terça-feira, 26 de novembro de 2019

Uma cena não cotidiana

Nesta crônica, uma cena que me sensibilizou, pude ver que nem sempre as bestas soltas são aquelas que julgamos sê-las. Confiram e se emocionem também.

Ilustração de Jailson Borges (Jão). 2019.
Em dias de bestas soltas, quando o ser humano nem sempre é mais visto como tal — tamanha insensatez dos nossos (des)semelhantes — depararmos com gestos nobres são momentos relativamente raros e únicos.

Felizmente, ainda há aqueles que ousam driblar a apatia, como fez o protagonista da cena que presenciei ao passar de ônibus na tarde de 11 de janeiro de 1993, defronte ao Teatro Castro Alves, em Salvador, Bahia.


Na pista em frente ao referido teatro, parou um coletivo distante do calçadão. Dele, desceram várias pessoas e, por último, uma senhora negra, bem vestida, de presumíveis setenta anos, andando com certa dificuldade, amparada a uma bengala.

Por alguns instantes, titubeou na pista, atarantada. Nesse ínterim, um moleque de rua, raquítico, trajando apenas um calção sujo, descalço, teve a iniciativa de parar o fluxo de veículos e ajudá-la na travessia até o passeio daquela casa de espetáculo.

Fosse esse alguém um transeunte qualquer, o gesto não deixaria de ser humanitário, tornou-se, todavia, mais emocionante porque, além de o autor do belo espetáculo nem perceber a grandeza do seu ato, seria mais fácil prever que ele iria “puxar” a bolsa daquela pobre senhora, cotidiana cena em nossas metrópoles.


Neste mundo hodierno, no qual bestas soltas nos rodeiam diuturnamente, aqueles que muitas vezes aparentam sê-las – como o garoto desse episódio – acabam nos dando verdadeira lição de vida, humanidade e cidadania. Foi verdadeiramente emocionante para aqueles sortudos passageiros que do ônibus puderam presenciar tão incomum, bela e inolvidável cena.

Em tempo: Esta crônica foi publicada na seção Espaço do Leitor, do Jornal A Tarde (Salvador, BA), do dia 17/1/1993 com o título “Sensibilizado com uma boa ação”. Publicada também no Jornal Cultural – Blocos, Ano II – 10, Fev/Mar/1993 (Rio de Janeiro, RJ) e no Recanto das Letras, onde está também disponível: <https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/2344598>. Acesso em: 10 nov. 2019.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

O verbo que se fez carne, que se fez verbo

Nesta crônica natalícia, pelos meus 62 anos, alguns verbos conjuguei, todos eles amparados no verbo viver, o mais bonito, o mais desejado. Confiram.

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. (João 1:1); “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós [...]. (João 1:14) E sem maiores delongas, por força ilustrativa desta crônica, digamos que tudo aconteceu exatamente como está nas Escrituras Sagradas, sem levarmos em conta eventual simbologia.

A continuar a célere marcha do tempo, já no ano de 1957 da Era Cristã, ele veio ao mundo: um mundo conturbado, vítima de duas grandes guerras mundiais, incontáveis catástrofes naturais e outras tantas provocadas pelo homem — esse animal (ir)racional — enfim, um mundo bem diferente: final dos tempos para muitos!

Vinte anos depois, em 1977 — adulto já — nem percebeu estar a viver a conjugação do verbo: um verbo neológico, raramente usado, o verbo vintar, certamente o mais belo deles, não pela eufonia, mas por dizer respeito à fase mais bonita e viçosa da existência humana na qual sonhos e incertezas andam pari passu. Ele, então, passou a ser um vintenário sonhador e poeta.

Em 1987, ele trintou. Tinha, certamente, plena consciência do que era ser um vivente trintenário. Na ocasião, tentou fazer um poema para homenagear a si mesmo. Mas esbarrou na tentativa. Ou melhor, ainda escreveu uma mensagem rememorativa dizendo-se feliz por viver intensamente a terceira dezena existencial.

À luz, no entanto, das constatações científicas, principalmente aprendidas nas aulas de Biologia, recordou que o envelhecimento dos tecidos e a diminuição gradativa das forças musculares seriam doravante inevitáveis e visíveis. Nada assustador: ele se sentia mais maduro, mais sereno, mais produtivo e jovem de espírito, não sentindo — ainda — o peso cumulativo dos outubros vividos.

Ano de 1997, mês de outubro, dia 24. Ele é pai de uma linda menina (êta corujice explícita!) de um ano e meio. Fez algumas coisas certas e outras tantas que não frutificaram. Bem mais maduro, segue poeta sonhador, embora “as pedras do caminho” o tenham tornado mais crítico, mais consciente, por isso mesmo a vibrar mais com vitórias alcançadas e das intempéries a retirar lições.

E o Verbo? Lembra-se do Verbo que se fez carne? Pois bem! As dezenas perfeitas, isto é, os numerais arábicos cardinais a denotar contagem natalícia, que se fizeram ao longo dos tempos os verbos vintar e trintar, continuam sua conjugação atemporal. E assim, é a carne que se vai transformando em verbos e, gradativamente, habitando em mim: quarentei!

Salvador (BA), 24 de outubro de 1997.

Em tempo: Depois do verbo quarentar, há 22 anos, quando esta crônica foi escrita, cinquentei, sessentei, na esperança de que outras conjugações verbais hão de vir. E que venha o próximo verbo que pretendo conjugá-lo na primeira pessoa do Pretérito Perfeito: setentei. Hoje, ainda conjugado no Futuro do Presente: setentarei. Se Deus assim desejar! E que seja esse o desejo dEle.

Santa Maria da Vitória (BA), 24 de outubro de 2019.

sábado, 28 de setembro de 2019

Ensinamento canino para humanoides

"No trânsito, o sentido é a vida", é o que nos ensina, nesta crônica, um pequeno vira-lata.

Finalzinho de tarde de um dia qualquer na Cidade do Salvador, lá pelos idos de 2005 ou 2006. Marcos Guimarães, com sua peculiar elegância e postura irrepreensível, adequadamente trajando seu uniforme de trabalho, talonário de autuação e caneta nas mãos, e eu, à época, um aprendiz ainda em estágio probatório na Transalvador, observávamos o trânsito que fluía ininterrupto na Ligação Iguatemi-Paralela, mais conhecida pela sigla LIP.

Tudo, como foi dito, absolutamente dentro do esperado para aquele lapso temporal. Porém, o trânsito é muito dinâmico e, de um momento para outro, tudo pode mudar e beirar o caos. De repente: buzinaço, frenagens bruscas, xingamentos, gritos e o trânsito, outrora frenético, ficou lento e congestionado.

Meu colega e eu, mesmo acostumados com anormalidades dessas ocasiões, vimos, serpenteando entre os veículos, um corredor urbano, bem trajado, do tipo atlético aparentemente “bombado” e cérebro diminuto, a provocar a ira de condutores e indignação de transeuntes, deixou a todos estupefatos quando, ao terminar a travessia das pistas, tranquilamente subiu no passeio e, a andar, seguiu se itinerário sem nenhuma pressa, a contrariar o que houvera feito instantes passados de modo irresponsável e imprudente.

Por outro lado, uma cena inobservada por muitos pedestres, um cãozinho vira-lata, magricela, pestilento, tenta atravessar a pista e quase é atropelado. Recuou, assustado e, ao perceber algumas pessoas aglomeradas naquele local, posicionou-se bem atrás delas e, embora a matar pulgas que o atormentavam, aguardou pacientemente o fechamento do semáforo para atravessar para o outro lado da pista. Quando isso aconteceu, ele seguiu a multidão e saiu a farejar restos de alimentos sem correr o risco de atropelamento.

Ilustração de Jailson Borges (Jão). 2019.
O que se pode observar nesses dois episódios? Algo muito simples, imagino eu. Se por um lado alguém supostamente racional, pensante, expõe a própria vida numa atitude impensada e grotesca, por outro lado, um ser sabidamente não humano, mas orientado pelo instinto preservador da espécie, certamente vítima de algumas bordoadas veiculares, acabou tendo ações que se esperariam daquele tresloucado e inconsequente corredor citadino.

E aquele pequenino cão vira-lata, doente, esquálido e pestilencioso, abanando um rabinho quase sem pelos — mas feliz — seguiu seu incerto caminho a virar latas em busca de comida para lhe garantir mais um dia de sobrevivência, deu sua contribuição canina, mesmo sem saber, a tantos quantos expõem a própria vida, irrefletida e injustificadamente.

Salvador (BA), 18 a 25 de setembro de 2019.
Semana Nacional do Trânsito
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Obs.: Crônica publicada inicialmente no Jornal da Associação dos Servidores em Transporte e Trânsito do Município (Astram), nº 16, Junho 2014, p. 4.

domingo, 22 de setembro de 2019

Um atleta incansável

Quando pensamos que já vimos muito, na verdade, não vimos quase nada na vida, é o que mostro neste microconto.

Dia desses, ao dirigir-me à Transalvador,  no Vale dos Barris, meu local de trabalho, passando pelo Dique do Tororó, avistei parcialmente uma cena que me atiçou a curiosidade. Era de alguém, talvez um andador, um corredor ou um grande atleta numa mesma posição por um longo tempo.

Procurei passar bem perto do local para conhecer um superatleta. Qual foi a minha surpresa ao ver que o suposto esportista só tinha pernas de EPI e poderia ficar por um muito mais tempo na mesma posição, porque a vontade dele é a vontade do dono das pernas humanas e não a dele.


Restou-me, portanto, apenas sorrir e registrar a singularíssima imagem produzida por um Equipamento de Proteção Individual (EPI).

Píer do Dique do Tororó, Salvador, Bahia, Brasil. Foto: Novais Neto. 2019.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Seu Upa e Seu Cupa

Nesta crônica, apresento-lhes um desses propagandistas de milagrosos produtos que os vemos vender nas praças e feiras livres das nossas cidades.

Não tem jeito mesmo! É essa a conclusão a que chego, agora, neste exato momento. Já fiz inumeráveis promessas de não falar tanto de saudade em minhas crônicas. Mas ela — a saudade — é teimosa, não “larga do meu pé”. E eu acho até bom, sabe por quê? Porque ela me revigora, ajuda-me a enfrentar a dureza cotidiana.


Hoje, não sei por que bulhufas — uma vez mais — voltei aos tempos da Casa do Estudante de Santa Maria da Vitória, a inolvidável Caes, década de 1980, localizada na Ladeira do Hospital Santa Isabel, aqui em Salvador, Bahia.

Recordei-me de Julinho (nome fictício), um dos residentes que ao retornar da escola, já perto do meio-dia, apresenta-nos uma grande novidade: um sabonete que prometia curar tudo, segundo ele, dito por um propagandista na Praça da Sé.

Antes, porém, de dizer que sabão foi aquele, volto ainda mais no tempo e no espaço e agora estou na minha terra natal, anos 1970, a lembrar-me de Zelino Jega Véia e Chiquinho Boca Aberta, mercando pão quentinho ao romper do dia pelas ruas da Rua de Baixo e da Rua de Cima (isso mesmo!):

— Ê o pão! Ê o pão carteira, sovado e de sal.

Ou na parte da tarde:

— Ê o ginete, a peta, o ximango, a queca! Quem vai querer? Tá quentinho, da hora!

Isso me fez recordar, ademais, uma figura que por lá apareceu dizendo ter sido goleiro das divisões de base do Vitória ou do Bahia. Não me recordo direito. A bem da verdade é que ele se esforçava muito como guarda-meta (êta coisa mais antiga!), porém, a lembrança que dele ficou, foi a forma exótica, incomum de anunciar seus produtos nas ruas santa-marienses:

— Cinquenta, paca, tatu, cobra assada, cotia moqueada e galinha de moqueca! Olhe aí. Quem vai querer?

E um detalhe curioso que me foi lembrado por Hermes Novais, meu irmão, é que ele anunciava isso tudo e só vendia pastel e banana real. Imagem!

Como, naquela época, pouco se ouvia falar de Salvador entre nós, jovens, muito menos ainda a palavra moqueca, o goleiro soteropolitano assumiu o cognome Moqueca, chegando a defender as cores da Associação Atlética Castro Alves por algumas temporadas.

Vale lembrar que ainda hoje os mais velhos da cidade se referem a Salvador como sendo Bahia, verdadeiramente. Haja vista a grande distância da Capital, a população regional tem maior intercâmbio com Goiás, Brasília e Norte de Minas. Os mais velhos, como meu pai, normalmente dizem “vou pra Bahia”, quando se referem à eventual viagem a nossa Metrópole.

De volta ao nosso assunto principal, o tal “sabonete cura-tudo”, certa ocasião, ao passar pela Praça da Sé, não é que encontrei possivelmente o mesmo vendedor, cercado por curiosos e desocupados, tirando uma de médico “tudologista”, o que me fez lembrar, sem dúvida, o sabonete de Julinho, amigo já referido no início desta crônica. Parei por uns instantes para ouvi-lo mercar:


Plano Inclinado Gonçalves, Salvador. Foto: Novais Neto. 2019.
— Meus amigos, este sabão que vocês tão vendo na minha mão é o mais novo milagre da medicina natural do Brasil, quiçá mundial! Cura tudo quanto é doença de pele: pano-branco, pano-preto, creca, impigem, unha encravada, ziquizira, mijadura de potó, bicho-de-porco e até chulé da miss Bahia do Irã — garantia ele com indisfarçável conhecimento farmacológico.

E para entreter ainda mais seus ávidos assistentes, vez por outra mirava o Plano Inclinado Gonçalves a sua frente e soltava uma daquelas frases de duplo sentido:

— Vocês tão vendo o Plano Inclinado ali? Pois bem. Reparem bem direitinho nele: quando uma gaiola sobe, a outra gaiola desce. O nome de uma gaiola é Seu Upa e o nome da outra gaiola é Seu Cupa. Agora vejam o que acontece: quando Seu Upa sobe, Seu Cupa desce! — e repetia, repetia, repetia com toda seriedade do mundo:

— Quando Seu Upa sobe, Seu Cupa desce! — e mirava os sorridentes espectadores.
Ilustração de Jailson Borges (Jão). 2019.

A plateia delirava, “caía na risada” e o mercador, impassível, imperturbável, voltava a falar do seu miraculoso e insólito produto, que nada mais era senão algo parecido com sabão de coco embrulhado em papel laminado para enganar os pacóvios, simplórios e desavisados ou — sabe-se lá — propiciar até mesmo um dubitável Efeito Placebo!

Salvador (BA), 16/9/2019.

Quem sou

“Matemática ultrarromântica“ na peça teatral portuguesa “Beremiz na Terra Plana“

Publicada no meu segundo livro, Ave Corrente (1991), a poesia  “ Matemática ultrarromântica ” , posteriormente, singrou mares e foi parar em...