sexta-feira, 12 de março de 2021

A Praça do Réptil e outras praças

Santa Maria da Vitória, seus causos incomuns, jardins e praças de nomes estrambóticos e risíveis. Confiram.

Sempre que conto para amigos ou colegas de trabalho algum causo relacionado a Santa Maria da Vitória ou mesmo falo de alguma peculiaridade da cidade, a reação vem em forma de gracejo na exclamativa frase: Só podia ser em Santa Maria da Vitória ou Santa Maria do Triunfo”, diriam os apaixonados torcedores do Bahia, aliás, do Baêa, tão somente para não pronunciarem o nome do eterno (e necessário) rival, o Esporte Clube Vitória.

“Mas será o Benedito?!”. Será mesmo que estas coisas só acontecem na minha terra? Não! Não é verdade! Toda cidadezinha do interior tem suas figuras folclóricas, seus causos pitorescos, suas singularidades, enfim. Por outro lado, com toda franqueza, não estou totalmente convencido disso. Senão vejam o que por lá acontece.

A cidade já nasceu contrariando a lógica por capricho da topografia local: a Rua de Baixo fica na parte alta e a Rua de Cima, na parte baixa. Tudo isso por conta do sentido que corre o majestoso Rio Corrente, cortando a cidade, causando aparente contradição. De onde vem o rio, é Rua de Cima, e para onde vai, é Rua de Baixa, embora o relevo pareça mostrar o contrário. Por esta razão, lá se pode dizer, sem prejuízo à semântica: “subir para a Rua de Baixo ou descer para a Rua de Cima”.

Antigamente, dois tamarindeiros também já faziam essa diferença:
o atual tamarindeiro (o do barco), perto da ponte Adão Souza, que liga Santa Maria da Vitória a São Félix do Coribe, era chamado tamarindeiro de cima. Outro, também na beira do rio, que ficava no fundo da casa de Manoel Bodeiro, onde é hoje o Jardim Fifa, em frente à Associarte Santa Maria, era o tamarindeiro de baixo.

Tamarindeiro de Cima. Foto (esq.): Rosa Tunes / Tamarindeiro de Baixo. Foto (dir.): Autor desconhecido.
Quanto ao Jardim Fifa, construído no mandato do prefeito Péricles Laranjeira Braga (1966–1970), sempre me questionei o porquê desse apelido. Quem teria botado? No local dele, nos anos 1960, ficavam as residências de Pulu (Apolinário), Manoel Bodeiro e Josefina Borba, demolidas pela Prefeitura para construção da atual praça. No jardim, havia um busto do Desembargador Joaquim Laranjeira, transferido posteriormente para o Fórum da cidade.

Alto da Lavandeira com casas onde é hoje o Jardim Fifa. Foto (esq.): IBGE. Foto (dir.): Desconhecido.

Vistas antiga e atual do Jardim Fifa. Fotos: Acervo do autor.

















Vistas antiga e atual do Jardim Fifa. Fotos: Acervo do autor.







Vista atual da Alto da Lavandeira e Associarte. Fotos: Novais Neto.












Logo após a construção daquela praça, a turma futeboleira para lá se deslocava, à noite, a fim de bater papo e ouvir transmissão de jogos e resenhas esportivas feitas pelas rádios Globo, Bandeirantes, Inconfidência de Minas e a Sociedade da Bahia. Vitor da Costa Neto (irmão de Nini de Paulo Soares, conhecido por Neto), espirituoso e mestre em pôr apelido, começou a chamar o local de Jardim Fifa em alusão àquele organismo esportivo. E o apelido pegou, ficando conhecido até nossos dias.

Quanto a outro episódio que vale a pena narrar, quem nos conta é o conterrâneo Clodomir Santos de Morais, advogado, sociólogo e escritor, no seu livro Conto Verossímeis I. Conta Morais, que Santa Maria foi palco, no final do século antepassado, da separação de dois gêmeos, Pedro e Miguel, que nasceram unidos à altura dos quadris, feita por uma parteira e “cirurgiã” leiga, Sabina Parto Bom.

Depois de separados, Pedro perdeu parte das nádegas e passou a ser conhecido por Pedro Bunda. O segundo ficou com uma proeminência nos quadris, dando a impressão de que portava uma arma, daí adveio o codinome Miguel Revólver. Este último eu o conheci comprando botina, 
“precata salga-bunda” e bruzego” (borseguim) na sapataria do meu pai.

Além destas e de outras curiosidades, há na cidade um jardim, cujo nome — ao olhar das mentes mais imaginativas — vem da “semelhança” (formato triangular com plantas no centro) que originalmente trazia do órgão genital feminino, na forma chula ou popular, como dizem os dicionaristas, no modo diminutivo: Jardim Bucetinha, localizado na Praça Joaquim Queiroz, que já foi Largo Capitão Joaquim Queiroz.

Vistas do antigo Largo Cap. Joaquim Queiroz. Fotos: Acervo do autor.

Vistas do Jardim Bucetinha (debaixo e de cima). Fotos: Novais Neto.
O estapafúrdio apelido ficou tão popular que o logradouro passou a ser conhecido como Praça do Jardim Bucetinha, para reprovação dos mais pudicos, de quem nela mora e, logicamente, dos descendentes do homenageado. Hoje, estão a chamá-lo de Jardim de Tezinho, porque lá, Walter Galhardo (Tezinho Alfaiate) tem um pequeno bar. Ninguém, no entanto, se esquece que o apelido é outro. Tal praça foi pavimentada no primeiro mandato do prefeito Rolando Laranjeira Barbosa (1962–1965).

Outro jardim, bem mais popular e muito famoso, é conhecido por Jardim Jacaré, cujo nome o ilustre santa-mariense, ex-prefeito (1960–1961), dentista e professor, de saudosa memória, Dr. Leônidas Borba se recusava a assim chamá-lo. Quando se referia ao logradouro onde ele está localizado, dizia Praça do Réptil, nunca, Praça do Jacaré, para mostrar total desaprovação ao apelido dado ao logradouro, pois não poderia admitir, jamais, que um desconhecido jacaré houvesse “engolido” o nome de seu amigo, o ex-senador e ex-governador baiano, Luiz Viana Filho, que emprestou nome à praça.

Jardim Jacaré em construção (déc. 1960). Fotos: Shirley Athayde e Novais Neto (déc. 1980).

Antigo Jardim Jacaré (déc. 1980). Foto (esq.): Novais Neto; Foto (dir.): Hermes Novais. Acervo do autor.
Antigo Jardim Jacaré (déc. 1980). Fotos: Novais Neto. Acervo do autor.




Jardim Jacaré. Foto (esq.): Reprodução / Facebook / Rita de Cássia Oliveira; Foto (dir.): Rui Lisboa.







Jardim Jacaré atual. Foto (esq.): Hermes Novais; Foto (dir.): Novais Neto. Acervo do autor.
A Praça do Jardim Jacaré ou Praça do Réptil, como quer Dr. Leônidas, é bom registrar, foi presenteada com duas belas esculturas de “dinos”, em ferro, os Mallerossauros, feitas pelo multiartista Chico Mallero, além de jacarés e sapos a contemplarem sua fonte luminosa.

Tudo isso, no entanto, é fichinha, como diríamos ironicamente, se levarmos em conta que nossa Santa Maria inventou, agora, de considerar ao pé da letra a frase corrente “dobrar esquina”, quando se quer dizer que alguém contornou uma esquina de uma rua qualquer. E há uma explicação para isso.

Quase todo final de ano, Carneirão e Ito de Ponciano promoviam um Carnaval fora de época, algo como uma Micareta. A cidade já festeja, no tempo certo, seu tradicional Carnaval. Mas festa... Festa nunca é demais! É o que pensam muitos.

No entanto, para que a Micareta se realize, algo de extraordinário acontece na Rua Teixeira de Freitas, por onde passa imenso trio elétrico arrastando animada multidão. No início da citada rua, esquina com a Juraci Magalhães, onde ficava a Eletromóveis Janaína, de Nissão, normalmente, o enorme caminhão do trio não passaria, pois não haveria como fazer a curva.

Aí então o extraordinário, o irreal acontece: a calçada e a marquise da loja de Nissão têm que ser cortadas bem rentes à parede, para que o ingente monstro sonoro possa passar, “tirando fino”. Isso acontece quase todo ano, anos a fio. E por muito tempo, as marcas comprobatórias do improvável ficam lá, à mostra, para quem quiser conferir o inimaginável ou dele duvide.


Rua Juracy Magalhães (esq.) e Rua Teixeira de Freitas (dir.). Fotos: Novais Neto.
Onde está, portanto, o extraordinário? O anormal? O excepcional mesmo é lembrar que aquela história de dizer que o “cúmulo da força” é “dobrar uma esquina”, em Santa Maria da Vitória, “o cúmulo da força” é “dobrar a esquina de Nissão”, “dobrar a Eletromóveis Janaína”, para o bem dos foliões e o desespero de quem mora na mais conhecida rua santa-mariense e suas imediações, em razão do ensurdecedor barulho.

Além disso, e por fim, “dobrar uma esquina”, na minha terra — está definitivamente comprovado — não é mera figura de linguagem. Lá, em Santa Maria da Vitória, esquina se dobra na marra, à força, a marretadas, literalmente, para o trio elétrico passar e a festança acontecer. Viram só?!

Outras fotos: Reproduções / Google / Maps


Jardim Bucetinha. Disponível em: <https://www.google.com.br/maps/@-13.3934707,-44.196408,20z>.

Jardim Bucetinha. Disponível em: <https://www.google.com.br/maps/@-13.3934707,-44.196408,20z>.
*  *  * 

Agradecimentos: Registro meus agradecimentos a Antônio Washington, Jair Queiroz e Tião Pedreiro (falecido em 2019), por terem reavivado algumas lembranças minhas dos temos de menino.

Em tempo: Esta crônica já foi publicada no Recanto da Lestras com o título de “A Praça do Réptil e outros bichos”, em 21/12/2013. Hoje está sendo republicada aqui no blog, revista, ampliada e ilustrada. Disponível em: <https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/4620223>. Acesso em: 17/4/2020.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Clodomir Santos de Morais - Um prefácio

Apresento nesta crônica pretenso prefácio que fiz para a segunda edição do livro de poesia “O amor e a sociedade”, de Clodomir Santos de Morais, em 2011. Confiram.

O primeiro livro publicado por um santa-mariense foi, certamente, “O amor e a sociedade”, de Clodomir Morais, no ano de 1950, pela Tipografia Helius (SP). Naquela época, Morais contava 22 anos e já era membro da Academia de Letras da Cidade de São Paulo. Somente 11 anos depois, em 1961, o livro “Porto Calendário”, Prêmio Jabuti de Literatura (1962), de Osório Alves de Castro, outro ícone das letras da cidade de Santa Maria da Vitória, veio a lume pela Livraria Francisco Alves, volume 4 da Coleção Terra Forte, planejada e dirigida por Paulo Dantas.

Clodomir Morais, O amor e a sociedade. São Paulo: Tipografia Helius, 1950.
Para a segunda edição do seu primeiro livro, Morais me fez o honroso convite para escrever o prefácio. Entre a euforia e o medo, topei o desafio. “O amor e a sociedade” é um livro de poesia com belíssimos sonetos, dentre os quais, bem ao estilo que me prende, humorístico, “A loira e a lei” (p. 34), que eu q
uis colocar na contracapa. Morais, no entanto, rechaçou e escolheu o soneto A China” (p. 33), que bem melhor o representa.

Neste livro, “O amor e a sociedade”, você vai conhecer um Clodomir Morais diferente, surpreendente, lírico, indignado, e sobretudo, poeta, na essência do termo.

Prefácio à segunda edição de “O amor e a sociedade”


Corria a década de 1970, chamada “anos de chumbo”, dentro do período em que governou o Brasil o general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974). Governo considerado o mais duro e repressivo da Ditadura Militar, que se instalara no Brasil em consequência do Golpe de Estado de 1964.

Nessa época, precisamente, em 1971, ingressei no Ginásio Comercial de Santa Maria da Vitória, que mudou para Centro Educacional Santamariense, depois de ter sido aprovado em Exame de Admissão, algo semelhante a um vestibular do Curso Primário.

Situado, assim, no tempo e no espaço, lembro-me de que minha mãe, Jandira Almeida Neves, especialmente ela, me falava muito de Morais, certamente, por ter sido ele compatrício, contemporâneo e amigo de Osias Afonso de Almeida, irmão dela, portanto, meu tio, que o acolheu em São Paulo. Foi assim que “conheci” Morais. Só tempos depois, vim a conhecer Clodomir Santos de Morais, Clodomir Morais ou simplesmente Morais: o escritor, advogado, sociólogo, cientista político, o cosmopolita.

Osias Almeida. Foto: Pinheiro Filho (SP, 1946).
Osias foi um poeta temporão, escriturário, bancário, que muitos de sua época lembram-se dele como uma pessoa de inteligência rara e cultivador de amizades, além de elegante, gentil e bonito, segundo as vozes femininas da época. Tive a sorte de recolher alguns poemas e textos escritos por ele, que me foram entregues por Seu Agnelo Braga e Seu Zé Moreno. Minha convivência com ele foi muito efêmera, tinha eu apenas quatro anos de idade. Guardo duas ou três lembranças dele, visto que o alcoolismo o levou muito cedo, aos 35 anos.

Morais, aquele jovem inteligente, lutador, visionário, comunista convicto, que os reacionistas da época preferiam tachá-lo de subversivo, saiu de Santa Maria da Vitória, ainda muito novo, para São Paulo e, daí, para Pernambuco. Em seguida, em consequência de seus ideais e de perseguições políticas, partiu para longo exílio. Partiu para o mundo. Esta é, portanto, parte da história que muitos sabemos. É o que meus pais e Milton Borba, seu ex-colega do Curso Primário, me contavam.

Anos depois, no final de 1979, quando a Anistia era fato consumado, Morais retornou a Santa Maria da Vitória. Eu estava lá, na Praça do Jacaré, vivendo, juntamente com muitos santa-marienses, um dia de muita alegria: o retorno do, agora, filho ilustre, cidadão do mundo, um homem que se pôs acima da dor.

Na década de 1980, eu morava na Casa do Estudante de Santa Maria da Vitória, em Salvador, onde tínhamos a Biblioteca Osório Alves de Castro, que havia sido presenteada por Morais com mais de 600 livros, alguns bem raros, que ele nos mandou da Nicarágua. Foi lá, lendo cópias de jornais antigos, encadernados, que tomei conhecimento de um Morais diferente, um Morais poeta, algo inimaginado. E conheci, logo, o belíssimo e romântico soneto decassílabo, “Morta”, típico da Terceira Geração Romântica brasileira. Foi um susto para mim, pois jamais havia pensado.

Soneto para Raul Coimbra (Seu Quinca). 1948.
E ficou por aí mesmo. Tive meu primeiro contato pessoal com Morais, em Brasília, ainda na década de 1980, num dos meus passeios de férias. Foi um sonho realizado. Morais, sempre muito gentil e amável, contou-me parte de sua saída de Santa Maria e o convívio com Osias, em São Paulo. Falou-me das venturas e desventuras românticas do meu tio, inclusive, o provável motivo que o teria levado à dipsomania e, desta para a prematura morte.

Em 1988, publiquei meu primeiro livro, “Flutuando na areia”, em prosa e verso, e mandei um exemplar para meu conterrâneo. De volta, recebi longa carta falando não só dos meus escritos, mas de Osias Almeida, seu amigo. Trechos desta missiva publiquei em dois dos meus livros.

Quanto à arte de, efetivamente, fazer versos, de Morais, só muito depois, na década de 1990, é que Joaquim Lisboa Neto (Kinkas) apresentou-me o livro “O amor e a sociedade”. Li avidamente todo o exemplar, viajei num mundo jamais imaginado por mim, mas idealizado por Morais. Os sonetos, com dez sílabas poéticas, a maioria, típicos de “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões, são de uma beleza singularíssima: sonoros, como palavras poéticas, postas nos lugares certos, ritmados. Sonetos, verdadeiramente, na essência do termo.

Uma das poesias de Clodomir prendeu-me, logo à primeira leitura, a atenção: “A loira e a lei”. Decorei quase que instantaneamente e passei a declamá-la. Dentre muitos e muitos outros, igualmente belos, este é de um bom humor impagável. Os poemas livres de Morais são uma aula da arte de versejar: “Tarde demais”, “Os dois corações”, “Saudades” e “Os cinquenta e dois mil nordestinos”, que narra a saudade da terra natal e a dor do nordestino em terras paulistas.


Jornal A Nova Idéia onde foi publicado o soneto “Morta” para Quinca Coimbra. 1948.
O soneto “Meu pai” é o poeta expondo sua dor ante a morte do seu herói, Antônio Lisboa de Morais. Muitos outros poemas eu poderia citar. Não o farei, entretanto, deixo para você, caro leitor, saborear “O amor e a sociedade”, um livro verdadeiramente atual, que mostra as dores e as venturas dos amores e das sociedades de ontem, tão presentes em nossos dias, vide poema “A China”, que ilustra a contracapa deste belíssimo livro: o primeiro de Morais, quando o poeta ingressou na Academia de Letras da Cidade de São Paulo, em 1950. 

Aniversário da Philarmônica 6 de Outubro. 2014. Foto: Acervo pessoal.

Clodomir Morais e Novais Neto. 2014. Foto: Rosa Tunes.
Meu Caro Amigo e Conterrâneo Morais, vivi um misto de alegria, medo, prazer e imensa responsabilidade, quando você me convidou a prefaciar a segunda edição de seu livro. A tarefa não me seria fácil, e não foi mesmo. Não escrevi um prefácio, contei como conheci você e seu livro, quando me deleitei e sorvi cada página de “O amor e a sociedade”, num aprendizado gradativo e constante. E o mais gratificante ainda: coube a mim a nova diagramação do livro.

O amor e a sociedade. 2. ed. (Santa Maria da Vitória: Gráfica Real, 2011).
Obrigado, portanto, Morais, pelo presente que me deu! Obrigado, por tudo que fez e continua fazendo por nossa querida Santa Maria da Vitória! Obrigado, Morais, pelo desafio a mim proposto. Obrigado, por seus versos, que dizem muito melhor do que eu! Obrigado, pelos ensinamentos!

Salvador (BA), Primavera de 2011.
Novais Neto
Poeta e cronista santa-mariense


A loira e a lei 


É loira a minha nova namorada,
Novinha, todavia muito astuta;
Desejo até fazer uma permuta
Por uma jovem experimentada.

Desvaneci e resultou em nada;
Agora segurou. É uma luta!
Por mais que falo, falo, não me escuta,
Parece que não quer ser despejada.

Meu coração tornou-se meu rosário
De desgostos com este locatário,
Que me obriga travar um pugilato.

Diz ela ser direito que lhe cabe;
Contudo, vou acreditar, quem sabe
O seja nova lei do inquilinato.

(MORAIS, Clodomir Santos de. O amor e a sociedade. 2. ed. Santa Maria da Vitória: Gráfica Real, 2011. p. 34, 114 p.) 

Nota: Clodomir Santos de Morais nos deixou em 25/3/2016, aos 87 anos, em Santa Maria da Vitória (BA).

Referências:

CLODOMIR SANTOS DE MORAIS. Disponível em: <https://www.recantodasletras.com.br/homenagens/4168400>. Acesso em: 24 dez. 2020. (Texto adaptado publicado no site Recanto das Letras em 2/3/2013). 

PREMIADOS 1962. Disponível em: <https://www.premiojabuti.com.br/premiados-por-edicao/premiacao/?ano=1962>. Acesso em: 19 fev. 2021.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Quase inimiga por causa de um beijo

Esta crônica, que não pretende desvendar os mistérios de um beijo, tão somente se diverte como uma das mais sublimes demonstração humana de afeto. Confiram.   

Estive longamente pensando sobre as consequências de um beijo. Lembrei-me de alguns deles: o beijo de Judas — o mais famoso da história humana — que o levou a trair Jesus para cumprimento de profecia do próprio traído; recordei os beijos do Conde Drácula, que subjugava suas vítimas e as transformava em vampiro; veio-me também à mente o romance “O beijo da mulher aranha”, do argentino Manuel Puig, que virou o filme américo-brasileiro, de título homônimo, dirigido por Héctor Babenco, cineasta argentino naturalizado brasileiro.

O beijo da mulher aranha. Foto: Autor.
Neste devaneio infindo, revi mentalmente cenas de filmes cujos beijos marcaram para sempre a vida dos seus protagonistas, o que me levou a fazer esta crônica, a partir de beijos reais, beijos imaginários e beijos pretendidos (e/ou concretizados), como o primeiro beijo apaixonado entre Scarlett O’Hara (Vivien Leight) e Rhett Butler (Clark Gable) no longa metragem estadunidense “E o vento levou”, dirigido por Victor Fleming:

— Me beije, Scarlett! Me beije! — diz Gable.

Dentre tantos e tantos beijos famosos ou não, que levaram muitos anônimos ao estrelato, recordei também os beijos do escalafobético lusitano, José Alves de Moura, o Beijoqueiro, apelido cunhado pela imprensa brasileira. E, por último, pensei nos beijos dos poetas. Ah, os poetas! Aliás, poeta não beija, oscula... Será mesmo?!

O beijoqueiro José Alves de Moura e Romário. Foto: Reprodução / Site (vide Referências).


Mário Quintana, solenizado e sensibilíssimo poeta gaúcho, de Alegrete, acerta em cheio ao afirmar categoricamente: “Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra, é bobagem. / Você não só não esquece a outra pessoa como pensa muito mais nela... / [...]”.

E por falar em poeta, aqui entro na história, quando me vi determinado a oscular alguém que me havia levado a infindas “viagens”. O beijo que o impulso me moveu não é o de Judas. Por certo, o de Drácula, não para transformar minha “vítima” em vampiresa e subjugá-la, porém, fazê-la minha amante, minha amada. Só isso! E este desejo crescente inspirou-me a rascunhar estas trovas:

E se de manhã te vejo
eu só penso em ser feliz,
de ti roubar mais um beijo,
fazer o que sempre quis.

A tua boca, meu bem,
só me desperta desejo,
e nem sei se me convém,
porém, vou roubar-te um beijo.

Ainda fiz outras composições trovadorescas que prometiam levar adiante o firme propósito de beijar esse alguém, sem jamais pensar em consequências maiores que não fosse selar um grande amor:

Quanto mais negas teu beijo,
meu desejo multiplica,
aproveitando esse ensejo,
passa tudo e ele fica.

Por mais que promessa faça,
meu sonho não vai mudar.
Vou cumprir tal ameaça:
um beijo teu vou roubar.

E assim o fiz: roubei... Beijei-a como se o fizesse pela última vez, como se aquele beijo me redimisse de grande erro. Promessa cumprida. Estava a salvo. Senti-me aliviado e certo de que houvera conquistado meu grande amor. No entanto, “o tiro saiu pela culatra”, concluí logo em seguida.

Conquistei, sim, uma quase inimizade. Esse alguém ficou por um bom tempo sem comigo falar, o que me levou, nesse ínterim, a ponderar. Refletir sobre o que houvera feito de tão reprovável para merecer tão ingente castigo. Judas, por Cristo foi perdoado, e olha que ele o traiu. E eu apenas tentei conquistar minha musa.

Meditei... meditei... o que me levou à seguinte conclusão: o erro cometido foi haver me comportado como incipiente poeta, em vez de beijá-la, osculei-a. A pensar assim, talvez volte à carga, para que esta despretensiosa crônica possa ter o título por mim desejado: “Amantes por causa de um beijo”.

Referências:

BEIJOQUEIRO. Biografia. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Beijoqueiro>. Acesso em: 17 out. 2020.

O BEIJOQUEIRO e seus ‘ataques’ a boleiros. Fotografia do Beijoqueiro e Romário. Disponível em: <https://www.ocuriosodofutebol.com.br/2015/10/o-beijoqueiro-e-seus-ataques-boleiros.html>. Acesso em: 17 out. 2020.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

O fotógrafo da Fazenda Bacalhau

Nesta crônica biográfica, apresento-lhes Manoel Pereira dos Santos, fotógrafo que deu muitos cliques em noites festivas da nossa Santa Maria da Vitória. Confiram e divirtam-se também.

Nascido no município de Canápolis, oeste baiano, na localidade conhecida por Fazenda Bacalhau, em 18 de abril de 1950, há época, ainda pertencente a Santana dos Brejos, renominada Santana. Ele, Manoel Pereira dos Santos, como está em seu Batistério ou Certidão de Batismo, é o primogênito de dez filhos de Antônio Pereira (Tõi Bacalhau) e Emiliana Moreira (Dona Samila).

Manoel é um tipo destoante dos nascidos na região: branco, cabelos loiros, olhos esverdeados, esguio, beirando um metro e noventa, e falante. Como é do costume local, usança nossa, o apelido poderia ser Manezim de Tõi Bacalhau, mas não. Na sua simplicidade brejeira, ele sempre se apresentava como Zim Bacaiau, sem se preocupar com a correta pronúncia da palavra. Para quê? Para desoriginalizar? E o Manezim reduziu-se a Zim, e dessa forma ficou conhecido: Zim Bacaiau.

Dia desses, mês de julho de 2018, encontrei-me com Zim Bacaiau na Rua do Buracão, ou melhor, Rua Euzébio de Queiroz, no Bairro da AABB, em Santa Maria da Vitória, a bater descontraído papo com Ismael Batista, irmão de Bio da Coelba. Entrei na conversa, já que era final de tarde de temperatura amena, Sol a esfriar, suave brisa, momento apropriado para descompromissos.

Novais Neto e Zim Bacaiau. 2018. Foto: Ismael Batista.
Entre um assunto e outro, quis saber de Zim de onde vem o codinome Bacalhau, que ele mesmo cunhou para si. Explicou-me que seu apelido adveio da Fazenda Bacalhau, onde nasceu, e que bacalhau é uma espécie de chicote ou taca, em cujo cabo são afixadas correias de couro cru, que se usava para tocar animais, e que não tem nada a ver com “aquele peixe salgado”, o que naturalmente nos leva a crer.

Conheci Zim na década de 1970. Nessa época, eu trabalhava no Funrural, local para onde convergia a população rural em busca de aposentadoria rural, e ele, uma vez ou outra, aparecia por lá com uma câmara fotográfica pronta para clicar. Depois, já nos anos 1990, quando Hermes, meu irmão, montou um laboratório fotográfico para copiar fotos coloridas, foi que mais me aproximei de Zim.

Segundo me contou, adquiriu sua primeira câmara, uma Olympus Trip 35, de um amigo em Brasília. Na sua época de iniciante na arte fotográfica, os retratistas mais conhecidos em Santa Maria eram Pombinho, Neném, Tião, o Tiãozim Roupa Limpa, quando só se fazia foto preto e branco, e monóculo. Filme colorido era revelado e copiado em Bom Jesus da Lapa ou em Correntina, com Vadu, ou então enviado para Sonora, em Manaus, ou Fuji Filmes, em São Paulo. Da Sonora, retornavam fotos no tamanho 9x9, acompanhadas, cada uma, de duas fotos menores e idênticas do lado direito, na mesma proporção. 

Novais Neto, Brasilia. 1978. Foto: Tião Álvares.
Zim Bacaiau, trabalhador rural, de origem, foi benzedor, rezador, curador de bicheira de animais, fazedor de versos e dançador. Foi ainda ajudante de obras e cobrador de ônibus em Brasília, da Viação Pioneira, além de ter sido professor leigo do Mobral, quando chegou a alfabetizar, segundo ele, 564 alunos. Exerceu esse sacerdócio por 22 anos nas localidades de Porco Branco, Barreiro Preto, Salobro, Jenipapo e Cabeceira Grande, no município de Santa Maria da Vitória.

Em tom de graça, sorriso sempre aberto, e por ser um incorrigível contador de causos, Zim me “confidenciou” ter ficado noivo 25 vezes. Contou-me, também, que ele não podia olhar para uma moça bonita que o pai dela já insinuava um casamento, o que naturalmente “apressava o noivado”. Será somente por isso ou ele é bom de lábia?

Foi como fotógrafo, entretanto, que Zim se fez conhecido na região, já que registrava festas variadas, formaturas, casamentos, batizados, aniversários, velórios, sepultamentos e, por 15 anos, fotografou para Delegacias de Polícia Civil. Fez fotos nas zonas rurais e urbanas de Santa Maria, São Félix, Canápolis, Santana, Tabocas do Brejo Velho, Serra Dourada, Jaborandi e Bom Jesus da Lapa, sempre a deslocar com sua motinha (como ele a ela se refere), uma Honda XL 125, vermelha, sucateada, carcomida.

Na década de 1970, quando eu ainda morava em Santa Maria, sempre me encontrava com Zim na Praça do Jacaré, à noite, principalmente em épocas festivas, como sua máquina, “relampeando” (disparando o flash). E sempre que se deparava com alguém mais “chegado”, tirava do bolso da camisa uma ruma de fotografias, mostrava-as, a fim de ajudá-lo a identificar o cliente que as solicitou. 

Novais Neto e Zim Bacaiau. 2018. Foto: Ismael Batista.
Zim se queixava de que muitos pediam para fazer fotos (relampear, no dizer dele), depois, vinha com a história de que não gostou, de que a foto ficou feia, coisa e tal, e ele acabava amargando prejuízo, por isso não escondia de ninguém ao alardear que gostava mesmo era de “fazer foto de defunto, porque não reclama”.

Nas eleições municipais de 1996, Zim pretendeu candidatar-se a prefeito de Santa Maria, cujo vice seria Lindolfo de Manim Ramos ou Lindolfo do Correio, quando chegou até a confeccionar panfletos com o seguinte slogan: “Voto legal é com Zim Bacalhau”, tendo trocado a letra “F” por “V” e corrigido a grafia da frase original, usada para divulgar seu ofício, oralmente: “Foto legal é com Zim Bacaiau”.

Manoel Pereira dos Santos ou simplesmente Zim Bacaiau, que entendo bem mais lídimo assim grafar – Bacaiau –, é casado com Dona Eulália, com quem tem quatro filhos: Maurizan (jornalista), Marilza (publicitária), Morgana (bioquímica) e Amarildo (engenheiro civil).





sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Homenagem a meus contemporâneos esportistas

Esta crônica é uma tímida tentativa de homenagear meus contemporâneos da juventude, quando, juntos, no divertíamos pelos campos e quadras santa-marienses e de Salvador. Confiram.

Bateu-me no peito, hoje, de manhã, uma saudade muito grande, imensurável, desmedida, sem limite. Se estivesse falando isso a um amigo ou conhecido e não escrevendo esta crônica, sem qualquer dúvida, diria desse jeito, para não fugi de minha origem: “Ô, môss, eu amanheci hoje foi com uma saudade disgramada. Num sei que troço foi esse. Tô até mei desanimado”.

“Saudade é assim mesmo”, por certo, algum amigo me diria para me animar. É que, sorrateiramente, ela aparece por um motivo até banal — se tolamente julgado à luz da razão. E não importa que o termo não exista em outro idioma — felicidade nossa —, mas todos a sentimos, dê-lhe o nome que quiser. Feliz daquele que tem motivo para senti-la, porque, de uma forma ou de outra, a saudade é a lembrança de algum momento vivido. Saudade de algures, saudade de alhures. Ou simplesmente saudade, por uma razão qualquer, isso pouco importa!

Essa coisa boa que tomou de mim, aqui chamada saudade, teve uma boa razão de aflorar. É que, revirando fotos antigas dos tempos de juventude, deparei-me com uma que só me trouxe recordações reconfortantes: é uma do time do Fluminense de Batista, o Fluminense da Rua de Cima. Esse retrato fez-me retroagir ao ano de 1975, quando este que escreve, jogava no citado tricolor. Desculpe-me pela força do termo “jogava”, melhor seria dizer “maltratava a bola”. Como não havia outro esporte naquele distante ano em nossa cidade, tinha mesmo era que tentar “dominar a pelota” a qualquer custo, para assim ficar no meio dos amigos, visto que outro esporte, o basquete, ainda engatinhava.

No Centro Educacional Santamariense (CES), o Colégio dos Padres ou Escola Paroquial, como também era conhecido, nosso professor de Matemática e Educação Física, Tércio Santana, Tutes, nos ensinou a jogar basquete, auxiliado pelos irmãos Anatole de Cotinha e Júnior França, que já sabiam jogar, mas estudavam no Colégio Maçônico Gonçalves Lêdo, onde formaram outra equipe com Deva Biduim, que já praticava tal esporte, e nossos times rivalizavam, ocasião em que, aos domingos, à tardezinha, a quadra do colégio 
(construída com ajuda dos próprios alunos) enchia de torcedores animados e torcedoras belas e esfuziantes.

Novais Neto, Milton de João Nogueira, Tutes, Rui Morais e Paulão de Petrônio. 1977.

Foto 1: Novais Neto saltando, observado por Anatole, Júnior e Paulão.
Foto 2: Deva Biduim tentando passar entre Novais Neto e Tutes, observado por Paulão.
Identificados: Toginho de Zé de Tião, Júnior, César de Wilson Barros, Anatole, Tutes e Novais Neto.
Quanto ao tricolor santa-mariense, foi muito bom jogar naquele time e, no meu caso, foi um acontecimento incomum, já que morava na Rua de Baixo e jogava numa equipe da Rua de Cima, rivais históricas desde a origem da nossa cidade. Outro também da Rua de Baixo era Charles de Adão Bodeiro. Integrar o Flu se devia ao fato de ser amigo e estudar na mesma turma de seus donos, Saulim de Dona Milu, Francisco Saulo Mendes da Veiga, como também o irmão, jogador do time principal, Batista do Correio, João Batista Mendes da Veiga.

Só que as exceções ou contradições não acabavam por aí. Depois do advento do Rei Pelé, cabia ao craque do time vestir a camisa 10. E mais ninguém. No entanto, em razão de acirrada disputa por tal camisa entre Nego Lito, Titinho de Vidi e Charles de Adão Bodeiro, Saulim resolvia a polêmica questão deixando comigo, lateral esquerdo perna-de-pau, a responsabilidade e a enorme heresia de vestir a camiseta do Rei. Saulim, justamente ele, apreciador do bom futebol e bom de bola, fazer tal coisa, ninguém entendia. O fato é que a “briga” acabava e ninguém tinha o direito de vir reclamar comigo, “pobre inocente”.

Saulo, torcedor incondicional do Fluminense, tricolor que colecionava pôsteres do Flu e da Seleção nas paredes do quarto de dormir, retirados da Revista Placar, chegava a brigar, mesmo em sonho:

— Ninguém segura o Fluminense de Manfrini. Vai pra ponta direita aí, seu porra! — isso é o que Gezo, ponta direita de nossa equipe e gozador insistente, nos contava, para delírio de todos.

Quanto à velha fotografia do eternal momento — motivo desta crônica — estão presentes nela, além de Hermes (do Flamenguinho Juvenil, de Marinho da Casa Globo), o goleiro Coimbrão, Licura, Pedim de Maria Costa, Caramuru, Saulim de Dona Milu, Novais Neto, Nego Lito, Vá de Palu, Renatinho de Reinaldo, Miguelzim, Milton de João Nogueira, Charles de Adão Bodeiro, Gezo e Pedro do Posto Lisboa. Pertenciam ainda ao Flu Juvenil, Tito de Vidi, Zeto B12 e o técnico era Quinquinha de Milu, pai de Saulo e Batista, auxiliado por Miro Carne de Porca, não presentes nesta memorável recordação.



No ano de 1978, deixei minha terra natal rumo à Brasília. Naquela época, já fazia parte do time juvenil da Associação Atlética Castro Alves, ocasião em que a agremiação, devido a mudanças para outras cidades de alguns seus jogadores, lembro-me especialmente de César de Wilson Barros e este que escreve, fez uma partida de despedida entre dois times do mesmo juvenil, evento que terminou com um gol para cada lado. E um foi meu. O técnico de uma das equipes foi Seu Irênio e da outra, Dema Bodeiro.








Fizeram-me recordar ainda estes registros fotográficos amigos daquele tempo, pelos bons momentos vividos nas quadras da Sambaíba, de Chiquinho e Centro Educacional, e nos campos do Derba e no Campão, o atual estádio Turíbio Oliveira, tais como Marcelão Teixeira, os irmãos Toginho e Branco de Zé de Tião, Amarildo, Messias Chaves, Gival Matos, Tõi Rosinha, Tõi Coelho, os irmãos Bimba e Gilmar de Déo, Milton Churel, Dika de Charqueada, Doxa, Ítalo Ipojucan, Lulu de Valdim, Luciano Bahia, Pelé, Dão de Zé Maria, Zé Milton, Calai de Zé Belém, Zé de Maria, Dãozim de Antõi Bobó, Queiroz de Seu Tôni, Nisso, Ciço da Sambaíba, Galego, Nélson, Dena, os irmãos Tatém e Tio de Filó, Edilson de Dona Enide, Jorge de Zifina, Vanja, os irmãos Boião e Orelha, e os também irmãos China Show e Terto de Toge.

Quanto à quadra da Sambaíba a que me referi acima, não é a do extinto Clube Santa Maria, mas uma bem anterior, circundada por árvores, dentre elas, um frondoso juazeiro. Ela foi construída pelos funcionários do Banco do Brasil no início da década de 1960, para prática de futebol de salão e voleibol, e foi a primeira da nossa cidade. Como era caminho para roça do meu pai e do curtume, joguei lá muitas vezes com meus amigos de infância.

Ainda me referindo aos amigos primeiros, da mais tenra idade, Agnelo de Donaricota, que virou Agnelo Profissi, conceituado professor de Matemática, foi quem me levou para ser goleiro do Ypiranguinha do Mestre Ló, mas não deu certo, mudei de posição e virei ponta esquerda. Ele até hoje se lamenta por ter sido vítima de um gol de córner por mim cobrado, num treino. Recordo-me, ademais, dessa época, de amigos e contemporâneos, tais como Abelzim do Pingo d’Água, Cabelo de Ovelha, Zelino Jega Véa, Pedim do Sal, Manoel Bracim, César de Wilson Barros, Bai de Coli, Binha de Emílio Leão, Jânio de Pina, os irmãos Pinga, Caolho e Mau de Josael do Armazém Conquista, Iran de Cícero Soldado, dentre tantos outros que já me escaparam dos escaninhos da memória.

E agora, como vou terminar esta crônica? Ela serviu de lenitivo para minha saudade, acalmou-me, ajudou a lembrar-me de velhos e queridos amigos, no entanto, “deixou-me no mato sem cachorro”. Não pensei que isso fosse acontecer e agora me vejo ante o vazio, frente a frente com o nada. Mas tudo bem, o objetivo foi atingido: fiz de um momento de saudade um motivo de ser grato à vida, de ser grato ao Criador e aos inesquecíveis amigos! E isto me faz um bem sem fim! Enorme!

Time do Fubuia (Santa Maria) numa comemoração de final de ano. Década de 1990.

Time do Carranca (Baneb, Salvador). Década de 1980.

Time do Carranca (Baneb, Salvador). Década de 1990.

Time da Compensação (Baneb, Salvador). Década de 1990.


Time do Fubuia (Bariri, Eng. V. de Brotas, 1996).

Torcedores do Fluminense - Estádio Turíbio de Oliveira (Turibão) - Santa Maria da Vitória (BA). 1976.






Quem sou

“Matemática ultrarromântica“ na peça teatral portuguesa “Beremiz na Terra Plana“

Publicada no meu segundo livro, Ave Corrente (1991), a poesia  “ Matemática ultrarromântica ” , posteriormente, singrou mares e foi parar em...