domingo, 14 de janeiro de 2024

Ubirajara, o coronel mnemônico setaco

Quando o conheci, ele ainda era meninote de seus 12 anos de idade, filho de seu Clero e dona Mima, vindo de Itapetinga, a carregar o nome de um guerreiro: São Jorge. Era colega da minha irmã Nena, do primeiro ano ginasial, no Centro Educacional Santamariense (sic), que nós insistíamos chamar Ginásio Comercial. Eu cursava, à época, o segundo ano na mesma escola, que ficava pertinho da casa de seus pais, no mesmo logradouro, Rua Coronel Clemente de Araújo Castro, nome de um ex-prefeito.

Jorge ou Bira, já que seu nome é Jorge Ubirajara Pedreira, vira e mexe, estava na minha sala a conversar com as irmãs Maria Cristina e Maria Cláudia Lisboa Borba, amigas e vizinhas dele. De tanto isso acontecer, ele até aparece em uma foto da turma, de 1974, por ocasião de festejos juninos. Ele está indicado por uma seta e eu, a usar um chapeu de vaqueiro, amarelo.

Alunos do Ginásio Comercial de Santa Maria da Vitória. 1974.
Foi cursando o ginasial que Jorge Ubirajara, dono de nariz aquilino, irmão gêmeo do meu, recebeu o sugestivo apelido do personagem infantil Topo Gigio, simplificado pelos colegas, virou apenas Topa. Topa de Seu Clero e Dona Mima.

Além de sempre nos encontrarmos em sala de aula, ainda havia as aulas de Educação Física no campão, no então Estádio Wilson Barros, que depois foi renominado para Turíbio de Oliveira e, acompanhando o modismo futebolístico, virou Turibão, tão somente. Quando não era neste local, era num campinho que ficava na saída para Correntina, nas imediações do atual Centro de Abastecimento.

Vez ou outra, as aulas de ginástica eram realizadas no pátio do colégio, ministradas pelo genial professor de Matemática, Tércio Santana, Tutes, também meio-campista do Monte Castelo e da seleção santa-mariense. Nesta época, a escola não tinha quadra e as vezes tínhamos que ir para a quadra de Chiquinho, Francisco Alves da Silva, ex-prefeito da cidade, localizada nas proximidades da atual sede do Juizado de Pequenas Causas.

Isso não era bom, vivíamos que nem cigano: um dia num lugar, outro dia em outro, e muitos colegas acabavam perdendo aula. Não sei quem foi, mas alguém teve a ideia de nós mesmos ajudarmos na construção de uma quadra no colégio. E outro sugeriu que, nos dias de aula, levássemos pedra para começar a obra.

A ideia, que parecia boa, virou problema. É que ninguém, certamente, traria pedra de casa, iria, sim, catando pela rua. Muitos fizeram isso, outros, entretanto, viram uma construção por perto e levaram todas as pedras que podiam ser carregadas. No mesmo dia, o proprietário foi reclamar com a Direção do colégio, e a então diretora, dona Nena, nos fez devolver todas, até mesmo as encontradas pelo caminho. No entanto, apesar desse hilário acontecimento, a quadra virou realidade.

Ninguém queria mais perder aula de Educação Física. Por outro lado, se Tutes não pudesse ir, o italiano Ascenzo Venditti, Padre Enzo, marcava presença e nos ensinava exercícios respiratórios e de alongamentos, coisas nunca vistas por nós. Foram bons tempos de jogos de futebol de salão, ginástica e basquetebol. Tutes, nosso educador físico, montou dois times de basquete: um da própria escola e outro do Colégio Gonçalves Ledo, que rivalizavam, além de alguns times de futsal.

Topa fazia parte do time de basquete, e eu também. Nos treinos, tinha que ter uma bola só para ele, era fominha demais e “delegado”. Gostava de tentar cestas miraculosas que às vezes davam certo. Quando não davam, tomava bronca dos companheiros, mas tudo terminava em riso e gozação.

Há, dessa época, um acontecimento que não chegou a ser trágico e, hoje, tornou-se risível. Todas as manhãs das segundas, quartas e sextas, às 5 horas, enquanto esperávamos pelo professor Tutes, na frente do colégio, sempre aparecia algum colega distribuído pão quentinho. Todo mundo comia, nem que fosse um taquinho, inclusive Topa. E ninguém nem queria saber a origem do milenar alimento.

Dias depois, veio a reclamação de Tutes. É que alguém estava pegando os sacos de pães que o entregador deixava nas janelas das casas, como era hábito, inclusive da janela de Seu Clero, pai de Jorge. E aí veio o boato assustador: Seu Clero estava à espera do espertinho com uma espingarda de sal grosso. Desse dia em diante, alguns mudaram de calçada e outros mudaram até de rua.

Durante todo o curso ginasial foi isso. Eu continuei o segundo grau em Santa Maria, no mesmo colégio, cursando Técnico em Contabilidade. No ano de 1978, mês de agosto, mudei-me para Salvador, indo morar na recém-fundada Casa do Estudante de Santa Maria da Vitória (Caes), localizada na Av. Joana Angélica, em frente ao Sesc. Topa chegou logo depois, a portar uma carta de apresentação, que foi exposta no mural da Casa pelo então presidente, o saudoso amigo Fernando Rosa Santana.

A carta era dispensada, já que cabia aos próprios estudantes, especificamente, a Direção, admitir novo morador a depender da existência de vaga, o que, naquele momento, não foi problema, mesmo já tendo a casa mais de 30 moradores secundaristas, pré-vestibulandos e universitários. Decorei a tal missiva, por gozação, e a transcrevo, a seguir, mesmo passadas mais de quatro décadas:

Reprodução da carta do Prefeito Tito Soares a Fernando Santana. 1978.
Pronto. O rapaz recomendadíssimo estava admitido, e não decepcionou nem o prefeito nem a nós, moradores da Caes, pelo contrário, só veio mesmo a somar. E muito.

No ano seguinte, 1979, houve eleições para escolha da nova Direção da Casa. Tito Gardel do Prado e eu fomos eleitos para presidente e vice-presidente, respectivamente. O primeiro, no entanto, aprovado que foi em concurso do Banco do Brasil, retornou a Santa Maria, e eu assumi em seu lugar. Eu também fui aprovado em concurso do Baneb (1979) e vestibular de Arquitetura (1980), na UFBA, e teria de ficar por aqui mesmo.

Não foi fácil, mas com a ajuda dos que queriam crescer na vida, dos que sonhavam com novos horizontes, as coisas foram facilitadas, inclusive por Jorge, que foi, juntamente com José Gregório, meus secretários de alimentação. Nesta ocasião, Jorge era estudante do Colégio da Polícia Militar. E dessa época, também, há um inapagável acontecimento, pelo menos para mim.

Caderno com anotações da Casa de Estudante de Santa Maria da Vitória. 1979.
Uma das vantagens em morar na Casa era que, no que se refere às disciplinas escolares, ninguém ficava com dúvida em algum assunto. Sempre havia alguém que sabia e ajudava a esclarecer. Neste grupo, no qual me incluo, além de Renan, Gregório, dentre outros, para as disciplinas Matemática, Química e Física eram as que mais nossos colegas pediam socorro.

Certa vez, véspera de uma prova de Matemática, do Colégio da Polícia Militar, cujo assunto era Trigonometria, Jorge me pediu ajuda porque não estava conseguindo memorizar, quando seno, cosseno e tangente eram positivo ou negativo nos quadrantes de um círculo trigonométrico. Ensinei-lhe direitinho, utilizando-me de um recurso mnemônico facilitador da decoreba.

— Olha, Jorge, construa um quadro com 3 colunas e 2 linhas. Em cima, coloque, nesta ordem: seno, tangente e cosseno (SeTaCo), e não na ordem como a gente aprende nas aulas — frisei bem e continuei — e, na linha de baixo, escreva os números 12, 13 e 14. E disse mais:

Círculo trigonométrico e quadro mnemônico. Elaboração: Novais Neto.
— Feita a tabela, isso significa que seno é positivo no primeiro e segundo quadrantes; tangente, no primeiro e terceiro; e cosseno, no primeiro e quarto. Nos demais quadrantes, os faltantes, eles são negativos obviamente, assim: como seno é positivo no primeiro e quarto quadrantes, é negativo no segundo e terceiro; como tangente é positivo no primeiro e quarto, é negativo no segundo e terceiro; como cosseno é positivo no primeiro e quarto, é negativo no segundo e terceiro — e finalizei as dicas mnemônicas com o tradicional “entendeu, Topa?”.

Topa saiu sorridente, dando pinotes de alegria, a parecer um meninão, e soltou a voz:

— Agora, vou matar a pau! — e foi para o quarto estudar mais. A prova seria no outro dia, na parte da manhã.

Por volta do meio-dia, do dia seguinte, ele me encontrou, agradeceu e disse:

— Matei a pau, Nó. O professor botou umas três questões do assunto.

Os dias passaram e, num deles, Jorge chegou revoltado, me xingando todo, dizendo que eu havia lhe ensinado errado, e que aquele negócio de SeCoTa estava errado, e que deu tudo ao contrário, e coisa e tal. O homem estava uma fera, coisa rara.

Tomei um susto e repeti, pausadamente, o que ele me disse:

— Se… Co… Ta, Topa? Eu lhe falei Se… Ta… Co. Esqueceu? Pirou de vez, foi? Olhe no seu caderno e veja o que está escrito. Meu Deus do céu, por isso se deu mal!

Jorge nem fez isso. Levou apenas as mãos à cabeça e saiu cabisbaixo. Quem estava presente e conhecia o assunto, não deixou de sorrir. De vez em quando, alguém, relembrando o ocorrido, lhe chamava de Secota, mas o apelido não vingou. Muitos, certamente, já esqueceram tal episódio… Menos eu.

Já como aspirante da PM baiana, nos duros anos de 1980, quando as greves eram reprimidas com toda força, num desses momentos, eu, empregado do Baneb, e Renê, primo e morador da Casa do Estudante, funcionário do Banco Econômico, encontramos Jorge a comandar a Cavalaria num desses embates no bairro do Comércio. Ele já não morava mais na residência estudantil.

Renê, sempre muito brincalhão, em tom de graça, lhe advertiu:

— Deixa quando você descer desse podói, desse pangaré feio, e for ver a gente na Casa do Estudante, cê vai ver  que é bom pra tosse. Não foi isso que nós lhe ensinamos — Jorge apenas abriu um largo sorriso, pois conhecia muito bem o bom humor e as brincadeiras de René.

O menino Jorge de Seu Clero e Dona Mina cresceu, progrediu e retornou a Santa Maria da Vitória, nossa querida Samavi, já como Capitão Ubirajara. Ficou por lá algum tempo e voltou a Salvador, porém sempre retornando em suas férias.

Novais, Jorge e Glécia Almeida. 2016.
No ano de 2016, por ocasião do aniversário de Santa Maria da Vitória, 26 de junho, encontramo-nos num evento na Câmara dos Vereadores. Eu, para receber a Medalha do Mérito Literário Osório Alves de Castro e Jehová de Carvalho, e ele, Jorge Guerreiro, para receber o Título de Cidadão Santa-Mariense. O que já era de fato, de direito, se tornou.

Finalmente, a Casa do Estudante de Santa Maria da Vitória, nossa inesquecível Caes, que formou advogados, historiadores, engenheiros civis e químico, educadores, administradores, analista de sistema, educador físico, geólogo, médica veterinária, agrônomo, químico analista, contador, dentre outros, tem agora seu coronel, coronel “cheio”, que atende pelo nome de Jorge Ubirajara Pedreira, para muitos. Para nós, seus amigos mais “chegados”, de infância, ele é simplesmente Coronel Topa. Agora e Sempre! [Atualmente, com méritos e honrarias, desfruta sua aposentadoria].

Praça do Jacaré: Hermes, Renan, Novais Neto e Jorge. 1980.

Em tempo:

Esta crônica foi publicada no Matutar em 16/5/2017, onde também está disponível no link: https://www.matutar.com.br/comportamento/coronel-mnemonico-setaco/. Acesso em: 14/1/2024.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Minha cidade tem nome e sobrenome

Vista aérea do centro de Santa Maria da Vitória (BA). Foto: Hermes Novais.
Tempos atrás, fui a um órgão público do Estado da Bahia, aqui em Salvador, dar entrada num processo de registro de empresa, fazendo gentileza ao amigo coribense, o contador Gilson Rocha. Segundo ele, presencialmente, o evento seria mais rápido. Assim o fiz e recebi um protocolo com data determinada para retorno.

Na data aprazada, fui ao mesmo local e, por desfrutar das benesses do meu sexagenarismo, o atendimento foi rápido até chegar a uma senhora num guichê. A servidora pegou meu protocolo e passou para outra pessoa na retaguarda, a fim de que esta localizasse o referido processo.

Enquanto eu esperava, outro cliente era atendido. Minutos depois, a localizadora de processo deu o ar da graça. E, em voz alta e clara, 
para que todos naquele recinto ouvissem, fez um questionamento que entendi reprovável:

— Quem é o responsável por um processo da cidade de Santa Maria “não sei das quantas”?

No mesmo tom de voz e dando a devida ênfase, repreendi, sem ser tosco:

— Epa! Alto lá! Santa Maria “não sei das quantas”, não. Minha cidade tem nome e sobrenome: Santa Maria da Vitória, por favor!

Quase todos os usuários, naquela sala, voltaram seus olhares para mim, que estava de pé. Alguns aplaudiram, outros fizeram sinal de positivo e os funcionários olharam-me com cara de surpresa, e entreolharam-se interrogativos. Fiquei receoso, a imaginar que a partir daquele momento o atendimento pudesse ser mais exigente e protelatório.

O dito processo então foi passado para a primeira atendente, que amavelmente pediu-me desculpas, a justificar que se tratava de servidora incipiente, sem experiência no trato com o público. Certo é que tudo foi bem rápido, provavelmente, para se livrar de usuário pouco amistoso.

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Como descobri o que significa BBMP

Neste pequeno conto, publicado no Matutar Notícias e republicada neste blog, revelo como fiquei sabendo o que significa a sigla BBMP, até então misteriosa para mim.

Ano de 2017, final do Campeonato Brasileiro da Primeira Divisão, fui à Arena Fonte Nova assistir ao jogo Bahia e Chapecoense, e ver a nova Chape, pós-tragédia ocorrida na Colômbia, em novembro de 2016, para fazer algumas fotos, como de hábito, por tratar-se de prazeroso hobby.

Já dentro do estádio, após alguns cliques, despertou-me a atenção uma grande e destacada faixa afixada acima de um dos placares eletrônicos com letras maiúsculas  BBMP  e um escudo do Bahia do lado esquerdo. Tentei associá-las, sem sucesso, à sigla de algum banco patrocinador como, por exemplo, o BBV (Banco Bilbao Vizcaya), o único que me veio à mente na ocasião.

Resisti quanto pude pedir ajuda a algum torcedor. Decidi, no entanto, mesmo receoso de confessar minha insciência clubística ou chamar atenção das pessoas por perto, perguntar a um garoto de seus presumíveis dez anos de idade, sentado ao meu lado direito:

— Meu amiguinho, o que quer dizer aquelas letras acima do placar, BBMP? Você sabe?

Aquele simpático e esperto garotinho virou o rosto para o lado oposto e falou com um cidadão com uniforme do Bahia, a demonstrar aparente indignação ante minha ignorância futebolística:

Foto: Novais Neto. 2017
— Opaí, meu pai, opaí. Ele aqui num sabe o que é BBMP, não.

E, em voz alta, desenvolveu para mim, pausadamente, a emblemática sigla, que me houvera dado curto-circuito nos neurônios:

— Bora, Bahêa, Minha Porra! Tá sabendo agora, meu tio, o que é BBMP?

— Agora, tô, meu amiguinho. Obrigado. Pensei que fosse sigla de um banco.

— Opaí! De novo! Que banco, que nada, meu tio?! Demorô! É mô Bahêa, meu Esquadrão de Aço!

E para arrematar com chave de ouro, digo melhor, com chave de Aço, aquele menino levantou-se, ergueu os braços e, entusiasticamente, vociferou seu grito guerra, que coincidiu com placar eletrônico a anunciar a escalação do Tricolor de Aço, o seu Esporte Clube Bahia, para explosão da delirante galera:

— Booora, Bahêêêa, Minha Pooorra! Booora, Bahêêêa! Booora! Bora! Bora!

Foto: Novais Neto. 2017.
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Em tempo: Conto, revisto e ampliado, publicado originalmente no site Matutar Notícias em 12/4/2018, onde pode ser acessado através do link a seguir e, se desejar, ler alguns comentários alusivos a ele: https://www.matutar.com.br/arte-e-cultura/o-dia-que-conheci-o-bbmp/.

terça-feira, 3 de outubro de 2023

A volta do pai coruja

— Painho, o senhor sabe como é o nome de tio Vando?

Normalmente, começa assim: ela me faz uma pergunta para dar início ao bate-papo e, aí surgem coisas impagáveis, que até reluto em transpô-las para o papel com receio de parecer corujice piegas. Mas... se sou um “pai coruja”, porque esconder tais denguices?

Fernando Pessoa, poeta português, afirma em uma de suas tantas belas poesias que “Todas as cartas de amor são / Ridículas, / Não seriam cartas de amor se não fossem / Ridículas”. Do mesmo modo – acredito –, eu não seria pai se não escrevesse “corujices ridículas”, porque “cartas de amor ridículas” escrevi um sem-número. Dessa forma, que me perdoem os mais sensatos e moderados, os não corujas.

De retorno à pergunta de Lara, protagonista desta crônica (mais uma vez, veja só!), lhe respondi e perguntei ao um só tempo:

— Sei, sim, Lara. Por quê?

— Então me diz, painho.

— Não, Lara. Não vou dizer. Quero que você diga. Quero ver se você sabe mesmo como é o nome dele.

— Painho, o nome dele não é Vando, não! O nome dele é outro. Eu vi ele dizer no telefone para uma pessoa. Eu fiquei até com vergonha e com muita vontade de rir, cheguei a sair correndo da sala.

— Mas, por que, Lara? O nome dele é tão feio assim ou é engraçado?

— Não, painho, não é nada disso. Esses nomes a gente não fala pras pessoas da rua, não. A gente fala dentro de casa, brincando. Sabia?

— É mesmo, Lara? E que nome é esse? Como é mesmo o nome dele, então? Fala aí, vai.

— Ah, painho, eu não vou dizer, não, tenho vergonha.

— Diga, Lara. Pode dizer – insisti.

— Vandnaldo Valeijo Pinto. “Pinto”, painho, ele falou “pinto”. “Pinto” não é nome de gente, painho, e ele ainda não tem vergonha de falar com uma pessoa da rua pelo telefone. Fiquei com vergonha!

— Mas, minha filhotinha, “Pinto” também é sobrenome de pessoas, não é só o apelido “daquilo”, não. Tenho amigos e colegas que também têm este sobrenome, entendeu?

— Entendi, sim, painho – e fez uma pequena pausa, saindo-se com outra, uma dedução, talvez:

— Me responde, então, painho: se o nome dele é Vandnaldo Valeijo “Pinto”, o nome de tia Isnaia [esposa de Vando] é Isnaia Valeijo “o quê”? “Pinto” também? – e abriu um belo sorriso infantil.

— Lara, o que é isso?! – ralhei.

— O que é isso o quê, painho? Então me explica, vai, me explica... – aproveitei e lhe expliquei como podem ficar os nomes das mulheres quando se casam, embora a mudança não seja obrigatória, porém consensual. E ela acenou haver entendido.

É sempre assim quando paramos para conversar, ouvir suas histórias e deduções... Sinceramente, me divirto muito. Muito mesmo. Divirto-me ainda, ante o aviso que ela me fez certa feita: “Painho, amanhã eu chamo o senhor ‘meia hora em ponto’” ou então quando lhe perguntei se havia almoçado direitinho, e ela me respondeu: “Oh, painho, eu deixei assim no prato, uns 10 centímetros de comida, só foi um pouquinho”.

Tão interessante quanto essas “tiradas”, são suas lógicas inolvidáveis no afã de entender o mundo dos adultos tão carregados de códigos e símbolos, quando me disse certa vez que quem conserta carro é “conserteiro”; quem cuida de plantas é “planteiro”; quem toma conta de porta de prédio é “portador”; quem vende carne é “carneiro”. Ela é uma invencionista mesmo, não tenho dúvida.

Dia desses, lá pelos seus 10 anos de idade, flagrei-a cantarolando, a seu modo, a música 
Amor I love you”, de Marisa Monte, que ela disse adorar:

CD Memórias, Crônicas e Declarações de Amor. 2000 . Marisa Monte.
— Amor ai nove iú. Amor ai nove iú. Amor ai nove iú...

— Lara, não é “Amor I ‘nove’ you”. É “Amor I love you”. “Love pode” significar “amo” ou “amor” em Inglês, a depender da frase. Entendeu?

— Entendi, painho. Mas “nove” também é “número” em Português. Entendeu também?

— Claro que entendi, Lara. Claro que entendi. Você está certíssima!

— E então?!... – e continuou a cantar docemente o seu “Amor ai nove iú”.

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Soterópolis, meu amor

Para comemorar meus 45 anos de chegada a Salvador, completados em 1º de agosto deste ano, achei por bem republicar esta crônica aqui no blog, uma vez que a mesma já foi divulgada no jornal on-line do Correio da Bahia, em 29/03/2017, por ocasião do 468º aniversário da cidade, quando, naquele ano de 2017, completei 40 anos de acolhida nesta bela Soterópolis.

*  *  *

Há muito planejei escrever esta crônica para demonstrar minha gratidão e amor a Salvador, cidade que me adotou por filho. O tempo, no entanto, foi passando indiferente a tudo e a todos, e somente agora, março de 2017, vi inadiável minha promessa, bem próximo de completar, em agosto vindouro, 39 anos de vida soteropolitana. Portanto, tempo suficiente para sentir-me filho de Soterópolis.

Lembro-me, como toda nitidez e emoção, das primeiras imagens da Bahia – como muitos ainda se referem à Capital baiana lá na minha terra natal, minha reverenciada e amada Santa Maria da Vitória –cujas paisagens pueris também permanecem bem vivas em minhas reminiscências.

Era uma segunda-feira, primeiro dia do mês de agosto de 1978, dois dias após o Bahia haver enfrentado o Palmeiras pelo Campeonato Brasileiro daquele ano, 30 de julho, quartas de final, quando o resultado da partida, 1 x 1, classificou o time paulista para a fase seguinte. Douglas fez 1 x 0 para o Bahia e o alviverde Toninho empatou.

Cheguei pela manhã, depois de quase 20 horas de viagem. Naquele tempo, tínhamos que ir até Bom Jesus da Lapa, distante 84 km, para tomar o ônibus que, se não quebrasse, chegaria a Salvador de manhãzinha. Felizmente, tive sorte porque tudo aconteceu como previsto.

Fui direto para a Casa do Estudante de Santa Maria da Vitória, no bairro de Nazaré. Renan, meu primo, que já morava aqui há uns dois anos, apressou-se a mostrar-me a Capital. Levou-me, primeiramente, à Fonte Nova, quando pude ver o palco da batalha de dois dias atrás. Eu havia escutado o jogo pela Rádio Globo porque, à época, minha cidade não dispunha de sinal de tevê.

Depois, mostrou-me a praça do poeta, cantarolando “A Praça Castro Alves é do povo / Como o céu é do avião / [...]”. Na música, inclusive, a criatividade de Caetano Veloso introduziu ao poema “O povo ao poder” o nome do seu autor, uma vez que os versos de Castro Alves dizem o seguinte: “A praça é do povo / Como o céu é do condor [...]”.

Logo após ter-me encantado com tanta coisa bonita, uma imagem continua única: a Baía de Todos os Santos vista do Elevador Lacerda. Para quem nasceu aqui e todos os dias a vê, nem percebe sua grandiosidade. É algo majestoso, encantador, estupidamente deslumbrante. Até hoje revejo aquela paisagem como se tudo tivesse acontecendo no exato momento.

Elevador Lacerda. 1980. Foto: José Gregório Nepomuceno.





Morei na Casa do Estudante de Santa Maria da Vitória por mais de seis anos. Lá consolidei velhas amizades e fiz novas. Aprendi a viver em grupo e, sobretudo, labutar com gente, o que é extremamente difícil, mas que tem suas recompensas. Passei por um relacionamento que não deu certo, todavia deixou-me um celestial presente: minha filha Lara, de 21 anos.

Durante estas quase quatro décadas, conquistei muitos amigos. Salvador é uma terra maravilhosa de um povo camaradeiro, irreverente, trabalhador e – nem precisa dizer – extremamente festivo. Muitos até hoje, ex-colegas do Baneb, principalmente, chamam-me tabaréu. Entretanto, jamais percebi neste tratamento qualquer sinal de discriminação ou menosprezo. A verdade é que, também, assumo-me como tal e gosto de sê-lo, não vendo, portanto, nada que me inferiorize. Só sei que, como tabaréu, tenho conquistado admiração e respeito, e isto já me faz muito bem.

Vista do Banco do Estado da Bahia, década de 1980.
Dentre tantos e tantos amigos soteropolitanos, Rasta Man é um deles. Aliás, ter o apelido de Rasta por aqui não é guardar anonimato, já que ser um rastafári é algo bem comum entre os afrodescendentes baianos. Este, no entanto, a que me refiro, é minha corrente, cheio de gíria, alegre, comunicativo, sangue bom, definindo-o melhor.

Certa feita, encontrei Rasta a subir a Ladeira da Preguiça como se trouxesse às costas todo o peso do mundo, tal qual o titã Atlas. Embora me tenha dito estar com bastante pressa, não parecia nenhum pouquinho. Parou e, com um sorriso bem maior que a própria boca, cumprimentou-me festivamente:

— Qualé a de mermo, minha cor? Tava mermo querendo te ver. Tem uma pra te contar! Tá ligado, papá, naquele chegado nosso? Tá levando o maior virote da patroa! Opaí, bróder, cumé que pode! Fiquei virado, pai!

— É mesmo, rapaz!

— E num é, não, papá?! Me deixe queto, viu! Depois te conto, nego veio.

A irreverência, o bom humor, a festividade estão estampados nos olhos e nos gestos dos salvadorenses. Porventura, deixam escapar palavrões, a possível conotação chula é diminuída e disfarçada pelo sotaque bonito e manhoso, sempre carregado de poesia.

Isto me faz lembrar, certa vez, quando passava de automóvel perto de um desses muitos campinhos improvisados em gramados de praças, cuja bola chutada por um dos jogadores foi parar na meio pista. Reduzi a velocidade do carro e um garoto a pegou. Lá do meio do campo, veio-me o agradecimento:

— Brigado, pareia! O bróder aí é sangue bom!

Entre tantas e tantas irreverências do povo desta terra, uma é impagável. Eu e meu primo Renan, ainda estudantes da Universidade Federal da Bahia, voltávamos para casa, quando o ônibus em que estávamos, Federação–Praça da Sé, já se aproximando do fim de linha, teve que parar bruscamente.

Muito apressado e sisudo como sempre, Renan achou logo de ficar em pé no corredor, com as mãos soltas, bem próximo da porta de saída. Atrás dele, portou-se um guarda-roupa: um rasta de quase dois metros de altura e corpanzil sarado.

O ônibus arrancou bruscamente e meu primo, desatento, foi atirado para trás, rumando o traseiro no baixo ventre do negão, que exclamou com a boca do tamanho do mundo, arrancando risos de deboche dos passageiros:

— Eta porra, se tivesse dura, tinha quebrado!

Renan, com a cara mais fechada ainda e com o zoião bem arregalado, limitou-se a olhar para trás, sorrir timidamente e sair  de fininho  como se não fosse ele o motivo de incontroláveis gargalhadas naquele transporte coletivo.

E eu? Eu fiquei quietinho, sorrindo pelo canto da boca com medo de Renan se virar contra mim, só porque teria achado graça em algo tão sem graça... para ele, claro!

Salvador (BA), 23 de março de 2017.

Referências:

NOVAIS NETO. Soterópolis, meu amor. Disponível em: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/novais-neto-soteropolis-meu-amor/. Acesso em: 23 ago. 2023.

Quem sou

“Matemática ultrarromântica“ na peça teatral portuguesa “Beremiz na Terra Plana“

Publicada no meu segundo livro, Ave Corrente (1991), a poesia  “ Matemática ultrarromântica ” , posteriormente, singrou mares e foi parar em...