sexta-feira, 1 de outubro de 2021

O fim do mundo já passou

Desenhava-se, naquela manhã de tempos idos, mais um rotineiro sábado de feira como muitos outros haviam sido: eu e Hermes, meu irmão, ali na sapataria, à espera de algum brejeiro para consertar, lustrar ou repregar calçados. Ou, ainda, fazer “cubação de terra” e ganhar uma grana extra para gastar nas matinês do Cine União, dos irmãos Rocha, Lolô e Rosi, nos circos comuns, circos de touradas ou nos parques de diversões muito comuns à época.

E “cubação de terra”?! Que troço é esse? Explico: cubação nada mais é senão o cálculo da área de um terreno, roçado ou plantado por trabalhadores rurais, que devem receber remuneração, em moeda corrente, proporcionalmente à quantidade de “tarefas” beneficiadas. Tarefa, por sua vez, é medida de área ainda muito utilizada no interior baiano.

Explicações à parte, os consertos que fazíamos eram bem aceitos e rendiam alguns trocados. Nossos cálculos, todavia, suscitavam descrença, pois a brejeirada não cria muito em nós e, vez por outra, voltava sorrateiramente para ter o aval do nosso pai. Além do mais, se feito por ele, o pagamento se resumia a um “Deus lhe pague”, mas comigo ou meu irmão, via-se no dever de “fazer um agrado”.

Novais Neto, Nélson Neves, Glécia e Tião Sapateiro. 1978
O dia sabático, portanto, transcorria normalmente. Eu já havia feito alguns consertos, repregado umas botinas e me preparava para ir à feira comer queca de Chiquinho Boca Aberta, talvez brevidade de Zelino Jega Véia, ginete, ximango e beber QSuco de groselha, garapa de cana ou a deliciosa gasosa, bebida preparada com bicarbonato de sódio. E e
is que, de supetão e espavoridos, surgem na porta da tenda três senhores. Dois, do meu conhecimento, eram Chico Bate-Pau e Péto, espécie de ajudante da Polícia Militar. O primeiro, primo da minha mãe, e o outro, a tiracolo deles, um velhinho por nome Antão, que também eu o conhecia de vista.

— Tião, Tião, o fim do mundo tá perto. Assunta o que assucedeu cum ovo dessa galinha. Quando vi, fiquei mei descalqueado. Mostra pra ele, Seu Antão — ordenou Chico Bate-Pau.

— Deixa de patacoada, Chico! Cê num tem o que fazer, não? Vai caçar o que fazer. Tá caçoando comigo, Chico? Tá fazendo-se de besta? Mas, xô ver essa geringonça aí, Seu Antão. Decá esse troço aí. Xô ver se num é cadelagem de algum capadócio trampolineiro.

Seu Antão apeou de uma égua descanelada, meio arisca, tirou do embornal uma pequena caixa de remédio amarrada com embira e, desta, com muito cuidado, um ovo envolvido em chumaços de algodão, que passou às mãos do meu pai:

— Taí, Seu Tião, me explique que milagre é esse ou nois tamo é campado. Tá parecendo coisa do fim do mundo, da besta-fera — desafiou o brejeiro.

Eu, que estava ali em pé a curiar tudo, pude ver que no ovo havia umas inscrições com letras invertidas verticalmente
 como se estivesse em frente a um espelho plano. Dentre elas, era possível claramente visualizar esta frase: “roma è sueD”. Confesso que aquilo, sem dúvida alguma, me deixou com a pulga atrás da orelha, porque também não entendi patavina de nada.

Meu pai, sem dar qualquer explicação antecipada, foi logo indagando:

— Seu Antão, o sinhô mora onde? É aqui por perto?

— Moro lá na ponta da rua, dispois da casa de João Fulosoro, dispois do Pingo d’Água, de junto da tapera de Chico Tutano e da capoeira de Zé Carretão. Tem até um pé de pau bem no eitão da casa, um pé de madeira-nova sombroso. Pru que, Seu Tião, ocê quer ir lá ver?

— O sinhô pode me mostrar o ninho dessa galinha, Seu Antão?

— Prefeitamente. Quer ir lá cumigo? Vambora agora, é nesturinha mermo, sem puxa-encoe!

E lá fomos nós. Um pouco à frente, meu pai e Seu Antão, calados. Chico Bate-Pau, Péto e eu, encambados atrás sem entender o porquê de o meu pai querer ver o ninho dessa tal galinha poedeira de ovo mensageiro do fim das eras, do outro mundo.

Quando chegamos à casa do velhinho Antão, como é de costume, ele nos ofereceu um cafezinho em copos esmaltados, que quase me pela a língua. Em seguida, nos levou ao quintal: um terreirinho bem simples, varrido, cercado de varas com casca de ovos nas pontas, algumas galinhas pedrês, um chiqueiro de porcos piaus, 
feito de achas de aroeira, um jirau com cebolinha, coentro e salsa. Em outro jirau, uma casinha com o ninho onde havia encontrado o misterioso ovo junto a outro de indez.

Gravura de pano de prato sem identificação de autoria.
Meu pai olhou direitinho o ninho galináceo, futucou ali, futucou acolá, empurrou páginas de jornais velhos para um canto, entortou a boca para um lado, entortou para o outro, franziu a testa, mirou o firmamento de azul intenso com olhos semicerrados, como a buscar inspiração divina, meneou a cabeça de forma suave e tentou explicar o que — supostamente — teria acontecido:

— Quando a galinha bota o ovo, Seu Antão, ele sai quente e molhado e encostou no jornal, e aí a tinta do jornal passou pro ovo. Eu acho que foi isso. Num entendo muito bem esse negócio de milagre, não, mas eu acho que foi isso que aconteceu. E foi por isso que apareceu no ovo “roma è sueD” em vez de “Deus é amor”, como deve tá
 no jornal. O senhor entendeu, Seu Antão?

Fotomontagem: Novais Neto. 2021.
Seu Antão, pelo visto, pela cara que fez, não se convenceu com as explicações dadas pelo desvendador de mistérios ovículos. Botou novamente — e com muito cuidado — o amuleto na caixinha, tirou uma embira da algibeira, amarrou novamente o pacote e o guardou. Agradeceu, formal e friamente, a meu pai. E nós, sem mais o que fazer, exalamos no mundo sem dá um pio. E ainda a crer em coisas do outro mundo.

Depois de tanto tempo, já que, naquela época, eu beirava doze, treze anos de idade, algumas coisas aconteceram: os bate-paus Chico e Péto viajaram para outra possível biodimensão. Seu Antão, que já era bem velhinho, corpo curvado, certamente não mais está entre os vivos.

E ovo? Do ovo nunca mais ouvi falar. E fim do mundo? O fim do mundo, este nosso mundão velho sem porteira, com se diz por aquelas bandas, que se cria não passar do ano 2000, já passou e muito. E não acabou! Também não se concretizou o assustador (e quase inevitável) Bug do Milênio, pesadelo dos cibernéticos, que ocorreria na meia-noite de 1999 para 2000, quando os computadores de todo o Planeta entrariam em pane. Nada disso aconteceu! Felizmente!

Referência:

NOVAIS NETO. Meu lugar é aqui no centenário de Santa Maria da Vitória. Salvador: Edição do autor, 2009. 164p., p. 161. (conto revisto).

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

O mais improvável dos encontros

Naquela noite, retornei mais cedo para casa. Era o dia 24 de junho de 2002, véspera do jogo das seleções do Brasil e da Inglaterra pelas quartas-de-final da XVII Copa do Mundo, sediada na Coreia do Sul e no Japão, que começaria às três e meia da madrugada do dia seguinte.

Estava em animado forró em São Félix do Coribe, nossa cidade coirmã, do outro lado do Rio Corrente. Lá, sorvi alguns copos de quentão para esquentar a friorenta noite. Nada em exagero. O pensamento, no entanto, não saía do jogo. É que havia prometido a meu pai assistir à partida com ele, embora soubesse que dificilmente cumpriria meu compromisso, pois nestas ocasiões sempre fico muito ansioso.

Já em casa, tentei, vãmente, conciliar o sono. Até que cochilava um pouco, tinha sonhos — para não dizer pesadelos — e acordava com o futebol no pensamento. Finalmente, começou o jogo. Saí de mansinho do meu quarto e fui para a rua sem que ele percebesse minha escapulida.

Subi a Rua Teixeira de Freitas completamente deserta. Imagina que esta rua em dias normais, às três da madruga, já é bastante parada, naquele momento, então, todo mundo grudado na frente do televisor, não se via uma única alma vivente a zanzar. Tudo era silêncio e vazio.

E lá vou eu rua acima, pelo meio. Nas casas, pelas frestas, viam-se as luzes acesas e algum burburinho. De repente, ouvi a palavra gol. Era gol da Inglaterra. Um ou dois foguetes espocaram, sinal da presença algum gringo inglês ou argentino escondido naquelas bandas ou mesmo brasileiro metido a anglicano.

Continuei minha caminhada, agora, mais nervoso ainda. Àquela hora, corria um ventinho frio bem típico das noites juninas. Finalmente, cheguei a meu destino: a casa de Manelim de Seu Dió do Pote, irmão de Mazim Fotógrafo, na Rua José Leopoldo Lima. 
Bati com suavidade na porta, porta de vidro que me permitiu ver a televisão ligada. De lá de dentro, uma voz que parecia amedrontada perguntou:

— Quem é?

— Ladrão — retruquei — e escutei a confabulância: “Tio Manoel, num vou abrir, não. Tem um ladrão lá fora”. “Que ladrão que nada, menino mofino, assombrado. Ladrão que é ladrão vai dizer que é ladrão? Acende a luz da área pra ver quem é”.

— Eu já tava imaginando que só podia ser você, Nó, com as suas latumias. Você não me pega mais, não. Vamos, entra, vamos ver o jogo, que tá é bom — convidou-me gentilmente Manelim.

O jogo já encaminhava para o final do primeiro tempo, quando Ronaldinho Gaúcho deu uma bonita arrancada, passou a bola a Rivaldo, que marcou o gol de empate. Aí sim, fiquei mais tranquilo.

No intervalo, meu anfitrião convidou-me a fazer um concentrado chá de erva-cidreira misturado com camomila para acalmar os nervos. E assim foi feito, mas o resultado desejado não veio. Fiquei foi mais nervoso ainda, a infusão parece que teve efeito reverso: o coração disparou, deu-me uma sudorese  danada, ou suadeira, para não fugir da minha origem. Ainda assim, tentei suportar quanto pude.

Começa o segundo tempo e, logo no início, ao cobrar falta despretensiosa (ao que pareceu), Ronaldinho Gaúcho, apelidado de Bruxo ou Mago, fez valer sua alcunha ao marcar o segundo (e improvável) gol do Brasil. Pronto! Não havia quem me prendesse na frente daquela televisão. E caí fora, não suportava mais ver o jogo de tanta tensão. Fiz o caminho inverso. Desci a Teixeira de Freitas e a rua continuava dormindo, só um açougue já estava com as portas abertas. Parei, dei uma espiadela e segui minha tortuosa senda, doido para o jogo acabar, melhor dizendo, meu sofrimento.

Cobrança de falta de Ronaldinho que originou o gol. Foto: Reprodução / Internet.

Comemoração de Ronaldinho e do banco de reservas. Foto: Reprodução / Internet.
Já no finalzinho da rua, aliás, no começo, bem embaixo, próximo ao Jardim Fifa, vi um vulto, magrelo e alto, vindo em minha direção. Confesso que não tive o menor medo, afinal, não havia motivo para tanto, lá é bem tranquilo. Reconhecemo-nos. Era Fredão de Zé Dentista, que foi logo indagando:

— Que foi, moss? Que é que cê tá fazendo esta hora na rua? Tá perdido que nem eu?

— Que perdido, que nada, Fredão, tô é com medo de ver o jogo.

— Então são dois. Só que dei um azar disgramado, saí tão avexado de casa pra vim pro Corrente Verde me esconder, que acabei esquecendo a peste chave em cima da geladeira. Agora, vou ficar bestando pelas ruas até acabar o diacho desse jogo, porque lá eu num volto mais, não, nem peado.

— Tá bom! Então vamos “medir rua” por aí. Vamos subir a Lavandeira, seguir pela estrada do Derba até o Riacho Seco pra ver se o tempo passa mais depressa — sugeri ao meu parceiro de infortúnio.

E foi o que fizemos. Andamos, andamos, contemplamos os matos todos secos, o que é bem comum no mês de junho, escorraçamos alguns vira-latas que vinham nos morder e seguimos. De vez em quando, ao longe, ouvíamos um “uuuuu”, sinal de algum lance mais dramático do jogo.

Conversamos sobre poesia, sobre a ONG Corrente Verde, Ecologia, futebol, que não havia jeito de sair das nossas cabeças, quando finalmente ouvimos uma explosão de alegria, espocar de foguetes: o Brasil ganhou, só poderia ser! Passos — agora — bem apressados. Queríamos ouvir os comentários, ver os lances e respirar aliviados. “Passamos por mais um adversário”, pensamos nós, cada qual com seus botões, evidentemente.

No caminho de volta, ainda na estrada do Derba, vimos Dema Bodeiro e filhos, eufóricos, a comemorar o feito canarinho. Os irmãos Babão e Finho de Cilerino, felizes da vida, iniciavam sua corrida matinal, e tantas outras pessoas com riso largo estampado no rosto, penduradas nas janelas de suas casas ou nas calçadas, no Bairro da Sambaíba, a festejarem a vitória brasileira, naquela frigidíssima alvorada junina.

Fredão de Zé Dentista tomou o rumo da Rua dos Doidos, onde mora, e eu fui para a casa de meus pais, na Rua Teixeira de Freitas, tomar um café quentinho passado em coador de pano para espantar o frio daquele gelado e feliz alvorecer. E ver os gols da partida, claro. Conversar com meu pai, Tião 
Sapateiro, aficionado por futebol, principalmente em Copa do Mundo, e admirador mor de Ronaldinho Gaúcho.

Quanto ao mim e Fredão, soma-se à coincidência de padecermos de idêntico “mal”: não aguentar assistir a jogos decisivos do Brasil, outro “mal”, bem mais ameno, que nos aflige, também nos une, porque é o que nos põe do mesmo lado das paixões clubísticas: sermos, 
desde os anos 1970, torcedores do Fluminense, o Tricolor das Laranjeiras. Somos, portanto, “pós-de-arroz”!

Referências:

COBRANÇA de falta (foto). Disponível em: <https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgLiCXpoU5tdxY0TaowtbezTvKfNBrI-u5zTJngjG7D8wolDGZeJ-I1WPFJVtbAY-W8S1oJNb9Nqot3wGJodOWVovRzYIqTzBSrjZSgxnT06A8V7u4-AUWqJASuS9xjAsbykw7E3B0_EvM/s1600/r10+01.jpg>. Acesso em: 13 ago. 2021.

COMEMORAÇÃO do gol (foto). Disponível em: <https://i.ytimg.com/vi/7hcFmS1KvRg/mqdefault.jpg>. Acesso em: 13 ago. 2021.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Musa de uma manhã

O dia amanheceu chuvoso. O Sol sequer apareceu. Aliás, proibiram-no de lançar seus lindos raios sobre aquela manhã friorenta do mês de Maria, de algum ano da década de 1980, não sei precisar exatamente. O céu nubiloso, um vento gelado e uma chuvinha miúda prenunciavam muitos atropelos da natureza.

Levantei cedo como habitualmente faço. Dei um toque no visual e rumei ao trabalho. Conhecendo um pouco esta Salvador, cidade-verão, inegavelmente, optei por ir de ônibus. É menos desgastante, principalmente, quando se tem pela frente alguns inevitáveis engarrafamentos.

Coletivo cheio. Lá fora, uma chuva fina continuava a castigar a manhã do mês mariano. Muita gente molhada entrava no ônibus e um calor insuportável deixava em cada rosto marcas de suor, de abafamento, agitação, de desconforto.

Estava em pé, porém bem acomodado. Uma estudante pediu-me para segurar um pequeno embrulho que levava, enquanto ela procurava algo em sua bolsa. Reparei em muitos semblantes, diante do previsto engarrafamento na Ladeira do Garcia, sinais de cansaço, angústia, sobretudo ansiedade. Uns mostravam o retrato de noite mal dormida. Outros, ainda sonolentos, ensimesmados. O que em verdade havia de comum em muitas fisionomias era a quase certeza de chegar atrasado aos respectivos compromissos. Estudantes, trabalhadores, todos deixavam transparecer apreensão.

À minha frente, uma escolar folheava, desligada do mundo ao seu redor, uma dessas revistinhas de fotonovelas. Sem necessariamente prestar atenção ao que lia, pude ver, num olhar de soslaio, os títulos dos assuntos que a absorviam tanto: Escolha seu par perfeito e Significado dos sonhos. Confesso que me detive um pouco no primeiro assunto. Pus-me a meditar sobre a temática e... Bem que gostaria – também – de encontrar alguém para nos tornarmos um par ideal, perfeito!

Quanto ao Significado dos sonhos, este me fez lembrar do que houvera sonhado naquela noite. Certamente, ali não diria o que vem a ser sonhar com dejetos humanos. A crendice popular não obstante garante que é sinalização de bonança, de grana extra. É... Bem que não seria nada mal!

Fiquei tão entretido em meus devaneios, nos meus sonho, nem percebendo que o ônibus estava bem mais tranquilo, vazio até. Passou o congestionamento e já era hora de descer na Praça Conde dos Arcos, em frente ao Elevador Lacerda e ao Mercado Modelo, no Bairro do Comércio.

Antes de ir ao Baneb, onde trabalhava, passei no self-service do Supermercado Paes Mendonça, do referido logradouro, para o habitual breakfast, o nosso quebra-jejum. Ainda na fila, com a bandeja nas mãos, percebi que uma belíssima mulher olhava-me insistentemente. Fiquei meio desconfiado, senão desajeitado, fato que não me impediu de olhá-la fixamente, por outro lado.

Foto: Reprodução / Internet (vide site em Referências).
Sentei-me a umas três fileiras de mesa a sua frente e então pude desfrutar calmamente o esplendor de sua beleza. Uma obra de arte. Sorriso gostoso, olhos grandes, claros, lábios torneados, da cor do carmim, cabelos aloirados, meio ondulados. Belíssima mulher. Sem exagero: estonteante!

Ela continuou, ainda assim, a olhar-me com alguma insistência. Tive vontade de aproximar-me dela, mas não o fiz, nem faria. Estava acompanhada de um senhor de meia idade que poderia ser seu pai. Também, nada impediria, pelo menos para um simples observador como eu, que aquele cavalheiro pudesse ser seu namorado, marido... Ou coisa do gênero.

Reservei-me ao direito (e ao prazer) de contemplá-la. Fiz alguns gestos tímidos e anotei meu telefone num pedaço de guardanapo, fazendo-a perceber que era para pegá-lo, quando passasse por minha mesa. Ao que notei, minha musa entendeu e, afirmativamente, concordou com um discreto meneio de cabeça. Aguardei, então, ansioso, o desenrolar daquele romanesco episódio.

Ao final café, ela levantou-se calmamente e deixou que seu acompanhante adiantasse um pouco, de propósito. Porém, no exato instante em que passava por mim, quando estendeu a mão para pegar o talismã – meu pedaço de guardanapo – num átimo de segundo, aquele senhor olhou para trás e... quanta infelicidade! Ela recolheu rapidamente a mão, sem haver completado seu intento.

Foi um verdadeiro desastre para mim. Correu-me um frio intenso pelo corpo. Olhamo-nos, trocamos acenos e ela se foi. Vacilante, atordoado, incrédulo, permaneci naquela mesa o tempo suficiente para minha “dama de vermelho” eterizar-se na multidão. Desapareceu, sem deixar qualquer sinal pelas labirintosas ruas daquele bairro.

Ainda hoje, além da sua imagem cada vez mais nítida na memória e o registro nesta crônica, como recordação fatídica, guardo o pedaço de papel com meu telefone (que “meus guardados” se encarregaram de escondê-lo) e, mais que isso, a imorredoura vontade de que o tempo, mesmo que não contrarie sua marcha ao Infinito, conceda-me bis àquela lírica manhã, com outro final, sem dúvida.

Voltei lá tantas outras ocasiões. E, na profusão de tantos e tantos rostos conhecidos e desconhecidos, o dela jamais surgiu. E não surgirá, vez que me pareceu turista ou, pior ainda: uma miragem! Portanto, ter de conviver com a hipótese de não mais ver minha diva, chega a ser dramático. Neste caso, melhor seria nem tê-la “conhecido”, porque evitaria a instalação de um onírico mundo a delongar indefinidamente com a realidade, sem a musa daquela tão longínqua manhã.

Para muitos, certo que esta crônica soará como uma atitude puramente masoquista. Entretanto, para este que a escreveu, é um excitante e, ao mesmo tempo, um sedativo exercício de sinceridade e coragem. Afinal, quem de nós não passou (ou passará) por semelhante situação? Quem estará livre? Quem, certamente, tão leigo quanto a mim em futurologia, não poderá admitir a hipótese de rever a musa de alguma manhã perdida no tempo? Ou criá-la, talvez?

Assim, aquela que para os mais românticos (talvez piegas) poderia ser chamada “alma gêmea” e mudar o rumo da (minha) história ficará, doravante, como lembrança de uma manhã dentre tantas outras manhãs que hão de vir, por certo. Sem ela... Infelizmente!

Referências:

MONTE JÚNIOR, Walter Cândido do. 30 anos e uma memória sobre as lutas de classe: a mobilização dos trabalhadores no comércio da Cidade do Salvador, 1987. Disponível em: <https://www.comerciariossalvador.com.br/30-anos-e-uma-memoria-sobre-as-lutas-de-classe-a-mobilizacao-dos-trabalhadores-no-comercio-da-cidade-do-salvador-1987/>. Acesso em: 31 jul. 2021.

sábado, 12 de junho de 2021

A felicidade segundo João Diamantino

Minha vida laboral começou bem cedo. Na sapataria do meu pai, ainda criança, costumava fazer, juntamente com os irmãos Jairo Rodrigues e James Dael, sandálias de boneca que eram vendidas às meninas na calçada da casa dos meus pais por nós mesmos. O pagamento nem sempre se restringia a moeda propriamente dita, mas até carteiras de cigarros vazias, consideradas “dinheiro”, valiosas para nós meninos, principalmente as mais raras como Consul, Astoria, Albany, Malboro, Camel etc.

Depois, fui me aperfeiçoando na profissão paterna e passei a fazer sandálias, alpercatas com solado de pneu e tamancos, que vendia inclusive a colegas de escola. Quanto a esses produtos, eu os deixava para minha mãe entregar, porque saía muito fiado e eu não sabia dizer “não”, como também não sabia cobrar depois, portanto, essa tarefa quase sempre ficava por conta dela.

Após os 18 anos, por influência da minha tia Isaura Almeida, irmã da minha mãe, e pelo bom desempenho na escola (sei lá!), fui trabalhar, em 1977, no Funrural, isto é, Representação Local do Funrural, cujo representante era Milton de Souza Borba, casado com minha ex-professora ginasiana de Matemática, Zenilda de Souza Borba, que efetivamente ficava à frente dos serviços do escritório.

Novais Neto, Milton Borba, Regina Lúcia e Trabalhador Rural. Acervo: Novais Neto. 1977
Trabalhar no Funrural foi um verdadeiro desafio para mim, pois lá já laborava o experiente José Ferreira da Cruz, Zé de Paula, com diploma do antigo Curso Normal (Magistério), professor de Datilografia e servidor público municipal na Câmara de Vereadores da cidade, que iria se desligar. Além dele, a também professora Maria Magalhães (Dô), filha de Tinhô Queiroz, fazia parte da equipe.

Meu trabalho, inicialmente, foi entrevistar os pretendentes à aposentadoria ou pensão, seguindo um questionário preestabelecido. Era muito bom (e divertido) porque eu me deliciava com aquele contato com o pessoal da roça, pois já tinha esse hábito quando trabalhava na tenda de sapateiro do meu pai, que confeccionava principalmente botinas, além de “precata-salga-bunda” para pessoas da zona rural.

Com também gostava de escrever e desempenhava bem as tarefas na máquina de datilografia, cabia a mim redigir documentos, cartas, ofícios, sempre orientado por Seu Milton, que conhecia muito bem a linguagem própria, e acabei aprendendo muito e exercitando tão salutar atividade: escrever.

Seu Milton nos falava muito de seus antigos colegas de escola, dentre eles, o conterrâneo, sociólogo e cosmopolita Clodomir Santos de Morais, um dos expoentes da cultura santa-mariense. Por outro lado, de tanto repetir um ditado improvisado em sala de aula pelo mestre de ambos, João Diamantino de Oliveira, por título “A felicidade”, do qual tão somente se lembrava de dois parágrafos do mesmo, conforme transcreveu para mim.

Manuscrito de Milton Borba, 1978. Acervo: Novais Neto e João Diamantino: Acervo: Flamarion Costa.
Essa lembrança, por parte de Milton Borba, acontecia muitos anos depois, já que, segundo ele, o referido ditado é do ano de 1950, guardado na memória. O autor de tão belo improviso, João Diamantino nasceu em Minas, mas adotou Correntina como sua terra natal, por lá ficou e construiu bela e indelével história.

O famoso “baianeiro” foi professor, orador, poeta e rábula ou provisionado, isto é, advogado sem formação acadêmica em Direito, que obtinha autorização do Poder Judiciário ou entidade de classe para exercício da profissão. Em nossa Santa Maria, conheci alguns desses imprescindíveis profissionais de admiráveis conhecimentos jurídicos, dentre eles, Manoel Cruz, Wilson Afonso e Domício Gramacho.

Quanto especificamente ao lente João Diamantino, ele é sempre lembrado por minha mãe, Jandira Almeida, 91 anos, que com ele conviveu quando ela trabalhou na Tesouraria, da Prefeitura de Santana, sua terra natal, entre os anos de 1947 a 1950, época do mandato do então prefeito João Alkmim.

Relativamente ao ditado improvisado em sala de aula por João Diamantino, por achá-lo tão maravilhoso e expressivo, tomei a ousadia de complementá-lo tomando por base, evidentemente, as palavras contidas no parágrafo inicial, incompleto, como já foi dito. Eis, portanto, “A felicidade” segundo Seu João:

“Verdadeira ilusão a de andar-se à procura da felicidade, porque a ninguém caberá o direito de encontrá-la inteira e completa como a desejamos.

Sustentada pelas alternativas de prazer e sofrimento, pelos momentos odientos e amorosos” [...] (1), a felicidade faz-se verdadeira obsessão, mas se sente inviolável e inatingível como a gênese dos tempos.

Ainda assim, movidos por desejos incontidos, mesmo sabendo da impossibilidade de tê-la prisioneira e privativa, nós, homens e mulheres, incansavelmente a buscamos.

Por isso mesmo, sabiamente, desabafou alguém num momento de sofreguidão: “Aí, felicidade, quanta besteira se comete porque tu sabes fazer desejada”.

Observação:

(1). Até esse ponto, as palavras são de João Diamantino. A partir daí, são palavras minhas.

Referências:

OLIVEIRA, João Diamantino de. Bichão de sorte. In: COSTA, Flamarion et al. Poetas de Correntina e Samavi. V. 2. Brasília, DF: Edição do autor, 2021. 205 p. p. 79. (livro não publicado).


FILARDI, Aldair. Santana: ontem, hoje, sempre...: uma viagem no tempo e na saudade. Salvador, BA: Edição da autora, [20--]. 114 p. p. 14.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Saga da vacina

Primeira dose: O senhor é idoso?


Primeiro de abril, tradicionalmente, “dia da mentira”, foi para mim “dia da verdade”, pois tomei a primeira dose da vacina contra nefasto vírus que a (quase) todos amedronta e que já ceifou precocemente muitas preciosas vidas.

Não seria meu dia de vacinação caso levasse em conta a idade, 63 anos, contudo, por enquadrar-me em grupo prioritário definido pela Secretaria Municipal de Saúde de Salvador: policiais militares e civis, bombeiros, guardas municipais, agentes de trânsito, dentre outros, acima de 50 anos, na ativa, poderia ser vacinado.

Fui de carro com minha filha Lara Novais, biomédica, para o Estádio Metropolitano Governador Roberto Santos, mais conhecido por Estádio de Pituaçu, atrás da tão desejada imunização. Ao apresentar-me a uma profissional que fazia a triagem, ela nos cumprimentou e foi clara e objetiva na pergunta:

— O senhor é idoso?

— Sim, senhora — respondi cordialmente.

A atendente então se virou para um cidadão que estava em uma mesa um pouco afastada e lhe disse: “ele é idoso”. Não ouvi a resposta dele, porém ela assim me disse:

— O senhor é idoso, não é hoje, não — e simplesmente sentou-se numa mesa, não nos dando mais atenção. Entretanto, insisti:

— Respondi que sou idoso, porque foi esta sua pergunta, mas sou profissional do grupo convocado — e ela retrucou:

— O senhor disse que é idoso, não disse que é profissional — mesmo assim me pediu contracheque e carteirinha funcional, conferiu e me encaminhou para outra profissional que iria aplicar a vacina. Antes de sair, no entanto, deixei-lhe gentilmente este ensinamento popular: “Se quiser ouvir a resposta certa, faça a pergunta correta”.

Quanto à atendente responsável pela aplicação da vacina, de prenome Consuelo, foi extremamente gentil, atenciosa, graciosa, sobretudo profissional. Fez tudo “no padrão”, como costumamos dizer.



Novais Neto sendo vacinado. Foto: Lara Novais. 2021



Finalmente, “quase” não seria vacinado pelo simples fato de ser idoso! E num 1º de abril. Quem iria acreditar?

Segunda dose: Sou esquecido.


Bem mais tranquilo, por haver tomado a primeira dose da tão pretendida vacina, teria que esperar 28 dias para receber a dose de reforço, que deveria ser agendada, com hora marcada, por determinação da Secretaria Municipal de Saúde de Salvador, no site do Órgão.

A agenda para marcação, segundo a Secretaria, abriria toda sexta-feira. No dia certo, tentei marcar para 29/4/2021, como está no meu cartão de vacinação, mas não havia vaga disponível. Agendei, então, para 27, já que também não foi possível para o dia 28, sem qualquer rejeição por parte daquela página digital.

No dia agendado, fui ao posto de vacinação. Entretanto, quando a atendente fez a conferência, informou-me que eu não poderia antecipar o dia, portanto, não poderia receber a segunda dose. Resignado, voltei para casa e remarquei para o dia 30 do mesmo mês, no horário das 15 às 16 horas.

Para evitar qualquer imprevisto, cheguei uma hora antes e fui atendido por um senhor que fazia a triagem. Ele apontou para um guichê onde deveria ser atendido. Quando me pediram os documentos, constatei que não havia levado o cartão de vacinação e fui informado de que não poderia ser imunizado.

Decepcionado, cabisbaixo, fui saindo, quando o mesmo senhor que fez o pré-atendimento perguntou o que havia acontecido. Contei-lhe o ocorrido e ele foi muito sensato, prestativo e contundente:

— A falta do cartão não é motivo para deixar de ser vacinado, não. Já pensou? — e completou:

— O senhor disse que esqueceu. E se tivesse mentido, dizendo que perdeu ou foi roubado, iria ficar sem a vacina também? Eu vou procurar a enfermeira — e tomou-me os documentos.

Minutos depois, voltou e pediu-me para aguardar que seria atendido. Uma funcionária, que não a enfermeira, atendeu-me e apenas reforçou que eu teria que apresentar o cartão, obrigatoriamente, do contrário, não poderia tomar a segunda dose.

Saí da sala, nesse jogo de empurra, e fui falar com meu empático anjo da guarda, de carne e osso, que ficou indignado com o tratamento a mim dispensado, e argumentou como a confessar:

— Já vi tanta gente tomar vacina aqui sem o cartão, porque perdeu, porque esqueceu... Vou lá, de novo — foi e voltou, garantindo que a enfermeira, chefe do posto, iria ela mesma me atender.

Sem muita demora, agora, fui atendido pela referida servidora municipal, que me deu um esculacho, um “sabão”, dizendo que não poderia me atender, que deveria ter trazido o cartão, coisa e tal. Não contra-argumentei, fiquei apenas a ouvi-la, afinal, o errado na história era eu!

Houve um momento, quando ela me entregou os documentos dizendo que não poderia me atender sem o cartão, que tentei uma solução, busquei uma alternativa e expus para ela:

— Como moro perto e ainda não está no meu horário agendado, falta mais ou menos uma hora, vou tomar um táxi e pegar o cartão em casa, mas gostaria de ter a garantia da senhora de que, retornando no meu horário de atendimento, serei vacinado.

A servidora refletiu bem, buscou confirmar no site da Secretaria se eu havia tomado a primeira dose mesmo, o que de fato aconteceu, tirou foto do lote do imunizante em mim aplicado, da tela do computador, enviou para uma colega e pediu-me para aguardar em lugar apropriado, fora da sala.

Momentos depois, tudo confirmado conforme eu havia dito, novo cartão foi confeccionado, novo “sabão” tive que ouvir, mil recomendações quanto à guarda do precioso documento, e eu apenas a acenar concordantemente com a cabeça, afinal, quem mandou esquecer?

Por fim, tomei a segunda dose do tão desejado imunizante, tudo certinho, como manda o figurino, restando-me agradecer a todos que me atenderam, principalmente a meu primeiro atendente que se compadeceu de mim e confessou-me, sorridente: “eu também sou é esquecido, do jeitim do senhor”.

Novais Neto. Foto: Selfie. 2021
Resumo da minha saga vacinatória: na primeira dose, eu tremi, mas fui imunizado; na segunda, quem tremeu foi a foto, tirada por mim, mas fui vacinado, e assim, um final feliz concretizou-se.


Quem sou

“Matemática ultrarromântica“ na peça teatral portuguesa “Beremiz na Terra Plana“

Publicada no meu segundo livro, Ave Corrente (1991), a poesia  “ Matemática ultrarromântica ” , posteriormente, singrou mares e foi parar em...