Antônio Teixeira, Agnelo de
Donaricota, dentre outros.

Ao término do referido curso, nosso professor deixou uma questão de Matemática como lembrança de sua passagem por Santa Maria da Vitória. Na ocasião, o mestre fez a seguinte pergunta:

— Que horas são, se, para terminar o dia, faltam dois terços do que já passou?

Ele nos deixou tão somente a resposta e nenhuma dica a mais que pudesse nos ajudar. E partiu. Nunca mais tivemos notícia dele. Também, é verdade, não o procuramos. Naquele tempo não era fácil como hoje. Nem telefone havia na cidade.

Nos dias seguintes, em nossos passeios noturnos pela linda, romântica e acolhedora Praça do Jacaré dos anos primeiros, sempre nos encontrávamos, nós, ex-alunos de Wilson, e questionávamos sobre o problema por ele deixado. Uns nem tentaram, outros, como Agnelo, por exemplo, tentaram e resolveram, inclusive este cronista.

Agnelo de Donaricota, cujo nome é Agnelo Alves do Nascimento, que se autodeclarava goleiro profissional, acabou por incorporar a forma reduzida, Profissi, ao próprio nome, ficando conhecido, nos campos de futebol, como Agnelo Profissi. Amigo de infância e colega ginasiano, Profissi veio a ser um dos mais festejados professores de Matemática de várias gerações de alunos, fato que acabou por homenagear nosso mestre Tutes.

Por outro lado, quantos aos desafios matemáticos propostos, a resolução da historinha das pombas brancas está no final desta crônica. Se você também tentou encontrar a resposta, parabéns. Se não, pelo menos leu meu texto até aqui. Por isso mesmo, meu muito obrigado!

Ainda quanto à questão das pombas, ela me fez lembrar o livro “O homem que calculava”, do romancista brasileiro, nascido na cidade do Rio de Janeiro, Malba Tahan, heterônimo de Júlio César de Mello e Souza, engenheiro civil e professor de Matemática, em que ele narra a história de um árabe, que teria morrido, e deixado de herança para seus três filhos, 35 camelos a serem divididos segundo as frações: 1/2, 1/3 e 1/9. Esta, no entanto, é mais outra bela poranduba matemática.

Em relação à pergunta das horas, deixada pelo professor Wilson, ela me remeteu a determinado professor de curso pré-vestibular, do qual não me lembro o nome, que nos alertou quanto a questões de Matemática com poucos dados, como foi esta, que envolve interpretação textual. As que têm muitos dados, como o problema das pombas, normalmente são menos difíceis. Será mesmo?

Por fim, em ambas inquirições aritméticas, fico jubiloso quanto à beleza da benquista “Filha do Lácio”, nossa maravilhosa Língua Portuguesa, que consegue, mesmo numa ciência exata como Matemática, criar um cenário deveras onírico que, possivelmente, acabará por despertar até o mais retraído ou disperso aluno. Penso eu!

* * *

Agradecimento aos amigos e colegas da Transalvador, Jailson Cerqueira e Alan Lima, professores de Matemática, por confirmarem minhas respostas. E ao também colega e amigo Marcus Figueiredo, que ler meus escritos antes de publicá-los, o que muito me auxilia nas correções. Obrigado a todos! 

Redes sociais do autor:

domingo, 15 de dezembro de 2024

Historieta zodiacal

Às vezes, a vida nos surpreende tão imponderavelmente que nem mesmo o mais invulnerado coração pode prever e prevenir-se de algo que não desejaria. Certo casal, aparentemente inabalável, a viver muito bem o seu papel, estava prestes a descobrir que nem todo amor é para sempre.

O relacionamento parecia sedimentado no mais puro amor e, apesar de oscilações normais de todo casal de namorados, ninguém duvidava de que um final feliz inexoravelmente viria. Mas, muitas vezes, tudo é só questão de tempo! E o tempo é o Senhor da Vida.

O (in)esperado acontece: aquele casal separa. Cada um vai para o seu canto, tentando, de alguma forma, recomeçar, superar tristezas, mágoas e, claro, zelar pelas boas recordações deixadas. Os fatos estão aí para confirmar o clichê de que “a vida é um eterno recomeço”.

Passaram-se dias, meses e tudo parecia bem distante e calmo, quando então a vida os deixa frente a frente e amor do passado deu sinais de renascimento. Tiveram uma conversa amável. Depois, entrecortada por instantes de silêncio, questionamentos etc. Por fim, até meio desconexa. No entanto, portaram-se como pessoas adultas e conscientes de que cada um representa para o outro. Claro, o saldo foi bem positivo. Valeu o reencontro, pelo menos ficou flagrante de que uma amizade muito bonita poderia florescer. Há quem não duvida de que amizade é miniamor.

Este reencontro aconteceu num sábado, à noite, de um mês qualquer, de um ano já bem distante. Depois dele, cada um seguiu seu caminho, levando certamente o desejo de tentar de novo. Porém, em nome daquilo a que se chama razão, prometeram, cada um a si mesmo, “que dariam mais um tempo”. E o casal promissor de outrora continuou separado.

O lado pitoresco ou tragicômico que deu motivo a esta historieta aconteceu logo no domingo seguinte. Depois de encontrar-se desperto de um sono tranquilo e reparador, no entanto, ainda muito ensimesmado e distante, a relembrar naturalmente o papo que mantivera na noite passada com sua ex-musa, ele resolveu comprar um jornal numa banca mais próxima, para saber, dentre outros assuntos, das novidades do seu time preferido, o Tricolor Carioca. Estava a fim de espairecer!

Despreocupadamente, viu crônicas esportivas e deu uma espiadela no noticiário político. Sem mais o que fazer, passou a ler o Caderno de Lazer & Informação e se deteve na seção sobre Horóscopo, do Jornal A Tarde, de Salvador. Embora seja assunto pouco atrativo para si, lembrou-se do reencontro do dia anterior com a ex-namorada e, por via das dúvidas, achou prudente conferir as predições sobre o amor.

Ao ler e reler as previsões zodiacais daquele periódico, notou que ali se tratava de algo por demais burlesco, para entretenimento, e não escritos sérios da “astróloga” Madame SulaMita, como ele imaginou. Ainda assim, responsabilizou o destino ou, mais grave ainda, amaldiçoou a fatalidade.

Escritos em hilariante “portunhol”, reproduzo, ipsis litteris, os conselhos funestos do Horuescopo de Madame SulaMita, para o signo de Escorpión (o dele):

Non hay jeito, amiguito. Poña uno disco de Dalva de Oliveira en la radiola, apague la luz e vá curtir su passion. Su única saída és uno copo de viño, uno ombro amigo e el bolero, de los anticos. O uno tango. Argentino. Puedes optar. Solo non puedes esperar el retuemo de su amor. Isto non acontecerá. Mas tanbién puedes optar por su viziño. Non convence. Más consuela.

Para o signo de León (o dela), fazendo as devidas adaptações, visto que o Horuescopo de Madame SulaMita pareceu-me destinado ao público masculino, ele constatou predições ainda mais sombrias:

Mi amigo, olvida este amore que non tien más nadie a ver. Que más tu espieras deste relacionamiento? Que ela vuelte para ti? Puedes desistir e partir para otra. Mi bolita me muestra su mujer en una bella playa, con uno gato de fechar comércio e una tanguita de subir até el valor del cruzado. No bicho, cabrón.

E aí, como justificar uma brincadeira inofensiva de jornal que, parcialmente, revelou-se um fato? Pelo menos, certo é que, para ambos, uma das “previsões” foi certeira e fatalística: “Solo non puedes esperar el retuerno de su amor. Isto non acontecerá”.

E... não aconteceu! Os dias futuros confirmaram o vaticínio da Madame SulaMita.

Finalmente, de quem é a culpa? Do destino? Da fatalidade? Ou, comodamente, diria que são fatalidades do destino? Não importa quais sejam as respostas, elas, decerto, não justificarão os desígnios da sorte. Ou da vida.

Agosto/1988

Referência:
NOVAIS NETO. Flutuando na areia. Edição do autor: Salvador, 1988. 112p, p. 103.

sábado, 9 de novembro de 2024

Crônica para os meus Sessenta e Sete

Dia 24 de outubro último, meu aniversário, Justino Cosme gravou dois vídeos meus alusivos à data, nos quais declamo duas trovas à margem do Rio Corrente e na Praça do Jacaré, em Santa Maria da Vitória: uma das trovas, de caráter humorístico, e outra, bem comportada, a mostrar um poeta reflexivo.







Postei essas filmagens nas redes sociais como também as enviei para minhas listas de transmissão do WhatsApp. Quase que instantaneamente, como sempre acontece por esse meio de contato, passei a receber inúmeras felicitações. Não pude responder na mesma velocidade. Fui, humanamente, respondendo a todos aos poucos, ora com economia vocabular, ora com “curtidas” ou emojis.

Dentre essas mensagens – umas maiores, escritas; outras menores, na forma de memes e emojis
, essa coisa toda do mundo digital –, destaquei três delas para redigir esta crônica. A primeira veio da amiga Clara Alcântara, mensagem carinhosíssima, abaixo transcrita:

“Meu caro amigo,

Hoje celebramos não apenas mais um ano da sua vida, mas também a beleza das suas palavras que nos tocam e inspiram. Que este novo ciclo seja repleto de versos novos, rimas soltas e muita criatividade.

Que a vida te presenteie com experiências que se transformem em poesia e que você continue a encantar o mundo com seu olhar sensível.

Feliz aniversário! Que a sua jornada seja iluminada por sonhos e muitas histórias para contar!

Com carinho,

Clara Alcântara”


Outra mensagem me veio em versos, para minha surpresa do amigo e colega de trabalho Cláudio Lima, com quem costumo falar de poesia e metrificação de trovas. Não é que o Cabo Lima (como o trato) fez uma poesia com três estrofes de versos (quase todos) em redondilha maior, isto é, setissílabos ou setíssonos, a comprovar perfeita assimilação do assunto!

“Uma homenagem ao amigo:

Parabéns para NOVAIS,
Pelos anos de LEILÃO.
A idade TANTO FAZ,
Pois está no CORAÇÃO.

Não escrevo só por MIM,
É por toda a COMISSÃO.
Amizade NÃO TEM FIM,
Tem começo e RAZÃO.

Aqui te CONHECEMOS,
Sua vida, sua HISTÓRIA.
Quando então PERCEBEMOS:
‘TU AMAS ESSA VITÓRIA!’

Em nome da Comissão de Leilão da Transalvador.

Claudio Lima.”


A última das três mensagens escolhidas, também de um colega de trabalho, não veio em versos, nem em prosa. Apenas apareceu sinalizado no WhatsApp que ele havia visto minha postagem, constatado pelos dois tiques duplos azuis. O amigo nada comentou, tão-somente encaminhou (por distração, assim creio) o link de um formulário para inscrição no “Plano Funerário Campo Santo Familiar”. Tomei um grande susto e – ato contínuo e impensado – respondi com um breviloquente “Boa noite”, quando ainda deveria ser “Boa tarde”, isso tudo por conta do imediatismo.

Vida que segue! Quem não se engana?! A Internet acelera ações e reações. Não abri o link do formulário. Pareceu-me aziago em demasia para tão belo momento de regozijo. Vade retro. Meus Sessenta e Oito – e outros mais – hão de vir, querendo Deus! E que seja assim!

sábado, 18 de maio de 2024

Crônica da luz intermitente

Aquele teria que ser um dia muito especial, bem fora da minha rotina. Foi 1º de maio de 2024, algo bem recente, Dia do Trabalhador e dia dos lançamentos do livro “Manual para corações machucados”, de Bruna Lombardi, atriz e escritora, e do livro “A vida é um presente: mantras para o seu dia a dia”, da apresentadora e jornalista Rita Batista, na Bienal do Livro em Salvador, dia do encerramento. Comprei o ingresso com oito dias de antecedência.

Saí cedo de casa, às 9 horas, uma vez que um bate-papo e a sessão de autógrafos estavam previstos para iniciar às 10 horas. Na frente de casa, à espera de um veículo por aplicativo, tive que retornar para pegar um dos livros de Bruna, para que ela autografasse, pois havia esquecido. Antes do horário, apesar de tudo, eu já estava no local. Combinei com André Batista, irmão de Rita, que nos encontraríamos lá e visitaríamos os estandes de venda, enquanto aguardávamos a presença das escritoras.

Já dentro da Bienal, num salão muito bonito e repleto de visitantes, resolvi mandar um áudio a meu amigo para ver onde ele estava, uma vez que não logrei êxito em fazer uma ligação. Minutos depois, ele responde dizendo que não poderia ir, que aconteceu um imprevisto, coisa dessa natureza.

Diante disso, fui buscar informação onde seria o local da palestra de Bruna e Rita, consequentemente, a sessão de autógrafos. Qual não foi minha surpresa quando alguém, do balcão de informações, me disse que Bruna Lombardi não viria. Lamentei muito, afinal, havia levado o primeiro livro dela, de poesia, “No ritmo da festa” (1976), prefaciado por Chico Buarque, para que ela o autografasse, como também compraria sua nova publicação. A verdade é que já tenho outro livro dela, autografado.

Recordei-me, nesse momento, de que o colega de trabalho e amigo, Marcos Navarro, sabedor de que eu iria à Bienal, mandou-me um link de um site de notícias dando conta de que Bruna não estaria na Bienal. Ignorei, pensando se tratar de notícia anterior, quando ela cancelou um lançamento no Rio de Janeiro, 25/4/2024, por conta de uma virose, segundo noticiou algum site, que não me recordo qual.

Apesar das duas notícias negativas, não fiquei tão triste assim. Fui visitar os estandes. Num deles, ao sair com o livro de Bruna embaixo do braço, um fiscal tocou-me o ombro e me pediu a nota fiscal do produto que portava, assim, sem a devida sutileza.

– Não tenho mais, comprei há muito tempo – e lhe passei o livro. Ele folheou, viu as páginas amarelecidas pelo tempo, viu também um carimbo da minha biblioteca pessoal e, com “a cara sambando”, meio desconcertado, pediu-me desculpa um tanto formal.

Isso, confesso, não me tirou a paz, afinal, fui meio displicente mesmo. Não deixei, evidentemente, de orientá-lo a ter mais cuidado ao se dirigir a alguém. Era um jovem, por certo, incipiente no desempenho daquela profissão.

Passado esse “desagradável” momento, me dirigi até a Arena Jovem, local onde aconteceriam as palestras e os autógrafos. Fui direto ao lugar onde estava sendo vendido o livro de Rita Batista. A vendedora, entretanto, me informou que os exemplares haviam acabado e que um mensageiro fora buscar mais livros em Brotas, bairro relativamente próximo da Bienal.

Confesso que, agora, fiquei decepcionado. E, em quase pânico, mandei um desesperado áudio para André, o já referido irmão de Rita, que, sorridente, procurou me tranquilizar:

– Relaxa, poeta, o seu tá garantido… e autografado!

Relaxar? Como? Eu queria, sim, era vê-la autografando, tudo filmado e fotografado, do contrário não teria graça. Procurei, a pesar de bem contrariado, seguir o conselho do amigo.

Ensimesmado, entrei na Arena Jovem e fiquei a aguardar o começo do evento, procurando me apaziguar, era o que me restava, afinal. Faltavam uns 20 minutos para ter início as palestras, quando – acreditem – a luz foi embora. Tudo só não ficou às escuras porque uma larga porta deixava entrar a claridade do lindo dia de Sol soteropolitano.

O tempo passou e nada de a luz voltar. Passavam muito das 10 horas, horário previsto para ter início as palestras, quando, furtivamente, Rita aparece no palco e foi aquela gritaria. Coisa de cinema. Quando olhei para o público, pude ver como se fosse uma nuvem de pirilampos. Eram as luzes dos muitos celulares nas mãos dos ávidos admiradores de Batista, merecidamente.

A apresentadora desceu do palco para tirar foto com seu público, enquanto a energia não voltasse. Aproveitei a ocasião, aproximei-me dela quanto pude, já que estava rodeada de fãs, e posicione-me para fazer uma selfie. Que surpresa bacana, quando vi que ela estava bem à altura do meu ombro. Aproveitei e lhe perguntei pela mãe, Dona Angélica, para revê-la e naturalmente registrar o singular momento.

Tudo continuava escuro. Rita voltou para os bastidores. E a luz voltou também! Minutos depois, a jornalista Rita, Alan Castro, poeta que substituiu Bruna, autor de quatro livros, dentre os quais “O colecionador de saudades” (2023), e a mediadora Gabriela Almeida voltaram ao palco. Quanta alegria! Quando Rita se sentou, pegou o microfone e começaria a falar… Imaginem: de novo, tudo virou breu! A energia foi embora! “Mas será o Benedito”, pensei cá com meus botões.

Rita Batista, ainda assim, não perdeu o rebolado: brincou com a situação e retornou para o camarim. Minutos depois, sem previsão de restabelecimento da energia, fomos orientados a nos dirigirmos ao Café Literário, no segundo andar, onde ocorreriam as palestras e a tão esperada sessão autográfica.

Antes de dirigir-me ao Café Literário, pude observar que os livros haviam chegado (milagre!) e estavam à venda. Peguei uma pequena fila (“furei”, melhor dizendo, dado o meu sexagenarismo) e comprei meu presente. Agora, sim, tudo finalmente estava começando a dar certo! Ufa! Ufa! Ufa!

Foto: Reprodução / Internet
O esperado bate-papo ocorreu em mesa composta por Rita, Alan e Cristina, intitulada “A insustentável leveza do ser”, o que me remeteu ao livro de mesmo nome do escritor tcheco Milan Kundera. O poeta Alan declamou alguns belos e encorajadores poemas, além de fazer emocionante relato do parto da esposa, quando ela trouxe à luz a menina Serena. Rita, por seu turno, animadíssima e irreverente, brincou, cantou e encantou o público presente naquele espaço, cuja lotação chegou ao máximo.

E a sessão de autógrafos? Creiam, não seria ali. Fomos para um grande salão ao lado, com grades de ferro que formavam um labirinto, para que as pessoas não aglomerassem juntos aos escritores. Tudo certo, “no padrão
”, como dizemos. Na minha condição de sexagenário, adiantei-me um pouco na fila de espera. Só um pouco mesmo, já que havia outra para idosos. Eu preferi ficar na muvuca.

Finalmente, chegou a minha vez. Uma moça, que ajudava na organização, ofereceu-se para filmar e fotografar, o que me livrou de fazer selfies malfeitas. Pronto, missão cumprida e muitíssimo feliz. Amei as fotos e o vídeo, sobretudo a saga, o que me inspirou esta crônica. Ufa! Ufa! Ufa!


André Batista e Novais Neto. Dique do Tororó, Salvador, Bahia. Foto: André Batista.


sábado, 2 de março de 2024

“Vous êtes analphabète?”

La réponse douce détourne la fureur, mais la parole dure suscite la colère. (Proverbes 15:1).

Ce samedi devait être ma journée de congé, mais une collègue, pour une raison quelconque, ne pouvait pas assurer sa permanence et je me suis engagé à la remplacer. Je suis parti tôt de chez moi. Comme je vis relativement près du lieu de travail, j’ai décidé d’y aller à pied, étant donné que le jour a débuté de manière agréable et accueillante.

Dans mon itinéraire se trouvait le Dique do Tororó, un véritable paradis avec son miroir d’eau majestueux reflétant les arbres luxuriants qui l’entourent. Et bien sûr, j’allais profiter de l’occasion pour faire mon “voyage” mental, “écrire” mes chroniques et contes, réciter à voix basse mes vers. Et c’est ce que j’ai fait.

Dique do Tororó - Salvador - Bahia - Brésil. Photo: Novais Neto.
Arrivé sur le site de mon labeur, au Service de Libération des Véhicules Saisis de Transalvador*, à 9 heures, l’accueil au public a commencé. J’étais déjà là, prêt à l’un des guichets, quand un homme et une femme bien habillés sont entrés, encore humides de leurs cheveux, leurs parfums embaumant agréablement tout l’environnement.

Le monsieur s’est dirigé vers mon bureau. Je l’ai salué, et lui, sans même me regarder, m’a répondu sèchement. Et de manière grossière, il a pratiquement jeté sur le comptoir le Formulaire de Saisie de Véhicule. Comme c’est la routine dans ce type de service, je lui ai demandé les documents du véhicule et le permis de conduire, quand j’ai entendu ces questions sonores et inattendues en guise de réponse:

— Vous êtes analphabète? Vous ne savez pas lire, hein?

J’ai inspiré profondément, baissé légèrement la tête et, avec beaucoup de calme que je ne sais d’où j’ai trouvé, je lui ai dit posément:

— Citoyen, vous êtes la première personne que j’assiste aujourd’hui. C’était le tour d’une collègue qui n’a pas pu venir. Vous n’avez rien à voir avec ça. Mais c’est tellement dommage que notre journée commence de cette manière. Donc, je vous demande les documents du véhicule et votre permis de conduire, s’il vous plaît.

— Le document de la voiture, vous l’avez aussi saisi.

À cela, il avait raison. Par négligence de ma part, je n’ai même pas remarqué que l’agent ayant émis le formulaire de saisie avait noté que le document du véhicule était annexé, c’est-à-dire qu’il avait été récupéré. Je suis alors allé au casier où se trouvent ces documents, j’ai pris le dossier et suis retourné calmement à l’accueil, quand cet homme a de nouveau pris la parole, cette fois-ci d’une manière un peu éduquée, peut-être pour exprimer des regrets pour les paroles acerbes qu’il m’avait adressées:

— Excusez-moi. Vous n’y êtes pour rien. Si ma voiture a été saisie, c’est exclusivement de ma faute, j’ai omis de payer la taxe de circulation. Et imaginez, lors de la première interaction de la journée, vous recevoir un “cheval devant”**?

Illustration: Adriel Santos. 2022.
— Non. Ce n’est pas ainsi que je le vois. Vous n’êtes pas un cheval**. Si j’étais à votre place, sans aucun doute, je serais contrarié, peut-être que je n’agirais tout simplement pas de cette façon. Mais bon, tout est bien, tout est pardonné, tout est réglé, ai-je répliqué, et il a continué:

— Avant de retirer ma voiture, j’aimerais la voir d’abord. Puis-je?

— Bien sûr.

Comme c’est aussi la procédure, je pouvais lui donner une autorisation pour qu’il la présente à l’agent responsable de la fourrière où sont entreposés les véhicules saisis, afin qu’il puisse voir sa voiture. Je ne l’ai pas fait. J’ai préféré l’accompagner moi-même. Arrivés là-bas, il a examiné attentivement son véhicule et nous sommes retournés à l’accueil, où j’ai émis un avis de paiement des frais de remorquage et de séjour.

Il est sorti pour payer. Quelque temps plus tard, il est revenu et je suis retourné au parking avec lui pour libérer la voiture. En chemin, il m’a de nouveau présenté mille excuses et a dit que ce n’était pas son comportement habituel. Cela a peut-être été le reflet d’une journée de travail épuisante dont il est victime, étant l’un des ingénieurs civils d’entreprises de construction, responsable de la construction de l’Arena Fonte Nova, avec des délais serrés pour sa conclusion. Et j’ai essayé de le comprendre d’une certaine manière.

La vie nous confronte à de multiples moments comme celui-ci pour tester notre patience d’une certaine manière. Si nous rendons les coups que nous recevons, ce ne sera certainement pas la meilleure option, car agir ainsi ne nous rapportera que des ressentiments, des rancœurs et des regrets.

Si cet auteur, d’autre part, avait agi différemment, il est certain que cette chronique n’existerait pas et, qui sait, elle ne servirait même pas, dans l’éventualité, de réflexion pour celui qui en aurait pris connaissance et déciderait de la mettre en pratique. De plus, et enfin, l’enseignement de la sagesse et du bon sens exprimé dans la célèbre phrase du poète maranhense*** Ferreira Gullar prévaudra souvent pour moi: “Il vaut mieux être heureux que d’avoir raison.”

[
Traduit en français par Diego Steeg et Celo Costa. Chronique originale en lanque portugaise disponible sur: https://www.novaisneto.com/2022/06/um-cavalo-pela-frente.html.]

Observations:

* Transalvador: La Surintendance de la Circulation de Salvador (Transalvador) est un établissement municipal relevant de la Mairie de Salvador, ayant pour mission de gérer le système de circulation de la municipalité, les parkings publics et d’exécuter les activités prévues par le Code de la Route Brésilien.

** “un cheval devant”: Dans la langue de l’auteur, le cheval désigne aussi une personne stupide, mal éduquée ou alors grossière.

*** maranhense: Fais référence à une personne originaire de l’état brésilien de Maranhão.

Réseaux sociaux de l’auteur:

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quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Minha cidade tem nome e sobrenome

Vista aérea do centro de Santa Maria da Vitória (BA). Foto: Hermes Novais.
Tempos atrás, fui a um órgão público do Estado da Bahia, aqui em Salvador, dar entrada num processo de registro de empresa, fazendo gentileza ao amigo coribense, o contador Gilson Rocha. Segundo ele, presencialmente, o evento seria mais rápido. Assim o fiz e recebi um protocolo com data determinada para retorno.

Na data aprazada, fui ao mesmo local e, por desfrutar das benesses do meu sexagenarismo, o atendimento foi rápido até chegar a uma senhora num guichê. A servidora pegou meu protocolo e passou para outra pessoa na retaguarda, a fim de que esta localizasse o referido processo.

Enquanto eu esperava, outro cliente era atendido. Minutos depois, a localizadora de processo deu o ar da graça. E, em voz alta e clara, 
para que todos naquele recinto ouvissem, fez um questionamento que entendi reprovável:

— Quem é o responsável por um processo da cidade de Santa Maria “não sei das quantas”?

No mesmo tom de voz e dando a devida ênfase, repreendi, sem ser tosco:

— Epa! Alto lá! Santa Maria “não sei das quantas”, não. Minha cidade tem nome e sobrenome: Santa Maria da Vitória, por favor!

Quase todos os usuários, naquela sala, voltaram seus olhares para mim, que estava de pé. Alguns aplaudiram, outros fizeram sinal de positivo e os funcionários olharam-me com cara de surpresa, e entreolharam-se interrogativos. Fiquei receoso, a imaginar que a partir daquele momento o atendimento pudesse ser mais exigente e protelatório.

O dito processo então foi passado para a primeira atendente, que amavelmente pediu-me desculpas, a justificar que se tratava de servidora incipiente, sem experiência no trato com o público. Certo é que tudo foi bem rápido, provavelmente, para se livrar de usuário pouco amistoso.

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Como descobri o que significa BBMP

Neste pequeno conto, publicado no Matutar Notícias e republicada neste blog, revelo como fiquei sabendo o que significa a sigla BBMP, até então misteriosa para mim.

Ano de 2017, final do Campeonato Brasileiro da Primeira Divisão, fui à Arena Fonte Nova assistir ao jogo Bahia e Chapecoense, e ver a nova Chape, pós-tragédia ocorrida na Colômbia, em novembro de 2016, para fazer algumas fotos, como de hábito, por tratar-se de prazeroso hobby.

Já dentro do estádio, após alguns cliques, despertou-me a atenção uma grande e destacada faixa afixada acima de um dos placares eletrônicos com letras maiúsculas – BBMP – e um escudo do Bahia do lado esquerdo. Tentei associá-las, sem sucesso, à sigla de algum banco patrocinador como, por exemplo, o BBV (Banco Bilbao Vizcaya), o único que me veio à mente na ocasião.

Resisti quanto pude pedir ajuda a algum torcedor. Decidi, no entanto, mesmo receoso de confessar minha insciência clubística ou chamar atenção das pessoas por perto, perguntar a um garoto de seus presumíveis dez anos de idade, sentado ao meu lado direito:

— Meu amiguinho, o que quer dizer aquelas letras acima do placar, BBMP? Você sabe?

Aquele simpático e esperto garotinho virou o rosto para o lado oposto e falou com um cidadão com uniforme do Bahia, a demonstrar aparente indignação ante minha ignorância futebolística:

Foto: Novais Neto. 2017
— Opaí, meu pai, opaí. Ele aqui num sabe o que é BBMP, não.

E, em voz alta, desenvolveu para mim, pausadamente, a emblemática sigla, que me houvera dado curto-circuito nos neurônios:

— Bora, Bahêa, Minha Porra! Tá sabendo agora, meu tio, o que é BBMP?

— Agora, tô, meu amiguinho. Obrigado. Pensei que fosse sigla de um banco.

— Opaí! De novo! Que banco, que nada, meu tio?! Demorô! É mô Bahêa, meu Esquadrão de Aço!

E para arrematar com chave de ouro, digo melhor, com chave de Aço, aquele menino levantou-se, ergueu os braços e, entusiasticamente, vociferou seu grito guerra, que coincidiu com placar eletrônico a anunciar a escalação do Tricolor de Aço, o seu Esporte Clube Bahia, para explosão da delirante galera:

— Booora, Bahêêêa, Minha Pooorra! Booora, Bahêêêa! Booora! Bora! Bora!

Foto: Novais Neto. 2017.
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Em tempo: Conto, revisto e ampliado, publicado originalmente no site Matutar Notícias em 12/4/2018, onde pode ser acessado através do link a seguir e, se desejar, ler alguns comentários alusivos a ele: https://www.matutar.com.br/arte-e-cultura/o-dia-que-conheci-o-bbmp/.

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Soterópolis, meu amor

Para comemorar meus 45 anos de chegada a Salvador, completados em 1º de agosto deste ano, achei por bem republicar esta crônica aqui no blog, uma vez que a mesma já foi divulgada no jornal on-line do Correio da Bahia, em 29/03/2017, por ocasião do 468º aniversário da cidade, quando, naquele ano de 2017, completei 40 anos de acolhida nesta bela Soterópolis.

*  *  *

Há muito planejei escrever esta crônica para demonstrar minha gratidão e amor a Salvador, cidade que me adotou por filho. O tempo, no entanto, foi passando indiferente a tudo e a todos, e somente agora, março de 2017, vi inadiável minha promessa, bem próximo de completar, em agosto vindouro, 39 anos de vida soteropolitana. Portanto, tempo suficiente para sentir-me filho de Soterópolis.

Lembro-me, como toda nitidez e emoção, das primeiras imagens da Bahia – como muitos ainda se referem à Capital baiana lá na minha terra natal, minha reverenciada e amada Santa Maria da Vitória –cujas paisagens pueris também permanecem bem vivas em minhas reminiscências.

Era uma segunda-feira, primeiro dia do mês de agosto de 1978, dois dias após o Bahia haver enfrentado o Palmeiras pelo Campeonato Brasileiro daquele ano, 30 de julho, quartas de final, quando o resultado da partida, 1 x 1, classificou o time paulista para a fase seguinte. Douglas fez 1 x 0 para o Bahia e o alviverde Toninho empatou.

Cheguei pela manhã, depois de quase 20 horas de viagem. Naquele tempo, tínhamos que ir até Bom Jesus da Lapa, distante 84 km, para tomar o ônibus que, se não quebrasse, chegaria a Salvador de manhãzinha. Felizmente, tive sorte porque tudo aconteceu como previsto.

Fui direto para a Casa do Estudante de Santa Maria da Vitória, no bairro de Nazaré. Renan, meu primo, que já morava aqui há uns dois anos, apressou-se a mostrar-me a Capital. Levou-me, primeiramente, à Fonte Nova, quando pude ver o palco da batalha de dois dias atrás. Eu havia escutado o jogo pela Rádio Globo porque, à época, minha cidade não dispunha de sinal de tevê.

Depois, mostrou-me a praça do poeta, cantarolando “A Praça Castro Alves é do povo / Como o céu é do avião / [...]”. Na música, inclusive, a criatividade de Caetano Veloso introduziu ao poema “O povo ao poder” o nome do seu autor, uma vez que os versos de Castro Alves dizem o seguinte: “A praça é do povo / Como o céu é do condor [...]”.

Logo após ter-me encantado com tanta coisa bonita, uma imagem continua única: a Baía de Todos os Santos vista do Elevador Lacerda. Para quem nasceu aqui e todos os dias a vê, nem percebe sua grandiosidade. É algo majestoso, encantador, estupidamente deslumbrante. Até hoje revejo aquela paisagem como se tudo tivesse acontecendo no exato momento.

Elevador Lacerda. 1980. Foto: José Gregório Nepomuceno.





Morei na Casa do Estudante de Santa Maria da Vitória por mais de seis anos. Lá consolidei velhas amizades e fiz novas. Aprendi a viver em grupo e, sobretudo, labutar com gente, o que é extremamente difícil, mas que tem suas recompensas. Passei por um relacionamento que não deu certo, todavia deixou-me um celestial presente: minha filha Lara, de 21 anos.

Durante estas quase quatro décadas, conquistei muitos amigos. Salvador é uma terra maravilhosa de um povo camaradeiro, irreverente, trabalhador e – nem precisa dizer – extremamente festivo. Muitos até hoje, ex-colegas do Baneb, principalmente, chamam-me tabaréu. Entretanto, jamais percebi neste tratamento qualquer sinal de discriminação ou menosprezo. A verdade é que, também, assumo-me como tal e gosto de sê-lo, não vendo, portanto, nada que me inferiorize. Só sei que, como tabaréu, tenho conquistado admiração e respeito, e isto já me faz muito bem.

Vista do Banco do Estado da Bahia, década de 1980.
Dentre tantos e tantos amigos soteropolitanos, Rasta Man é um deles. Aliás, ter o apelido de Rasta por aqui não é guardar anonimato, já que ser um rastafári é algo bem comum entre os afrodescendentes baianos. Este, no entanto, a que me refiro, é minha corrente, cheio de gíria, alegre, comunicativo, sangue bom, definindo-o melhor.

Certa feita, encontrei Rasta a subir a Ladeira da Preguiça como se trouxesse às costas todo o peso do mundo, tal qual o titã Atlas. Embora me tenha dito estar com bastante pressa, não parecia nenhum pouquinho. Parou e, com um sorriso bem maior que a própria boca, cumprimentou-me festivamente:

— Qualé a de mermo, minha cor? Tava mermo querendo te ver. Tem uma pra te contar! Tá ligado, papá, naquele chegado nosso? Tá levando o maior virote da patroa! Opaí, bróder, cumé que pode! Fiquei virado, pai!

— É mesmo, rapaz!

— E num é, não, papá?! Me deixe queto, viu! Depois te conto, nego veio.

A irreverência, o bom humor, a festividade estão estampados nos olhos e nos gestos dos salvadorenses. Porventura, deixam escapar palavrões, a possível conotação chula é diminuída e disfarçada pelo sotaque bonito e manhoso, sempre carregado de poesia.

Isto me faz lembrar, certa vez, quando passava de automóvel perto de um desses muitos campinhos improvisados em gramados de praças, cuja bola chutada por um dos jogadores foi parar na meio pista. Reduzi a velocidade do carro e um garoto a pegou. Lá do meio do campo, veio-me o agradecimento:

— Brigado, pareia! O bróder aí é sangue bom!

Entre tantas e tantas irreverências do povo desta terra, uma é impagável. Eu e meu primo Renan, ainda estudantes da Universidade Federal da Bahia, voltávamos para casa, quando o ônibus em que estávamos, Federação–Praça da Sé, já se aproximando do fim de linha, teve que parar bruscamente.

Muito apressado e sisudo como sempre, Renan achou logo de ficar em pé no corredor, com as mãos soltas, bem próximo da porta de saída. Atrás dele, portou-se um guarda-roupa: um rasta de quase dois metros de altura e corpanzil sarado.

O ônibus arrancou bruscamente e meu primo, desatento, foi atirado para trás, rumando o traseiro no baixo ventre do negão, que exclamou com a boca do tamanho do mundo, arrancando risos de deboche dos passageiros:

— Eta porra, se tivesse dura, tinha quebrado!

Renan, com a cara mais fechada ainda e com o zoião bem arregalado, limitou-se a olhar para trás, sorrir timidamente e sair – de fininho – como se não fosse ele o motivo de incontroláveis gargalhadas naquele transporte coletivo.

E eu? Eu fiquei quietinho, sorrindo pelo canto da boca com medo de Renan se virar contra mim, só porque teria achado graça em algo tão sem graça... para ele, claro!

Salvador (BA), 23 de março de 2017.

Referências:

NOVAIS NETO. Soterópolis, meu amor. Disponível em: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/novais-neto-soteropolis-meu-amor/. Acesso em: 23 ago. 2023.

Quem sou

Raimundo Neto, radialista

Anos atrás, exatamente no dia do meu aniversário, 24 de outubro, recebi um áudio da poesia “A doce química do seu olhar volátil”, do amigo R...