segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Se eu nascesse de novo

Inspirado numa canção de Luiz Gonzaga, por título "Se eu nascesse de novo", assim como ele, também conjecturei sobre essa instigante hipótese. Veja o que consegui.

Ao ouvir o CD “Volta pra curtir”, de Luiz Gonzaga, apresentação gravada, ao vivo, no Teatro Tereza Rachel, em março de 1972, dentro do período conhecido por “Anos de Chumbo” ou do “Milagre Econômico”, inspirei-me a escrever esta crônica, porque o Rei do Baião, num dado momento do show, conjectura como gostaria de ser caso nascesse de novo ou, com suas próprias palavras: “se eu nascesse de novo”.

A partir do pressuposto de Gonzaga, “se eu nascesse de novo”, eu mudaria alguma coisa, diferentemente dele, de que nada mudaria. No entanto, seria santa-mariense, filho de Sebastião de Novais Neves, Tião Sapateiro, e de dona Jandira Almeida Neves, professora leiga, e gostaria de ter a mesma genealogia.

Alteraria, sim, meu nome. Em vez de chamar-me Adnil Novais Neto, preferiria que fosse igualzinho ao de meu avô paterno: Adnyl de Novaes Neves, acrescentando apenas o agnome “Neto” e não subtraindo o “Neves”, como ocorreu.


Como curiosidade, no título de eleitor do meu avô, expedido em 1932, assinado pelo Juiz Eleitoral Germano Machado dos Santos, está lá, manuscrito. Profissão: artista. Ele era sapateiro e seleiro, isto é, era um artífice, artesão, artista que desenvolvia trabalhos manuais bem específicos como, por exemplo, os executados pelo alfaiate, carpinteiro etc.

Ainda a propósito do nome do meu progenitor, Adnyl, há, além de mim (Adnil), mais dois: outro neto chamado Adinil Neves de Sá e um sobrinho, Adenil da Costa Claro. Diante, portanto, de grafias dessemelhantes, se nos ativermos restritamente a ela, na verdade, nenhuma homenagem foi feita ao avô e tio. A intenção valeu, sem dúvida alguma.

Certa vez, questionei insistentemente meu pai sobre o porquê de ele haver registrado meu nome de forma incorreta. Lembro-me de que ele olhou seriamente para mim e relembrou de forma irônica o que, de fato, era para acontecer:

— Você ainda pegou foi o boi! Eu ia botar mesmo era Adnil Novais Júnior.

— Júúúnior?! Mas por que Júnior, se não tenho o nome do senhor?

— Pra ver se você queta com tanta ispicula — e botou ponto final em meu questionamento.


Até pensei numa resposta pronta normalmente dada pela garotada, quando alguém dizia a palavra "ispicula", em situação semelhante, mas não dei, obviamente: “Ispicula, seu pai toca, sá mãe pula”.

Da mesma forma que aconteceu comigo, registrou meus irmãos sem obedecer a uma lógica: Hermes, que é homenagem a meu avô materno, deveria chamar-se Hermes Ferreira de Almeida Neto, mas consta em sua certidão de nascimento, Hermes Novais Neto. Glécia de Almeida Neves que aparentemente obedece à lógica, o “de” foi acrescentado e a escrivã grafou Glécia no lugar de Glícia.

Por fim, Nena, registrada Janilza Almeida Neves. Tudo certinho não fosse a estranha mania de inventarem nomes. Janilza, como tantos outros que já vi, é uma sigla, vem de frações de nomes: “Jan”, tirado de Jandira (mãe) e “nilza”... Só Deus sabe!

Voltando “à vaca fria”, “se eu nascesse de novo”, gostaria de ouvir os mesmos palavreados do meu gueto: bola de gude calira; esfera carrusca; arapuca retrinca e pelotar. Isso mesmo, não é pilotar, sinônimo de dirigir, porém, pelotar — atirar pelota de barro com estilingue ou bodoque. Gostaria, ainda, de ouvir meu pai esgoelar:

— Jandira, cadê os minino?

— Novais t’aqui na cuzinha remedano você. E Hermes já escapuliu. Suverteu no mundo com os fii de Eli de Nona e Carlin de Dona Lourdes.

— Novais.

— Sinhô.

— Vamo grosar uns couro, dipois vamo lá na Sambaíba. Mas vê bota uma calça cumprida por causa de mordida de jararaca e pra num moiá os cambito de aruvai.

Aruvai, você sabe o que é isso? Eu explico: é uma corruptela de orvalho. Ainda menino, eu já sabia que se tratava das gotículas de água impregnadas nas folhas das plantas, de manhãzinha. Não sabia, entretanto, que o nome verdadeiro era outro, e bem mais fácil: orvalho, como já foi dito.

Gostaria, ainda, de ouvir alguém perguntar: qual sua graça?; onde eu posso verter água?; as alvíssaras tu me pagas? Aliás, não se falava “as alvíssaras”, que quer dizer boas novas, porém, “as avistas”, frase usada quando alguém queria dar boa notícia a outrem, principalmente, a um amigo.

“Se eu nascesse de novo”, gostaria de escutar outra vez e grafar tudo ipsis verbis, isto é, sem me preocupar com escrita ou pronúncia correta, assim: minino fuxiquento; minino tulemado; êta minino ladino; hômi treiteiro; cê merece é umas curriada; dexa de trapulinagem; chilepada; cambada de severgonho; dexa de curiar a vida dos zonzoto; larga de oiá a vida aêa, ingüento; ô burralidade; queta cum essa muganguera; hômi qüá; cê tá é campado; cê tá é doído pra escuvitiar; disgrama etc.

Além de tantas e tantas outras falas sui generis, eis mais algumas: minino gosta é de jogar cabriola; aquilo parece uma leqüera; minino maletoso; traste “rúim”; troço “rúim”; mulher malamanhada; para de latumia, seu chibata; dexa de caçuada; minino lutrido; mufino; enganjento; assunta o lutrimento dele; rodera de caminhão; dexa de bestage; ô moss; isturdia; para de bestajada; êta minino chei de patacoada; pode quetar o facho; xibungo; xereta; pisquila; diacho; diabo a quatro; malemal; zanoio; muganga; travial; puleja; tá pileriano; capadócio; burundanga; paúra; tendepá; forante etc.

E por conta de uma gíria, “deixa de sugesta”, que deu origem ao termo “sugesteiro”, sempre repetida pelo conterrâneo e colega dos tempos do Curso Primário, José Marcelino, de saudosa memória, conhecido até então por Zé de Antõi Bobó, foi apelidado por seus amigos, principalmente, pelos jogadores de bola, de Zé Sugesta.

Pois bem, além destas frases ou termos, há uma palavra — o verbo cuspir — que passou a ter outra grafia, ESCUPIR, isso mesmo, sem o “L”. Não confundir com esculpir, de fazer escultura. E assim, um conhecido adágio popular tomou esta risível forma: “quem escope pra riba, o escupe cai na cara”.

Ah se eu nascesse de novo! Se eu nascesse de novo, gostaria — sinceramente — de ser o que sempre tenho sido e quem sou: uma pessoa de hábitos simples, santa-mariense, colecionador de amigos, contador de causos (dizem por aí que invento, mas não é bem assim, apenas floreio um pouquinho) e fazedor de versos e trovas.

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Obs.: Crônica revista e ampliada, publicada inicialmente no Recanto das Letras em 13/6/2010. Disponível em:<https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/2317800>.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Tertúlia plácida para acalentar bovídeo

Apresento-lhes, nesta crônica, Baiano e Sinhô, santa-marienses de linguagem enigmática e trágico fadário.

Ilustração de Jailson Borges (Jão). 2019.
Você sabe o que vem a ser um sujeito indobeclível? E uma pessoa sub-relevapes, o que será afinal?

Certamente não sabe e jamais saberá. Dicionarista algum registrou estes termos. Mas eles existem. Não têm sinônimos. São adjetivos comuns aos dois gêneros. Servem tanto para elogiar quanto para desqualificar alguém. São pau-pra-toda-obra, no prolóquio popular mais adequado.

Essa é nossa Língua: idioma de origem românica, filha benquista do Lácio, a brindar-nos um horizonte de belas palavras. Peca por não ser tão técnica e objetiva como o Inglês e o Alemão, por exemplo. Ganha, porém, em sonoridade e plasticidade só comparável a outras línguas de origem latina.

Poucos são os privilegiados que a manejam com delicadeza e arte, e deixam fluir frases grandiloquentes que ecoam como canção de ninar.

É o que acontece, por exemplo, com aquele preciosista incorrigível que, a propósito de comentários sobre eclipse, esnobou a perífrase vernacular: “na pretérita centúria, meu progenitor presenciou o acasalamento do astro-rei com a rainha da noite”, em vez de simplesmente dizer que “no século passado, seu avô viu o eclipse solar”.

Quando esse mesmo amante-complicador do óbvio e simples chega a um boteco, pede que lhe sirvam “uma solução aquosa de rubiácea”, em lugar do apreciado cafezinho. Se deseja haurir uma cerveja, pede “um fermentado gélido de Hordeum vulgare”.

O mesmo cidadão preciosista não poupa sequer nosso líquido universal – a água. Uma vez sedento, para pedir um simples gole de água, solicita um copo de “protóxido de hidrogênio”, remetendo-nos à Química Mineral.

Certa feita, metido numa discussão que não lhe convinha, exatamente aqueles bate-bocas que não chegam a lugar algum, como diríamos: “conversa mole para boi dormir” ou “tertúlia plácida para levar bovídeo aos braços de Morfeu”, vociferou o preciosista: “vamos parar com esse colóquio flácido para acalentar bovino”.

E até mesmo para referir-se à batida frase “cada macaco no seu galho”, ele prefere o circunlóquio biológico: “cada símio na ramificação arbórea que lhe é conveniente”. Que chique, não é?!

Outros, entrementes, à margem das belezas do nosso vernáculo, mas admiradores dos bons falantes, chegam a criar palavras, mergulham fundo em neologismos e deixam boquiaberto quem flagrasse, por exemplo, Baiano e Sinhô simulando uma contenda.

— Você, Sinhô, não presta. Você não passa de um safado sub-relevapes.

— Pode ser, Baiano, mas você é um camarada subsindiques, um pau-d’água-de-marca-maior, isto sim! E te digo mais: mesmo assim, se eu morrer, você vai correndo atrás, seu indobeclível.

— Sabe de uma coisa: vamos parar com isso. Vamos deixar de muita renoclênia, porque o que somos mesmo é um bando de intratapes — finalizou o sempre magnilóquo Baiano.

Eles se foram. Adejaram céleres num atro dia para um mundo inconcebível e incognoscível. Lugar, por certo, onde sua linguagem louçã e enigmática encontrará ouvidos que bem melhor os entenderão.

Baiano, depois de uma noitada etílica, afogou-se nas águas do Rio Corrente, em Santa Maria da Vitória, no rosicler da aurora. Enquanto Sinhô, sorumbático e inconsolável, apartado abruptamente do amigo, despediu do mundo – também afogado – no mesmo aziago dia, no arrebol vespertino. E lá se foram os amigos indobeclíveis e sub-relevapes, vítimas da dipsomania.

Salvador do Mercado, folgazão e piadista contumaz, num piscar de olhos, fez verdadeira a máxima popular:

— Isso é que são amigos! Até debaixo d’água!

Finalmente, só para deleite, apreciemos o soneto, por título A uma deusa, atribuído ao poeta maranhense, Luís Lisboa, quando ele usa e abusa de neologismos, quase sempre por força de rimas.

Tu és o quelso do pental ganírio,
Saltando as rimpas do fermim calério,
Carpindo as taipas do furor salírio
Nos rúbios calos do pijom sidério.

És o bartólio do bocal empírio
Que ruge e passa no festim sitério,
Em ticoteios de partano estírio,
Rompendo as gâmbias do hortomo-genério.

Teus lindos olhos que têm barlacantes
São camençúrias que carquejam lantes
Nas duras pélias do pegal balônio.

São carmentórios de um carce metálio,
De lúrias peles em que pulsa obálio
Em vertimbânceas do pental perônio.


Viram só! Inventar palavras não é privilégio apenas de Baiano e Sinhô. Gente letrada também gosta de falar difícil e muitas vezes nada diz. O sabido também pode ser vaniloquente como meus saudosos conterrâneos.

A propósito, os termos rebuscados utilizados nesta crônica, raramente ouvidos no falar cotidiano, foram a forma encontrada de deixá-la de acordo com as perífrases, sobretudo lembrar Baiano e Sinhô, e não derramar inutilmente palavras difíceis para demonstrar falsa erudição.
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Obs.: Crônica revista, extraída do livro "Meu lugar é aqui no centenário de Santa Maria da Vitória". Salvador: Prescolor, 2009. p. 153, 164 p. Esta crôncao também teve sua primeira publicação no Jornal Comércio Hoje, de Santa Maria da Vitória (BA), edição de setembro/outubro-2007.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Carta ao seu silêncio

Num tempo transcurso, há bastante tempo, redigi esta carta ao Silêncio e obtive respostas... de quem a leu!

Indesejável Silêncio:

Por não mais suportar o constante assédio da saudade a torturar-me, diuturnamente, mais uma vez ouso quebrá-lo. Sei que você é de vidro, por isso, muito frágil.

No começo, tudo era absoluto e monótono Silêncio entre nós. Eu aceitava porque não havia conhecido seu grito. Hoje, entretanto, tudo retorna ao princípio porque você resolveu calar-se, deixando-me abominável presente de grego: você mesmo, o Silêncio.

E assim, em completo Silêncio, fico a questionar algo que para você é inquestionável: permanecer em Silêncio enquanto seu ego alimentar de forma suave e prazerosa o desejo de vingança. Lembre-se, porém, que a vingança é o mais efêmero dos prazeres. Se é que se pode admitir que seja um prazer.

O Silêncio, por sua vez, é ausência que traz o desespero e sufoca o grito. O mesmo grito que tiraria de latência meu eco encarcerado. Um eco que não existiria sem um antecedente alarido que se fizesse uma “quebra de Silêncio”.

Diz-se — com matemática precisão — que “quem cala, consente”. Calar? Por quê? Se não aceito seu Silêncio? Quem sabe se esse Silêncio não seja a prova definitiva, cabal, de que nem mesmo você sabe explicá-lo. Ou, se é que sabe, quer enlouquecer-me em Silêncio.

Não. Não mesmo! Você não vai conseguir me tresloucar, descentralizar-me, ainda que meus ouvidos ouçam tão somente: Silêncio... Silêncio... Silêncio. Porque você só quer emitir Silêncio... Si-lên-cio...

Por fim, diante do melancólico Silêncio que me obriga a ouvir, despeço-me, Silenciosamente, convicto de que, doravante, ouvirá como resposta minha os ecos do meu (temporário?!) Silêncio.

Até...


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Obs.: Crônica publicada no Recanto das Letras em 2/5/2010. Disponível em:<https://www.recantodasletras.com.br/cartas/2232895>.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Sambaíba, palco da minha infância

Nessa crônica, homenageio Santa Maria da Vitória pelos 110 anos de emancipação política e administrativa, lembrando seu primeiro bairro, meu palco da infância e adolescência.  

Árvore da família das dileniácias, Curatella americana, dispersa por todos os campos cerrados, que se caracteriza pelas amplas folhas, ásperas como lixa, flores e frutos pequeninos. A casca serve para curtir couro. As folhas são empregadas para lixar madeira e a madeira usada em carpintaria, marcenaria e obras internas.

Sambaíba é uma palavra de origem tupi, sã-ba’iwa que serve também para denominar um arbusto da família das tiliáceas, Trichospermum sp., a sambaíba-da-baía. É comum se chamar ainda sambaíba-do-rio-são-francisco, sambaíba-de-sergipe, caimbé, lixeira, cajueiro-bravo, craibeira e penteeira.

São estas, portanto, as qualificações científicas dadas pelos botânicos e encontradas no Aurélio. Por outro lado, a Sambaíba desta crônica é o nome do bairro mais antigo de Santa Maria da Vitória. Mais antigo e não menos esquecido, outrora, pelas autoridades da minha terra.

Sua denominação é herança da antiga Fazenda Sambaíba ali instalada, por haver muito desta planta, e como ainda são chamadas algumas capoeiras (roças) marginais esquerdas do Rio Corrente, nas proximidades do bairro.

Um lado pitoresco e lendário, segundo me contaram, envolve a origem do nome. Dizem que ele vem da justaposição do nome de uma dondoca muito bonita, Iba, que costumava agitar as Folias de Reis locais. Seus admiradores não a deixavam descansar um só instante, sob o uníssono apelo: Samba, Iba. Daí, em justa homenagem, foi dado o nome Sambaíba à fazenda onde ela morava. Certo é que há quem assine embaixo dessa história: Nélson Neves, o sapateiro, o músico. Duvidar, para quê?

Definições, origens e invencionices à parte, foi nesse rincão bucólico que a infância deste que escreve teve seus dias marcantes e inesquecíveis. Era para lá que, à tardinha, estava sempre disposto a passear. Um passeio, claro! Ir à roça já pensando que, no dia seguinte, bem cedinho, iria beber leite quente no curral, era verdadeiramente motivo de festa! Quando não era isso, nas águas (época das chuvas), se plantava capim, feijão, melancia, milho e maxixe.

Cabe aqui uma pequena ressalva para os dias atuais: criança que se preza não encara com muita seriedade o fato de ali ser um trabalho. Por essa razão, isso só acontecia quando estava em companhia de outros meninos para brincar, levando comida, água e a indispensável rapadura. Uma verdadeira festa.

São agradabilíssimas também as lembranças das partidas de futebol de salão jogadas numa quadra construída por empregados do Banco do Brasil na segunda metade dos anos 1960, para prática de futebol de salão e voleibol, onde é, hoje, uma das pistas de dança do Clube Social de Santa Maria (em ruínas). Logo depois, a turma migrou para o Campo do Derba.

Recordar os passeios, margeando o rio, entrando nas roças, no mato, que invariavelmente fazia quando saía para caçar (pelotar, atirar pelota de barro com estilinque, badogue ou zunga) passarinho ou apanhar pitomba, cagaita, procopa, grão-de-galo, melancia-da-praia. Isso é mais do que simplesmente voltar ao passado: é recriar os belos momentos da vida.

Tudo quanto leva a lembrar desse bairro-fazenda é motivo para agradecer a providência divina de ter vivido a infância, a adolescência e parte da juventude em lugar tão aprazível, humilde, acolhedor e privilegiado pela natureza.

Como nem tudo são flores, foi ali também que assisti a magarefes e vaqueiros cometerem atrocidades mil com indefesos e infelizes bovinos condenados à morte no Matadouro Municipal (Curral da Matança, como dizíamos), que naquele lugar fora instalado, próximo ao rio, onde eram jogadas as fezes dos animais abatidos.

Relembrar a Sambaíba é algo que sempre me empolga, deixa-me noutra biodimensão e saudosista, pois me sinto parte desse bairro. Não são, portanto, as palavras suficientes para expressarem o carinho a ele dispensado, porque estas são frágeis, perdem-se ao vento, e são incapazes de traduzir com fidelidade nosso sentimento. Ainda assim, faço-o com todo carinho.

A Sambaíba de hoje é um bairro empobrecido, entregue à própria sorte. Nem por isso deixa de ser o palco da saudade, de onde recolho as melhores e mais reconfortantes reminiscências infantis para guardá-las à posteridade.

A ela, à Sambaíba, a homenagem na essência desta pequena e pretensiosa crônica, é uma insignificância. Entretanto é a arma de que dispõe este que escreve, para tentar sensibilizar as autoridades da nossa terra, tentando mostrar que a Sambaíba é parte da história santa-mariense e, por este e outros motivos, merece mais atenção.

Em tempo: Esta crônica foi escrita em 26/1/1991. Posteriormente, numa visita em 2004, pude observar que o bairro foi lembrado. Já dispunha de um Centro Cultural, calçamento, água e luz, mas anseia ainda por mais melhorias.

Em 2019, quando lá retornei a convite da moradora e amiga Ísis Juliana, professora da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), pude observar que o bairro está completamente diferente daquele que conheci. Em quase nada lembra a Sambaíba de outrora, da minha infância, a não ser pela existência de dois tanques utilizados por meu pai para curtir couro, pelas as ruínas da antiga Algodoeira dos Coelhos e por um dos pés de jatobá, à margem do Rio Corrente, caído. E mais adiante, a Fazenda Sambaíba, do meu pai, a parte debaixo. Depois disso, somente o antigo corredor da Fazenda de Zé Manoel, que ainda resiste.

Desse modo, esta pequena crônica é uma tentativa de homenagear meus amigos e conhecidos de tempos idos, tais como: seu Alfredo, dona Jovem, seu Deoclides, Valdim e Isabel, seu Júlio Mãozinha, seu Júlio Careca, Domingos Bagaço, Domingos Preto, Cícero, Lega do Derba, seu Joaquim Bosta Quente e familiares, dentre outros que da memória, por certo, me fugiram.

Fotos numeradas indicadas no mapa elaborado pelo autor
Mapa da Sambaíba entre as décadas de 1960 e 1970. Elaboração: Novais Neto. 2019.

Foto: Reprodução / Google / Maps. 2019.

Fotos 1 (vide mapa): Vistas do Rio Corrente das terras da antiga Cooperativa.

Porto da Sambaíba (curtume): Novais e Tião Sapateiro. Foto seguinte: Hermes entre os irmãos Zéu e Bega.

Fotos 2 (vide mapa): Porto da Sambaíba e curtume de Tião Sapateiro.

Foto 3 (vide mapa): Tião, Novais e Hermes. Anos 1980.

Fotos 4 (vide mapa): Porto de Seu Tião. Foto: Hermes Novais. Anos: 1990.

Fotos 4 (vide mapa): Porto de Seu Tião. Foto: Novais Neto. Anos: 1990.

Fazenda Sambaíba: Novais e Hermes no curral. Anos: 1980.

Fazenda de Zé Manoel: Baixinho com o cão Peri e Zé Manoel agachado. Anos: 1970.

Corredor da Fazenda Sambaíba de Zé Manoel: Baixinho e Zé Manoel. Anos: 1970.

Foto: Reprodução / Facebook. Disponível em: <https://www.facebook.com/antonio.sousa.54540>.

Jatobazeiro remanescente ao lado do Cemitério Santa Verônica. Foto: Novais Neto. 2019.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

O homem que matou o cabo da tomada do ferro elétrico

Neste conto, vejam como meu pai, Tião Sapateiro, tentou dar fim a uma "cobra" imatável.

O belo rosicler do crepúsculo vespertino lentamente desaparecia. Era momento de transição da tarde para noite, da indecisão temporal, do lusco-fusco. Enquanto isso, no Oriente, a estrela Dalva timidamente reluzia. Eu,  meu irmão e meu pai, naquela estradinha de chão, infestada de cobra, um areão danado, marginada por esparsos casebres com candeeiros já acesos, voltávamos da Sambaíba para casa, depois de haver apartado os bezerros das vacas, a fim de tirarmos leite para consumo familiar, no dia seguinte, logo de manhãzinha.

De repente, de uma humilde casinha, sai uma senhora espavorida, com uma renque de meninos nus da cintura para riba, olha para meu pai com a cara assustada e, aos berros, pede insistente socorro:

— Seu Tião, seu Tião, pelo amor de Deus, me acode, seu Tião. Tem uma cobra no meu quarto.

— Calma, sá Protila. Calma! Eu vou ver o que é, primeiro, tenha calma. Mas isso não é caçoada, não, sá Protila?

— Home quá! Qui caçoada, seu Tião. E eu sou lá muié de brincadera, seu Tião? Ela tá bem no quartim lá do fundo, de junto da cuzinha. Quando entrei lá, dei fé da bicha bem no meim do quarto. Assunta direitim que o sinhô vai ver ela lá.

Antes de entrar na morada daquela desesperada senhora, ele ordenou:

— Num entra ninguém comigo, não. Vou assuntar direito.

E, pé ante pé, com todo cuidado que a ocasião exigia, porque o rancho já estava escuro, ele foi embocando. Olhou, olhou e concluiu a investigação:

— Pelo tamanho, eu acho que é uma jaracuçu. Tá no meim do quarto mesmo, sá Protila. Vou arrumar uma vara boa pra esbagaçar essa bicha.

— Vixe! Minha Maria Santíssima! Num fala uma disgrama dessa, não, seu Tião. Quaje qu'essa infeliz me morde. Mas minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro me potregeu. Escapei por um milagre da minha santinha! Serepente é um bichim muito arriscoso, seu Tião. Toma muito coidado, home!

Nesse ínterim, um dos filhos de sá Protila, o mais pichutitinho, o raspa de tacho, cara de trinchete, vai entrando no quarto matreiramente, para que ninguém desse fé dele, mas sá Protila deu. E esgoelou:

— Sai daí, traste ruim, seu bosta mole. Deixa de saliência, seu exibido. Eta! mininim lutrido da disgrama. Se esse troço te morder um tiquim assim, seu malino, cê tá é pebado, cê vai bater diretim no Santa Verônica. Vai, pistiado, vai caçar mais o que fazer, seu pisquila! Deixa de curiar o que num é de sá conta. Num tá veno que isso é sirviço pra home assim que nem seu Tião? Vai, cai fora daí digero, seu diacho disgramado, lutrido. E vê se para com essa eguage! Tira esse dedo xujo da boca, minino. Meu Deus das Alturas, esse mininim parace que é mei tulemado, seu Tião! Pispia o jeitim dele.

Enquanto isso, meu pai foi procurar numa cerca mais próxima a melhor vara, aquela mais certinha, alinhada e comprida, para tentar dar fim à peçonhenta.

Volta à casa de sá Protila, pede silêncio absoluto, posiciona-se na porta do quarto, vê se a vara não vai enganchar em algum lugar e sapeca a vara, deita a vara com vontade mesmo. Dá umas cinco ou seis varadas bem dadas, espia de novo, assunta direitinho e desconfia:

— Ê, sá Protila! Num tá pareceno cobra, não, sá Protila. Tá muito paradinha pra ser cobra – mas, por via das dúvidas, ele dá outras tantas varadas e a danada continua inerte no meio do quarto.

Resolve, por fim, com muito receio misturado a medo e com o devido cuidado, enfiar a vara debaixo do corpo do suposto ofídio e o atira bem no meio do quintal, bem varridinho.

Quando a bichinha caiu no terreiro, a meninada, que assistia a tudo com muita atenção e curiosidade, dá uma tremenda gargalhada e o matador de cobra, com um risinho meio sem graça, constata, enraivado e injuriado:
Ilustração de Jailson Borges (Jão). 2019.
— Sá Protila, sá Protila, num é cobra, não, sá Protila. É cabo de tomada de ferro elétrico, sá Protila. Cê não viu isso, não? E eu aqui bestano qui nem um trouxa, fazendo papel de besta, só perdeno meu tempo! Home quá, eu tenho mais o qui fazê, sá Protila! — e o matador de cobra, eu e meu irmão exalamos no mundo com uma quente e outra fervendo. Doidinhos para sorrir também!

Em tempo: A primeira turma de Especialização em Arte e Ação Cultural, do Centro Multidisciplinar de Santa Maria da Vitória – Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), por sugestão das professoras Isis Juliana e Maria do Carmo, me presenteou com a encenação de dois contos meus: “O homem que matou o cabo da tomada do ferro elétrico” e “O fim do mundo já passou”, extraídos do livro “Meu lugar é aqui no Centenário de Santa Maria da Vitória”, adaptando-os para a radionovela “O ovo e a cobra de Seu Tião”.

Turma de Especialização em Arte e Ação Cultural, do Centro Multidisciplinar de Santa Maria da Vitória,
Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB). 2015.
Raquel Alecrim, cantora e aluna, ouvindo a radionovela “O ovo e a cobra de Seu Tião. 2015.

















Tião Sapateiro e a professora Maria do Carmo. Novais Neto e Tião Sapateiro. 2015.




















Deixo aqui, portanto, meu carinho e minha gratidão a todos os artistas e mestres, pelo afago, pelo pelo carinho e pelo inesquecível presente.
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Obs.: Conto revisto, extraído do livro Meu lugar é aqui no centenário de Santa Maria da Vitória. Salvador: Prescolor, 2009. p. 137, 164 p. Este conto também teve sua primeira publicação no Jornal Comércio Hoje, de Santa Maria da Vitória (BA), edição de julho/agosto-2007.

Quem sou

“Matemática ultrarromântica“ na peça teatral portuguesa “Beremiz na Terra Plana“

Publicada no meu segundo livro, Ave Corrente (1991), a poesia  “ Matemática ultrarromântica ” , posteriormente, singrou mares e foi parar em...