sexta-feira, 3 de setembro de 2021

O mais improvável dos encontros

Naquela noite, retornei mais cedo para casa. Era o dia 24 de junho de 2002, véspera do jogo das seleções do Brasil e da Inglaterra pelas quartas-de-final da XVII Copa do Mundo, sediada na Coreia do Sul e no Japão, que começaria às três e meia da madrugada do dia seguinte.

Estava em animado forró em São Félix do Coribe, nossa cidade coirmã, do outro lado do Rio Corrente. Lá, sorvi alguns copos de quentão para esquentar a friorenta noite. Nada em exagero. O pensamento, no entanto, não saía do jogo. É que havia prometido a meu pai assistir à partida com ele, embora soubesse que dificilmente cumpriria meu compromisso, pois nestas ocasiões sempre fico muito ansioso.

Já em casa, tentei, vãmente, conciliar o sono. Até que cochilava um pouco, tinha sonhos — para não dizer pesadelos — e acordava com o futebol no pensamento. Finalmente, começou o jogo. Saí de mansinho do meu quarto e fui para a rua sem que ele percebesse minha escapulida.

Subi a Rua Teixeira de Freitas completamente deserta. Imagina que esta rua em dias normais, às três da madruga, já é bastante parada, naquele momento, então, todo mundo grudado na frente do televisor, não se via uma única alma vivente a zanzar. Tudo era silêncio e vazio.

E lá vou eu rua acima, pelo meio. Nas casas, pelas frestas, viam-se as luzes acesas e algum burburinho. De repente, ouvi a palavra gol. Era gol da Inglaterra. Um ou dois foguetes espocaram, sinal da presença algum gringo inglês ou argentino escondido naquelas bandas ou mesmo brasileiro metido a anglicano.

Continuei minha caminhada, agora, mais nervoso ainda. Àquela hora, corria um ventinho frio bem típico das noites juninas. Finalmente, cheguei a meu destino: a casa de Manelim de Seu Dió do Pote, irmão de Mazim Fotógrafo, na Rua José Leopoldo Lima. 
Bati com suavidade na porta, porta de vidro que me permitiu ver a televisão ligada. De lá de dentro, uma voz que parecia amedrontada perguntou:

— Quem é?

— Ladrão — retruquei — e escutei a confabulância: “Tio Manoel, num vou abrir, não. Tem um ladrão lá fora”. “Que ladrão que nada, menino mofino, assombrado. Ladrão que é ladrão vai dizer que é ladrão? Acende a luz da área pra ver quem é”.

— Eu já tava imaginando que só podia ser você, Nó, com as suas latumias. Você não me pega mais, não. Vamos, entra, vamos ver o jogo, que tá é bom — convidou-me gentilmente Manelim.

O jogo já encaminhava para o final do primeiro tempo, quando Ronaldinho Gaúcho deu uma bonita arrancada, passou a bola a Rivaldo, que marcou o gol de empate. Aí sim, fiquei mais tranquilo.

No intervalo, meu anfitrião convidou-me a fazer um concentrado chá de erva-cidreira misturado com camomila para acalmar os nervos. E assim foi feito, mas o resultado desejado não veio. Fiquei foi mais nervoso ainda, a infusão parece que teve efeito reverso: o coração disparou, deu-me uma sudorese  danada, ou suadeira, para não fugir da minha origem. Ainda assim, tentei suportar quanto pude.

Começa o segundo tempo e, logo no início, ao cobrar falta despretensiosa (ao que pareceu), Ronaldinho Gaúcho, apelidado de Bruxo ou Mago, fez valer sua alcunha ao marcar o segundo (e improvável) gol do Brasil. Pronto! Não havia quem me prendesse na frente daquela televisão. E caí fora, não suportava mais ver o jogo de tanta tensão. Fiz o caminho inverso. Desci a Teixeira de Freitas e a rua continuava dormindo, só um açougue já estava com as portas abertas. Parei, dei uma espiadela e segui minha tortuosa senda, doido para o jogo acabar, melhor dizendo, meu sofrimento.

Cobrança de falta de Ronaldinho que originou o gol. Foto: Reprodução / Internet.

Comemoração de Ronaldinho e do banco de reservas. Foto: Reprodução / Internet.
Já no finalzinho da rua, aliás, no começo, bem embaixo, próximo ao Jardim Fifa, vi um vulto, magrelo e alto, vindo em minha direção. Confesso que não tive o menor medo, afinal, não havia motivo para tanto, lá é bem tranquilo. Reconhecemo-nos. Era Fredão de Zé Dentista, que foi logo indagando:

— Que foi, moss? Que é que cê tá fazendo esta hora na rua? Tá perdido que nem eu?

— Que perdido, que nada, Fredão, tô é com medo de ver o jogo.

— Então são dois. Só que dei um azar disgramado, saí tão avexado de casa pra vim pro Corrente Verde me esconder, que acabei esquecendo a peste chave em cima da geladeira. Agora, vou ficar bestando pelas ruas até acabar o diacho desse jogo, porque lá eu num volto mais, não, nem peado.

— Tá bom! Então vamos “medir rua” por aí. Vamos subir a Lavandeira, seguir pela estrada do Derba até o Riacho Seco pra ver se o tempo passa mais depressa — sugeri ao meu parceiro de infortúnio.

E foi o que fizemos. Andamos, andamos, contemplamos os matos todos secos, o que é bem comum no mês de junho, escorraçamos alguns vira-latas que vinham nos morder e seguimos. De vez em quando, ao longe, ouvíamos um “uuuuu”, sinal de algum lance mais dramático do jogo.

Conversamos sobre poesia, sobre a ONG Corrente Verde, Ecologia, futebol, que não havia jeito de sair das nossas cabeças, quando finalmente ouvimos uma explosão de alegria, espocar de foguetes: o Brasil ganhou, só poderia ser! Passos — agora — bem apressados. Queríamos ouvir os comentários, ver os lances e respirar aliviados. “Passamos por mais um adversário”, pensamos nós, cada qual com seus botões, evidentemente.

No caminho de volta, ainda na estrada do Derba, vimos Dema Bodeiro e filhos, eufóricos, a comemorar o feito canarinho. Os irmãos Babão e Finho de Cilerino, felizes da vida, iniciavam sua corrida matinal, e tantas outras pessoas com riso largo estampado no rosto, penduradas nas janelas de suas casas ou nas calçadas, no Bairro da Sambaíba, a festejarem a vitória brasileira, naquela frigidíssima alvorada junina.

Fredão de Zé Dentista tomou o rumo da Rua dos Doidos, onde mora, e eu fui para a casa de meus pais, na Rua Teixeira de Freitas, tomar um café quentinho passado em coador de pano para espantar o frio daquele gelado e feliz alvorecer. E ver os gols da partida, claro. Conversar com meu pai, Tião 
Sapateiro, aficionado por futebol, principalmente em Copa do Mundo, e admirador mor de Ronaldinho Gaúcho.

Quanto ao mim e Fredão, soma-se à coincidência de padecermos de idêntico “mal”: não aguentar assistir a jogos decisivos do Brasil, outro “mal”, bem mais ameno, que nos aflige, também nos une, porque é o que nos põe do mesmo lado das paixões clubísticas: sermos, 
desde os anos 1970, torcedores do Fluminense, o Tricolor das Laranjeiras. Somos, portanto, “pós-de-arroz”!

Referências:

COBRANÇA de falta (foto). Disponível em: <https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgLiCXpoU5tdxY0TaowtbezTvKfNBrI-u5zTJngjG7D8wolDGZeJ-I1WPFJVtbAY-W8S1oJNb9Nqot3wGJodOWVovRzYIqTzBSrjZSgxnT06A8V7u4-AUWqJASuS9xjAsbykw7E3B0_EvM/s1600/r10+01.jpg>. Acesso em: 13 ago. 2021.

COMEMORAÇÃO do gol (foto). Disponível em: <https://i.ytimg.com/vi/7hcFmS1KvRg/mqdefault.jpg>. Acesso em: 13 ago. 2021.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Musa de uma manhã

O dia amanheceu chuvoso. O Sol sequer apareceu. Aliás, proibiram-no de lançar seus lindos raios sobre aquela manhã friorenta do mês de Maria, de algum ano da década de 1980, não sei precisar exatamente. O céu nubiloso, um vento gelado e uma chuvinha miúda prenunciavam muitos atropelos da natureza.

Levantei cedo como habitualmente faço. Dei um toque no visual e rumei ao trabalho. Conhecendo um pouco esta Salvador, cidade-verão, inegavelmente, optei por ir de ônibus. É menos desgastante, principalmente, quando se tem pela frente alguns inevitáveis engarrafamentos.

Coletivo cheio. Lá fora, uma chuva fina continuava a castigar a manhã do mês mariano. Muita gente molhada entrava no ônibus e um calor insuportável deixava em cada rosto marcas de suor, de abafamento, agitação, de desconforto.

Estava em pé, porém bem acomodado. Uma estudante pediu-me para segurar um pequeno embrulho que levava, enquanto ela procurava algo em sua bolsa. Reparei em muitos semblantes, diante do previsto engarrafamento na Ladeira do Garcia, sinais de cansaço, angústia, sobretudo ansiedade. Uns mostravam o retrato de noite mal dormida. Outros, ainda sonolentos, ensimesmados. O que em verdade havia de comum em muitas fisionomias era a quase certeza de chegar atrasado aos respectivos compromissos. Estudantes, trabalhadores, todos deixavam transparecer apreensão.

À minha frente, uma escolar folheava, desligada do mundo ao seu redor, uma dessas revistinhas de fotonovelas. Sem necessariamente prestar atenção ao que lia, pude ver, num olhar de soslaio, os títulos dos assuntos que a absorviam tanto: Escolha seu par perfeito e Significado dos sonhos. Confesso que me detive um pouco no primeiro assunto. Pus-me a meditar sobre a temática e... Bem que gostaria – também – de encontrar alguém para nos tornarmos um par ideal, perfeito!

Quanto ao Significado dos sonhos, este me fez lembrar do que houvera sonhado naquela noite. Certamente, ali não diria o que vem a ser sonhar com dejetos humanos. A crendice popular não obstante garante que é sinalização de bonança, de grana extra. É... Bem que não seria nada mal!

Fiquei tão entretido em meus devaneios, nos meus sonho, nem percebendo que o ônibus estava bem mais tranquilo, vazio até. Passou o congestionamento e já era hora de descer na Praça Conde dos Arcos, em frente ao Elevador Lacerda e ao Mercado Modelo, no Bairro do Comércio.

Antes de ir ao Baneb, onde trabalhava, passei no self-service do Supermercado Paes Mendonça, do referido logradouro, para o habitual breakfast, o nosso quebra-jejum. Ainda na fila, com a bandeja nas mãos, percebi que uma belíssima mulher olhava-me insistentemente. Fiquei meio desconfiado, senão desajeitado, fato que não me impediu de olhá-la fixamente, por outro lado.

Foto: Reprodução / Internet (vide site em Referências).
Sentei-me a umas três fileiras de mesa a sua frente e então pude desfrutar calmamente o esplendor de sua beleza. Uma obra de arte. Sorriso gostoso, olhos grandes, claros, lábios torneados, da cor do carmim, cabelos aloirados, meio ondulados. Belíssima mulher. Sem exagero: estonteante!

Ela continuou, ainda assim, a olhar-me com alguma insistência. Tive vontade de aproximar-me dela, mas não o fiz, nem faria. Estava acompanhada de um senhor de meia idade que poderia ser seu pai. Também, nada impediria, pelo menos para um simples observador como eu, que aquele cavalheiro pudesse ser seu namorado, marido... Ou coisa do gênero.

Reservei-me ao direito (e ao prazer) de contemplá-la. Fiz alguns gestos tímidos e anotei meu telefone num pedaço de guardanapo, fazendo-a perceber que era para pegá-lo, quando passasse por minha mesa. Ao que notei, minha musa entendeu e, afirmativamente, concordou com um discreto meneio de cabeça. Aguardei, então, ansioso, o desenrolar daquele romanesco episódio.

Ao final café, ela levantou-se calmamente e deixou que seu acompanhante adiantasse um pouco, de propósito. Porém, no exato instante em que passava por mim, quando estendeu a mão para pegar o talismã – meu pedaço de guardanapo – num átimo de segundo, aquele senhor olhou para trás e... quanta infelicidade! Ela recolheu rapidamente a mão, sem haver completado seu intento.

Foi um verdadeiro desastre para mim. Correu-me um frio intenso pelo corpo. Olhamo-nos, trocamos acenos e ela se foi. Vacilante, atordoado, incrédulo, permaneci naquela mesa o tempo suficiente para minha “dama de vermelho” eterizar-se na multidão. Desapareceu, sem deixar qualquer sinal pelas labirintosas ruas daquele bairro.

Ainda hoje, além da sua imagem cada vez mais nítida na memória e o registro nesta crônica, como recordação fatídica, guardo o pedaço de papel com meu telefone (que “meus guardados” se encarregaram de escondê-lo) e, mais que isso, a imorredoura vontade de que o tempo, mesmo que não contrarie sua marcha ao Infinito, conceda-me bis àquela lírica manhã, com outro final, sem dúvida.

Voltei lá tantas outras ocasiões. E, na profusão de tantos e tantos rostos conhecidos e desconhecidos, o dela jamais surgiu. E não surgirá, vez que me pareceu turista ou, pior ainda: uma miragem! Portanto, ter de conviver com a hipótese de não mais ver minha diva, chega a ser dramático. Neste caso, melhor seria nem tê-la “conhecido”, porque evitaria a instalação de um onírico mundo a delongar indefinidamente com a realidade, sem a musa daquela tão longínqua manhã.

Para muitos, certo que esta crônica soará como uma atitude puramente masoquista. Entretanto, para este que a escreveu, é um excitante e, ao mesmo tempo, um sedativo exercício de sinceridade e coragem. Afinal, quem de nós não passou (ou passará) por semelhante situação? Quem estará livre? Quem, certamente, tão leigo quanto a mim em futurologia, não poderá admitir a hipótese de rever a musa de alguma manhã perdida no tempo? Ou criá-la, talvez?

Assim, aquela que para os mais românticos (talvez piegas) poderia ser chamada “alma gêmea” e mudar o rumo da (minha) história ficará, doravante, como lembrança de uma manhã dentre tantas outras manhãs que hão de vir, por certo. Sem ela... Infelizmente!

Referências:

MONTE JÚNIOR, Walter Cândido do. 30 anos e uma memória sobre as lutas de classe: a mobilização dos trabalhadores no comércio da Cidade do Salvador, 1987. Disponível em: <https://www.comerciariossalvador.com.br/30-anos-e-uma-memoria-sobre-as-lutas-de-classe-a-mobilizacao-dos-trabalhadores-no-comercio-da-cidade-do-salvador-1987/>. Acesso em: 31 jul. 2021.

sábado, 12 de junho de 2021

A felicidade segundo João Diamantino

Minha vida laboral começou bem cedo. Na sapataria do meu pai, ainda criança, costumava fazer, juntamente com os irmãos Jairo Rodrigues e James Dael, sandálias de boneca que eram vendidas às meninas na calçada da casa dos meus pais por nós mesmos. O pagamento nem sempre se restringia a moeda propriamente dita, mas até carteiras de cigarros vazias, consideradas “dinheiro”, valiosas para nós meninos, principalmente as mais raras como Consul, Astoria, Albany, Malboro, Camel etc.

Depois, fui me aperfeiçoando na profissão paterna e passei a fazer sandálias, alpercatas com solado de pneu e tamancos, que vendia inclusive a colegas de escola. Quanto a esses produtos, eu os deixava para minha mãe entregar, porque saía muito fiado e eu não sabia dizer “não”, como também não sabia cobrar depois, portanto, essa tarefa quase sempre ficava por conta dela.

Após os 18 anos, por influência da minha tia Isaura Almeida, irmã da minha mãe, e pelo bom desempenho na escola (sei lá!), fui trabalhar, em 1977, no Funrural, isto é, Representação Local do Funrural, cujo representante era Milton de Souza Borba, casado com minha ex-professora ginasiana de Matemática, Zenilda de Souza Borba, que efetivamente ficava à frente dos serviços do escritório.

Novais Neto, Milton Borba, Regina Lúcia e Trabalhador Rural. Acervo: Novais Neto. 1977
Trabalhar no Funrural foi um verdadeiro desafio para mim, pois lá já laborava o experiente José Ferreira da Cruz, Zé de Paula, com diploma do antigo Curso Normal (Magistério), professor de Datilografia e servidor público municipal na Câmara de Vereadores da cidade, que iria se desligar. Além dele, a também professora Maria Magalhães (Dô), filha de Tinhô Queiroz, fazia parte da equipe.

Meu trabalho, inicialmente, foi entrevistar os pretendentes à aposentadoria ou pensão, seguindo um questionário preestabelecido. Era muito bom (e divertido) porque eu me deliciava com aquele contato com o pessoal da roça, pois já tinha esse hábito quando trabalhava na tenda de sapateiro do meu pai, que confeccionava principalmente botinas, além de “precata-salga-bunda” para pessoas da zona rural.

Com também gostava de escrever e desempenhava bem as tarefas na máquina de datilografia, cabia a mim redigir documentos, cartas, ofícios, sempre orientado por Seu Milton, que conhecia muito bem a linguagem própria, e acabei aprendendo muito e exercitando tão salutar atividade: escrever.

Seu Milton nos falava muito de seus antigos colegas de escola, dentre eles, o conterrâneo, sociólogo e cosmopolita Clodomir Santos de Morais, um dos expoentes da cultura santa-mariense. Por outro lado, de tanto repetir um ditado improvisado em sala de aula pelo mestre de ambos, João Diamantino de Oliveira, por título “A felicidade”, do qual tão somente se lembrava de dois parágrafos do mesmo, conforme transcreveu para mim.

Manuscrito de Milton Borba, 1978. Acervo: Novais Neto e João Diamantino: Acervo: Flamarion Costa.
Essa lembrança, por parte de Milton Borba, acontecia muitos anos depois, já que, segundo ele, o referido ditado é do ano de 1950, guardado na memória. O autor de tão belo improviso, João Diamantino nasceu em Minas, mas adotou Correntina como sua terra natal, por lá ficou e construiu bela e indelével história.

O famoso “baianeiro” foi professor, orador, poeta e rábula ou provisionado, isto é, advogado sem formação acadêmica em Direito, que obtinha autorização do Poder Judiciário ou entidade de classe para exercício da profissão. Em nossa Santa Maria, conheci alguns desses imprescindíveis profissionais de admiráveis conhecimentos jurídicos, dentre eles, Manoel Cruz, Wilson Afonso e Domício Gramacho.

Quanto especificamente ao lente João Diamantino, ele é sempre lembrado por minha mãe, Jandira Almeida, 91 anos, que com ele conviveu quando ela trabalhou na Tesouraria, da Prefeitura de Santana, sua terra natal, entre os anos de 1947 a 1950, época do mandato do então prefeito João Alkmim.

Relativamente ao ditado improvisado em sala de aula por João Diamantino, por achá-lo tão maravilhoso e expressivo, tomei a ousadia de complementá-lo tomando por base, evidentemente, as palavras contidas no parágrafo inicial, incompleto, como já foi dito. Eis, portanto, “A felicidade” segundo Seu João:

“Verdadeira ilusão a de andar-se à procura da felicidade, porque a ninguém caberá o direito de encontrá-la inteira e completa como a desejamos.

Sustentada pelas alternativas de prazer e sofrimento, pelos momentos odientos e amorosos” [...] (1), a felicidade faz-se verdadeira obsessão, mas se sente inviolável e inatingível como a gênese dos tempos.

Ainda assim, movidos por desejos incontidos, mesmo sabendo da impossibilidade de tê-la prisioneira e privativa, nós, homens e mulheres, incansavelmente a buscamos.

Por isso mesmo, sabiamente, desabafou alguém num momento de sofreguidão: “Aí, felicidade, quanta besteira se comete porque tu sabes fazer desejada”.

Observação:

(1). Até esse ponto, as palavras são de João Diamantino. A partir daí, são palavras minhas.

Referências:

OLIVEIRA, João Diamantino de. Bichão de sorte. In: COSTA, Flamarion et al. Poetas de Correntina e Samavi. V. 2. Brasília, DF: Edição do autor, 2021. 205 p. p. 79. (livro não publicado).


FILARDI, Aldair. Santana: ontem, hoje, sempre...: uma viagem no tempo e na saudade. Salvador, BA: Edição da autora, [20--]. 114 p. p. 14.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Saga da vacina

Primeira dose: O senhor é idoso?


Primeiro de abril, tradicionalmente, “dia da mentira”, foi para mim “dia da verdade”, pois tomei a primeira dose da vacina contra nefasto vírus que a (quase) todos amedronta e que já ceifou precocemente muitas preciosas vidas.

Não seria meu dia de vacinação caso levasse em conta a idade, 63 anos, contudo, por enquadrar-me em grupo prioritário definido pela Secretaria Municipal de Saúde de Salvador: policiais militares e civis, bombeiros, guardas municipais, agentes de trânsito, dentre outros, acima de 50 anos, na ativa, poderia ser vacinado.

Fui de carro com minha filha Lara Novais, biomédica, para o Estádio Metropolitano Governador Roberto Santos, mais conhecido por Estádio de Pituaçu, atrás da tão desejada imunização. Ao apresentar-me a uma profissional que fazia a triagem, ela nos cumprimentou e foi clara e objetiva na pergunta:

— O senhor é idoso?

— Sim, senhora — respondi cordialmente.

A atendente então se virou para um cidadão que estava em uma mesa um pouco afastada e lhe disse: “ele é idoso”. Não ouvi a resposta dele, porém ela assim me disse:

— O senhor é idoso, não é hoje, não — e simplesmente sentou-se numa mesa, não nos dando mais atenção. Entretanto, insisti:

— Respondi que sou idoso, porque foi esta sua pergunta, mas sou profissional do grupo convocado — e ela retrucou:

— O senhor disse que é idoso, não disse que é profissional — mesmo assim me pediu contracheque e carteirinha funcional, conferiu e me encaminhou para outra profissional que iria aplicar a vacina. Antes de sair, no entanto, deixei-lhe gentilmente este ensinamento popular: “Se quiser ouvir a resposta certa, faça a pergunta correta”.

Quanto à atendente responsável pela aplicação da vacina, de prenome Consuelo, foi extremamente gentil, atenciosa, graciosa, sobretudo profissional. Fez tudo “no padrão”, como costumamos dizer.



Novais Neto sendo vacinado. Foto: Lara Novais. 2021



Finalmente, “quase” não seria vacinado pelo simples fato de ser idoso! E num 1º de abril. Quem iria acreditar?

Segunda dose: Sou esquecido.


Bem mais tranquilo, por haver tomado a primeira dose da tão pretendida vacina, teria que esperar 28 dias para receber a dose de reforço, que deveria ser agendada, com hora marcada, por determinação da Secretaria Municipal de Saúde de Salvador, no site do Órgão.

A agenda para marcação, segundo a Secretaria, abriria toda sexta-feira. No dia certo, tentei marcar para 29/4/2021, como está no meu cartão de vacinação, mas não havia vaga disponível. Agendei, então, para 27, já que também não foi possível para o dia 28, sem qualquer rejeição por parte daquela página digital.

No dia agendado, fui ao posto de vacinação. Entretanto, quando a atendente fez a conferência, informou-me que eu não poderia antecipar o dia, portanto, não poderia receber a segunda dose. Resignado, voltei para casa e remarquei para o dia 30 do mesmo mês, no horário das 15 às 16 horas.

Para evitar qualquer imprevisto, cheguei uma hora antes e fui atendido por um senhor que fazia a triagem. Ele apontou para um guichê onde deveria ser atendido. Quando me pediram os documentos, constatei que não havia levado o cartão de vacinação e fui informado de que não poderia ser imunizado.

Decepcionado, cabisbaixo, fui saindo, quando o mesmo senhor que fez o pré-atendimento perguntou o que havia acontecido. Contei-lhe o ocorrido e ele foi muito sensato, prestativo e contundente:

— A falta do cartão não é motivo para deixar de ser vacinado, não. Já pensou? — e completou:

— O senhor disse que esqueceu. E se tivesse mentido, dizendo que perdeu ou foi roubado, iria ficar sem a vacina também? Eu vou procurar a enfermeira — e tomou-me os documentos.

Minutos depois, voltou e pediu-me para aguardar que seria atendido. Uma funcionária, que não a enfermeira, atendeu-me e apenas reforçou que eu teria que apresentar o cartão, obrigatoriamente, do contrário, não poderia tomar a segunda dose.

Saí da sala, nesse jogo de empurra, e fui falar com meu empático anjo da guarda, de carne e osso, que ficou indignado com o tratamento a mim dispensado, e argumentou como a confessar:

— Já vi tanta gente tomar vacina aqui sem o cartão, porque perdeu, porque esqueceu... Vou lá, de novo — foi e voltou, garantindo que a enfermeira, chefe do posto, iria ela mesma me atender.

Sem muita demora, agora, fui atendido pela referida servidora municipal, que me deu um esculacho, um “sabão”, dizendo que não poderia me atender, que deveria ter trazido o cartão, coisa e tal. Não contra-argumentei, fiquei apenas a ouvi-la, afinal, o errado na história era eu!

Houve um momento, quando ela me entregou os documentos dizendo que não poderia me atender sem o cartão, que tentei uma solução, busquei uma alternativa e expus para ela:

— Como moro perto e ainda não está no meu horário agendado, falta mais ou menos uma hora, vou tomar um táxi e pegar o cartão em casa, mas gostaria de ter a garantia da senhora de que, retornando no meu horário de atendimento, serei vacinado.

A servidora refletiu bem, buscou confirmar no site da Secretaria se eu havia tomado a primeira dose mesmo, o que de fato aconteceu, tirou foto do lote do imunizante em mim aplicado, da tela do computador, enviou para uma colega e pediu-me para aguardar em lugar apropriado, fora da sala.

Momentos depois, tudo confirmado conforme eu havia dito, novo cartão foi confeccionado, novo “sabão” tive que ouvir, mil recomendações quanto à guarda do precioso documento, e eu apenas a acenar concordantemente com a cabeça, afinal, quem mandou esquecer?

Por fim, tomei a segunda dose do tão desejado imunizante, tudo certinho, como manda o figurino, restando-me agradecer a todos que me atenderam, principalmente a meu primeiro atendente que se compadeceu de mim e confessou-me, sorridente: “eu também sou é esquecido, do jeitim do senhor”.

Novais Neto. Foto: Selfie. 2021
Resumo da minha saga vacinatória: na primeira dose, eu tremi, mas fui imunizado; na segunda, quem tremeu foi a foto, tirada por mim, mas fui vacinado, e assim, um final feliz concretizou-se.


sexta-feira, 23 de abril de 2021

O palavreado de Seu Luiz

Toda cidadezinha interiorana desfruta de uma figura folclórica. Na minha terra, há inúmeras que mantêm vivos o uso, os causos e a velha máxima popular que assevera: “O povo não inventa, aumenta”.

Lá em Santa Maria, não se foge à regra. Aliás, foge sim! Além de aumentar, existem pessoas como Salvador do Mercado que criam histórias, piadas, jargões enriquecedores do folclore santa-mariense.

Havia, também, pessoas como Seu Luiz Serrano, homem simples, mestre de obra, que se preocupava com a boa fala. Não dispensava um termo rebuscado quase sempre empregado em momento oportuno e corretamente.

Conta-se que, numa ocasião, Seu Luiz foi ao Banco do Brasil repetir uma transação bem corriqueira para ele: solicitar a emissão de uma Ordem de Pagamento.

Todo cerimonioso, entrou na agência e se deteve em frente à bateria de caixas. Um funcionário, ao vê-lo, provocou-o, porque, já o conhecendo, gostaria de ouvir algo novo da nossa língua portuguesa.

— E aí, Seu Luiz, o senhor vai fazer a Ordem de Pagamento?

— Não, meu filho. Vou fazer uma transferência de numerário.

Alguém, noutra oportunidade, aproximou-se dele e lhe deu uma notícia meio triste:

— Seu Luiz, o irmão do senhor está bêbado, caído lá na rodagem que vai pra Santana.

— Obrigado, meu filho. Ele é que sabe se aguenta o peso da Goodyear — evidentemente se referindo a pneus da famosa marca utilizados por automóveis que poderiam atropelá-lo na pista, ali caído.

Era sempre assim: aquele amável senhor dificilmente adentrava o coloquialismo. As respostas fluíam sem qualquer deslize. Seu Luiz nunca vacilava nas respostas, como esta que deu ao prefeito, quando, bem cedinho, chegou à casa do mesmo dando-lhe notícias de uma das filhas adoentada.

— Senhor prefeito, vim aqui pedir-lhe uma ajuda financeira para comprar medicamento para minha filha 
— e mostrando o braço da menina, apontou para uma região bastante avermelhada e inflamada, fato que sensibilizou o prefeito:

— O que foi isso, Seu Luiz? Foi mordida de algum bicho? Você sabe que bicho foi esse?

— Foi, sim, senhor. Foi um aracnídeo que lhe picou a epiderme, causando edema e muita dor.

Ainda com o prefeito, aconteceu algo digno de registro. Por ocasião de uma mudança de residência, Seu Luiz foi chamado pelo governante para orientar carregadores na retirada dos móveis.

Durante o desmonte de um deles, Seu Luiz viu dois ajudantes desmontarem bruscamente uma bonita estante, arrastando-a e forçando-a a ponto de rachar uma das tábuas. Aquele pacato senhor perdeu a paciência ao presenciar tamanha estupidez, e caprichou no vernáculo:

— Seus apedeutas, energúmenos. Será que não percebem que são módulos de sobrepor. Basta levantar cada um com sutileza. E pronto, está resolvido!

Contam também que o mesmo saiu-se com uma resposta digna dos bons trocadilhistas, quando um senhor chamado Penha jogou-se de um prédio ao descobrir que estava sendo traído pela esposa.

— Seu Luiz, pel’amor de Deus, o que foi isso?

— Um homem que se despenha (diz Penha) por uma mulher que disputa (diz puta) — aqui, certamente, a repetir um grande poeta brasileiro, o curitibano Emílio de Menezes, frase a ele atribuída.

Este causo era também contado pelo sempre sorridente Chiquinho da Almasa (Algodoeira Santa Maria S/A, da qual era contador). Chiquinho, ao casar com Milu Assunção, tornou-se Chiquinho de Milu. Elegeu-se prefeito e governou nossa cidade entre os anos de 1983 e 1987. Ele foi meu professor de Práticas Contábeis no Centro Educacional Santamariense, quando ginasiano. Chiquinho partiu prematuramente desta vida.

Ao contrário de Seu Luiz, Chiquinho da Almasa era um bom piadista. Certa feita, alguém noticiou a ele com entusiamo: “Chiquinho, vou me casar”, ao que, de supetão, questionou a sorrir: “contra quem?”.

Seu Luiz é uma “figuuuuura”, diria um poeta conhecido meu. E por falar em poeta, vejam a requintada resposta que ele teria dado àquele senhor que o interrogou sobre um animal que havia sido atropelado.

Cão atropelado. Foto: Reprodução / Vide referências.
— O que foi isso, Seu Luiz? Tadim do bichim! Tão maguim!

— Foi um veículo que, com suas quatro rodas borrachinosas, passou sobre o crânio deste canino, deixando-o inerte nesta praça escaldante — episódio que também ouvi narrado por Chiquinho da Almasa, cujo personagem não era Seu Luiz.

Levando, por fim, o palavreado de Seu Luiz para um Português entendível, sem tanto rebusco, ele apenas quis dizer “que um carro havia passado na cabeça de um cachorro”. Muito simples!

Referências:

ANIMAL atropelado deve ser socorrido por motorista. Disponível em: <https://cdn.autopapo.com.br/box/uploads/2019/05/20101932/animal-atropleado-deve-ser-socorrido-por-motorista.jpg>. Acesso em: 23 abr. 2021.

Quem sou

Raimundo Neto, radialista

Anos atrás, exatamente no dia do meu aniversário, 24 de outubro, recebi um áudio da poesia “A doce química do seu olhar volátil”, do amigo R...