sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Na sala de aula - A história de Chico Muleta

Os anos já se vão bem distantes, corria a década de 1970, quando este que escreve ingressou no Curso Ginasial, precisamente em 1971, depois de fazer o temido Exame de Admissão, uma espécie de vestibular do Curso Primário. Nesta época, também, só se falava no Mobral, o Movimento Brasileiro de Alfabetização, e no Ensino Supletivo, algo semelhante ao atual EJA (Educação de Jovens e Adultos).

Normalmente, as turmas desses cursos funcionavam à noite e eram formadas de alunos oriundos da zona rural, também citadinos, trabalhadores braçais, empregadas domésticas, muitos idosos, aposentados ou não, todos com objetivos comuns: aprender a ler, escrever e fazer as quatro operações matemáticas, almejando tirar o título de eleitor e, alguns, seguir nos estudos, uma vez que, certamente, não tiveram oportunidade devido a seus afazeres e/ou mesmo a falta de escolas.

Francisco José era um desses alunos, vindo da roça, já sabia ler e escrever, que aprendeu no Mobral, e pretendia seguir estudando, estava matriculado em uma turma do Supletivo do Primeiro Grau. Estudante interessado e participativo, sentava nas primeiras filas e gozava do privilégio de ser primo do professor de Ciências, Ramon Mattos, que também lecionava nas turmas iniciais do Ginásio da cidade. Ali, ele o fazia por diletantismo e gratuitamente, pelo simples prazer de ajudar.

Em uma das aulas do professor Mattos, muito querido da turma, gostava de brincar com seus alunos, ele falava sobre a composição da matéria, e não se apartava do seu livro predileto, Iniciação Científica – Ciências Físicas e Biológicas, de Marques e Sartori, tinha os três volumes dos autores.

Foto: Novais Neto. Acervo do autor.
– Toda matéria é formada de pequeninas unidades que chamamos átomo. Estes átomos se juntam e formam as moléculas, que se reúnem novamente, e vão constituir as mais variadas matérias. O átomo é algo bem pequeno, inimaginável até, só visto através de potentes microscópios eletrônicos.

– P’sor, ele é assim, vamos dizer, do tamanho de uma semente de milho alpiste? – quis saber Francisco.

– Oxente, Francisco, é bem menor ainda. Imagine a cabeça de um alfinete. Divida-o em dez partes, por exemplo. Pegue uma destas partes. É difícil, não é? Só com uma lente de aumento daria para ver. Pois bem, a molécula, que é formada de átomos, é algo ainda menor. Não dá pra ver mesmo!

— Mas, home quá! Então essa tal de molécula nem existe. É pura carga d’água só mesmo pra entupir o miolo da gente com tanta bestajada – contestou o incrédulo Francisco.

Molécula da água. Foto: Reprodução / Internet (vide link).
– Existe, Francisco. Os cientistas já conseguiram até provar que o átomo (que significa não divisível) é constituído, na verdade, de partículas bem menores ainda chamadas prótons, nêutrons e elétrons. Vá por mim, Francisco. Os átomos, as moléculas existem e estão aí por toda parte. Eles são uns fanisquinhos de nada mesmo, é verdade, mas existem, sim, embora não sejam vistos a olho nu.

— Oxente, p’sor, olho nu?! E olho veste roupa?! — para delírio de seus colegas.

— Olho nu, Francisco, é uma maneira de dizer. É quando a gente observa uma coisa sem precisar de auxílio de algum instrumento para aumentar o tamanho dela, assim, por exemplo: uma formiga, por menor que seja, a gente consegue ver, mas se for menor que uma formiga, aí já fica difícil, né. Então, pegamos uma lente de aumento, dessas que os meninos colocam contra a luz do Sol, para acender baga de cigarro, queimar papel, e aí conseguimos ver coisas bem miúdas. O microscópio eletrônico, Francisco, aumenta o tamanho dos objetos milhões de vezes, e aí se pode ver até mesmo um átomo — concluiu enfaticamente o competente mestre.

Francisco acenou positivamente com a cabeça, dando a ver que havia entendido. Se verdadeiramente eles se convenceu disso, não é algo tão certo assim. E o dedicado professor continuou a falar de molécula: molécula para cá, molécula para acolá e Francisco “viajava no mundo da Lua”. Lá pelas tantas, parece que houve um reboliço na cachimônia do pobre aluno e o simplório saiu-se com esta:

– Ô, p’sor, essa tal de molécula é aquele negócio que aleijado bota debaixo do sovaco?

– Claro que não, meu querido primo Francisco! Aquilo é muleta, algo completamente diferente, mas tem uma coisa em comum entre ambas: ela também é constituída por moléculas. Entendeu, meu amado mancebo? — finalizou o mestre, fazendo enorme esforço para conter o riso insistente.

– E eu sei lá, p'sor! Agora foi que disgramou tudo no meu coco, num entendi foi patavina de nada – indignou-se o esforçado Francisco José, que passou doravante a ser chamado de Chico Muleta, por seus colegas e, depois, por toda cidade, mas ele, Francisco José, nem se importava com isso. Sorria apenas!

Referências:

MARQUES, João Queiroz; SARTORI, José Antônio. Iniciação científica: ciências físicas e biológicas, v. 3, 7. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1971.

MOLÉCULA DA ÁGUA. Disponível em: <https://pt-static.z-dn.net/files/de8/638ef361867198285fcf9664419458c3.png>. Acesso em: 12 out. 2022.

sábado, 1 de outubro de 2022

Corujice explícita

Atenção para o nome: Lara Rodrigues Santos de Novais. É bom gravar, principalmente, o final “de Novais”. Este é o nome completo da protagonista desta crônica. Garotinha de sorriso fácil, entre 2 e 3 anos de idade, universo vocabular incipiente, sui generis e recheado de lambdacismos. Atualmente, ela está com 26 anos.

Segundo o filólogo Napoleão Mendes de Almeida, lambdacismo é a troca, na pronúncia, do “r” pelo “l”, assim como faz Cebolinha, de Maurício de Sousa. O contrário é o rotacismo, como, por exemplo, em vez de a pessoa dizer Cláudio e Clóvis, ela diz Cráudio e Cróvis.

Explicações à parte, aos sábados, quase sempre estamos lá, na casa dos avós maternos de Lara: Seu Naeth e Dona Dedé. Numa dessas idas, encontramos Seu Naeth afundado num sofá, óculos na ponta do nariz, quase a cair, em frente a uma televisão com o volume nas alturas, rodeado de revistas e jornais amassados que, ao ver a netinha, vai logo exigindo:

– Dê cá a bênção, menina véia.

Ela, toda cheia de dengo, aproxima-se, estira o braço e, timidamente...

– Bença, vô.

– Deus te abençoe, menina véia.

Só que não para por aí. Seu Naeth começa, então, a explorar o pequeno vocabulário da netinha, partindo para uma sessão de “atasanamento”:

– Como é o seu nome, menina véia?

A pequena Lara, no meio da sala, cercada de badulaques e cinco bonecas Barbie, de cores e/ou cabelos diferentes, de procedências e qualidades duvidosas, certamente introduzidas no país através do Paraguai pelos “executivos de fronteira”, não lhe dá a mínima atenção, já que seu mundo de fadas e duendes é muito mais interessante. Mesmo assim, ela responde:

Lara Novais, Naeth Santos, Márcia Gomes e Keully Pêpe. Fotos: Novais Neto, déc. 1990

– Num sei, não, vô.

– Como não sabe, menina véia. Uma menina desse tamanho não sabe o nome...

– Num sei, não – repete ela mais uma vez, já a perder a paciência.

Mas ele é insistente. E lá pela quarta ou quinta vez, repete a pergunta:

– Co-mo é seu no-me, me-ni-na véi-a? – falando agora pausadamente.

– Lala Lodligues Santos “de Meu Pai”. E plonto – viu onde foi para o “de Novais”?

É sempre assim: inventa uma palavra, distorce outra, engancha em certas pronúncias e vai construindo o seu dicionário mental. Quantos às bonecas Barbies, os nomes seguiam as vogais do nosso Alfabeto: Zazá, Zezé, Zizi, Zozó e Zuzu. Dessa forma, ficou bem mais fácil memorizar essas letras.

Certa ocasião, quando retornei de Santa Maria da Vitória, trouxe-lhe uma ruma de novidades, principalmente, frutas silvestres como pitomba, cagaita, procopa, grão de galo, bananinha de macaco, e pedi a Márcia, a babá, que lavasse um umbu e lhe desse, para que ela pudesse experimentar. E assim foi feito.

Percebi que Lara gostou da novidade. Pedi novamente a Márcia que lhe oferecesse mais alguns umbus.

– Toma, Lara, umbu – ofertou-lhe a babá, com todo carinho.

– Um bu, não, Márcia. Você me deu tlêis bus. É assim, Márcia: um bu, dois bus, tleis bus – ensina professorinha com a lógica do seu entendimento.

Da mesma forma ela analisa as palavras “um bigo”, “dois bigos”, “três bigos”. “Um berto”, “dois bertos”, “três bertos”... e assim por diante.

No trajeto da escola, no entanto, é que surgem as novidades. Curtir esses momentos é algo único na vida de quem teve o privilégio de ver crescer essas pequeninas criaturas. É formidável sentirmos como elas percebem e procuram entender o mundo dos adultos. O seu mundo é simples, belo. E mágico, sobretudo.

Ao trazer-lhe da pré-escola, certa feita, ela virou-se para mim e disse que iria me contar um segredo. Naturalmente, fiquei atento para ouvir a confissão de Lara. Antes, porém, ela me fez um solene pedido... Aliás, não vou revelar o pedido agora, creio que perderá a graça. Vamos adiante.

Todos nós, é provável, já ouvimos perguntas do tipo: “Você sabe qual é o cúmulo da força?”. “O cúmulo da força é dobrar uma rua e quebrar uma esquina”, responderá o indagador. “E qual é o cúmulo da lentidão?”. “O cúmulo da lentidão é disputar uma corrida sozinho e chegar em segundo lugar”. Desse modo, existem o cúmulo da estupidez; o cúmulo da rapidez; o cúmulo da agonia etc. Mas isso fica para um momento oportuno.

De volta ao segredo, Lara apresenta-me um novo “cúmulo”, o “cúmulo da confidência” ou “cúmulo do segredo”. Isso aconteceu quando ela me pôs no incômodo lugar de algum padre, que não me foi possível identificá-lo, que teria proferido esta frase em que ele nos garante: “Tudo aquilo que me é revelado em confissão, eu sei menos do que aquele que nada soube”. Ela, então, fitou-me os olhos e, de forma cerimoniosa e solene, fez o seu pedido:

– Meu pai, eu vou contar um segredo pro senhor, mas, por favor, meu pai, não conte esse segredo pra ninguém! Nem pra mim. O senhor entendeu? – e Lara confidenciou-me o segredo dos segredos.

Você quer saber qual foi o segredo? Perdoe-me. Sinceramente, eu não me lembro de nada do que me foi dito. Tornei-me, imperativamente, um extemporâneo vigário.

*   *   *

Agradecimento especial ao colega e amigo Luís Cláudio de Lima Pinto, por lembrar-me que seu nome, vez por outra, é vítima de rotacismo, por isso, avisa: “Olha, meu nome é Cláudio e não Cráudio, viu?!”.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Na sala de aula - "Eu vi ela"

Finalzinho de ano letivo. A professora de Português chegou à sala de aula com ar meio cansado, já ansiando por merecidas férias, mas ela estava ali, no batente, caxiasmente. Pegou o diário de classe e começou fazer a chamada, numericamente, afinal, àquela altura do período escolar, todos já sabiam (ou deviam saber) de cor o número correspondente ao seu nome:

— Número 1.

— Presente, professora — respondeu Abraão, timidamente, lá do seu cantinho.

— Número 2.

— Iam present, my teacher — esnobou Ana Helena, fora de hora, o seu inglês carregado de sotaque de nordestina, baiana, santa-mariense.

— Número 3.

— Tô aqui, p’sssooora — fez o mesmo Antônio Serpa, a distribuir simpatia com seu sorriso largo.

Sem mais nem menos, a mestra parou de fazer a chamada. Deu uma olhadela na sala e perguntou:

— Está faltando mais alguém, hoje, além de Maria Pereira, meus alunos?

— Só ela mesmo, p’sora. Eu vi ela, agorinha mesmo, lá no Jardim Jacaré — confirmou Deinha.

— “Eu vi ela” o que, seu inguinorante, vai estudar Português. Viela é uma rua estreita, assim que nem aquela que tem dois nomes, a Rua dos Doidos, onde mora o professor Jairo Rodrigues. O certo é “eu a vi ela”, entendeu? Vai estudar mais — corrigiu Binha, o senhor da situação.

Rua Marechal Deodoro e Rua Padre Oton Vieira Lima, mais conhecidas como Rua dos Doidos.
— Ô retrinca, agora eu vi! Agora foi que disgramou tudo, meu Senhor Bom Jesus da Lapa! O erro ficou foi mais maior ainda, sua burralidade — deu o troco Deinha, sem pensar duas vezes e sem poupar seu repertório de palavras incomuns, quase um dialeto.

Àquela altura, perplexa, atônita, a pobre professorinha nem sabia mais o que estava a fazer ali com tanta agressão à sua matéria. A mestra, então, aproveitou a oportunidade para “soltar” o verbo com vontade: condenou as gírias, dizendo que se tratava de pobreza de vocabulário dos jovens, que gíria só enfeava nossa bonita Língua Portuguesa etc. “Mandou ver”, como se diz no mundo das gírias, e concluiu seu fervoroso e cáustico discurso com esta preciosidade:

— Olha, minha gente, falar gíria “não tá com nada”! Vamos estudar, ler um bom livro que é bem melhor! 
— finalizou enfaticamente, o que me fez lembrar a música “Mexericos da Candinha”, composição de Roberto e Erasmo Carlos, quando em determinado trecho eles utilizam gíria, o verbo maneirar, para se referirem a Candinha, maior fofoqueira da TV e do rádio brasileiros dos anos 1960:

— Ela diz que falo gíria / e que é preciso maneirar — verbo expressar gíria.

Os alunos, sem nada entenderem, um olhava para a cara do outro com riso reprimido, mas em silêncio permaneceram, afinal, estava bem claro para eles que a mestra se contradisse, enganou-se, porque a expressão “não tá com nada” é, sem dúvida alguma, uma graciosa gíria, um coloquialismo.

Deinha, no entanto, tentando a todo custo dominar o riso, não se conteve e fez esta hilária confissão, para deixar em pânico ainda mais a sua dedicada mestra:

— P’sora, pra falar a verdade, eu sou bom mesmo é ni Português, mas minha di-fi-cu-li-da-de é só ni Aritmética, principalmente, essa tal de conta de dividir de três letras! Ô continha difícil, minha gente! 
— referindo-se a divisões cujo divisor tenha três algarismos ou letras, como ele diz.

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

A menina e o retratista lambe-lambe


Era uma tarde como tantas outras que ali tenho ficado, sentado, após o almoço. De bobeira, diriam alguns. Fazendo o quilo, outros diriam. Não importa. Descansando... Viajando nas imagens de uma praça soteropolitana bem movimentada e histórica.

Este “ali” a que me refiro é a Praça da Inglaterra, no Comércio, em Salvador. Sentado num banco que contorna o monumento da imponente estátua de bronze do tribuno J. J. Seabra, estava eu, bem defronte, em postura iogue. Do meu lado direito, a uns vinte metros, o McDonald’s. Bem mais próximo, também sentado, estava um senhor portando uma pasta 007, lendo um jornal, a caracterizar-se – mesmo sem querer – as “ilustres figuras” que naquelas imediações dão plantão diário, os tão procurados agiotas.

Retratista Lambe-Lambe. Foto: Reprodução / Internet (vide link)
À esquerda, o prédio da Casa Forte, antiga sede da caderneta de poupança do extinto Banco Econômico, ASPEB, aquela da abelhinha. Ainda desse lado, estava postado um daqueles profissionais inconfundíveis, memoráveis, um fotógrafo lambe-lambe. Além dele, um casal de namorados trocando carícias, promessas (provavelmente), confidências mil, “na deles”, indiferente ao burburinho, aos disse me disse daquele movimentado logradouro.

À propósito desses profissionais de escol, magistrais, em Santa Maria da Vitória havia alguns deles, tais quais Jesuíno, Expedito e Pombinho, estes, também “lambe-lambistas”, e outros retratistas merecem registro como Vá de Tenente, João Fulosoro, Randolfo, Neném, Carlito e Tião de Lita (Tiãozinho Roupa Limpa). Hermes Novais, Zim Bacaiau e Zé de Maria são bem mais recentes. Tive o privilégio de ter meus primeiros retratos feitos provavelmente por um dos três primeiros aqui citados, como também algumas fotos 3 por 4 feitas por profissionais de Salvador.

Novais Neto, Jandira e Nena (Janilza). Acervo pessoal.
De volta ao meu observatório, a Praça da Inglaterra, enquanto eu, a pensar, continuei observando aquele vaivém de pessoas e de carros, aquele burburinho, lá pelos idos dos anos 1980. Naquela tresloucura toda, viam-se garotos limpando para-brisas de automóveis, vendedores de picolés Capelinha, até um marreteiro com uma gaiola abarrotada de aves trepadeiras dentro de uma sacola do Paraguai mercava impune e criminosamente seus troféus.

Eis que, da tresloucada multidão, emerge um brotinho de seus presumíveis 15, 16 anos de idade. Uma galeguinha, poderiam qualificar meus conterrâneos santa-marienses. Sarará, diria alguém não adepto a desnecessários eufemismos. Uma loirinha esperta, sim! Confortavelmente merecia tal adjetivo.

A loirinha aproxima-se do fotógrafo, pergunta o que não deu para ouvir, certamente a respeito de preço e prazo de entrega de um retrato 3x4. Indagações de quem, geralmente, pergunta por perguntar e o que quer mesmo é submeter-se a mais um teste de fotogenia, a conciliar necessidade, urgência e preço acessível – a perfeita tríplice fusão.

A jovem então se sentou num desconfortável banquinho de madeira. Tocou os cabelos na tentativa de penteá-los com a ponta dos dedos. Olhou para mim e sorriu despretensiosamente. Se eu estivesse mais próximo dela, pediria para deixar os cabelos como estavam: encaracolados, em desalinho, bonitos, a dispensar o desnecessário pente. Mas não, preferiu atender a seus conceitos de beleza, evidentemente, indispensáveis para ela.

Desse modo, ela tirou um pente de uma bolsa. Meio sem graça, no entanto, com um sorriso doce e sem razão no canto da boca, tentou penteá-los. Deu um caprichada final nos cabelos com ambas as mãos, olhou mais uma vez para este “discreto” assistente, lindamente sorriu e pousou fo-to-gra-fi-ca-men-te.

Enquanto minha observada estava se preparando, o retratista, aliás, o “lambe-lambista”, cheio de intimidades com sua parafernália, fazia mil e uma peripécias com seu equipamento fotográfico sustentado num tripé. Enfiava a cabeça, os braços naquele estranho paletó preto acinzentado que, de tão surrado, perdeu – há muito tempo – a cor original.

Finalmente prontos, conversaram qualquer coisa e sorriram. Ela se esforçou em ficar séria, rosto sereno, não carrancudo. O retratista, por último, ainda mexeu no instrumento fotográfico, voltou a arrumar direitinho a cabeça daquele modelito e disparou, decerto, o tradicional grito de alerta: “olha o passarinho”. Pronto, agora, só restava esperar pelo resultado do clique. E, uma vez mais, a linda menina sorriu, tentou ficar mais à vontade, afinal, dali a pouco constataria que “contra ‘foto’ não há argumento”, veria sua carinha estampada em papel fotográfico.

Outra vez recomeçaram os malabarismos daquele “lambe-lambista”: máquina, emulsão, solventes, reveladores, papel fotográfico, positivo virando negativo, negativo sendo copiado e, por fim, eis o retrato 3 por 4, pronto, inconteste, prova definitiva de que ambos procuraram pelo melhor resultado: a menina e retratista.

Nesse ínterim, ainda aproximou um daqueles garotos de rua, olhou a foto, procurou a top model, sorriu e foi-se embora, enigmaticamente. Pude notar que a loirinha ficou meio apreensiva, mas continuou sentada, impassível. Chegou outro menino, esse vendendo picolé Capelinha, e ela nem lhe deu atenção, estava mesmo era ansiosa para ver seu rostinho jovial.

Ela não se conteve, no entanto, levantou-se (a esta altura os retratos estavam sendo secados com auxílio de uma flanela), pediu para olhá-los, balançou discretamente a cabeça e deixou no ar possivelmente frase do tipo: “É... tão boas”.

Minha jovem modelo ainda teve que esperar até que as fotos fossem recortadas e colocadas num porta-retratos plástico. Enquanto isso, ela abriu novamente a bolsa, pegou uns trocados, pagou, olhou mais uma vez em minha direção e rapidamente misturou-se à multidão da Praça da Inglaterra.

Confesso, sem dúvida alguma, que tive vontade de ver a ambos: ela, de perto, primeiramente, depois as fotos. Fiquei no desejo apenas. Faltou-me decisão ou até uma boa dose de curiosidade a ser posta em prática.

E agora, cronista-bancário, o tempo passou muito célere que nem foi sentido? Já era hora, portanto, de voltar (atrasado) ao trabalho no Banco do Estado da Bahia, o extinto Baneb, e enfrentar as últimas quatro horas daquele dia menos comum, daquela tarde que se fez singular, única, sem dúvida.

Agradecimento:

Agradecimento especial ao conterrâneo e amigo Antônio Washington Simões, a quem quase sempre recorro para refrescar lembranças fugidias referentes a acontecimentos em nossa Santa Maria da Vitória, Bahia, Brasil.

Referências:

FOTO LAMBE-LAMBE OU OITI: ascensão e declínio na Aracaju de outrora. Disponível em: <https://www.ufs.br/conteudo/68462-foto-lambe-lambe-ou-oiti-ascensao-e-declinio-na-aracaju-de-outrora>. Acesso em: 5 ago. 2023.

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Na sala de aula - Os corações da minhoca

Aula de Biologia, mais precisamente, sobre Zoologia. O professor, voz anasalada, falava sobre o aparelho circulatório dos animais inferiores, assunto que – surpreendentemente – acabou por prender a atenção de seus diletos e estudiosos pupilos.

Alunos da quarta série ginasial. Os ex-meninos, rapazelhos compenetrados, vestiam calça cáqui de tergal (normalmente boca de sino) e camisa da mesma cor, com debruns no ombro com quatro divisas indicativas de último ano de ginásio, além de surrados congas sete-vidas na cor azul-marinho, um perigo constante para as pobres narinas.

Alunos da 4ª Série Ginasial do Centro Educacional Santamariense (sic) sentados no
Estaleiro Guarany, Tamarindeiro de Cima, 1974. Acervo: Novais Neto.
Já as ex-meninas, moçoilas naturalmente elegantes e belas (não podiam usar maquiagem), trajavam blusa branca e saia plissada azul, também de tergal, convite a que ventos mais afoitos e desavergonhados alimentassem a fantasia erótica de muitos donzelões. Uma beleza, verdadeiramente!

O mestre, competente, paciência de Jó, comedido, de cativante jeito bonachão, reconhecido e respeitado orador político e também professor de História Geral, descrevia, sem nenhuma pressa, o aparelho circulatório de um anelídeo, a minhoca, animalzinho asqueroso para muitos:

– Bem, minha gente [“rente” é a pronúncia mais aproximada], a minhoca tem um aparelho circulatório ainda primitivo. Ela tem de 2 a 15 pares de coração. Isto é, pode ter 15 aurículas e 15 ventrículos rudimentares distribuídos longitudinalmente no seu corpo cilíndrico.

Minhoca. Foto: Reprodução / Internet (vide referências).
A turma ficou intrigada com aquele monte de corações num animalzinho até nojento que, para muitos, só servia mesmo de isca para pescar piabão, dourado-cachorro, guelete e maria-zoião nas outrora límpidas águas do majestoso Rio Corrente lá pelos meados da década de 1970. E mais nada!

“Pra que tanto coração num troço desse, professor?” Esta certamente era a pergunta que muitos desejavam fazer. Optaram, entretanto, pelo silêncio para ver o desenrolar de tão interessante assunto.

O professor, a perceber interrogações passearem na cachimônia de muitos de seus alunos, antecipou-se e inquiriu a todos num tom claramente ameaçador.

– Não entenderam o que eu disse, não? Têm alguma dúvida? Se tiverem, podem perguntar, agora, porque este assunto eu vou botar na prova. Não se enganem, não! – foi quando um dos alunos decidiu manifestar-se:

– Ô, fessor, se essa tal de minhoca que o senhor tá falando aí tem 15 pares de coração, ela tem, portanto, 30 corações. Neste caso, o bicho homem pode amar 31 vezes. Não pode?

– Não entendi sua conta, meu bichinho, explique-se melhor para a turma – ordenou o lente.

– Segundo os poetas, doutor Leônidas, é o coração que ama. O homem já tem um coração e uma mi-nho-ca – palavra dita sílaba por sílaba com aparente receio e olhos esbugalhados – e continuou:

– Se a gente somar tudo, vai dar 31 corações. O homem então pode amar 31 vezes – e cinicamente esboçou pálido sorriso, logicamente, a esperar por resposta nada boa.

Na sala de aula, repleta, surgiram alguns risinhos esparsos e contidos, aqui, acolá, mãos à boca de algumas recatadas donzelas, à espera de enérgica e contundente repreensão do mestre ao imprudente e despudico aluno. No entanto, o que se ouviu foi um discurso amigável e não repressivo de doutor Leônidas, como o tratávamos, que de alguma forma premiou a criativa imaginação do seu pupilo:

– É, meu bichinho, os poetas estão sempre com a razão. E por falar em poeta, esta divina palavra de origem grega quer dizer: “aquele que faz, cria, compõe”. O mundo, meus filhos, seria muito triste sem a criatividade dos poetas! Você está certíssimo, comandante! – e continuou a aula, sem balbúrdia.

Referências:

MINHOCA (foto). Disponível em: <https://thumbs.dreamstime.com/b/minhoca-no-solo-62115557.jpg>. Acesso em: 19 mar. 2021.

Quem sou

“Matemática ultrarromântica“ na peça teatral portuguesa “Beremiz na Terra Plana“

Publicada no meu segundo livro, Ave Corrente (1991), a poesia  “ Matemática ultrarromântica ” , posteriormente, singrou mares e foi parar em...