segunda-feira, 24 de junho de 2019

Sambaíba, palco da minha infância

Nessa crônica, homenageio Santa Maria da Vitória pelos 110 anos de emancipação política e administrativa, lembrando seu primeiro bairro, meu palco da infância e adolescência.  

Árvore da família das dileniácias, Curatella americana, dispersa por todos os campos cerrados, que se caracteriza pelas amplas folhas, ásperas como lixa, flores e frutos pequeninos. A casca serve para curtir couro. As folhas são empregadas para lixar madeira e a madeira usada em carpintaria, marcenaria e obras internas.

Sambaíba é uma palavra de origem tupi, sã-ba’iwa que serve também para denominar um arbusto da família das tiliáceas, Trichospermum sp., a sambaíba-da-baía. É comum se chamar ainda sambaíba-do-rio-são-francisco, sambaíba-de-sergipe, caimbé, lixeira, cajueiro-bravo, craibeira e penteeira.

São estas, portanto, as qualificações científicas dadas pelos botânicos e encontradas no Aurélio. Por outro lado, a Sambaíba desta crônica é o nome do bairro mais antigo de Santa Maria da Vitória. Mais antigo e não menos esquecido, outrora, pelas autoridades da minha terra.

Sua denominação é herança da antiga Fazenda Sambaíba ali instalada, por haver muito desta planta, e como ainda são chamadas algumas capoeiras (roças) marginais esquerdas do Rio Corrente, nas proximidades do bairro.

Um lado pitoresco e lendário, segundo me contaram, envolve a origem do nome. Dizem que ele vem da justaposição do nome de uma dondoca muito bonita, Iba, que costumava agitar as Folias de Reis locais. Seus admiradores não a deixavam descansar um só instante, sob o uníssono apelo: Samba, Iba. Daí, em justa homenagem, foi dado o nome Sambaíba à fazenda onde ela morava. Certo é que há quem assine embaixo dessa história: Nélson Neves, o sapateiro, o músico. Duvidar, para quê?

Definições, origens e invencionices à parte, foi nesse rincão bucólico que a infância deste que escreve teve seus dias marcantes e inesquecíveis. Era para lá que, à tardinha, estava sempre disposto a passear. Um passeio, claro! Ir à roça já pensando que, no dia seguinte, bem cedinho, iria beber leite quente no curral, era verdadeiramente motivo de festa! Quando não era isso, nas águas (época das chuvas), se plantava capim, feijão, melancia, milho e maxixe.

Cabe aqui uma pequena ressalva para os dias atuais: criança que se preza não encara com muita seriedade o fato de ali ser um trabalho. Por essa razão, isso só acontecia quando estava em companhia de outros meninos para brincar, levando comida, água e a indispensável rapadura. Uma verdadeira festa.

São agradabilíssimas também as lembranças das partidas de futebol de salão jogadas numa quadra construída por empregados do Banco do Brasil na segunda metade dos anos 1960, para prática de futebol de salão e voleibol, onde é, hoje, uma das pistas de dança do Clube Social de Santa Maria (em ruínas). Logo depois, a turma migrou para o Campo do Derba.

Recordar os passeios, margeando o rio, entrando nas roças, no mato, que invariavelmente fazia quando saía para caçar (pelotar, atirar pelota de barro com estilinque, badogue ou zunga) passarinho ou apanhar pitomba, cagaita, procopa, grão-de-galo, melancia-da-praia. Isso é mais do que simplesmente voltar ao passado: é recriar os belos momentos da vida.

Tudo quanto leva a lembrar desse bairro-fazenda é motivo para agradecer a providência divina de ter vivido a infância, a adolescência e parte da juventude em lugar tão aprazível, humilde, acolhedor e privilegiado pela natureza.

Como nem tudo são flores, foi ali também que assisti a magarefes e vaqueiros cometerem atrocidades mil com indefesos e infelizes bovinos condenados à morte no Matadouro Municipal (Curral da Matança, como dizíamos), que naquele lugar fora instalado, próximo ao rio, onde eram jogadas as fezes dos animais abatidos.

Relembrar a Sambaíba é algo que sempre me empolga, deixa-me noutra biodimensão e saudosista, pois me sinto parte desse bairro. Não são, portanto, as palavras suficientes para expressarem o carinho a ele dispensado, porque estas são frágeis, perdem-se ao vento, e são incapazes de traduzir com fidelidade nosso sentimento. Ainda assim, faço-o com todo carinho.

A Sambaíba de hoje é um bairro empobrecido, entregue à própria sorte. Nem por isso deixa de ser o palco da saudade, de onde recolho as melhores e mais reconfortantes reminiscências infantis para guardá-las à posteridade.

A ela, à Sambaíba, a homenagem na essência desta pequena e pretensiosa crônica, é uma insignificância. Entretanto é a arma de que dispõe este que escreve, para tentar sensibilizar as autoridades da nossa terra, tentando mostrar que a Sambaíba é parte da história santa-mariense e, por este e outros motivos, merece mais atenção.

Em tempo: Esta crônica foi escrita em 26/1/1991. Posteriormente, numa visita em 2004, pude observar que o bairro foi lembrado. Já dispunha de um Centro Cultural, calçamento, água e luz, mas anseia ainda por mais melhorias.

Em 2019, quando lá retornei a convite da moradora e amiga Ísis Juliana, professora da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), pude observar que o bairro está completamente diferente daquele que conheci. Em quase nada lembra a Sambaíba de outrora, da minha infância, a não ser pela existência de dois tanques utilizados por meu pai para curtir couro, pelas as ruínas da antiga Algodoeira dos Coelhos e por um dos pés de jatobá, à margem do Rio Corrente, caído. E mais adiante, a Fazenda Sambaíba, do meu pai, a parte debaixo. Depois disso, somente o antigo corredor da Fazenda de Zé Manoel, que ainda resiste.

Desse modo, esta pequena crônica é uma tentativa de homenagear meus amigos e conhecidos de tempos idos, tais como: seu Alfredo, dona Jovem, seu Deoclides, Valdim e Isabel, seu Júlio Mãozinha, seu Júlio Careca, Domingos Bagaço, Domingos Preto, Cícero, Lega do Derba, seu Joaquim Bosta Quente e familiares, dentre outros que da memória, por certo, me fugiram.

Fotos numeradas indicadas no mapa elaborado pelo autor
Mapa da Sambaíba entre as décadas de 1960 e 1970. Elaboração: Novais Neto. 2019.

Foto: Reprodução / Google / Maps. 2019.

Fotos 1 (vide mapa): Vistas do Rio Corrente das terras da antiga Cooperativa.

Porto da Sambaíba (curtume): Novais e Tião Sapateiro. Foto seguinte: Hermes entre os irmãos Zéu e Bega.

Fotos 2 (vide mapa): Porto da Sambaíba e curtume de Tião Sapateiro.

Foto 3 (vide mapa): Tião, Novais e Hermes. Anos 1980.

Fotos 4 (vide mapa): Porto de Seu Tião. Foto: Hermes Novais. Anos: 1990.

Fotos 4 (vide mapa): Porto de Seu Tião. Foto: Novais Neto. Anos: 1990.

Fazenda Sambaíba: Novais e Hermes no curral. Anos: 1980.

Fazenda de Zé Manoel: Baixinho com o cão Peri e Zé Manoel agachado. Anos: 1970.

Corredor da Fazenda Sambaíba de Zé Manoel: Baixinho e Zé Manoel. Anos: 1970.

Foto: Reprodução / Facebook. Disponível em: <https://www.facebook.com/antonio.sousa.54540>.

Jatobazeiro remanescente ao lado do Cemitério Santa Verônica. Foto: Novais Neto. 2019.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

O homem que matou o cabo da tomada do ferro elétrico

Neste conto, vejam como meu pai, Tião Sapateiro, tentou dar fim a uma "cobra" imatável.

O belo rosicler do crepúsculo vespertino lentamente desaparecia. Era momento de transição da tarde para noite, da indecisão temporal, do lusco-fusco. Enquanto isso, no Oriente, a estrela Dalva timidamente reluzia. Eu,  meu irmão e meu pai, naquela estradinha de chão, infestada de cobra, um areão danado, marginada por esparsos casebres com candeeiros já acesos, voltávamos da Sambaíba para casa, depois de haver apartado os bezerros das vacas, a fim de tirarmos leite para consumo familiar, no dia seguinte, logo de manhãzinha.

De repente, de uma humilde casinha, sai uma senhora espavorida, com uma renque de meninos nus da cintura para riba, olha para meu pai com a cara assustada e, aos berros, pede insistente socorro:

— Seu Tião, seu Tião, pelo amor de Deus, me acode, seu Tião. Tem uma cobra no meu quarto.

— Calma, sá Protila. Calma! Eu vou ver o que é, primeiro, tenha calma. Mas isso não é caçoada, não, sá Protila?

— Home quá! Qui caçoada, seu Tião. E eu sou lá muié de brincadera, seu Tião? Ela tá bem no quartim lá do fundo, de junto da cuzinha. Quando entrei lá, dei fé da bicha bem no meim do quarto. Assunta direitim que o sinhô vai ver ela lá.

Antes de entrar na morada daquela desesperada senhora, ele ordenou:

— Num entra ninguém comigo, não. Vou assuntar direito.

E, pé ante pé, com todo cuidado que a ocasião exigia, porque o rancho já estava escuro, ele foi embocando. Olhou, olhou e concluiu a investigação:

— Pelo tamanho, eu acho que é uma jaracuçu. Tá no meim do quarto mesmo, sá Protila. Vou arrumar uma vara boa pra esbagaçar essa bicha.

— Vixe! Minha Maria Santíssima! Num fala uma disgrama dessa, não, seu Tião. Quaje qu'essa infeliz me morde. Mas minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro me potregeu. Escapei por um milagre da minha santinha! Serepente é um bichim muito arriscoso, seu Tião. Toma muito coidado, home!

Nesse ínterim, um dos filhos de sá Protila, o mais pichutitinho, o raspa de tacho, cara de trinchete, vai entrando no quarto matreiramente, para que ninguém desse fé dele, mas sá Protila deu. E esgoelou:

— Sai daí, traste ruim, seu bosta mole. Deixa de saliência, seu exibido. Eta! mininim lutrido da disgrama. Se esse troço te morder um tiquim assim, seu malino, cê tá é pebado, cê vai bater diretim no Santa Verônica. Vai, pistiado, vai caçar mais o que fazer, seu pisquila! Deixa de curiar o que num é de sá conta. Num tá veno que isso é sirviço pra home assim que nem seu Tião? Vai, cai fora daí digero, seu diacho disgramado, lutrido. E vê se para com essa eguage! Tira esse dedo xujo da boca, minino. Meu Deus das Alturas, esse mininim parace que é mei tulemado, seu Tião! Pispia o jeitim dele.

Enquanto isso, meu pai foi procurar numa cerca mais próxima a melhor vara, aquela mais certinha, alinhada e comprida, para tentar dar fim à peçonhenta.

Volta à casa de sá Protila, pede silêncio absoluto, posiciona-se na porta do quarto, vê se a vara não vai enganchar em algum lugar e sapeca a vara, deita a vara com vontade mesmo. Dá umas cinco ou seis varadas bem dadas, espia de novo, assunta direitinho e desconfia:

— Ê, sá Protila! Num tá pareceno cobra, não, sá Protila. Tá muito paradinha pra ser cobra – mas, por via das dúvidas, ele dá outras tantas varadas e a danada continua inerte no meio do quarto.

Resolve, por fim, com muito receio misturado a medo e com o devido cuidado, enfiar a vara debaixo do corpo do suposto ofídio e o atira bem no meio do quintal, bem varridinho.

Quando a bichinha caiu no terreiro, a meninada, que assistia a tudo com muita atenção e curiosidade, dá uma tremenda gargalhada e o matador de cobra, com um risinho meio sem graça, constata, enraivado e injuriado:
Ilustração de Jailson Borges (Jão). 2019.
— Sá Protila, sá Protila, num é cobra, não, sá Protila. É cabo de tomada de ferro elétrico, sá Protila. Cê não viu isso, não? E eu aqui bestano qui nem um trouxa, fazendo papel de besta, só perdeno meu tempo! Home quá, eu tenho mais o qui fazê, sá Protila! — e o matador de cobra, eu e meu irmão exalamos no mundo com uma quente e outra fervendo. Doidinhos para sorrir também!

Em tempo: A primeira turma de Especialização em Arte e Ação Cultural, do Centro Multidisciplinar de Santa Maria da Vitória – Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), por sugestão das professoras Isis Juliana e Maria do Carmo, me presenteou com a encenação de dois contos meus: “O homem que matou o cabo da tomada do ferro elétrico” e “O fim do mundo já passou”, extraídos do livro “Meu lugar é aqui no Centenário de Santa Maria da Vitória”, adaptando-os para a radionovela “O ovo e a cobra de Seu Tião”.

Turma de Especialização em Arte e Ação Cultural, do Centro Multidisciplinar de Santa Maria da Vitória,
Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB). 2015.
Raquel Alecrim, cantora e aluna, ouvindo a radionovela “O ovo e a cobra de Seu Tião. 2015.

















Tião Sapateiro e a professora Maria do Carmo. Novais Neto e Tião Sapateiro. 2015.




















Deixo aqui, portanto, meu carinho e minha gratidão a todos os artistas e mestres, pelo afago, pelo pelo carinho e pelo inesquecível presente.
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Obs.: Conto revisto, extraído do livro Meu lugar é aqui no centenário de Santa Maria da Vitória. Salvador: Prescolor, 2009. p. 137, 164 p. Este conto também teve sua primeira publicação no Jornal Comércio Hoje, de Santa Maria da Vitória (BA), edição de julho/agosto-2007.

domingo, 2 de junho de 2019

Relembrando antigos blocos carnavalescos

Nossa Morada Comum, nossa Terra está sempre a dar alertas, a pedir socorro. Até quando?

Era começo de 1991, quando fui procurado por Thales Santana para escrever algo a ser impresso na parte detrás das camisetas a serem usadas no Carnaval daquele ano, pelos componentes do Bloco Carnavalesco Cok’s.

É bom registrar que, à época, existiam outros blocos como Pau Q’Chora, reedição de antigo bloco de Santa Maria da Vitória dos anos 1940-1950, Espark, Parede de Adobe, dentre outros, como um antigo bloco do distante ano de 1942, assim chamado: Deixa Falar Que Tudo Passa.

Naquela década de 1990 e a anterior, muitas entidades pediam (e ainda pedem) por dias melhores para nossa Morada Comum, para nossa Terra, e então escrevi este pedido que permanece atualíssimo, aceito pelos foliões do citado Bloco:

Ainda que a Terra se torne inóspita, continuará Terra, mas nossa vida sem a companhia de outras vidas, de que nos adiantará? Cuidemos da Vida! Salvemos a Terra!

Transcorridos quase 30 anos, nossos pedidos continuam os mesmos, acrescidos de pedidos novos e urgentes. Mas nossa Morada Comum continua sendo agredida diuturnamente pelo homem, sem dó nem piedade. Até quando, Meu Deus? Até quando?

Bloco Carnavalesco "Deixa Falar Que Tudo Passa". Santa Maria da Vitória. 1942.
Em tempo: No meu perfil, no Facebook, há uma publicação de 2010 sobre a mesma foto, que pode ser acessada através do link a seguir: <https://www.facebook.com/photo.php?fbid=348868165163276&set=a.1057102707673148&type=3&theater>.

sábado, 1 de junho de 2019

Gramática romanesca

Neste poema, utilizo termos da Gramática Portuguesa para contar um história de amor. Ele é uma homenagem à minha ex-professora e sempre professora Arturzita Santana. Foi extraído do meu livro Ave Corrente. 2. ed. Salvador: NN, 1990, p. 52. 120p.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Um alguém com a minha cara

Nesta crônica, mostro que muita gente tem encontrado alguém com a minha cara pelas estradas da vida. E você me acha (ou se acha) parecido com quem?

Não tenho irmão gêmeo. Sou, até onde sei, o resultado da fecundação de um único óvulo por um único espermatozoide, dando origem a uma célula-ovo, que evoluiu para um feto e desenvolveu dentro de uma placenta no útero da minha mãe.

E a relembrar as aulas de biologia, mais precisamente genética, fecundação, essa coisa toda, não sou gêmeo bivitelino, aquele que é resultado da fecundação de dois óvulos por dois espermatozoides, dando origem a dois fetos e desenvolvidos em duas placentas, que podem ou não ter o mesmo sexo. São gêmeos apenas pelo fato de terem sido gerados e desenvolvidos num mesmo período gestacional. São os chamados gêmeos fraternos ou gêmeos irmãos.

Quanto aos gêmeos univitelinos, estes resultam da fecundação de um único óvulo por um único espermatozoide, desenvolvem-se dentro de uma única placenta ou em duas placentas e são necessariamente do mesmo sexo. São os denominados gêmeos idênticos, referidos popularmente como “cara de um, focinho do outro” e que são confundidos até mesmo pelos pais.

Deixando de lado a biologia, quem me ajudou vir ao mundo foi sá Clara ou mãe Clara de Nezim Ferreiro, parteira tradicional que exerceu seu belo ofício por três ou quatro décadas, creio eu. Ela é, portanto, “mãe” de muitos santa-marienses. Nasci em casa mesmo, o normal naqueles tempos idos, num quartinho na atual tenda de Nélson Sapateiro, meu tio, na Rua Benjamin Constant. Assim sendo, a probabilidade de ter algum irmão gêmeo é praticamente nula.

Diante, portanto, desta óbvia constatação, eis que já vi muita gente com a minha cara, e outras tantas pessoas que me disseram que pareço com alguém. Nada de anormal, exceto quando me assustei diante de mim mesmo, diante de minha própria cara. A história não é longa. Garanto.

Quando cheguei a Salvador, sempre que tinha oportunidade, ia a cinemas, teatros, coisas dessa natureza. O cine preferido era o Excelsior, que ficava na Praça da Sé. Uma música me faz lembrar bem dessa época. É a de Raul Seixas, Sessão das Dez, que começa assim: “Ao chegar do interior / Inocente, puro e besta / Fui morar em Ipanema / Ver teatro e ver cinema era a minha distração […]”.



Foi numa dessas distrações no Excelsior que, tendo comprado o ingresso, fui entrando no cinema de cabeça baixa, quando percebi que alguém vinha na mesma direção. Não parei de andar, apenas movimentei de um lado para outro e percebi que esse alguém também fazia o mesmo. Quando já estava bem perto, quase a chocar-me com esse alguém, levantei a cabeça e vi uma cara igualzinha a minha. Tomei um susto e constatei que estava diante de um grande espelho. As pessoas que presenciaram o fato, pensaram tratar-se de brincadeira minha. E meio escabreado, com um riso sem graça, fui para um canto do recinto para aguardar o momento de entrar na sala de projeção.

Num outro momento, a andar pela Avenida Joana Angélica, aqui mesmo em Salvador, eis que divisei na multidão um andante bem parecido comigo e o encarei. O transeunte fez o mesmo, creio que espantado também. Passamos um pelo outro, fitamo-nos mais detidamente e sorrimos. Olhei ainda para trás e vi que ele fez o mesmo. Seguimos adiante, cismados, sem dúvida. Se há época já houvesse a música do Rei Roberto Carlos, sem dúvida, diríamos: “Esse cara sou eu”.

Ainda em Salvador, quando passava, num final de tarde, na Rua Nova de São Bento, escutei uma mulher da janela de um apartamento a gritar:

— Hélder! Hélder! Hélder!

Como a rua estava vazia e ela olhava em minha direção, retornei e aproximei-me um pouco do prédio para saber se a mulher falava mesmo comigo. No entanto, ao ver-me um pouco mais de perto, ela me pediu desculpa e disse que se enganou, que me confundiu com outro alguém.

Dia seguinte, contei o ocorrido para um colega de trabalho por nome Hélder Gama, que realmente se parece comigo, dando-lhe detalhes do local e características da pessoa. E ele não teve dúvida:

— Opaí, opaí! Ela ficou pinel! É minha namorada que mora ali, meu irmão. Não passa lá mais, não, meu bróder, senão vai ter problema, vai ter comigo... — e deu amistosa gargalhada!

A bem da verdade, acostumei-me a ouvir alguém dizer que fulano se parece comigo, afinal, já me acharam parecido com Silveira, antigo quarto-zagueiro do Fluminense, Mazzaropi, Seu Madruga, Binha, conhecido torcedor do Bahia, que já foi até candidato a presidente do clube, Charles Bronson, Salsicha, do seriado Scooby-Doo, além de outros que nem me recordo.


Fotomontagem: Novais Neto.
Um amigo são-felense, o cantor Maninho Senni, disse, num evento, que sou a excêntrica mistura de Benito di Paula e Belchior. Será que sou mesmo? Não sou eu quem vai responder, claro!

Surpreso mesmo eu fiquei, foi quando o amigo Hércules Costa postou no Facebook uma foto do Beatle George Harrison, dizendo que ele havia encontrado meu clone. É demais!

Finalmente, o dia em que me acharem parecido comigo mesmo, vou ficar muito decepcionado. Eu? Com a minha cara? É de doer! Ou de sorrir! Resta-me então perguntar a algum “espelho mágico” quanto à minha imagem nele refletida:

— Espelho, espelho meu, será que existe, no mundo, alguém mais parecido comigo do que eu? – e se o espelho não me responder, vou ficar decepcionado. Ah, se vou!

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Obs.: Crônica publicada no site Matutar Notícias em 22/3/2018, também onde está disponível no link: <https://www.matutar.com.br/arte-e-cultura/um-alguem-com-a-minha-cara/>.


Ainda a propósito de "Um alguém com a minha cara"

Após publicação desta crônica no Matutar Notícias, o amigo Chico Mallero lembrou-me de que eu havia esquecido outro episódio da mesma natureza. E não é que ele tinha razão! Ei-lo portanto, para complementar esta crônica.

Numa tarde, do mês de novembro de 2015, quando fui à casa de Chico, em São Félix do Coribe, "jogar conversa fora", ele e sua esposa Ana Helena me convidaram para irmos à cidade de Jaborandi, distante 54 km, onde um primo dele, de prenome Zé, tem um aconchegante bar à margem do convidativo Rio Formoso. Convite aceito, portanto.

Logo que lá chegamos, eu e Ana Helena nos posicionamos numa mesa onde pudéssemos apreciar a magistral revoada de garças dirigindo-se ao dormitório, rio abaixo. Algo divinal, indizível.

Bar de Zé - Jaborandi (BA), 2015. Foto: Ana Helena Bomfim
Enquanto apreciávamos a natureza, alguns meninos e meninas começaram a rodear nossa mesa, o que me deixou desconfiado. Perguntei a Chico o que estava acontecendo. E ele me disse que aquela turma me achou parecido com um ator da novela Carrossel e que ele simplesmente confirmou ser eu o ator.

Bar de Zé - Jaborandi (BA), 2015. Foto: Novais Neto
Em princípio, fiquei sem saber como sair daquela enrascada  e não desapontar a garotada. Entretanto, infelizmente, tive que desmentir meu amigo Chico, restaurar a verdade. Mesmo assim, tiramos algumas fotos com a turma para registrar o singular e agradabilíssimo momento de descontração naquela linda tarde jaborandinense.

Foto de panfleto: Novais Neto. 2015
Dias depois, em Santa Maria, ao visitar meu primo Erasmo Neves de Sá, no seu Bar Rosarius Bentus, para atualizarmos as notícias, espantei-me ao ver colado numa das paredes daquele estabelecimento um folheto publicitário recortado a estampar o rosto de alguém, com algumas intervenções a caneta preta feitas na foto pelo próprio Erasmo, para que ficasse, segundo ele, ainda mais comigo, dizendo tratar-se de um sósia meu. Bem mais jovem, é claro. Quanta imaginação!

Tirei algumas fotos do panfleto, mas Erasmo me permitiu que o retirasse, ofertando-me como "presente". E assim o fiz e o guardei, não sei para quê. Desculpe-me, agora eu sei: o panfleto complementou minha crônica. Só lamento não ter identificado o nome do artista. Você sabe quem é?

Quem sou

“Matemática ultrarromântica“ na peça teatral portuguesa “Beremiz na Terra Plana“

Publicada no meu segundo livro, Ave Corrente (1991), a poesia  “ Matemática ultrarromântica ” , posteriormente, singrou mares e foi parar em...