domingo, 26 de janeiro de 2020

Mi lugar es aquí - Declamação de Nedelka Solis Palma

Este poema, Mi lugar es aquí, do livro Espejos de la palavra, é uma modesta homenagem a Santa Maria da Vitória, aqui declamado por Nedelka Solis Palma, panamenha, professora da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), Campus de Santa Maria da Vitória, Bahia, Brasil.


Mi lugar es aquí


Mi lugar es aquí,
Al lado de María,
La más bella de todas,
Que me seduce y bendice,
Que me hace más gente,
Me aprieta contra el pecho
Y no me deja en la calle
Perdido en la multitud.

Mi lugar es aquí,
A la sombra del Tamarindo,
Viendo el Corriente pasar,
Abrazado a María,
María de Mil Faces,
María Femenina Singular,
Que en la boca trae mi risa
Y, en el abrazo más fuerte,
Mi mundo, mi dulce brisa.

Mi lugar es aquí,
Donde tengo mis amigos,
Mis amores, mis castigos.
Donde siento el color de la vida,
El frío, el sol caliente, la brisa.
Donde tengo mi memoria,
Mis momentos sin igual,
Al lado de María:
Santa, profana, de la Victoria.

NOVAIS NETO, Adnil. Mi lugar es aquí. In: BIANCHI, Roberto. (Org.). Espejos de la palavra: 15 encuentros aBrace: poemas en dos idiomas. Trad. aBrace Editora; Gacy Simas. Montevideo (Uruguay); Brasília (Brasil): aBrace Editora, 2013. 120 p. p. 86.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Tristeza não combina com você

Relembro, nesta crônica, um professor e um aluno inesquecíveis, em momentos memoráveis de aprendizado, convívio e amizade, numa homenagem póstuma a ambos.

“Fiz um acordo de coexistência amigável com a morte. Nem ela me persegue nem eu fujo dela. Um dia a gente se encontra”. Estas palavras conciliadoras que demonstram pacífica convivência com a partida implacável são de Mário Lago, advogado, radialista, poeta, compositor e ator carioca.

Pois é, Jaiminho, você não fez este acordo, por quê? Partiu de uma forma muito dolorosa para você e para todos nós, deixando-nos órfãos de seu sorriso fácil e franco, de sua alegria e de sua irreverência. Você “partiu antes do combinado”, diria Rolando Boldrin, apresentador televisivo. Poetas, pessoas especiais como você não podem e nem devem fazer isso. Isso é feio, Jaiminho! Pisou na bola, justamente você, goleiro de futebol de salão, corajoso e quase intransponível!

Alunos da 4ª Série Ginasial do Centro Educacional Santamariense (sic) sentados no
Estaleiro Guarany do Tamarindeiro de Cima, 1974. Acervo: Novais Neto.
O fato é que você partiu para a dimensão superior. Mas eu não estou aqui para falar de tristeza, porque tristeza nunca combinou com você. Vou relembrar os bons momentos, aqueles vividos em sala de aula, quando fomos colega por cinco anos (1968; 1971–1975) e que os hilariantes episódios tornaram-se indeléveis lembranças como as registradas nas linhas a seguir.

Importante registrar que esta crônica fará parte do meu próximo livro, no prelo, e envolvem justamente Leônidas Borba, dentista, professor de História Geral, do Brasil e de Biologia, exímio orador e ex-prefeito de Santa Maria da Vitória (1960–1961), falecido em 3/6/2011, e você. Você mesmo, Jaiminho, que também partiu no mês do mesmo ano, dia 26!

Na sala de aula


Foto: Reprodução / Ascom / Pref. Munic. de Sta. Ma. da Vitória.
Numa aula de História do Brasil, o professor Leônidas dividiu a turma em equipes de cinco alunos, e para cada uma delas foi sorteado um assunto para ser apresentado numa próxima aula. Para minha equipe coube falar sobre o Estado Novo, especificamente, a trajetória política de Getúlio Vargas. Jaiminho ou Le Hibou (a coruja, em francês) fazia parte da minha equipe, além de Dalvo Graia (Neno), Tito Gardel e Sarah Oliveira.

Resolvemos inovar. Ao invés de cada membro falar um pouco sobre Getúlio, inventamos uma entrevista coletiva com o ex-presidente. E a mim (imaginem!) coube o papel presidencial. Os outros componentes seriam repórteres de renomados jornais do País, que deveriam fazer, cada um deles, três perguntas a Getúlio, logicamente por mim sabidas, estudadas e decoradas, ipsis litteris. Óbvio e ululante.

A primeira e segunda rodadas de perguntas ocorreram como previsto. A terceira rodada também estava acontecendo dentro dos conformes, até que Jaiminho de Odílio Gongo fez o último questionamento na pretensão (só Deus sabe!) de desvendar um mistério histórico:

— Senhor Presidente, Vossa Excelência suicidou-se ou foi assassinado?

Ante inusitada pergunta, o defunto Getúlio — no caso, eu — tentou dar uma resposta à altura do questionamento espírita:

— Senhor repórter, a verdade é que nem eu mesmo sei o que aconteceu. Foi tudo muito rápido. Não sei se suicidei ou se fui assassinado. O que sei mesmo é que estou embaixo de sete palmos, peguei o chapéu da viagem. E c’est fini.

Ainda na sala de aula


Aula de Biologia. O professor Leônidas, voz anasalada, falava sobre o aparelho genital masculino. E aí, meu amigo, meninos com a cara suja de penugens e menininhas de blusinhas cheias (como ele mesmo dizia), umas já até usando porta-seios, califon ou sutiã, falar de sexo em sala de aula deixava todo mundo ouriçado, dava panos para manga, pois queríamos saber tudo de uma só vez.

Mas o professor!... O professor, apesar de competente e culto, não se sentia muito à vontade falar daquele assunto com jovens e adolescentes. Um tanto conservador – eu disse “um tanto”! – às vezes deixava os menos atentos, iguais a mim, com o juízo mole. Basta lembrar que, quando ele queria dizer a frase “fazer amor”, dizia “fazer roma”.

Já pensou?! E ainda tinha um agravante: ele era também nosso professor de História Geral, como foi já dito. Por esta razão, eu não conseguia entender patavina alguma e nem o que havia de comum entre Biologia e História. Só mais tarde é que notei (ou me alertaram) que a tal “roma” de que ele tanto falava é anagrama da palavra “amor”, de trás para frente. Percebeu? Que recurso legal!

De volta à aula de Biologia, bem atrativa, como já disse, nosso eloquente e letrado mestre concluiu assim o assunto do dia:

— Bem, minha gente! O aparelho genital masculino é formado basicamente pelos ureteres, epidídimo, próstata, pênis e pelos testículos.

Lá do fundo da sala, uma ingênua coleguinha fez a mais inesperada e atordoante pergunta ao lente pudico:

— Doutor Leônidas, o que é testículo?!

Os alunos, a princípio, deram risadinhas esparsas e irônicas, depois, veio um silêncio sepulcral. E diante da cara de espanto do mestre, enrubescida, de repente, a andar nervosamente para lá e para cá, preferimos aguardar por sua resposta. Tínhamos certeza de que tiraria de letra, de uma forma bem didática, sem apelo à linguagem chula, impensável para o erudito docente.

O professor, porém, infeliz ou felizmente, demorou demais. Demorou o suficiente para o colega Jaiminho Coruja, nosso benquisto Le Hiboucompadecido da angústia do querido mestre, antecipar-se à improvável resposta que ele poderia dar, e o socorreu despudoradamente:

— É cunhão, sua besta!

O silêncio na sala foi novamente fúnebre. Todos em suspense a esperar pelo pior. A esperar que o preceptor tomasse atitude radical, botando para fora nosso desvergonhado e tosco coleguinha. Surpreendentemente, o respeitado educador respirou fundo, esboçou um tímido sorriso, aproximou lentamente de Jaiminho e agradeceu-lhe, em sussurro, aliviado:

— Obrigado, meu bichim, você me tirou de uma en-ras-ca-da! — palavra dita com doçura, compassada e acentuadamente, sílaba por sílaba.

Inauguração da Caixa Econômica na Rua Artur, ao lado do Mercado Municipal. 2010. Acervo: Novais Neto.

Crônica revista e ampliada, publicada inicialmente no Recanto das Letras em 20/2/2002. Disponível em: <https://www.recantodasletras.com.br/homenagens/3509205>.

domingo, 22 de dezembro de 2019

Uma noite chamada Natal

Num certo ano da década de 1980, quando ainda era funcionário do Banco do Estado da Bahia, havia planejado passar o Natal em Santa Maria da Vitória, mas, por uma razão que não me recordo, a viagem não deu certo e eu acabei tendo que ficar em Salvador, trancafiado num apartamento, vendo o Natal acontecer lá fora. Porém, não foi tão ruim assim. Aproveitei o momento para refletir, ouvir música e, finalmente, escrever o poema Uma noite chamada Natal, que me serviu de bálsamo, de resignação e me fez relembrar antigos Natais.



Uma noite chamada Natal


Quatro formidáveis paredes me detêm,
Prendem-me o corpo físico, inerte.
Porém, a vontade incontida de voar
Me leva a mundos imaginários:
Vou até Pasárgada, de Bandeira, e
Encontro, sem esforço, a mulher
Que quero do sonho não sonhado.

Tudo é tão rápido quanto inexplicável
Porque o tempo aparentemente gasto
Não cabe no transcorrido tempo real.
A viagem é estranhamente bela
Porque me deixa nos olhos da vida
Um agridoce gosto de saudade.

Volto aos Natais de um sapato de couro:
Duro, surrado...
Embaixo de uma cama de molas espirais
E colchão de junco: artesanal, xadrez,
Cuidadosamente confeccionado,
À espera de uma bola de matéria plástica.

Mas os dias são outros e bem reais,
E quatro formidáveis paredes de um
Apartamento me detêm, inapelavelmente,
Restando-me degustar os sofridos
Versos deste poema que, ainda assim,
Ousam libertar-me desta clausura.

Feliz Natal - Feliz 2020

Que esta trova encerre meus desejos de um Feliz Natal e um Ano de 2020 repleto de realizações, Amor, Paz e Harmonia. 

domingo, 8 de dezembro de 2019

Minha cara vista por alguém

Esta crônica é uma homenagem a estes artistas maravilhosos que brincam com a nossa cara. E nós nos divertimos com isso. Confiram e se divirtam também.

Mês passado estive em Santa Maria da Vitória, o que não constitui novidade alguma, porque sempre que posso vou visitá-la para recarregar as “baterias”. E numa manhã, quando desfrutava de um delicioso pão com ovo frito e café na Padaria Novo Horizonte, da Teixeira de Freitas, eis que encontro com Lucas Nunes, aluno do curso de Artes Visuais, da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB) a fazer o mesmo que eu. Na dele!

Ficamos ali no balcão a papear, quando percebi que ele, vez por outra, olhava para mim e rabiscava num guardanapo. Logo concluí que fazia algum desenho da minha “estampa” e “fiquei na minha” à espera do resultado daquele “olha e rabisca”. Não demorou muito e Lucas me apresenta o papel:

— Taí, figura macrobiótica, o sapo que rabisquei. Veja se parece e se gostou.


Caricaturas de Novais Neto pelos traços de Lucas Nunes. 2019.
Novais Neto por Paulo Setúbal. 1980.
Claro que gostei. E parece! E muito! E ficamos ali a conversar. Falei que tinha alguns desenhos caricatos feitos por outros artistas, inclusive um busto modelado em argila e uma peça com expressividade de caricatura igualmente amoldada com o mesmo material, inspirada num desenho caricato em papel, publicado no meu livro Ave Corrente (1992).

Lucas, então, me pediu para que eu ficasse na mesma posição por mais tempo, a fim de facilitar-lhe o trabalho. Assim o fiz e, no final, apresentou-me mais uma caricatura com expressividade mais definida, que igualmente gostei muito.

De volta a Salvador, durante a viagem, fiquei a maturar de como surgiram alguns desses trabalhos artísticos. O primeiro foi ainda na década de 1980, quando foi ver reunidos no Shopping Iguatemi, o cartunista e chargista paulista Paulo Caruso; o ilustrador, caricaturista e artista plástico espanhol Gonzalo Cárcamo, além do candeense Paulo Setúbal, artista plástico, cartunista, quadrinhista e caricaturista, que me agraciou com bela e expressiva caricatura.


Depois disso, já na década de 1990, num passeio a Brasília, cidade onde já morei, fui com meu primo Tião Álvares ao Conjunto Nacional, quando encontramos um artista modelando em argila, por simbólico valor, a quem se dispusesse a ficar, imóvel, por algum tempo a vê-lo, com inacreditável agilidade modelar bustos. Claro que não perdi a oportunidade de ver-me amoldado.

Num primeiro momento, o artista, que infelizmente não anotei o nome e nem pude identificar pela assinatura, fez um busto. Em seguida, mostrei-lhe a caricatura feita por Paulo Setúbal, inserta em meu livro “Ave Corrente (1992)”, que habilmente também moldou. Esse desenho faz parte dos guardados do conterrâneo e amigo Jairo Rodrigues, artista plástico e professor, guardião do acervo de seu Guarany, doado, em vida, pelo mais famoso carranqueiro do Brasil, cujo nome completo é Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany, baiano, santa-mariense.


Busto de caricatura de Novais Neto modelado por Mestre Zaia. Brasília, junho/1993. Foto: Tião Álvares.


Bustos de Novais Neto modelado por Mestre Zaia. Brasília, junho/1993. Fotos: Novais Neto.


Ainda nos anos de 1990, fui presenteado por uma namorada com a fiel reprodução de uma foto feita pelo arquiteto e artista plástico Rafaelli Lima. Mais presentemente, o poeta e desenhista coribense Uarle Santana ofertou-me também uma caricatura, que muito me agradou.

Novais Neto por Rafaelli (1990) e Urle (2019).
Bem recentemente, ano passado, alguns maravilhosos desenhos de bustos de personagens santa-marienses foram feitos pelo aluno da UFOB, Gabriel Ritano, músico e artista plástico, no muro de pedra abaixo do Alto da Igrejinha, apelidado de Minhocão. E eis que apareço à direita da professora dona Valentina e do professor Jairo Rodrigues.

Desenhos de bustos feitos pelo artista Gabriel Ritano. Jandira, minha mãe, a observar, admirada. 2018.
Jailson Santos, o Jão, ilustrador deste blog, apresentando minha caricatura. 2019.
Fui presenteado, ultimamente, com uma maravilhosa caricatura feita pelo amigo e colega, o agente de trânsito Jailson Santos, que assina seus desenhos como Jão. E é ele o ilustrador deste blog, sempre que necessito de suas habilidades artísticas para tornar mais atraente meus modestos textos.

Por fim, é notório que cada artista realça em seus traços aquilo que lhe parece marcante na pessoa que ele desenha ou modela. E, do outro lado, o modelado ou desenhado se vê em algum traço do artista. Particularmente, vejo-me em todos os traços de cada um deles. Afinal, é minha cara vista por ele, por quem sabe ver... Artisticamente, sem dúvida alguma.

Em tempo: Aprecie neste blog, se não viu ainda, a crônica “Um alguém com a minha cara” (<https://www.novaisneto.com/2019/05/um-alguem-com-minha-cara.html>), na qual mostro algumas caras que muitas pessoas acham parecidas com a minha, que vão de Mazzaropi, passando por Seu Madruga, até (acreditem!) o bigode de Charles Bronson. (Risos).

Quem sou

“Matemática ultrarromântica“ na peça teatral portuguesa “Beremiz na Terra Plana“

Publicada no meu segundo livro, Ave Corrente (1991), a poesia  “ Matemática ultrarromântica ” , posteriormente, singrou mares e foi parar em...