segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Seu Upa e Seu Cupa

Nesta crônica, apresento-lhes um desses propagandistas de milagrosos produtos que os vemos vender nas praças e feiras livres das nossas cidades.

Não tem jeito mesmo! É essa a conclusão a que chego, agora, neste exato momento. Já fiz inumeráveis promessas de não falar tanto de saudade em minhas crônicas. Mas ela — a saudade — é teimosa, não “larga do meu pé”. E eu acho até bom, sabe por quê? Porque ela me revigora, ajuda-me a enfrentar a dureza cotidiana.


Hoje, não sei por que bulhufas — uma vez mais — voltei aos tempos da Casa do Estudante de Santa Maria da Vitória, a inolvidável Caes, década de 1980, localizada na Ladeira do Hospital Santa Isabel, aqui em Salvador, Bahia.

Recordei-me de Julinho (nome fictício), um dos residentes que ao retornar da escola, já perto do meio-dia, apresenta-nos uma grande novidade: um sabonete que prometia curar tudo, segundo ele, dito por um propagandista na Praça da Sé.

Antes, porém, de dizer que sabão foi aquele, volto ainda mais no tempo e no espaço e agora estou na minha terra natal, anos 1970, a lembrar-me de Zelino Jega Véia e Chiquinho Boca Aberta, mercando pão quentinho ao romper do dia pelas ruas da Rua de Baixo e da Rua de Cima (isso mesmo!):

— Ê o pão! Ê o pão carteira, sovado e de sal.

Ou na parte da tarde:

— Ê o ginete, a peta, o ximango, a queca! Quem vai querer? Tá quentinho, da hora!

Isso me fez recordar, ademais, uma figura que por lá apareceu dizendo ter sido goleiro das divisões de base do Vitória ou do Bahia. Não me recordo direito. A bem da verdade é que ele se esforçava muito como guarda-meta (êta coisa mais antiga!), porém, a lembrança que dele ficou, foi a forma exótica, incomum de anunciar seus produtos nas ruas santa-marienses:

— Cinquenta, paca, tatu, cobra assada, cotia moqueada e galinha de moqueca! Olhe aí. Quem vai querer?

E um detalhe curioso que me foi lembrado por Hermes Novais, meu irmão, é que ele anunciava isso tudo e só vendia pastel e banana real. Imagem!

Como, naquela época, pouco se ouvia falar de Salvador entre nós, jovens, muito menos ainda a palavra moqueca, o goleiro soteropolitano assumiu o cognome Moqueca, chegando a defender as cores da Associação Atlética Castro Alves por algumas temporadas.

Vale lembrar que ainda hoje os mais velhos da cidade se referem a Salvador como sendo Bahia, verdadeiramente. Haja vista a grande distância da Capital, a população regional tem maior intercâmbio com Goiás, Brasília e Norte de Minas. Os mais velhos, como meu pai, normalmente dizem “vou pra Bahia”, quando se referem à eventual viagem a nossa Metrópole.

De volta ao nosso assunto principal, o tal “sabonete cura-tudo”, certa ocasião, ao passar pela Praça da Sé, não é que encontrei possivelmente o mesmo vendedor, cercado por curiosos e desocupados, tirando uma de médico “tudologista”, o que me fez lembrar, sem dúvida, o sabonete de Julinho, amigo já referido no início desta crônica. Parei por uns instantes para ouvi-lo mercar:


Plano Inclinado Gonçalves, Salvador. Foto: Novais Neto. 2019.
— Meus amigos, este sabão que vocês tão vendo na minha mão é o mais novo milagre da medicina natural do Brasil, quiçá mundial! Cura tudo quanto é doença de pele: pano-branco, pano-preto, creca, impigem, unha encravada, ziquizira, mijadura de potó, bicho-de-porco e até chulé da miss Bahia do Irã — garantia ele com indisfarçável conhecimento farmacológico.

E para entreter ainda mais seus ávidos assistentes, vez por outra mirava o Plano Inclinado Gonçalves a sua frente e soltava uma daquelas frases de duplo sentido:

— Vocês tão vendo o Plano Inclinado ali? Pois bem. Reparem bem direitinho nele: quando uma gaiola sobe, a outra gaiola desce. O nome de uma gaiola é Seu Upa e o nome da outra gaiola é Seu Cupa. Agora vejam o que acontece: quando Seu Upa sobe, Seu Cupa desce! — e repetia, repetia, repetia com toda seriedade do mundo:

— Quando Seu Upa sobe, Seu Cupa desce! — e mirava os sorridentes espectadores.
Ilustração de Jailson Borges (Jão). 2019.

A plateia delirava, “caía na risada” e o mercador, impassível, imperturbável, voltava a falar do seu miraculoso e insólito produto, que nada mais era senão algo parecido com sabão de coco embrulhado em papel laminado para enganar os pacóvios, simplórios e desavisados ou — sabe-se lá — propiciar até mesmo um dubitável Efeito Placebo!

Salvador (BA), 16/9/2019.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

O colega de Anderlaine

Nesta crônica, apresento-lhe Seu Minelli, vítima da invasão cotidiana de palavras estrangeiras em nosso idioma pátrio. 

A invasão desenfreada e desmedida de palavras alienígenas, nos últimos 20, 30 anos, até mais, principalmente as advindas da Internet, tem causado urticária em muitos de nós, para não dizer embaraços e situações burlescas.

Quando digo “muitos de nós”, refiro-me àqueles de meia-idade, pouco habituados ao mundo cibernético, ainda tateando ou procurando adaptar ao mundo dos mais jovens, hábeis internautas, muitos desses termos até enfeiam e agridem nosso já tão maltratado idioma pátrio: o Português.

Isso, a bem da verdade, não constitui coisa nova. Há muito, nossa língua vem sendo invadida por termos estrangeiros, fruto de traduções que não encontram similares ou por mero modismo. Entendo também que muitas dessas palavras enriquecem o Português, outras... tenho minhas dúvidas.

Quando bancário, havia uma expressão que usávamos rotineiramente sem saber (pelo menos eu) de que se tratava de uma tradução livre do inglês: Correio Eletrônico, tipo de mensagem enviada para a rede de agência do banco, que nada mais é senão o tão conhecido e trocado E-Mail (Eletronic Mail).

E por falar em e-mail, muitos já tentam adaptá-lo a nossa pronúncia e grafia, preferindo escrever “emeio”. Se vai vingar, o futuro é quem vai dizer. A despeito dele, desse tal e-mail, já tão difundido, meu pai me perguntou, certa vez, quando assistia a um jogo na TV:

— Novais, o que é e-mail, que eu vejo na revista, no jornal e aqui na televisão?

Vale registrar que ele pronunciou e-mail como se fosse uma palavra oxítona, isto é, com a sílaba tônica no “il”, e fortemente pronunciada — “e-ma-íl” — como é do seu jeito.


Foto: Reprodução / Facebook. 2019.
Na época, expliquei-lhe do que se tratava. E ele entendeu. Se hoje fosse, meu pai não estaria “errado” e eu lhe apresentaria Email Suarez Barboza, policial da Dirección Nacional de Identificación Civil, Republica Oriental del Uruguay, segundo reporta um e-mail que circulou na Internet com a cópia da Cédula de Identidad do uruguaio, ou mesmo, ainda hoje, no perfil dele no Facebook, é possível comprovar.

Pois bem, esta mesma invasão que chamei alienígena, fez-me vítima várias vezes, em sala de aula, quando pronunciei “erradamente” “firestóne” em lugar de “fáirestone”; “licra” em vez de “laicra”. E por aí vai. E olhe que aspeei o termo “erradamente”, logo no início, para justificar que não sou obrigado a pronunciar “corretamente” palavras de outro idioma. Mas quem perdoa? Quem não quer tirar sarro? Fazer uma gozação? Portanto, é melhor ter certa prudência.

E foi justamente isso — prudência — o que não teve Seu Minelli: cidadão de meia-idade, sempre risonho, amigo, que aceita com bom humor as brincadeiras, um sujeito bonachão, engraçado, um tipo zen, um bon vivant.

Seu Minelli inventou de continuar os estudos. Já tem dois cursos de nível superior, mas resolveu fazer um novo curso universitário, Urbanismo. Não gosta de ficar parado a cuidar de netos, fazer compras em shoppings. Isso não. Ele gosta é de estudar, futucar a Internet, WhatsApp, celular de última geração... Isso é com ele.

E assim, facilmente, adaptou-se aos novos costumes, às gírias e aos linguajares dos jovens colegas. Ele, o coroa da sala, já se sentia muito à vontade, enturmado. Brincava com todos e todos o respeitavam, tratavam-no — inclusive os professores — de “Seu Minelli”, com toda a deferência que seus loiros e grisalhos cabelos poderiam insinuar (ou exigir).

Início de mais um semestre letivo. Seu Minelli, sentado na primeira fila, bronzeado, compenetrado, pois não havia feito prova final — passou direito em tudo —, tinha o respeito da turma e a mestra sabia disso, por isso mesmo sempre a ele se dirigia:

— Seu Minelli, anote aí o e-mail da turma e a senha, para que todos tenham acesso, quando quiserem mandar alguma mensagem para mim, tirar alguma dúvida...

— Mandaí, pró. Já demorô — todo solto, cheio de gíria e intimidade.

— Anote, então: urbanismo underline matutino arroba uneb ponto bê-erre.

— Pró, quem é esta colega que eu não conheço ainda?

— Que colega, Seu Minelli, que o senhor não conhece ainda?

— Essa tal de Anderlaine que a senhora acabou de falar.

A mestra tentou explicar para Seu Minelli o que é underline, mas não conseguiu devido aos incontroláveis risos da turma. Tentou dizer-lhe que a “anderlaine” (underline) por ele referida significa “sublinha ou linha abaixo”, que é aquele velho tracinho posto abaixo das letras que as antigas máquinas de datilografia já traziam, a fim de destacar uma palavra, uma frase; é o grifo de idos tempos, já que nas máquinas não havia como negritar.

Foto: Novais Neto. 2019.
A turma estava em êxtase, era unissonante gargalhada, inclusive da contida professora. E ele, que também sorriu à beça da terrível mancada, não foi perdoado pelos colegas e passou a ser tratado doravante, bem carinhosamente, por Seu Minelli de Anderlaine. Muito chique, não é mesmo, Seu Minelli? Aliás, Minelli de Anderlaine!

Para seu consolo, Seu Minelli, se isso serve, o senhor não está errado, Anderlaine existe sim e não é somente uma. Depois de fazer umas pesquisas no Google, acabei por encontrar algumas Anderlaines, que podem ser verificadas nos sites abaixo, acessados em 25/8/2019:

Jaqueline Anderlaine da Silva, disponível em: <https://www.escavador.com/sobre/237876972/jaqueline-anderlaine-da-silva>.

Anderliza Anderlaine da Silva Ramos, disponível em:<http://www.nc.ufpr.br/concursos_externos/pmc2016/resultado_objetiva/02_todos.pdf>.
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Obs.: Perfil no Facebook de Email Suarez Barboza disponível em: <https://www.facebook.com/Email-Suarez-Barboza-73052579487/>. Acesso em: 25/8/2019.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Se eu nascesse de novo

Inspirado numa canção de Luiz Gonzaga, por título "Se eu nascesse de novo", assim como ele, também conjecturei sobre essa instigante hipótese. Veja o que consegui.

Ao ouvir o CD “Volta pra curtir”, de Luiz Gonzaga, apresentação gravada, ao vivo, no Teatro Tereza Rachel, em março de 1972, dentro do período conhecido por “Anos de Chumbo” ou do “Milagre Econômico”, inspirei-me a escrever esta crônica, porque o Rei do Baião, num dado momento do show, conjectura como gostaria de ser caso nascesse de novo ou, com suas próprias palavras: “se eu nascesse de novo”.

A partir do pressuposto de Gonzaga, “se eu nascesse de novo”, eu mudaria alguma coisa, diferentemente dele, de que nada mudaria. No entanto, seria santa-mariense, filho de Sebastião de Novais Neves, Tião Sapateiro, e de dona Jandira Almeida Neves, professora leiga, e gostaria de ter a mesma genealogia.

Alteraria, sim, meu nome. Em vez de chamar-me Adnil Novais Neto, preferiria que fosse igualzinho ao de meu avô paterno: Adnyl de Novaes Neves, acrescentando apenas o agnome “Neto” e não subtraindo o “Neves”, como ocorreu.


Como curiosidade, no título de eleitor do meu avô, expedido em 1932, assinado pelo Juiz Eleitoral Germano Machado dos Santos, está lá, manuscrito. Profissão: artista. Ele era sapateiro e seleiro, isto é, era um artífice, artesão, artista que desenvolvia trabalhos manuais bem específicos como, por exemplo, os executados pelo alfaiate, carpinteiro etc.

Ainda a propósito do nome do meu progenitor, Adnyl, há, além de mim (Adnil), mais dois: outro neto chamado Adinil Neves de Sá e um sobrinho, Adenil da Costa Claro. Diante, portanto, de grafias dessemelhantes, se nos ativermos restritamente a ela, na verdade, nenhuma homenagem foi feita ao avô e tio. A intenção valeu, sem dúvida alguma.

Certa vez, questionei insistentemente meu pai sobre o porquê de ele haver registrado meu nome de forma incorreta. Lembro-me de que ele olhou seriamente para mim e relembrou de forma irônica o que, de fato, era para acontecer:

— Você ainda pegou foi o boi! Eu ia botar mesmo era Adnil Novais Júnior.

— Júúúnior?! Mas por que Júnior, se não tenho o nome do senhor?

— Pra ver se você queta com tanta ispicula — e botou ponto final em meu questionamento.


Até pensei numa resposta pronta normalmente dada pela garotada, quando alguém dizia a palavra "ispicula", em situação semelhante, mas não dei, obviamente: “Ispicula, seu pai toca, sá mãe pula”.

Da mesma forma que aconteceu comigo, registrou meus irmãos sem obedecer a uma lógica: Hermes, que é homenagem a meu avô materno, deveria chamar-se Hermes Ferreira de Almeida Neto, mas consta em sua certidão de nascimento, Hermes Novais Neto. Glécia de Almeida Neves que aparentemente obedece à lógica, o “de” foi acrescentado e a escrivã grafou Glécia no lugar de Glícia.

Por fim, Nena, registrada Janilza Almeida Neves. Tudo certinho não fosse a estranha mania de inventarem nomes. Janilza, como tantos outros que já vi, é uma sigla, vem de frações de nomes: “Jan”, tirado de Jandira (mãe) e “nilza”... Só Deus sabe!

Voltando “à vaca fria”, “se eu nascesse de novo”, gostaria de ouvir os mesmos palavreados do meu gueto: bola de gude calira; esfera carrusca; arapuca retrinca e pelotar. Isso mesmo, não é pilotar, sinônimo de dirigir, porém, pelotar — atirar pelota de barro com estilingue ou bodoque. Gostaria, ainda, de ouvir meu pai esgoelar:

— Jandira, cadê os minino?

— Novais t’aqui na cuzinha remedano você. E Hermes já escapuliu. Suverteu no mundo com os fii de Eli de Nona e Carlin de Dona Lourdes.

— Novais.

— Sinhô.

— Vamo grosar uns couro, dipois vamo lá na Sambaíba. Mas vê bota uma calça cumprida por causa de mordida de jararaca e pra num moiá os cambito de aruvai.

Aruvai, você sabe o que é isso? Eu explico: é uma corruptela de orvalho. Ainda menino, eu já sabia que se tratava das gotículas de água impregnadas nas folhas das plantas, de manhãzinha. Não sabia, entretanto, que o nome verdadeiro era outro, e bem mais fácil: orvalho, como já foi dito.

Gostaria, ainda, de ouvir alguém perguntar: qual sua graça?; onde eu posso verter água?; as alvíssaras tu me pagas? Aliás, não se falava “as alvíssaras”, que quer dizer boas novas, porém, “as avistas”, frase usada quando alguém queria dar boa notícia a outrem, principalmente, a um amigo.

“Se eu nascesse de novo”, gostaria de escutar outra vez e grafar tudo ipsis verbis, isto é, sem me preocupar com escrita ou pronúncia correta, assim: minino fuxiquento; minino tulemado; êta minino ladino; hômi treiteiro; cê merece é umas curriada; dexa de trapulinagem; chilepada; cambada de severgonho; dexa de curiar a vida dos zonzoto; larga de oiá a vida aêa, ingüento; ô burralidade; queta cum essa muganguera; hômi qüá; cê tá é campado; cê tá é doído pra escuvitiar; disgrama etc.

Além de tantas e tantas outras falas sui generis, eis mais algumas: minino gosta é de jogar cabriola; aquilo parece uma leqüera; minino maletoso; traste “rúim”; troço “rúim”; mulher malamanhada; para de latumia, seu chibata; dexa de caçuada; minino lutrido; mufino; enganjento; assunta o lutrimento dele; rodera de caminhão; dexa de bestage; ô moss; isturdia; para de bestajada; êta minino chei de patacoada; pode quetar o facho; xibungo; xereta; pisquila; diacho; diabo a quatro; malemal; zanoio; muganga; travial; puleja; tá pileriano; capadócio; burundanga; paúra; tendepá; forante etc.

E por conta de uma gíria, “deixa de sugesta”, que deu origem ao termo “sugesteiro”, sempre repetida pelo conterrâneo e colega dos tempos do Curso Primário, José Marcelino, de saudosa memória, conhecido até então por Zé de Antõi Bobó, foi apelidado por seus amigos, principalmente, pelos jogadores de bola, de Zé Sugesta.

Pois bem, além destas frases ou termos, há uma palavra — o verbo cuspir — que passou a ter outra grafia, ESCUPIR, isso mesmo, sem o “L”. Não confundir com esculpir, de fazer escultura. E assim, um conhecido adágio popular tomou esta risível forma: “quem escope pra riba, o escupe cai na cara”.

Ah se eu nascesse de novo! Se eu nascesse de novo, gostaria — sinceramente — de ser o que sempre tenho sido e quem sou: uma pessoa de hábitos simples, santa-mariense, colecionador de amigos, contador de causos (dizem por aí que invento, mas não é bem assim, apenas floreio um pouquinho) e fazedor de versos e trovas.

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Obs.: Crônica revista e ampliada, publicada inicialmente no Recanto das Letras em 13/6/2010. Disponível em:<https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/2317800>.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Tertúlia plácida para acalentar bovídeo

Apresento-lhes, nesta crônica, Baiano e Sinhô, santa-marienses de linguagem enigmática e trágico fadário.

Ilustração de Jailson Borges (Jão). 2019.
Você sabe o que vem a ser um sujeito indobeclível? E uma pessoa sub-relevapes, o que será afinal?

Certamente não sabe e jamais saberá. Dicionarista algum registrou estes termos. Mas eles existem. Não têm sinônimos. São adjetivos comuns aos dois gêneros. Servem tanto para elogiar quanto para desqualificar alguém. São pau-pra-toda-obra, no prolóquio popular mais adequado.

Essa é nossa Língua: idioma de origem românica, filha benquista do Lácio, a brindar-nos um horizonte de belas palavras. Peca por não ser tão técnica e objetiva como o Inglês e o Alemão, por exemplo. Ganha, porém, em sonoridade e plasticidade só comparável a outras línguas de origem latina.

Poucos são os privilegiados que a manejam com delicadeza e arte, e deixam fluir frases grandiloquentes que ecoam como canção de ninar.

É o que acontece, por exemplo, com aquele preciosista incorrigível que, a propósito de comentários sobre eclipse, esnobou a perífrase vernacular: “na pretérita centúria, meu progenitor presenciou o acasalamento do astro-rei com a rainha da noite”, em vez de simplesmente dizer que “no século passado, seu avô viu o eclipse solar”.

Quando esse mesmo amante-complicador do óbvio e simples chega a um boteco, pede que lhe sirvam “uma solução aquosa de rubiácea”, em lugar do apreciado cafezinho. Se deseja haurir uma cerveja, pede “um fermentado gélido de Hordeum vulgare”.

O mesmo cidadão preciosista não poupa sequer nosso líquido universal – a água. Uma vez sedento, para pedir um simples gole de água, solicita um copo de “protóxido de hidrogênio”, remetendo-nos à Química Mineral.

Certa feita, metido numa discussão que não lhe convinha, exatamente aqueles bate-bocas que não chegam a lugar algum, como diríamos: “conversa mole para boi dormir” ou “tertúlia plácida para levar bovídeo aos braços de Morfeu”, vociferou o preciosista: “vamos parar com esse colóquio flácido para acalentar bovino”.

E até mesmo para referir-se à batida frase “cada macaco no seu galho”, ele prefere o circunlóquio biológico: “cada símio na ramificação arbórea que lhe é conveniente”. Que chique, não é?!

Outros, entrementes, à margem das belezas do nosso vernáculo, mas admiradores dos bons falantes, chegam a criar palavras, mergulham fundo em neologismos e deixam boquiaberto quem flagrasse, por exemplo, Baiano e Sinhô simulando uma contenda.

— Você, Sinhô, não presta. Você não passa de um safado sub-relevapes.

— Pode ser, Baiano, mas você é um camarada subsindiques, um pau-d’água-de-marca-maior, isto sim! E te digo mais: mesmo assim, se eu morrer, você vai correndo atrás, seu indobeclível.

— Sabe de uma coisa: vamos parar com isso. Vamos deixar de muita renoclênia, porque o que somos mesmo é um bando de intratapes — finalizou o sempre magnilóquo Baiano.

Eles se foram. Adejaram céleres num atro dia para um mundo inconcebível e incognoscível. Lugar, por certo, onde sua linguagem louçã e enigmática encontrará ouvidos que bem melhor os entenderão.

Baiano, depois de uma noitada etílica, afogou-se nas águas do Rio Corrente, em Santa Maria da Vitória, no rosicler da aurora. Enquanto Sinhô, sorumbático e inconsolável, apartado abruptamente do amigo, despediu do mundo – também afogado – no mesmo aziago dia, no arrebol vespertino. E lá se foram os amigos indobeclíveis e sub-relevapes, vítimas da dipsomania.

Salvador do Mercado, folgazão e piadista contumaz, num piscar de olhos, fez verdadeira a máxima popular:

— Isso é que são amigos! Até debaixo d’água!

Finalmente, só para deleite, apreciemos o soneto, por título A uma deusa, atribuído ao poeta maranhense, Luís Lisboa, quando ele usa e abusa de neologismos, quase sempre por força de rimas.

Tu és o quelso do pental ganírio,
Saltando as rimpas do fermim calério,
Carpindo as taipas do furor salírio
Nos rúbios calos do pijom sidério.

És o bartólio do bocal empírio
Que ruge e passa no festim sitério,
Em ticoteios de partano estírio,
Rompendo as gâmbias do hortomo-genério.

Teus lindos olhos que têm barlacantes
São camençúrias que carquejam lantes
Nas duras pélias do pegal balônio.

São carmentórios de um carce metálio,
De lúrias peles em que pulsa obálio
Em vertimbânceas do pental perônio.


Viram só! Inventar palavras não é privilégio apenas de Baiano e Sinhô. Gente letrada também gosta de falar difícil e muitas vezes nada diz. O sabido também pode ser vaniloquente como meus saudosos conterrâneos.

A propósito, os termos rebuscados utilizados nesta crônica, raramente ouvidos no falar cotidiano, foram a forma encontrada de deixá-la de acordo com as perífrases, sobretudo lembrar Baiano e Sinhô, e não derramar inutilmente palavras difíceis para demonstrar falsa erudição.
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Obs.: Crônica revista, extraída do livro "Meu lugar é aqui no centenário de Santa Maria da Vitória". Salvador: Prescolor, 2009. p. 153, 164 p. Esta crôncao também teve sua primeira publicação no Jornal Comércio Hoje, de Santa Maria da Vitória (BA), edição de setembro/outubro-2007.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Carta ao seu silêncio

Num tempo transcurso, há bastante tempo, redigi esta carta ao Silêncio e obtive respostas... de quem a leu!

Indesejável Silêncio:

Por não mais suportar o constante assédio da saudade a torturar-me, diuturnamente, mais uma vez ouso quebrá-lo. Sei que você é de vidro, por isso, muito frágil.

No começo, tudo era absoluto e monótono Silêncio entre nós. Eu aceitava porque não havia conhecido seu grito. Hoje, entretanto, tudo retorna ao princípio porque você resolveu calar-se, deixando-me abominável presente de grego: você mesmo, o Silêncio.

E assim, em completo Silêncio, fico a questionar algo que para você é inquestionável: permanecer em Silêncio enquanto seu ego alimentar de forma suave e prazerosa o desejo de vingança. Lembre-se, porém, que a vingança é o mais efêmero dos prazeres. Se é que se pode admitir que seja um prazer.

O Silêncio, por sua vez, é ausência que traz o desespero e sufoca o grito. O mesmo grito que tiraria de latência meu eco encarcerado. Um eco que não existiria sem um antecedente alarido que se fizesse uma “quebra de Silêncio”.

Diz-se — com matemática precisão — que “quem cala, consente”. Calar? Por quê? Se não aceito seu Silêncio? Quem sabe se esse Silêncio não seja a prova definitiva, cabal, de que nem mesmo você sabe explicá-lo. Ou, se é que sabe, quer enlouquecer-me em Silêncio.

Não. Não mesmo! Você não vai conseguir me tresloucar, descentralizar-me, ainda que meus ouvidos ouçam tão somente: Silêncio... Silêncio... Silêncio. Porque você só quer emitir Silêncio... Si-lên-cio...

Por fim, diante do melancólico Silêncio que me obriga a ouvir, despeço-me, Silenciosamente, convicto de que, doravante, ouvirá como resposta minha os ecos do meu (temporário?!) Silêncio.

Até...


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Obs.: Crônica publicada no Recanto das Letras em 2/5/2010. Disponível em:<https://www.recantodasletras.com.br/cartas/2232895>.

Quem sou

“Matemática ultrarromântica“ na peça teatral portuguesa “Beremiz na Terra Plana“

Publicada no meu segundo livro, Ave Corrente (1991), a poesia  “ Matemática ultrarromântica ” , posteriormente, singrou mares e foi parar em...