sexta-feira, 23 de abril de 2021

O palavreado de Seu Luiz

Toda cidadezinha interiorana desfruta de uma figura folclórica. Na minha terra, há inúmeras que mantêm vivos o uso, os causos e a velha máxima popular que assevera: “O povo não inventa, aumenta”.

Lá em Santa Maria, não se foge à regra. Aliás, foge sim! Além de aumentar, existem pessoas como Salvador do Mercado que criam histórias, piadas, jargões enriquecedores do folclore santa-mariense.

Havia, também, pessoas como Seu Luiz Serrano, homem simples, mestre de obra, que se preocupava com a boa fala. Não dispensava um termo rebuscado quase sempre empregado em momento oportuno e corretamente.

Conta-se que, numa ocasião, Seu Luiz foi ao Banco do Brasil repetir uma transação bem corriqueira para ele: solicitar a emissão de uma Ordem de Pagamento.

Todo cerimonioso, entrou na agência e se deteve em frente à bateria de caixas. Um funcionário, ao vê-lo, provocou-o, porque, já o conhecendo, gostaria de ouvir algo novo da nossa língua portuguesa.

— E aí, Seu Luiz, o senhor vai fazer a Ordem de Pagamento?

— Não, meu filho. Vou fazer uma transferência de numerário.

Alguém, noutra oportunidade, aproximou-se dele e lhe deu uma notícia meio triste:

— Seu Luiz, o irmão do senhor está bêbado, caído lá na rodagem que vai pra Santana.

— Obrigado, meu filho. Ele é que sabe se aguenta o peso da Goodyear — evidentemente se referindo a pneus da famosa marca utilizados por automóveis que poderiam atropelá-lo na pista, ali caído.

Era sempre assim: aquele amável senhor dificilmente adentrava o coloquialismo. As respostas fluíam sem qualquer deslize. Seu Luiz nunca vacilava nas respostas, como esta que deu ao prefeito, quando, bem cedinho, chegou à casa do mesmo dando-lhe notícias de uma das filhas adoentada.

— Senhor prefeito, vim aqui pedir-lhe uma ajuda financeira para comprar medicamento para minha filha 
— e mostrando o braço da menina, apontou para uma região bastante avermelhada e inflamada, fato que sensibilizou o prefeito:

— O que foi isso, Seu Luiz? Foi mordida de algum bicho? Você sabe que bicho foi esse?

— Foi, sim, senhor. Foi um aracnídeo que lhe picou a epiderme, causando edema e muita dor.

Ainda com o prefeito, aconteceu algo digno de registro. Por ocasião de uma mudança de residência, Seu Luiz foi chamado pelo governante para orientar carregadores na retirada dos móveis.

Durante o desmonte de um deles, Seu Luiz viu dois ajudantes desmontarem bruscamente uma bonita estante, arrastando-a e forçando-a a ponto de rachar uma das tábuas. Aquele pacato senhor perdeu a paciência ao presenciar tamanha estupidez, e caprichou no vernáculo:

— Seus apedeutas, energúmenos. Será que não percebem que são módulos de sobrepor. Basta levantar cada um com sutileza. E pronto, está resolvido!

Contam também que o mesmo saiu-se com uma resposta digna dos bons trocadilhistas, quando um senhor chamado Penha jogou-se de um prédio ao descobrir que estava sendo traído pela esposa.

— Seu Luiz, pel’amor de Deus, o que foi isso?

— Um homem que se despenha (diz Penha) por uma mulher que disputa (diz puta) — aqui, certamente, a repetir um grande poeta brasileiro, o curitibano Emílio de Menezes, frase a ele atribuída.

Este causo era também contado pelo sempre sorridente Chiquinho da Almasa (Algodoeira Santa Maria S/A, da qual era contador). Chiquinho, ao casar com Milu Assunção, tornou-se Chiquinho de Milu. Elegeu-se prefeito e governou nossa cidade entre os anos de 1983 e 1987. Ele foi meu professor de Práticas Contábeis no Centro Educacional Santamariense, quando ginasiano. Chiquinho partiu prematuramente desta vida.

Ao contrário de Seu Luiz, Chiquinho da Almasa era um bom piadista. Certa feita, alguém noticiou a ele com entusiamo: “Chiquinho, vou me casar”, ao que, de supetão, questionou a sorrir: “contra quem?”.

Seu Luiz é uma “figuuuuura”, diria um poeta conhecido meu. E por falar em poeta, vejam a requintada resposta que ele teria dado àquele senhor que o interrogou sobre um animal que havia sido atropelado.

Cão atropelado. Foto: Reprodução / Vide referências.
— O que foi isso, Seu Luiz? Tadim do bichim! Tão maguim!

— Foi um veículo que, com suas quatro rodas borrachinosas, passou sobre o crânio deste canino, deixando-o inerte nesta praça escaldante — episódio que também ouvi narrado por Chiquinho da Almasa, cujo personagem não era Seu Luiz.

Levando, por fim, o palavreado de Seu Luiz para um Português entendível, sem tanto rebusco, ele apenas quis dizer “que um carro havia passado na cabeça de um cachorro”. Muito simples!

Referências:

ANIMAL atropelado deve ser socorrido por motorista. Disponível em: <https://cdn.autopapo.com.br/box/uploads/2019/05/20101932/animal-atropleado-deve-ser-socorrido-por-motorista.jpg>. Acesso em: 23 abr. 2021.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Eta celularzinho fofoqueiro e mentiroso!

Dia desses, estava eu no ponto de ônibus do Condomínio Solar Boa Vista, no Engenho Velho de Brotas, na capital baiana, juntamente com uma conhecida, que não vou dizer o nome, evidentemente, à espera da tão preciosa e demorada condução. Ela, por certo, para minimizar a chateação da espera, falava despreocupadamente ao celular. E como falava!

Andava para um lado, para o outro, cumprimentava alguém que chegava e dava um verdadeiro show de acrobacia com aquele aparelhinho: levava ao ouvido, levava à boca, era aquele lá e cá que chamava atenção e ela “nem aí pra nada”. Continuava “na dela”, com o “desconfiômetro” desligado. Ora falava alto, ora bem baixinho, como se segredasse. E o infindo diálogo prosseguia animado.
 
Foto: Reprodução / Internet. Vide nota no final.
Eis que chega o tão esperado buzu. Umas três pessoas correram para entrar naquele veículo, inclusive eu e ela, por coincidência. Dei-lhe passagem. Ela subiu primeiro e, logo depois, fiz o mesmo. Que gentileza errada! Minha conhecida, com o celular ao ouvido, apoiado no ombro, tenta pegar dentro de uma gigantesca bolsa que transportava, certamente, uma bolsa menor. E achou. Agora, era procurar dentro dessa bolsinha, o lugar onde estavam as moedas. E encontrou também. Milagre!

Com a bolsinha na mão, retirou dela um porta-moedas, pegou o dinheiro de dentro, colocou na mesinha do cobrador e começou a contar as moedinhas. Quem estava depois de mim, logo começou a resmungar, e ela, falando ao celular, sorrindo, fingia que nada estivesse acontecendo. A pista, como é bem sinuosa naquele local, o ônibus jogava-nos ora para um lado, ora para outro, como se fôssemos charuto em boca de bêbado. Pacientemente esperei, afinal, haveria de compreender que ela “não teve tempo” de contar as “niquinhas” enquanto estava no ponto à espera do ônibus.

Situações como esta não são uma exceção, confirmam a regra. É o que mais se vê, como também vemos muito por aí, o que fez meu colega de trabalho, Nilsolândio. Outro dia, chegando ao batente, lá vinha Nilso (mais fácil de pronunciar) em minha direção, a falar. Quando estava bem próximo dele, perguntei o que era. Ele aponta o polegar para si, aparentando falar consigo mesmo. Nada entendi, pois nem os fios nem o fone de ouvido eu os havia percebido. Só vi um “maluco” a conversar sozinho como tantos e tantos outros que encontramos pelas ruas desta tresloucada metrópole a usar o bluetooth.

Como disse, não é só ele que assim se comporta, coisas piores acontecem quando alguém está conversando ao celular, desde contar a mais “simples mentirinha” a encenar, em teatro sem plateia, “telebrigas” infindas. Foi num cenário desses em que me vi inserto ao tomar um coletivo na Av. Paralela com destino a Estação da Lapa, aqui em Salvador.

Sentei-me, naquela ocasião, bem tranquilamente, ao lado de uma moça que lia um volumoso livro, talvez para “encurtar” a viagem ou mesmo pelo prazer da leitura. Ou pelos dois motivos. Nada tão incomum em situações similares.

A viagem seguia sem anormalidades, quando o celular dela tocou. A moça o atende e aí acabou a minha paz, a nossa paz, digo melhor: o silêncio dentro daquele coletivo. É que ela começou um daqueles bate-papos em voz alta, a expor a própria vida, sem um mínimo de pudor, que deixou a todos constrangidos e boquiabertos sem acreditar no que ouvíamos. Como não havia outro lugar vago para me mudar, fiquei ali mesmo, tentando desviar o pensamento e doído para chegar ao ponto da Arena Fonte Nova, que fica antes da Estação da Lapa, para descer.

Nesse ínterim, creio que o interlocutor lhe perguntou onde ela estava, ao que respondeu, enfática: “Já estou na Lapa, meu bem, aguarde, por favor!”. Tomei um susto e, em voz alta, pensei, digo, questionei: “Oxe, aqui não é a Avenida Bonocô?”. A moça olhou para mim, espantada, botou o dedo indicador na boca, a pedir-me “silêncio!”. Em seguida, tapou o microfone do celular e me alertou com a cara séria, até de desespero: “Cala a boca, misera, é meu namorado, ele vai me matar”. E fez isso em voz alta!

E agora? Minha vergonha só aumentou, deu-me vontade de descer no primeiro ponto que surgisse, de tanto desconforto. Entrei na confusão sem ser chamado. Mas, não. Segui em frente e fiquei pensando como esse aparelhinho tem estimulado a mentira, desde a mais infantil até a mais deslavada, como se inverdade fosse algo tão natural, sem a mínima consequência, uma banalidade ou uma simples brincadeira. Nada tão grave.

Vivemos novos tempos, é sabido (e sentido). Tempos tecnológicos. Tempos em que, para os adeptos de inocentes mentirinhas, o celular, ao meu ver, os incentivou um pouco mais. Inversão de valores? Não. Algo, no entanto, pareceu-me patente, a olhos vistos: o celular banalizou a mentira! E quem dela já gostava, já tinha afinidade, só saiu a ganhar. Ganhar incentivo. E muito!

Nota: Foto disponível em: <https://atcaminhante.files.wordpress.com/2018/06/onibus-celular.jpg>. Acesso em: 2 abr. 2021.

sexta-feira, 12 de março de 2021

A Praça do Réptil e outras praças

Santa Maria da Vitória, seus causos incomuns, jardins e praças de nomes estrambóticos e risíveis. Confiram.

Sempre que conto para amigos ou colegas de trabalho algum causo relacionado a Santa Maria da Vitória ou mesmo falo de alguma peculiaridade da cidade, a reação vem em forma de gracejo na exclamativa frase: Só podia ser em Santa Maria da Vitória ou Santa Maria do Triunfo”, diriam os apaixonados torcedores do Bahia, aliás, do Baêa, tão somente para não pronunciarem o nome do eterno (e necessário) rival, o Esporte Clube Vitória.

“Mas será o Benedito?!”. Será mesmo que estas coisas só acontecem na minha terra? Não! Não é verdade! Toda cidadezinha do interior tem suas figuras folclóricas, seus causos pitorescos, suas singularidades, enfim. Por outro lado, com toda franqueza, não estou totalmente convencido disso. Senão vejam o que por lá acontece.

A cidade já nasceu contrariando a lógica por capricho da topografia local: a Rua de Baixo fica na parte alta e a Rua de Cima, na parte baixa. Tudo isso por conta do sentido que corre o majestoso Rio Corrente, cortando a cidade, causando aparente contradição. De onde vem o rio, é Rua de Cima, e para onde vai, é Rua de Baixa, embora o relevo pareça mostrar o contrário. Por esta razão, lá se pode dizer, sem prejuízo à semântica: “subir para a Rua de Baixo ou descer para a Rua de Cima”.

Antigamente, dois tamarindeiros também já faziam essa diferença:
o atual tamarindeiro (o do barco), perto da ponte Adão Souza, que liga Santa Maria da Vitória a São Félix do Coribe, era chamado tamarindeiro de cima. Outro, também na beira do rio, que ficava no fundo da casa de Manoel Bodeiro, onde é hoje o Jardim Fifa, em frente à Associarte Santa Maria, era o tamarindeiro de baixo.

Tamarindeiro de Cima. Foto (esq.): Rosa Tunes / Tamarindeiro de Baixo. Foto (dir.): Autor desconhecido.
Quanto ao Jardim Fifa, construído no mandato do prefeito Péricles Laranjeira Braga (1966–1970), sempre me questionei o porquê desse apelido. Quem teria botado? No local dele, nos anos 1960, ficavam as residências de Pulu (Apolinário), Manoel Bodeiro e Josefina Borba, demolidas pela Prefeitura para construção da atual praça. No jardim, havia um busto do Desembargador Joaquim Laranjeira, transferido posteriormente para o Fórum da cidade.

Alto da Lavandeira com casas onde é hoje o Jardim Fifa. Foto (esq.): IBGE. Foto (dir.): Desconhecido.

Vistas antiga e atual do Jardim Fifa. Fotos: Acervo do autor.

















Vistas antiga e atual do Jardim Fifa. Fotos: Acervo do autor.







Vista atual da Alto da Lavandeira e Associarte. Fotos: Novais Neto.












Logo após a construção daquela praça, a turma futeboleira para lá se deslocava, à noite, a fim de bater papo e ouvir transmissão de jogos e resenhas esportivas feitas pelas rádios Globo, Bandeirantes, Inconfidência de Minas e a Sociedade da Bahia. Vitor da Costa Neto (irmão de Nini de Paulo Soares, conhecido por Neto), espirituoso e mestre em pôr apelido, começou a chamar o local de Jardim Fifa em alusão àquele organismo esportivo. E o apelido pegou, ficando conhecido até nossos dias.

Quanto a outro episódio que vale a pena narrar, quem nos conta é o conterrâneo Clodomir Santos de Morais, advogado, sociólogo e escritor, no seu livro Conto Verossímeis I. Conta Morais, que Santa Maria foi palco, no final do século antepassado, da separação de dois gêmeos, Pedro e Miguel, que nasceram unidos à altura dos quadris, feita por uma parteira e “cirurgiã” leiga, Sabina Parto Bom.

Depois de separados, Pedro perdeu parte das nádegas e passou a ser conhecido por Pedro Bunda. O segundo ficou com uma proeminência nos quadris, dando a impressão de que portava uma arma, daí adveio o codinome Miguel Revólver. Este último eu o conheci comprando botina, 
“precata salga-bunda” e bruzego” (borseguim) na sapataria do meu pai.

Além destas e de outras curiosidades, há na cidade um jardim, cujo nome — ao olhar das mentes mais imaginativas — vem da “semelhança” (formato triangular com plantas no centro) que originalmente trazia do órgão genital feminino, na forma chula ou popular, como dizem os dicionaristas, no modo diminutivo: Jardim Bucetinha, localizado na Praça Joaquim Queiroz, que já foi Largo Capitão Joaquim Queiroz.

Vistas do antigo Largo Cap. Joaquim Queiroz. Fotos: Acervo do autor.

Vistas do Jardim Bucetinha (debaixo e de cima). Fotos: Novais Neto.
O estapafúrdio apelido ficou tão popular que o logradouro passou a ser conhecido como Praça do Jardim Bucetinha, para reprovação dos mais pudicos, de quem nela mora e, logicamente, dos descendentes do homenageado. Hoje, estão a chamá-lo de Jardim de Tezinho, porque lá, Walter Galhardo (Tezinho Alfaiate) tem um pequeno bar. Ninguém, no entanto, se esquece que o apelido é outro. Tal praça foi pavimentada no primeiro mandato do prefeito Rolando Laranjeira Barbosa (1962–1965).

Outro jardim, bem mais popular e muito famoso, é conhecido por Jardim Jacaré, cujo nome o ilustre santa-mariense, ex-prefeito (1960–1961), dentista e professor, de saudosa memória, Dr. Leônidas Borba se recusava a assim chamá-lo. Quando se referia ao logradouro onde ele está localizado, dizia Praça do Réptil, nunca, Praça do Jacaré, para mostrar total desaprovação ao apelido dado ao logradouro, pois não poderia admitir, jamais, que um desconhecido jacaré houvesse “engolido” o nome de seu amigo, o ex-senador e ex-governador baiano, Luiz Viana Filho, que emprestou nome à praça.

Jardim Jacaré em construção (déc. 1960). Fotos: Shirley Athayde e Novais Neto (déc. 1980).

Antigo Jardim Jacaré (déc. 1980). Foto (esq.): Novais Neto; Foto (dir.): Hermes Novais. Acervo do autor.
Antigo Jardim Jacaré (déc. 1980). Fotos: Novais Neto. Acervo do autor.




Jardim Jacaré. Foto (esq.): Reprodução / Facebook / Rita de Cássia Oliveira; Foto (dir.): Rui Lisboa.







Jardim Jacaré atual. Foto (esq.): Hermes Novais; Foto (dir.): Novais Neto. Acervo do autor.
A Praça do Jardim Jacaré ou Praça do Réptil, como quer Dr. Leônidas, é bom registrar, foi presenteada com duas belas esculturas de “dinos”, em ferro, os Mallerossauros, feitas pelo multiartista Chico Mallero, além de jacarés e sapos a contemplarem sua fonte luminosa.

Tudo isso, no entanto, é fichinha, como diríamos ironicamente, se levarmos em conta que nossa Santa Maria inventou, agora, de considerar ao pé da letra a frase corrente “dobrar esquina”, quando se quer dizer que alguém contornou uma esquina de uma rua qualquer. E há uma explicação para isso.

Quase todo final de ano, Carneirão e Ito de Ponciano promoviam um Carnaval fora de época, algo como uma Micareta. A cidade já festeja, no tempo certo, seu tradicional Carnaval. Mas festa... Festa nunca é demais! É o que pensam muitos.

No entanto, para que a Micareta se realize, algo de extraordinário acontece na Rua Teixeira de Freitas, por onde passa imenso trio elétrico arrastando animada multidão. No início da citada rua, esquina com a Juraci Magalhães, onde ficava a Eletromóveis Janaína, de Nissão, normalmente, o enorme caminhão do trio não passaria, pois não haveria como fazer a curva.

Aí então o extraordinário, o irreal acontece: a calçada e a marquise da loja de Nissão têm que ser cortadas bem rentes à parede, para que o ingente monstro sonoro possa passar, “tirando fino”. Isso acontece quase todo ano, anos a fio. E por muito tempo, as marcas comprobatórias do improvável ficam lá, à mostra, para quem quiser conferir o inimaginável ou dele duvide.


Rua Juracy Magalhães (esq.) e Rua Teixeira de Freitas (dir.). Fotos: Novais Neto.
Onde está, portanto, o extraordinário? O anormal? O excepcional mesmo é lembrar que aquela história de dizer que o “cúmulo da força” é “dobrar uma esquina”, em Santa Maria da Vitória, “o cúmulo da força” é “dobrar a esquina de Nissão”, “dobrar a Eletromóveis Janaína”, para o bem dos foliões e o desespero de quem mora na mais conhecida rua santa-mariense e suas imediações, em razão do ensurdecedor barulho.

Além disso, e por fim, “dobrar uma esquina”, na minha terra — está definitivamente comprovado — não é mera figura de linguagem. Lá, em Santa Maria da Vitória, esquina se dobra na marra, à força, a marretadas, literalmente, para o trio elétrico passar e a festança acontecer. Viram só?!

Outras fotos: Reproduções / Google / Maps


Jardim Bucetinha. Disponível em: <https://www.google.com.br/maps/@-13.3934707,-44.196408,20z>.

Jardim Bucetinha. Disponível em: <https://www.google.com.br/maps/@-13.3934707,-44.196408,20z>.
*  *  * 

Agradecimentos: Registro meus agradecimentos a Antônio Washington, Jair Queiroz e Tião Pedreiro (falecido em 2019), por terem reavivado algumas lembranças minhas dos temos de menino.

Em tempo: Esta crônica já foi publicada no Recanto da Lestras com o título de “A Praça do Réptil e outros bichos”, em 21/12/2013. Hoje está sendo republicada aqui no blog, revista, ampliada e ilustrada. Disponível em: <https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/4620223>. Acesso em: 17/4/2020.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Clodomir Santos de Morais - Um prefácio

Apresento nesta crônica pretenso prefácio que fiz para a segunda edição do livro de poesia “O amor e a sociedade”, de Clodomir Santos de Morais, em 2011. Confiram.

O primeiro livro publicado por um santa-mariense foi, certamente, “O amor e a sociedade”, de Clodomir Morais, no ano de 1950, pela Tipografia Helius (SP). Naquela época, Morais contava 22 anos e já era membro da Academia de Letras da Cidade de São Paulo. Somente 11 anos depois, em 1961, o livro “Porto Calendário”, Prêmio Jabuti de Literatura (1962), de Osório Alves de Castro, outro ícone das letras da cidade de Santa Maria da Vitória, veio a lume pela Livraria Francisco Alves, volume 4 da Coleção Terra Forte, planejada e dirigida por Paulo Dantas.

Clodomir Morais, O amor e a sociedade. São Paulo: Tipografia Helius, 1950.
Para a segunda edição do seu primeiro livro, Morais me fez o honroso convite para escrever o prefácio. Entre a euforia e o medo, topei o desafio. “O amor e a sociedade” é um livro de poesia com belíssimos sonetos, dentre os quais, bem ao estilo que me prende, humorístico, “A loira e a lei” (p. 34), que eu q
uis colocar na contracapa. Morais, no entanto, rechaçou e escolheu o soneto A China” (p. 33), que bem melhor o representa.

Neste livro, “O amor e a sociedade”, você vai conhecer um Clodomir Morais diferente, surpreendente, lírico, indignado, e sobretudo, poeta, na essência do termo.

Prefácio à segunda edição de “O amor e a sociedade”


Corria a década de 1970, chamada “anos de chumbo”, dentro do período em que governou o Brasil o general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974). Governo considerado o mais duro e repressivo da Ditadura Militar, que se instalara no Brasil em consequência do Golpe de Estado de 1964.

Nessa época, precisamente, em 1971, ingressei no Ginásio Comercial de Santa Maria da Vitória, que mudou para Centro Educacional Santamariense, depois de ter sido aprovado em Exame de Admissão, algo semelhante a um vestibular do Curso Primário.

Situado, assim, no tempo e no espaço, lembro-me de que minha mãe, Jandira Almeida Neves, especialmente ela, me falava muito de Morais, certamente, por ter sido ele compatrício, contemporâneo e amigo de Osias Afonso de Almeida, irmão dela, portanto, meu tio, que o acolheu em São Paulo. Foi assim que “conheci” Morais. Só tempos depois, vim a conhecer Clodomir Santos de Morais, Clodomir Morais ou simplesmente Morais: o escritor, advogado, sociólogo, cientista político, o cosmopolita.

Osias Almeida. Foto: Pinheiro Filho (SP, 1946).
Osias foi um poeta temporão, escriturário, bancário, que muitos de sua época lembram-se dele como uma pessoa de inteligência rara e cultivador de amizades, além de elegante, gentil e bonito, segundo as vozes femininas da época. Tive a sorte de recolher alguns poemas e textos escritos por ele, que me foram entregues por Seu Agnelo Braga e Seu Zé Moreno. Minha convivência com ele foi muito efêmera, tinha eu apenas quatro anos de idade. Guardo duas ou três lembranças dele, visto que o alcoolismo o levou muito cedo, aos 35 anos.

Morais, aquele jovem inteligente, lutador, visionário, comunista convicto, que os reacionistas da época preferiam tachá-lo de subversivo, saiu de Santa Maria da Vitória, ainda muito novo, para São Paulo e, daí, para Pernambuco. Em seguida, em consequência de seus ideais e de perseguições políticas, partiu para longo exílio. Partiu para o mundo. Esta é, portanto, parte da história que muitos sabemos. É o que meus pais e Milton Borba, seu ex-colega do Curso Primário, me contavam.

Anos depois, no final de 1979, quando a Anistia era fato consumado, Morais retornou a Santa Maria da Vitória. Eu estava lá, na Praça do Jacaré, vivendo, juntamente com muitos santa-marienses, um dia de muita alegria: o retorno do, agora, filho ilustre, cidadão do mundo, um homem que se pôs acima da dor.

Na década de 1980, eu morava na Casa do Estudante de Santa Maria da Vitória, em Salvador, onde tínhamos a Biblioteca Osório Alves de Castro, que havia sido presenteada por Morais com mais de 600 livros, alguns bem raros, que ele nos mandou da Nicarágua. Foi lá, lendo cópias de jornais antigos, encadernados, que tomei conhecimento de um Morais diferente, um Morais poeta, algo inimaginado. E conheci, logo, o belíssimo e romântico soneto decassílabo, “Morta”, típico da Terceira Geração Romântica brasileira. Foi um susto para mim, pois jamais havia pensado.

Soneto para Raul Coimbra (Seu Quinca). 1948.
E ficou por aí mesmo. Tive meu primeiro contato pessoal com Morais, em Brasília, ainda na década de 1980, num dos meus passeios de férias. Foi um sonho realizado. Morais, sempre muito gentil e amável, contou-me parte de sua saída de Santa Maria e o convívio com Osias, em São Paulo. Falou-me das venturas e desventuras românticas do meu tio, inclusive, o provável motivo que o teria levado à dipsomania e, desta para a prematura morte.

Em 1988, publiquei meu primeiro livro, “Flutuando na areia”, em prosa e verso, e mandei um exemplar para meu conterrâneo. De volta, recebi longa carta falando não só dos meus escritos, mas de Osias Almeida, seu amigo. Trechos desta missiva publiquei em dois dos meus livros.

Quanto à arte de, efetivamente, fazer versos, de Morais, só muito depois, na década de 1990, é que Joaquim Lisboa Neto (Kinkas) apresentou-me o livro “O amor e a sociedade”. Li avidamente todo o exemplar, viajei num mundo jamais imaginado por mim, mas idealizado por Morais. Os sonetos, com dez sílabas poéticas, a maioria, típicos de “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões, são de uma beleza singularíssima: sonoros, como palavras poéticas, postas nos lugares certos, ritmados. Sonetos, verdadeiramente, na essência do termo.

Uma das poesias de Clodomir prendeu-me, logo à primeira leitura, a atenção: “A loira e a lei”. Decorei quase que instantaneamente e passei a declamá-la. Dentre muitos e muitos outros, igualmente belos, este é de um bom humor impagável. Os poemas livres de Morais são uma aula da arte de versejar: “Tarde demais”, “Os dois corações”, “Saudades” e “Os cinquenta e dois mil nordestinos”, que narra a saudade da terra natal e a dor do nordestino em terras paulistas.


Jornal A Nova Idéia onde foi publicado o soneto “Morta” para Quinca Coimbra. 1948.
O soneto “Meu pai” é o poeta expondo sua dor ante a morte do seu herói, Antônio Lisboa de Morais. Muitos outros poemas eu poderia citar. Não o farei, entretanto, deixo para você, caro leitor, saborear “O amor e a sociedade”, um livro verdadeiramente atual, que mostra as dores e as venturas dos amores e das sociedades de ontem, tão presentes em nossos dias, vide poema “A China”, que ilustra a contracapa deste belíssimo livro: o primeiro de Morais, quando o poeta ingressou na Academia de Letras da Cidade de São Paulo, em 1950. 

Aniversário da Philarmônica 6 de Outubro. 2014. Foto: Acervo pessoal.

Clodomir Morais e Novais Neto. 2014. Foto: Rosa Tunes.
Meu Caro Amigo e Conterrâneo Morais, vivi um misto de alegria, medo, prazer e imensa responsabilidade, quando você me convidou a prefaciar a segunda edição de seu livro. A tarefa não me seria fácil, e não foi mesmo. Não escrevi um prefácio, contei como conheci você e seu livro, quando me deleitei e sorvi cada página de “O amor e a sociedade”, num aprendizado gradativo e constante. E o mais gratificante ainda: coube a mim a nova diagramação do livro.

O amor e a sociedade. 2. ed. (Santa Maria da Vitória: Gráfica Real, 2011).
Obrigado, portanto, Morais, pelo presente que me deu! Obrigado, por tudo que fez e continua fazendo por nossa querida Santa Maria da Vitória! Obrigado, Morais, pelo desafio a mim proposto. Obrigado, por seus versos, que dizem muito melhor do que eu! Obrigado, pelos ensinamentos!

Salvador (BA), Primavera de 2011.
Novais Neto
Poeta e cronista santa-mariense


A loira e a lei 


É loira a minha nova namorada,
Novinha, todavia muito astuta;
Desejo até fazer uma permuta
Por uma jovem experimentada.

Desvaneci e resultou em nada;
Agora segurou. É uma luta!
Por mais que falo, falo, não me escuta,
Parece que não quer ser despejada.

Meu coração tornou-se meu rosário
De desgostos com este locatário,
Que me obriga travar um pugilato.

Diz ela ser direito que lhe cabe;
Contudo, vou acreditar, quem sabe
O seja nova lei do inquilinato.

(MORAIS, Clodomir Santos de. O amor e a sociedade. 2. ed. Santa Maria da Vitória: Gráfica Real, 2011. p. 34, 114 p.) 

Nota: Clodomir Santos de Morais nos deixou em 25/3/2016, aos 87 anos, em Santa Maria da Vitória (BA).

Referências:

CLODOMIR SANTOS DE MORAIS. Disponível em: <https://www.recantodasletras.com.br/homenagens/4168400>. Acesso em: 24 dez. 2020. (Texto adaptado publicado no site Recanto das Letras em 2/3/2013). 

PREMIADOS 1962. Disponível em: <https://www.premiojabuti.com.br/premiados-por-edicao/premiacao/?ano=1962>. Acesso em: 19 fev. 2021.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Quase inimiga por causa de um beijo

Esta crônica, que não pretende desvendar os mistérios de um beijo, tão somente se diverte como uma das mais sublimes demonstração humana de afeto. Confiram.   

Estive longamente pensando sobre as consequências de um beijo. Lembrei-me de alguns deles: o beijo de Judas — o mais famoso da história humana — que o levou a trair Jesus para cumprimento de profecia do próprio traído; recordei os beijos do Conde Drácula, que subjugava suas vítimas e as transformava em vampiro; veio-me também à mente o romance “O beijo da mulher aranha”, do argentino Manuel Puig, que virou o filme américo-brasileiro, de título homônimo, dirigido por Héctor Babenco, cineasta argentino naturalizado brasileiro.

O beijo da mulher aranha. Foto: Autor.
Neste devaneio infindo, revi mentalmente cenas de filmes cujos beijos marcaram para sempre a vida dos seus protagonistas, o que me levou a fazer esta crônica, a partir de beijos reais, beijos imaginários e beijos pretendidos (e/ou concretizados), como o primeiro beijo apaixonado entre Scarlett O’Hara (Vivien Leight) e Rhett Butler (Clark Gable) no longa metragem estadunidense “E o vento levou”, dirigido por Victor Fleming:

— Me beije, Scarlett! Me beije! — diz Gable.

Dentre tantos e tantos beijos famosos ou não, que levaram muitos anônimos ao estrelato, recordei também os beijos do escalafobético lusitano, José Alves de Moura, o Beijoqueiro, apelido cunhado pela imprensa brasileira. E, por último, pensei nos beijos dos poetas. Ah, os poetas! Aliás, poeta não beija, oscula... Será mesmo?!

O beijoqueiro José Alves de Moura e Romário. Foto: Reprodução / Site (vide Referências).


Mário Quintana, solenizado e sensibilíssimo poeta gaúcho, de Alegrete, acerta em cheio ao afirmar categoricamente: “Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra, é bobagem. / Você não só não esquece a outra pessoa como pensa muito mais nela... / [...]”.

E por falar em poeta, aqui entro na história, quando me vi determinado a oscular alguém que me havia levado a infindas “viagens”. O beijo que o impulso me moveu não é o de Judas. Por certo, o de Drácula, não para transformar minha “vítima” em vampiresa e subjugá-la, porém, fazê-la minha amante, minha amada. Só isso! E este desejo crescente inspirou-me a rascunhar estas trovas:

E se de manhã te vejo
eu só penso em ser feliz,
de ti roubar mais um beijo,
fazer o que sempre quis.

A tua boca, meu bem,
só me desperta desejo,
e nem sei se me convém,
porém, vou roubar-te um beijo.

Ainda fiz outras composições trovadorescas que prometiam levar adiante o firme propósito de beijar esse alguém, sem jamais pensar em consequências maiores que não fosse selar um grande amor:

Quanto mais negas teu beijo,
meu desejo multiplica,
aproveitando esse ensejo,
passa tudo e ele fica.

Por mais que promessa faça,
meu sonho não vai mudar.
Vou cumprir tal ameaça:
um beijo teu vou roubar.

E assim o fiz: roubei... Beijei-a como se o fizesse pela última vez, como se aquele beijo me redimisse de grande erro. Promessa cumprida. Estava a salvo. Senti-me aliviado e certo de que houvera conquistado meu grande amor. No entanto, “o tiro saiu pela culatra”, concluí logo em seguida.

Conquistei, sim, uma quase inimizade. Esse alguém ficou por um bom tempo sem comigo falar, o que me levou, nesse ínterim, a ponderar. Refletir sobre o que houvera feito de tão reprovável para merecer tão ingente castigo. Judas, por Cristo foi perdoado, e olha que ele o traiu. E eu apenas tentei conquistar minha musa.

Meditei... meditei... o que me levou à seguinte conclusão: o erro cometido foi haver me comportado como incipiente poeta, em vez de beijá-la, osculei-a. A pensar assim, talvez volte à carga, para que esta despretensiosa crônica possa ter o título por mim desejado: “Amantes por causa de um beijo”.

Referências:

BEIJOQUEIRO. Biografia. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Beijoqueiro>. Acesso em: 17 out. 2020.

O BEIJOQUEIRO e seus ‘ataques’ a boleiros. Fotografia do Beijoqueiro e Romário. Disponível em: <https://www.ocuriosodofutebol.com.br/2015/10/o-beijoqueiro-e-seus-ataques-boleiros.html>. Acesso em: 17 out. 2020.

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“Matemática ultrarromântica“ na peça teatral portuguesa “Beremiz na Terra Plana“

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