sábado, 22 de agosto de 2020

Ibotirama: um festival de música, poesia e recordações

No mês dos tradicionais festivais de música e poesia da cidade Ibotirama, eis a crônica que lhes apresento como forma de homenagear tão belo evento. Confiram.

O ano já vai distante: 1986, quando se realizou, na Bahia, o I Festival de Poesia de Ibotirama (FEPI). Paralelamente a esse evento, aconteceu também o X Festival de Música Popular de Ibotirama (FEMPI), dos quais não tive conhecimento. Tudo isso, há 34 anos.

Naquela época, eu mo
rava em Salvador, na Casa do Estudante de Santa Maria da Vitória (CAES), já escrevia crônicas e poesias, e costumava expô-las no mural da residência, além de publicá-las no combativo O Posseiro, jornal autogestionário da minha cidade, dirigido por Joaquim Lisboa Neto, do qual fui um de seus colaboradores, assim como integrei, por algum tempo, o Conselho de Direção.

No ano de 1988, incentivado pelos estudantes moradores, fiz minha inscrição no III FEPI, com a poesia intitulada “Desventuras humanas”, que foi selecionada. Declamei-a, porém não logrei classificação para a grande final. Essa poesia, inclusive, foge um pouco a temática das demais que costumo escrever: não é românica, mas de questionamentos.

De que nos vale saber do Yang e do Yin
Se o mundo nos obriga a dizer sim?
Para que servem estruturas estabelecidas
Se sempre agimos pela exceção?
Por que você não tenta rompê-las
Ao invés de corromper-se
E diz um lacônico não?

De que nos adianta a Ciência e seus Princípios
Se seus fins não nos levam à paz?
E eu, que zorra nenhuma entendo,
Admiro as Leis do Tantra,
Inclusive uma que nos diz que o Universo
Vive em êxtase constante.
E nós, terráqueos, sub-raça errante,
Não passamos de excreta desse orgasmo,
Mergulhados no eterno marasmo
Esperando que um dia tudo vai mudar.

Vivo à espera de você, que me ignora,
E, ainda assim, não vejo a hora
De tê-la na cama, mesmo que seja na lama,
Pois acho que sou metade sem você.
Quisera ser (ir)racional ou, pudera,
Agir só pelo instinto, não sentir ciúme
E não ser tão burro a sua espera.

Ah, vou mergulhar no prana
E viver a paz sacana
Sem grana, que até mesmo critiquei.
De que me adianta saber que
O Átomo é o Universo em miniatura,
Se a esta altura 
 que onda!  
Nunca sei o que serei.


Salvador (BA), 16/3/1988
(Do livro Flutuando na areia, 1988, p. 9)


Naquele festival, fui com mais dois poetas: Manoel de Oliveira Santos, natural de Central (BA) e radicado em Santa Maria da Vitória, e Valter Batista Xavier, Doxa, santa-mariense, que nos deixou em 2019, motivo de homenagem que fizemos a ele e a Zeca Bahia no nosso X RPM — Recital Poético-Musical de Santa Maria da Vitória, naquele mesmo ano.

Um episódio, naquele III FEPI, protagonizado por Doxa, tornou-se indelével. Para perder a inibição, isto é, criar coragem para declamar seu poema, o poeta sorveu umas doses de uísque e foi para o desafio. Sua poesia fazia alusão ao então candidato a presidente Fernando Collor de Melo (15/3/1990 a 29/12/1992) que, nos “santinhos” distribuídos para o eleitorado, trazia as letras “Co” e “or” na cor azul e os dois “ll”, nas cores verde e amarela, que nosso poeta Doxa os apelidou de dois palitinhos.

Fernando Collor. Eleições de 1989.
Anunciado para declamar seu poema, do qual não me recordo o título, Doxa subiu, confiante, ao palco e assim começou:

— Dois palitinhos clorofilados e xantofilados... Deu branco.

Fez pequena pausa, vasculhou rapidamente a cachimônia, reencarou a atenta plateia e, de novo, precedido de um “agora vai”, recomeçou seu poema:

— Dois palitinhos clorofilados e xantofilados... Deu branco.

Meu conterrâneo ainda tentou uma terceira vez declamar seu poema, sempre anteposto de um “agora vai”, mas desistiu, fato que deixou o apresentador e o público sem nada entender, visto que aquele “deu branco” pareceu, afinal, ser parte da poesia. Isso, tempos depois, foi motivo das mais belas gargalhadas e, como já disse, ficou a marca da sua poesia: “deu branco!”.

Passadas mais de três décadas, voltei a Ibotirama em 2019, mês de agosto, não para defender uma criação poética, porém para fazer parte da banca de jurados do XXXIII FEPI, convite feito por Abgail Montalvão, indicado que fui pela conterrânea Ângela. Tudo muito bonito, tudo bem organizado. Cidade e evento bem diferentes (para melhor) do que presenciei mais de 30 anos transcorridos.



Paulo Gabiru em apresentação. 2019.

Crisna Imhof e Novais Neto. 2019.

Lembrança de participação no Festival de Música e Poesias de Ibotirama. 2019.
Na ocasião, tive a sorte de hospedar-me no mesmo hotel que ficaram Paulo Gabiru e André Marques, ambos músicos e compositores, quando trocamos experiências e acabamos por descobrir que entre mim e Gabiru havia grau de parentesco, já que somos descendentes da Família Affonso de Oliveira, fundadora da cidade de Santa Maria da Vitória, o que contribuiu por estreitar nossos laços de amizade.

Aproveitei a oportunidade para lhe ofertar meu último livro “Meu lugar é aqui no Centenário de Santa Maria da Vitória”, publicado em 2009, quando o município completou 100 anos de emancipação política e administrativa, e mostrei-lhe minha tentativa de fazer uma coroa de trovas, gênero poético pelo qual nutro grande afeição 
— a trova — tanto a popular quanto a acadêmica. 

Novais Neto, André Marques, Teiú Rocha e Paulo Gabiru. 2019.

Quanto à coroa de sonetos, este gênero sim é bem conhecido dos sonetistas. Por ter o soneto forma rígida, isto é, dois quartetos e dois tercetos, o que totaliza 14 versos, a coroa de sonetos é formada por 15 sonetos assim distribuídos: o último verso do primeiro soneto será o primeiro do segundo soneto; o último verso do segundo soneto será o primeiro do terceiro e assim por diante, até completar 14 sonetos. O décimo quinto, e derradeiro soneto, será formado pelos últimos versos dos 14 sonetos anteriores e deverá representar a síntese deles.

Partindo, portanto, do modelo da coroa de sonetos, tentei fazer uma coroa de trovas, que também tem forma rígida: quatro versos (dez a menos que o soneto) setissilábicos (redondilha maior), com rimas perfeitas, alternadas (abab) e que deve ter sentido completo, isto é, ter princípio, meio e fim. E não leva título. Quanto à forma referida (abab), é a adotada pela União Brasileira de Trovadores (UBT), criada no Rio de Janeiro em 21/8/1966, enquanto que a Seção de Salvador é de 16/4/1969, da qual sou membro desde 1999.

Assim, a coroa de trovas assume a seguinte forma: o último verso da primeira trova deverá ser o primeiro verso da segunda; o último verso da segunda será o primeiro da terceira e assim por diante, até completar quatro trovas. A quinta trova será formada pelos últimos versos das quatro anteriores e deverá, tal qual o soneto, representar uma síntese delas. Vejam, portanto, minha tentativa: 

Meu alvorecer (coroa de trovas) e WhatsApp de Paulo Gabiru.

Além da coroa de trovas, apresentei a Paulo Gabiru a poesia por título “Já vai tarde”, que faz parte do repertório da Folia de Reis de São Francisco, de São Félix do Coribe (BA). Tempos depois, recebo dele um extraordinário presente: a mesma poesia musicada de forma surpreendente, para mim, e com a marca indelével e singular de seu dedilhar (ou acariciar, é melhor) as cordas do violão.


Fiquei por algum tempo a contemplá-la, ouvi inúmeras vezes. Finalmente, decidi por editar o vídeo que segue e, antes de publicá-lo no You Tube, para divulgá-lo, mandei-o para Gabiru, via WhatsApp, que me respondeu com a seguinte mensagem: “Ficou bacana demais. Leve e despretensiosa”. Ei-lo, portanto, para sua apreciação, meu caro leitor:



Obrigado, Mestre Gabiru, pelo não prometido, por isso mesmo, inesperado e surpreendente mimo. Ternamente, aceite meu abraço e gratidão. 

Referências:

ARAÚJO, Carlos; FERREIRA, Edson Alves; PEREIRA, Edvaldo Joaquim. Ibotirama e as canções de agosto. São Paulo: Salvador: SCT, EGBA, 2013. 254p. (Coleção Apoio).

BOMFIM, Tâmara Rossene Andrade. Festival de música popular de Ibotirama: gênese e sobrevivência, na rota contrária a indústria cultural. Grau Zero – Revista de Crítica Cultural, v. 2, n. 2, 2014. Disponível em: <https://www.revistas.uneb.br/index.php/grauzero/article/view/3266>. Acesso em: 18 ago. 2019.

CARUSO, Paulo Roberto de Oliveira. Coroa de trovas às brisas de outono. In: CONCURSO LITERÁRIO POESIAS SEM FRONTEIRAS, 16., 2017. Anais... Disponível em: <http://poesiassemfronteiras.no.comunidades.net/poesias-dos-vencedores-2017>. Acesso em: 31 jul. 2020.

NOVAIS NETO. Conselho de Direção. In: O Posseiro, Santa Maria da Vitória, ano 7, n. 61, p. 2, jun. 1986. Disponível em: <http://www.cpvsp.org.br/upload/periodicos/pdf/PPOSSBA061986061.pdf>. Acesso em: 31 jul. 2020.

______. Colóquio flácido. In: O Posseiro, Santa Maria da Vitória, ano 13, n. 81, p. 8, fev. 1992. Disponível em: <http://www.cpvsp.org.br/upload/periodicos/pdf/PPOSSBA021992081.pdf>. Acesso em: 31 jul. 2020.

______. Contrastes. In: O Posseiro, Santa Maria da Vitória, ano 5, n. 46, p. 2, dez. 1983. Disponível em: <http://www.cpvsp.org.br/upload/periodicos/pdf/PPOSSBA121983046.pdf>. Acesso em: 31 jul. 2020.

______. Flutuando na areia. Salvador: Multipress, 1988. 112p. p. 9.

______. Já vai tarde. In: MALLERO, Chico; BOMFIM, Ana Helena. (Orgs.). Algumas músicas: Reis de São Francisco: São Félix do Coribe, 2017. 16p. p. 10. (Edição dos organizadores).

______. Mensagem ao estudante santa-mariense. In: O Posseiro, Santa Maria da Vitória, ano 5, n. 46, p. 9, dez. 1983. Disponível em: <http://www.cpvsp.org.br/upload/periodicos/pdf/PPOSSBA121983046.pdf>. Acesso em: 31 jul. 2020.

______. Meu lugar é aqui no Centenário de Santa Maria da Vitória. Salvador: Press Color, 2009. 164p. p. 109.

PRIMEIRO PROGRAMA ELEITORAL VAI AO AR NO RÁDIO E NA TELEVISÃO. Panfleto eleitoral de Fernando Collor, 1989. Disponível em: <https://efemeridesdoefemello.com/2014/09/15/primeiro-programa-eleitoral-vai-ao-ar-no-radio-e-na-televisao/>. Acesso em: 29 jul. 2020.

WANKE, Eno Teodoro. A trova. Rio de Janeiro (Guanabara): Pongetti, 1973. 

Em tempo (7/9/2020):

Ao redigi esta crônica, tomei por base publicação em livro, trabalho acadêmico, revistas e sites confiáveis, os quais afirmam que o primeiro festival de poesia ocorreu no ano de 1986. Quando, no entanto, recebi, via e-mail, informação replicada pelo amigo e ativista cultural Cleber Eduão, com base em pesquisa feita por Jarbas Éssi, poeta e cineasta ibotiramense, percebi disparidade entre o ano inicial e o número de edições do referido festival. Voltei a verificar as fontes consultadas, a fim de buscar possível engano por mim cometido. Apaziguei-me, afinal, ao ler esta ressalva no mesmo e-mail, confirmada em postagem na página de Facebook do prefeito Terence Lessa:

[...]

Neste ano, corrigiremos um erro histórico no festival de poesia, acrescentando dois anos mais, que não foram contabilizados pelo poder público na época: festivais de poesia de 1985 e 1986. Sendo assim, completaremos 36 festivais ininterruptos de poesia.

[...]

Fonte consultada:

FESTIVAL CULTURAL VIRTUAL 2020. Disponível em: <https://www.facebook.com/prefeitoterencelessa/posts/2613439708692480>. Acesso em: 7 set. 2020.

domingo, 9 de agosto de 2020

Tião Sapateiro, jogador da Loteca

Hoje, Dia dos Pais, permitam-me lembrar do meu pai, que recentemente partiu, relembrar uma de suas raras paixões, a Loteca, como também seu jeito único de analisar cada jogo. 

A mais tradicional e popular loteria brasileira é certamente a Esportiva, a Loteca, que caiu no gosto do povo, esse povo que alimentou vivas esperanças de ficar milionário nas noites de domingo para segunda-feira ao acertar seus 13 palpites, isto é, não errar os resultados dos 13 jogos propostos.

Volantes antigos, cartão perfurado e volante atual. Vide Referências.
A Loteca foi criada em 27/5/1969, mas o primeiro teste só aconteceu de forma experimental em em 19/4/1970. Um de seus primeiros milionários foi o boiadeiro Miron Vieira de Souza, morador de Ivolândia, no Estado de Goiás. À época, setembro de 1975, o ivolandense acertou os 13 resultados do Concurso 254 e embolsou sozinho 22 milhões de cruzeiros, o que equivaleria hoje, corrigidos pelo IGP-DI, algo em torno de 53 milhões de reais.

Essa esperança anunciada pelo presidente da época, Artur da Costa e Silva (15/3/1967–31/8/1996), como a hora de o “povo fica rico”, não tardou a chegar a Santa Maria da Vitória, não necessariamente lá, mas em Bom Jesus da Lapa, cidade mais próxima. Como o primeiro concurso ocorreu em abril de 1970 e me recordo de ver meu pai marcando seus palpites em volantes em torno do número 30, e que os jogos aconteciam nos finais de semana, deduzo que a Loteca deve ter começado a levar sorte aos santa-marienses ainda naquele mesmo ano, época de Copa do Mundo, ano do Tri.

Um dos primeiros divulgadores da Loteca em Santa Maria, até onde me recordo, foi Quinquinha de Milu, que o perdeu para o jogo de prognósticos, visto tornar-se Quinquinha da Loteria. Posteriormente, veio o mais conhecido deles, o cambista Nanu, que percorria toda a cidade a pé para vender seu famoso e tradicional “bolão da esportiva”, dentre outras loterias. Para ele, Nanu, também lhes aditaram o “sobrenome” Loteria a seu apelido, que virou também Nanu da Loteria.

Naquele tempo, os volantes marcados eram levados a Bom Jesus da Lapa para serem perfurados, melhor dizendo, registrados. O valor mínimo da aposta era de um cruzeiro novo 
— NCr$ (aprox. sete reais), no entanto o apostador pagava dois cruzeiros novos, para custear as despesas de viagem de Quinquinha até Lapa do Bom Jesus, o que acontecia nas tardes de quarta-feira.
Quadro elaborado por Novais Neto. 2020. Fonte: Wikipédia.
Algum tempo depois, Santa Maria da Vitória passou a ter sua Casa Lotérica, cujo proprietário era Manoel Dourado. Ela ficava localizada na esquina da Rua Juracy Magalhães, rua da Farmácia Imperial, de Seu João Alexandre de Oliveira, quase em frente ao Mercado Municipal, onde é atualmente a loja de calçados do casal Eujácio e Neura. 

A Loteria Esportiva, que teve seu último concurso em 4/9/1989, no formato tradicional, o dos 13 pontos, passou por inúmeras modificações. Sobrevivente que foi da CPI dos Anões do Orçamento, episódio que envolveu mais de 30 parlamentares, a Loteca continua a alimentar sonhos de riqueza, sem o glamour de outrora, evidentemente. O último concurso, o de número 893, ocorreu em 16/3/2020. Seu inequívoco legado, no entanto, é mesmo o da imprevisível Zebrinha, que realizou muitos sonhos de tornar-se milionário da noite para o dia. Por outro lado, ela também frustrou outros tantos sonhos.

Quanto a meu pai, Tião Sapateiro, este era apaixonado por esta modalidade de jogo de azar (ou de sorte). Era jogador na acepção precisa do termo. Ele não torcia para qualquer time, apenas marcava o que considerava lógico, depois de noites de estudo no tradicional “O Curingão no Esporte”, informativo que elencava os últimos jogos de cada equipe para orientar o apostador. Escutava também os palpites de especialistas, como os do matemático Oswald Souza ou comentaristas esportivos da Super Rádio Tupy. Ganhou uma ou duas vezes, bem pouco, quando os resultados atendiam à lógica futebolística.

O Coringão no Futebol (vide Referências) e Tião marcando cartela. Foto: Novais Neto. 1982.

Alguns times, entretanto, deixavam-no com a “pulga atrás da orelha”. Um deles era o Flamengo, não porque fosse contra o rubro-negro. Não, não era bem isso. É que meu pai dizia que o Flamengo “só entrava na loteria pra lhe tirar da jogada”. Quando marcava nele, ele perdia; quando marcava no outro, ele ganhava o jogo. Só teria chance de acertar o ponto se gastasse um palpite triplo. 

Descontraído mesmo era vê-lo discutir resultados de jogos com seu amigo de infância, Zé Braga, que ele o tratava por Zezinho, torcedor apaixonado do Corinthians. Por várias vezes, eu os vi nesses embates de palpites, como aconteceu num jogo entre Fortaleza e Corinthians realizado na capital cearense:

— Furtaleza e Curíntia. Quem você acha que ganha, Zezinho? — perguntou meu pai numa evidente provocação.

— Curíntia, já cravei seco – e continuava a discutir os demais jogos e ainda argumentava favoravelmente quanto ao palpite do amigo, mas logo em seguida mudava de ideia:

— É! O Curíntia não vai sair de São Paulo, viajar quase dois mil quilômetros pra perder pro Furtaleza. O Furtaleza também não vai querer fazer feio em casa diante de sua torcida. Esse jogo... num sei, não, viu, Zezinho, tá cheirando mesmo é um empate. O quê que você acha?

— Que empate que nada, Tiãozim, vai dá é Curingão na cabeça. E você ainda tem dúvida, moço?

— Tenho, sim. Tô achando que esse Furtaleza vai endurecer jogo, vai querer fazer bonito, mostrar que é bom de bola também. Eu tô achando que vai dá é Furtaleza na cabeça. Tá é com cara de Furtaleza!

— Cê vai é perder seu ponto, isso sim – e encerravam por hora o lotérico bate-papo.

Na segunda-feira, logo de manhã bem cedo, ainda mais se o Corinthians tenha saído vencedor, lá estava Zé Braga na porta da tenda do filho de Adnyl de Celina, ou seja, Tião Sapateiro:

— E aí, Tiãozim, fez quantos pontos?

— Só fiz 10. E você?

— Também fiz 10. Mas cê perdeu o ponto do Curíntia, num perdeu?

— Perdi nada, Zezinho, botei foi um triplo por garantia — e aí já começavam a discutir os jogos do próximo fim de semana. E assim, a vida de jogadores da Loteca seguia, tranquilamente, sem nenhuma pressa, a acompanhar a rotina de cidadezinha do interior.

Quanto a mim, não era muito diferente assim. Se o Tricolor Carioca estivesse em algum jogo, ele logo perguntava meu palpite, tendencioso, ele sabia. Dizia que eu era puxa-saco do Fluminense:

— O Fluminense vai pegar o Moto Clube lá no Rio. Cumé que tá ele? Será que ele ganha?

Na condição de torcedor ou puxa-saco, segundo ele, fazia minha análise naturalmente passional e lhe afirmava que o tricolor ganharia. Ele também não me contradizia. E me perguntava sobre outros times, se eu sabia como andavam. Eu dava lá meus palpites e ficávamos ali conversando. Eventualmente, diante de uma derrota do Tricolor, considerada imprevista, desacorçoado, eu lhe questionava:

— E aí, perdeu o ponto do Fluminense, num foi? Que zebra disgramada foi aquela! 

A Zebrinha (vide Referências).
— Perdi nada. Esses trastes lá do Rio gostam de fazer isso. Já tô acostumado com eles. Gostam de perder pra esses timecos cabo de taca, meia-pataca. Botei logo foi um duque aberto pra garantir. 

Na linguagem dos amantes da Esportiva, “duque aberto” é o prognóstico duplo no qual o apostador marca dois resultados no mesmo jogo, nesse caso especial, assinalam vitória dos dois times, colunas 1 e 2, por isso chamam de aberto. Deixam de marcar a coluna do meio, indicativa de empate.

Futebol sempre foi a alegria do meu pai, gostava de ver qualquer jogo pela televisão, por isso resolvi trazê-lo a Salvador para assistir a um jogo da Copa do Mundo de 2014. Naquele ano, ele já havia sofrido um AVC isquêmico, que lhe afetou o lado direito do corpo, mas a mente continuou bem ativa, aparentemente, sem sequela.

Embora não alimentasse paixão clubística, torcia pela Seleção Brasileira e tinha notória admiração por Garrincha, Rivelino e Ronaldo Fenômeno. Discretamente, vibrava quando o Fluminense vencia e dizia para minha mãe que era “pra Novais num ficar triste”. No entanto, numa eventual derrota, dizia a ela que eu “estava urrando em Salvador”, ou com “os dentes no quarador”, em caso de vitória, o que quase sempre virava motivo para minha mãe telefonar e contar-me a fuxicaiada do jogo, como diz ela.

Num particular, notadamente em Copas, sempre o via torcer ardorosamente pela Seleção do Japão, o que me aguçou a curiosidade e lhe perguntei, certa vez:

— Porque o senhor torce tanto pelo Japão? Virou japonês, foi?

— Quando fui para São Paulo, nos anos 1950, trabalhei numa sapataria de uns japoneses, que ficaram meus amigos. Todo fim de semana, eles me levavam para suas casas e, pela primeira vez na vida, eu vi comemorar meu aniversário. É um povo muito bom, gosto muito, honesto, humilde e inteligente.

Tião Sapateiro entre seus amigos em São Paulo. Década de 1950.

Meu pai foi para São Paulo ainda muito jovem. Morou em Marília, Garça e Franca, grande polo calçadista, onde aprimorou sua arte de sapateiro e se tornou modelista de calçados femininos. Em Santa Maria, num primeiro momento, foi seleiro, como era seu pai. Ao retornar daquele Estado, continuou a exercer o ofício de sapateiro, principalmente, a fazer botinas, bozerguins (bruzegos), “precatas salga-bunda”, chuteiras, sandálias e botas femininas. E ainda tinha um curtume na Sambaíba, o mais antigo bairro santa-mariense, às margens do Rio Corrente. 

De retorno ao futebol, assistimos, eu, ele, Lara, Glécia e Thiago, ao jogo da Copa 2014, Bósnia-Herzegovina e Irã, na Arena Fonte Nova. Ficou encantado. Pediu até para tirar foto com grandalhões torcedores iranianos, coisa rara, pois não era muito afeito a fotografia. E ainda comentou: “é cada cepa de homem”. E o mais surpreendente, até ola ele fez no estádio, já que era bem tímido, e ainda me chamava atenção: “lá vem a capadoçagem levantando, lá vem, lá vem, prepare”.

Mesmo depois do AVC, continuou a fazer seu “jogo simples”, isto é, o de valor mínimo, da Loteca. Ele mesmo ia à Casa Lotérica pagar a aposta. Como tinha mais de 80 anos, ainda “tirava onda” com quem estivesse aguardando nas filas, dizendo que iria “furar a fila”, o que era recebido com naturalidade pelas demais pessoas, visto que o caixa, quando o via, sem demora lhe chamava.

Numa dessas ocasiões, coincidentemente minha irmã Glécia foi pagar alguma conta na mesma Lotérica e o encontrou na fila. Ela não se fez notar e ficou logo atrás dele. De repente, alguém puxou conversar com ele:

— E aí, Seu Tião, fazendo uma fezinha na Loteca, né?

— É, eu tô aqui tentando a sorte. Eu já disse lá em casa, pode faltar dinheiro pra tudo, até pra comida, mas para meu jogo, não. Jandira sabe disso.

Glécia ouviu tudo aquilo, porém não se deixou notar para ele não ficar sem graça, pois ela sabia, como todos nós, demais filhos e esposa, sabemos de que se tratasse de simples brincadeira, porque ele foi um pai que nunca deixou faltar nada em casa, mesmo a viver de sua pequena sapataria. Sempre procurou nos dar os melhores exemplos de honestidade e humildade. Nunca gostou da arrogância ou da soberba, palavra muito usada por ele, e costumeiramente nos repetia isso.

Sites pesquisados:

Atualização monetária. Disponível em: <https://calculoexato.com.br/result.aspx?codMenu=FinanAtualizaIndice&cce=001>. Acesso em: 22 jul. 2020.

Boiadeiro Miron. Disponível em: <https://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/boiadeiro-miron-de-goias-fica-milionario-com-premio-da-loteria-esportiva-em-1975-10712142#:~:text=Criada%20em%2027%20de%20maio,lot%C3%A9ricas%20e%20revelou%20muitos%20sortudos>. Acesso em: 22 jul. 2020.

Cruzeiro (moeda)
. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Cruzeiro_(moeda)#:~:text=O%20Cruzeiro%20(Cr%24)%20foi,cruzeiro%20equivalia%20a%20mil%20r%C3%A9is>. Acesso em: 29 jul. 2020.

História da Loteca. Disponível em: <https://ganharnaloteria.com/blog/historia-da-loteca/#:~:text=In%C3%ADcio%20da%20Hist%C3%B3ria%20da%20Loteca&text=Sua%20primeira%20rodada%20experimental%20aconteceu,de%20100%20mil%20bilhetes%20distribu%C3%ADdos>. Acesso em: 22 jul. 2020.

Loteca: resultado do concurso 893. Disponível em: <http://loterias.caixa.gov.br/wps/portal/loterias/landing/loteca/>. Acesso em: 27/7/2020.

Os 50 anos da Loteria Esportiva: a origem da zebra e máfia dos resultados. Disponível em: <http://bnldata.com.br/os-50-anos-da-loteria-esportiva-a-origem-da-zebra-e-mafia-dos-resultados/>. Acesso em: 26/7/2020.

Imagens utilizadas:

Concurso nº. 1. Disponível em: <https://agenciach.com.br/wp-content/uploads/2019/04/Loteria-esportiva-teste-1.jpg>. Acesso em: 23 jul. 2020.

Concurso nº. 54. Disponível em: <https://http2.mlstatic.com/volante-da-loteria-esportiva-concurso-54-D_NQ_NP_826059-MLB29857815011_042019-F.jpg>. Acesso em: 23 jul. 2020.

Concurso nº 55. Cartão perfurado. Disponível em: <https://http2.mlstatic.com/volante-da-loteria-esportiva-concurso-54-D_NQ_NP_826059-MLB29857815011_042019-F.jpg>. Acesso em: 23 jul. 2020.

O Coringão no Futebol nº. 253Disponível em: <https://http2.mlstatic.com/o-curingo-no-futebol-253-loteria-esportiva-1975-D_NQ_NP_220901-MLB20445463982_102015-F.jpg>. Acesso em: 23 jul. 2020.

Volante da Loteca atual. Disponível em: <https://br.doctorlotto.com/wp-content/uploads/2019/05/volante-loteca-cartela-1024x862.jpg>. Acesso em: 23 jul. 2020.

ZebrinhaDisponível em: <https://i2.wp.com/www.sitefutebol.com.br/wp-content/uploads/2017/07/ZEBRINHA.jpg?fit=389%2C285&ssl=1&w=640>. Acesso em: 23 jul. 2020.

sábado, 25 de julho de 2020

Aquelas cartas de amor

Escrever cartas sempre foi um dos meus hobbies prediletos, tanto para programas de rádio quanto para amigos, amigas, namoradas, Brasil afora. Confiram. 

Principiamos a década de 2020, no entanto, foi lá pelo limiar dos anos 1970 que comecei a me dar conta de mim. Perceber o mundo, fazer amigos e a viver principalmente o universo das letras, escrever minhas primeiras cartas, ora para revistas, a fim de corresponder-me com alguma menina, ora para programas de rádio. Algumas revistas até publicavam trechos dessas correspondências.

Para uma missiva enviada ao Programa O Poder da Mensagem, apresentado pelo radialista Hélio Ribeiro, na Rádio Bandeirantes, todas as tardes, ele assim respondeu com seu inconfundível vozeirão, de um português claro, corretíssimo e acessível:

— Este programa, que muito nos honra e envaidece, é ouvido em Santa Maria da Vitória, na Bahia, por Adnil Novais Neto, que quer saber a origem e o significado do seu nome.

O renomado locutor, que publicou o livro com o mesmo nome de seu programa, O Poder da Mensagem, de que tratei logo de adquirir, deu suas explicações relativas ao meu prenome, dizendo tratar-se da variação de Adelino, que significa, dentre outras acepções, “serpente nobre ou serpente da nobreza”. Que horror! Fiquei meio assustado. Descobrir-me venenoso?! Jamais!

Livro O Poder da Mensagem, de Hélio Ribeiro. Vol. 1. São Paulo: Sorvil, 1976.
O mais legal e gratificante é que, ao passear pela cidade, principalmente à noite na Praça do Jardim Jacaré, ou andar pelas ruas, sempre alguém me parava para dizer que ouviu meu nome no rádio, inclusive pessoas da zona rural, a parabenizar-me, o que me deixava meio encabulado, mas deveras contente, sem dúvida alguma.

Quanto às cartas, necessariamente, cartas de amor, escrevi muitas e muitas também recebi, que as conservo, até hoje, bem acondicionadas, a fazer parte de minhas memórias afetivas. E isso me faz lembrar o poema de Álvaro de Campos, heterônimo do universal poeta português Fernando António Nogueira Pessoa, Todas as cartas de amor..., no qual, em seus primeiros versos, ele é incisivo: “Todas as cartas de amor são / Ridículas. / Não seriam cartas de amor se não fossem / Ridículas. // Também escrevi em meu tempo cartas de amor, / Como as outras, / Ridículas. [...]”.

Este primoroso poema de Fernando Pessoa você pode encontrá-lo no link ou livro citado nas Referências como também ouvi-lo no CD duplo, Imitação da Vida, em que Maria Betânia magistralmente o declama, dentre outros do mesmo autor da Terrinha.

Em relação às cartas amorosas, redigi muitas, todas elas ridículas, e outras tantas recebi, não ridículas, que muito me ajudaram a exercitar a escrita e a corresponder-me com pessoas Brasil afora. Além disso, ainda havia os cartões postais que trocávamos, se bem que nossa Santa Maria da Vitória só veio a ter um lá pelos anos 1990, idealizado por Neném Fotógrafo com fotos Hermes Novais.

Cartão Postal com vistas de Santa Maria da Vitória (BA), década de 1990. Fotos: Hermes Novais.
Algumas destas correspondências recebidas ou enviadas muito me marcaram. Quando morei em Brasília, em 1978, na casa de parentes, costumava ficar numa pequena área na frente da casa à espera do carteiro. Certa feita, quando ele chegou, eu estava acompanhado da minha tia Aurelina, que recebeu uma ruma de cartas, quase todas para mim. Uma delas, porém, foi retida e fui questionado:

— Quem é esse tal de “lindA siavoN oteN”?

— Sou eu — respondi, inocentemente, sem hesitar ou maldar qualquer coisa.

Quando o carteiro saiu, minha tia virou-se para mim e me deu uma baita “regulagem”:

— Só recebi porque vi que o remetente é René de Nenzinha. Mas não faça mais isso, não, senão vou devolver dizendo que não mora ninguém com este nome aqui em casa. Seu nome é Adnil, nome do seu avô paterno, casado com minha irmã. Não quero saber dessas coisas aqui em casa, não, viu?

Posteriormente, já morando em Salvador, na década de 1980, mais precisamente na Casa do Estudante de Santa Maria da Vitória (Caes), continuei a receber muitas cartas e muitas também escrever. Sempre que o carteiro chegava, aquele que as recebia, reclamava: “só tem pra você”. E numa dessas ocasiões, certo morador que foi recebê-las, da porta mesmo me gritou irado:

— Só chegou uma carta. E foi pra você, de uma tal de “Marigada” — e me jogou nas mãos.

Quando fui observar de perto, era de Margarida e não de Marigada, ex-colega de cursinho, de Salvador, a me procurar. É de observar-se neste fato, que até dentro da própria cidade mandávamos cartas, afinal, telefone nem todos tinham. Muitas vezes teríamos que ir pessoalmente ao endereço.

Quanto às cartas, sobretudo, as de amor, basta registrar que apenas de uma correspondente recebi quase 80 e, sem dúvida alguma, devo ter escrito muito, mas muito mais. Redigi, determinada feita, para alguém, três folhas de papel almaço pautado, o que corresponde a seis folhas de papel A4, escritas em ambos os lados. E minhas letras não são grandes.

Uma das quatro caixas de correspondências e uma caixa para fitas cassetes dos Correios.
Os Correios, na década de 1980, nos deram uma mãozinha, passaram a disponibilizar uma novidade, o Sistema Fonopostal Brasileiro (SFB), que eram umas caixinhas plásticas com lacre para se colocar fitas cassetes, nas quais gravávamos nossas mensagens e remetíamos aos nossos destinatários. Havia fitas de 10, 20 e 30 minutos, o que se tornou mais romântico e prático enviar e receber cartas, especialmente, de amor, gravadas, as providenciais fonocartas ou cartas fonadas.

Caixas do Sistema Fonopostal Brasileiro (SFB) dos Correios.
A propósito ainda de gostar de redigir cartas, mormente “as cartas de amor ridículas”, passei a ser procurado por amigos e amigas para “dar uma forcinha” na redação, o que acabava por envolver-me completamente em suas romanescas histórias. Eu as manuscrevia e pedia para que o interessado ou interessada as transcrevesse, evidentemente. É que minha caligrafia não poderia, jamais, delatar o verdadeiro missivista para não constranger o(a) postulante a namoro.

Carta redigida por Novais e datilografada por um pretendente a namoro.
Dia desses, um amigo me presenteou com uma dessas cartas redigidas por mim e datilografada por ele, datada de 22/3/1979. É possível que só agora a destinatária descubra quem foi o redator daquela missiva repleta de pieguices. Como o pretendente a namoro não me pediu segredo, pelo contrário, me autorizou e até mesmo me estimulou a publicá-la, assim o farei, sem me sentir um inconfidente. Agradeço, ademais, a esse amigo por ter guardado tão formidável relíquia. Quanto aos equívocos gramaticais (não sei se meus, dele ou de ambos) e os erros datilográficos, só nos resta pedido de desculpa à ocultada pretendida de outrora.

Vivemos, por fim, a era de comunicação ultrarrápida, ou melhor, instantânea, o que não deixa de ser bom, todavia rouba-nos a alegria de receber uma ansiada carta vinda de algum lugar, remetida por um alguém querido. Isso praticamente acabou. No entanto, como para toda regra há uma exceção, justamente para confirmá-la, recebi, dia desses, não uma carta, mas um WhatsApp de uma amiga distante, Cibele Tedesco, gaúcha de Veranópolis (RS), musicista e maestrina do Coral de Caxias do Sul (RS), com uma foto seguida da mensagem: “Olha o que eu achei guardado em minhas coisas....”.

Foto enviada, via WhatsApp, por Cibele Tedesco, em 17/1/2020.
Naturalmente que esta lembrança me fez muito, mas muito feliz e o foi o principal motivo que me levou a escrever esta crônica para rememorar, afetivamente, antigas missivas, inclusive a que aparece na imagem, manuscrita num papel timbrado do Banco do Estado da Bahia, onde ainda trabalhava, datada de 13/3/1995. E quanto ao jornal, este me trouxe a lume inusitado e caricaturesco episódio porque passei.

Certa ocasião, vindo da Rodoviária de Salvador para minha residência no Engenho Velho de Brotas, ao passar pelo bairro de Brotas, observei que vários passageiros no ônibus, estavam com jornal nas mãos, lendo-o. Algo normal. E fiz pouco-caso. Somente quando me sentei ao lado de uma senhora, notei que no jornal havia uma foto minha. Fiquei meio escabreado, abaixei a cabeça e, logo que cheguei ao meu destino (o que demorou um absurdo!), saí de fininho para não ser identificado.

Aquele importante periódico, por título Viva Brotas, idealizado pelo jornalista Orlando Oliveira e por mim diagramado, circulou no referido bairro e bairros adjacentes na década de 1990. Naquela edição, especificamente, havia uma entrevista dada por mim, estampada na capa, o que, sem dúvida, muito contribuiu para divulgação de meus despretensiosos escritos, razão porque sou muito grato!

Referências:

BETÂNIA, Maria. Mensagem (ao vivo): Carta de Amor. Disponível em: <https://youtu.be/-6utkxYcBuM>. Acesso em: 27 mar. 2020.


PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. In: ­______. Obra poética. Volume único. 9. ed., 4. reimp. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. p. 333.
______. Todas as cartas de amor são ridículas. Disponível em: <https://www.revistaprosaversoearte.com/todas-as-cartas-de-amor-sao-ridiculas-alvaro-de-campos-fernando-pessoa/>. Acesso em: 20 jul. 2929.

sábado, 11 de julho de 2020

Eu te amo, Serotonina

Apresento, nesta crônica, o Dique do Tororó, lugar muito bonito onde me exercito quase todos os dias pela manhã e me permito fazer declaração de amor. Vejam se tenho razão.

Despertei, hoje, meio sorumbático, pachorrento. Não sei exatamente qual a razão. Desconfio que tenha sido resultado de algum sonho mal sonhado que não me veio a lume ou uma saudade sem aparente causa. A verdade é que estou me sentindo macambúzio ou, para não fugir da minha origem, como certamente diria meu pai, Tião Sapateiro, falecido no dia 27/6 último, de causas naturais, aos 91 anos: “Hoje, acordei meio descalqueado”.

São quatro horas da matina, a noite e sua gente ainda dorme e nubiloso está o céu. A tentação é de ir para frente do computador procurar não-sei-o-quê até o dia clarear. Resisto bravamente. Quando isso me ocorre (o que é raro), já conheço muito bem o infalível antídoto: fazer minha caminhada ou corrida no Dique do Tororó, um dos lugares mais aprazíveis de Salvador, para reencontrar minhas amigas alto-astrais: a serotonina e a dopamina, neurotransmissores bem-humorados, energéticos, dispostos e sempre disponíveis, basta tão somente procurá-los.

Dique do Tororó - Salvador - Bahia - Brasil. 2018. Foto: Novais Neto.

Há mais de 40 anos, dou-me ao prazer de exercitar-me nesse belo parnaso. Sinto-me tão bem que me fiz até participar, por três vezes, da Corrida Internacional de São Silvestre, não como atleta a disputar as melhores posições, mas como amador a testar seus próprios limites e sentir a inexprimível sensação de, após subir a Brigadeiro Luiz Antônio, despontar na Avenida Paulista e “correr para o abraço” de mil braços invisíveis à procura de outros receptíveis amplexos.

Minha primeira participação foi no já distante ano de 1988, a 63ª Corrida Internacional de São Silvestre, última que aconteceu à noite, com largada às 23h30, num percurso em torno de 8km. As demais, com percurso definitivamente fixado em 15km, ocorreram nos anos de 1994 (70ª Corrida) e 1999 (75ª). O tempo voa muito mais rápido que os pés dos melhores corredores, isto é certo. Em 2019, ano passado, realizou-se a 95ª edição da mais famosa corrida do País.


63ª Eliminatória da Corrida de São Silvestre (Salvador, 1988) e 70ª Corrida de São Silvestre (São Paulo, 1994).

75ª Corrida de São Silvestre (medalha), ano de 1999, terceira participação. Fotos: Acervo pessoal.
No Dique do Tororó, entretanto, o devaneio é outro. É bem mais real. Se corro, penso menos e me exercito mais. Divago e espaireço profundamente ao andar. Às vezes, nem me dou conta de já haver percorrido seus 2.600 metros de puro prazer, duas vezes, nos sentidos horário e anti-horário. São, portanto, nesses mágicos momentos que organizo minhas ideias, alinhavo poemas, trovas, crônicas e declamo, baixinho, minhas poesias preferidas. Cantarolo também canções antigas, românticas, entoadas por minha mãe Jandira Almeida, 90 anos, que me transportam inevitavelmente para outra possível biodimensão.

A estes momentos, se certo estou, é que me dizem quão bela é a vida e que me animam a enfrentar os percalços da caminhada e contornar os descaminhos. Amar os amigos, minha família, minha filha, minhas terras queridas: Santa Maria da Vitória, sempre hors concours, e Salvador, minha cidade adotada; amar meus amores, sem olvidá-los, jamais; sentir que a felicidade é relativa e que cada um de nós é que sabe – e sente – se é ou se não é feliz.

Dique do Tororó - Salvador - Bahia - Brasil. 2018. Foto de um corredor anônimo.
Tempos atrás, assisti a uma entrevista do médico Dráuzio Varella que falou sobre “sentir-se feliz e a sensação de prazer”, mais especificamente sobre a serotonina e a dopamina. Enquanto a primeira, segundo o especialista, conhecida também como substância “mágica”, é sedativa e calmante; a outra, a dopamina, nos proporciona energia e disposição.

Não me convém, entretanto, adentrar estes caminhos científicos porque não é o propósito desta crônica e nem tenho conhecimento suficiente para tal, evidentemente. Ademais, como se diz coloquialmente em Soterópolis: “não é a minha praia”. Por outro lado, seja lá qual for “a minha praia” e, sem receio de que esteja a fazer falsa declaração de amor, proclamo, aos quatro ventos, alto e bom som: Eu Te Amo, Serotonina!

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Ao som dos dobrados filarmônicos

O aniversário de Santa Maria da Vitória sempre esteve associado às alvoradas da Philarmônica 6 Outubro. Por isso, neste 26 de junho, felicito-lhe: Parabéns, Santa Maria, pelos 111 anos de emancipação política e administrativa.

O dia não tardaria a amanhecer. O ocidente em poucos instantes mostrará o belo arrebol, a denunciar que o Astro-Rei está acordando. E num festejo que se repete desde as primeiras eras, o dia sorri graciosamente no mavioso canto da passarada.

Não fazia muito tempo que havia conciliado o sono, coisa que não foi difícil, depois de natural cansaço após noitada de quentões e forró nos festejos juninos na praça do nosso Jardim Jacaré, palco maior de quase todas as grandes festas e eventos santa-marienses.

De repente, um som longínquo, sideral, vindo não sei de onde, num crescendo mágico e envolvente, começa a tomar conta do meu quarto. Saltei bruscamente da cama e, em completo desalinho, corri até a porta para ver, em princípio, “a banda passar”, digo melhor, ver a filarmônica passar acompanhada por uma multidão.

Ali, pois, diante dos meus olhos sonolentos e enevoados, passava a Philarmônica 6 de Outubro em inconfundível e contagiante alvorada, a dizer a todos quantos a ouviam que Santa Maria da Vitória, naquele dia, 26 de junho de 1992, completava seu octogésimo terceiro aniversário de emancipação político-administrativa.



A Cidade Riso [outrora assim chamada] merece — bem fundo pensei — o que me deixou de olhos marejados a denunciarem grande contentamento. Ela sabe como ninguém acolher seus filhos naturais e adotivos, não importa. Pena é que, como toda mãe, por mais bondosa que seja também tem seus filhos ingratos, que a maltratam e fazem-na sofrer e chorar.



Naquele momento, sonho e realidade confundiam-se. Senti o coração pulsar mais fortemente e um gostoso arrepio abraçar gradualmente o corpo inteiro. Uma vontade incontida de acompanhar aquele séquito tomou conta de mim. E assim o fiz, como estava mesmo: rosto, camisa... todo amarrotado. Importante mesmo era saborear e deglutir suavemente a inebriante música filarmônica.

Muitos rostos conhecidos percebi. Um deles, o de Luiz Cayres, advogado e batalhador pela preservação do nosso centenário Tamarindeiro, protegia-se, bem agasalhado que estava, daquela friíssima manhã junina.

Apressei os passos, passando a ficar lado a lado com Renan de Luiz Soldado e Carminha, igualmente protegidos do frio, curtiam os dulcíssimos acordes daquela banda, dificilmente ouvidos nas cidades grandes.

Um pouco adiante, na Rua do Mercado Municipal, deparamos com um dos madrugadores, Dedé Marques a fazer sua caminhada matinal. Um pouco atrás, já havíamos encontrado com uma figura inconfundível, o roqueiro Binha de Dirce de Vavá de Cirilo, com Naná, irmã de Irineu do Tamarindo Bar que, entre tragos e pulos carnavalescos, não se conteve e desabafou:

— Poeta, poeta, este é o som da minha terra. Meu rock’n’roll favorito, santa-mariense, que não se compara. Meu som, poeta. Sacou?

À frente da banda, como se estivesse guiando a multidão, ia Protógenes Braga, Seu Toge de Seu Agnelo ou Seu Toge de Lourdes, comerciante nas horas próprias, auxiliar de enfermagem, farmacêutico, enfermeiro e até parteiro nas horas de improviso. Figura humana das mais prestativa e amiga, entusiasta presidente da Filarmônica.

Além deste, a comandar o foguetório, um policial militar, o cabo Rosival Neves, meu tio, o popular Rosi ou Peixe, também ia à frente, a soltar rojões, os famosos adrianinos, a contar vantagens, a criar histórias, seguido de perto pela meninada. É Rossi a fazer sua festa particular, como sempre gostou. Nos dias de futebol, levava fanfarra e caixas de foguetes para o campo.

Cabo Rosival Neves, Novais Neto e Jandira Almeida Neves. 1992. Foto: Arquivo pessoal.
De repente, a banda parou. Altamiro, saxofonista e policial civil, levanta a mão mostrando dois dedos, sinal claro para os músicos executarem o dobrado Dois Corações. Vêm-me, então, lembranças dos tempos de criança, quando via a Philarmônica passar em frente à casa de meus pais e minha mãe não me deixava acompanhá-la porque era noite, podia ser perigoso.

Quem não teve o privilégio de ouvir bandas como essa, não avalia quanto é criminoso vê-las acabando, morrer à míngua. Entidade de utilidade pública, a filarmônica da minha terra sobrevive graças às vontades férreas de seus componentes, pois nenhum deles recebe remuneração por ser músico. A maioria é formada por funcionários públicos aposentados. Há mestre de obras, pedreiro, sapateiro, alfaiate, trabalhador rural, taxista, carcereiro, carapina, mecânico, eletricista, estudante, bancário etc. Dois de seus integrantes têm mais de 70 anos e nenhum, menos de vinte. Apenas Seu Júlio Pedreiro é natural de Correntina (BA), os demais são santa-marienses.

Pessoas comuns, do nosso convívio, esses músicos por excelência e colaboradores prestimosos guardam viva a memória da Sociedade Philarmônica 6 de Outubro, fundada em 22 de novembro de 1908, pelo Coronel Bruno Martins da Cruz, cujo nome é homenagem ao natalício do mesmo. Seu Bruno, como a ele se referem os mais velhos, foi intendente de Santa Maria da Vitória em dois períodos: 1893 a 1896 e 1917 a 1920.


Sousafone (tuba). Acervo: Nélson Neves. Foto: Novais Neto.

João de Otacílio, Orivaldo Graia, Tazo, Sinhô de Joana, Altamiro de Jesus e Nélson Neves; Caduzinho, Henrique, Júlio Pedreiro, Nem Carapina, Quinca Coimbra e Nem Afonso; Wilson, Maninho Guarany, Rubem, Otávio Graia, Dalvo Graia, Gil e Agnaldo; Binha de Vicente Preto, Paulinho de Otaviano (ou de Dona Zulmira), Luciano de Jesus, Napu, Zé Torres e Agnelo Braga Neto, homens simples, trabalhadores que, apesar das lutas e labutas cotidianas, ainda nos oferecem momentos singularíssimos de regozijo e prazer.

De volta ao nosso passeio matutino-musical, estamos a ouvir, nesse momento, o belíssimo dobrado Cisne Branco. É literalmente onírico o que vemos. As pessoas abrem as janelas, portas e se amontoam para verem e ouvirem a banda executar os dobrados – músicas nem brega nem chique, sem qualquer rotulagem. Algo incomparável, muitos aparecem envoltos em cobertores.

Bem alto, dia claro, o Sol começa a aquecer aquela friorenta manhã de junho. Estamos na Rua Padre Othon Vieira Lima (Rua dos Doidos), bem em frente à sede da Filarmônica, ao lado do Baneb. Os músicos entram primeiro. Minutos depois, tempo suficiente para algum apronto, adentramos nós.

Sede da Sociedade Philarmônica 6 de Outubro. Santa Maria da Vitória, BA. Foto: Novais Neto.
Uma mesa coberta por uma toalha branquíssima e sobre ela alguns pratinhos com farofa de galinha brejeira, de quintal, temperada com açafrão (ou açafroa, como diz minha mãe), esperava pela gulodice e glutonice de alguns que se atiravam desastrosamente sobre seus troféus. E até como certa razão, do contrário, tudo acabaria logo e ninguém queria perder nada. Nem eu!

Sede da Sociedade Philarmônica 6 de Outubro. Santa Maria da Vitória, BA. Foto: Novais Neto.
A festa chegou ao fim. Muitos, assim como eu, ainda tentariam mais uns instantes de sono na expectativa de recuperar do cansaço das noites de forrós, xotes e rasta-pés em São Félix do Coribe e Santa Maria da Vitória. Afinal, ao que me pareceu, todos nós ali pertencíamos à turma da madruga como Dedé Marques, não por opção, mas por acidente de percurso, por exclusiva “culpa” da nossa Philarmônica 6 de Outubro.

Nélson Neves, Novais Neto e Altamiro de Dona Maria. Foto: Arquivo pessoal.

Janilza (Nena), Nélson Neves, Glécia Neves, Novais Neto (atrás), Thiago Afonso, Menininha e Adnair Neves

Novais Neto e Tilixa (músico de Correntina, BA). Foto: Arquivo pessoal.
Em tempo:
Esta crônica foi escrita em junho de 1992. Hoje, é bom registrar, a Filarmônica tem história melhor para nos contar. Há músicos jovens que se somam aos antigos batalhadores, porém, não dispõe ainda de um maestro. No ano de 2004, a 6 de Outubro passou a ter uma coirmã, a Lira do Corrente, composta predominantemente por jovens músicos entusiastas.

Quem sou

Raimundo Neto, radialista

Anos atrás, exatamente no dia do meu aniversário, 24 de outubro, recebi um áudio da poesia “A doce química do seu olhar volátil”, do amigo R...