domingo, 12 de abril de 2020

O ladrãozinho que caiu do céu

Nesta crônica, apresento Maninho da Churrascaria, figura que fez parte da minha infância, trabalhando de sapateiro na tenda de meu pai. Confiram.

Desde que me entendo por gente, como se diz popularmente, que o conheço, não como Maninho da Churrascaria, mas Maninho de seu Joaquinzinho, trabalhando na tenda de sapateiro do meu pai. Um homem calado, mas de sorriso fácil, muito laborioso, e que gostava de cantar músicas rotuladas “dor de cotovelo” ou “dor de meio de braço”, para assim amenizar o dia.

Tenda de Tião Sapateiro, onde é hoje a Tenda de Nélson, seu irmão. Na foto: Maninho, Arnaldinho e Nélson Neves. Foto gentilmente cedida por Arnaldo Oliveira (Arnaldinho) a Nélson Neves, que me presenteou. Foto: Anos 1960.

Na tenda do meu pai, Tião Sapateiro, na cadeira em que Maninho sentava, na verdade, um banco com assento de couro, havia um enorme buraco circular bem no meio, o que aguçava minha curiosidade de menino, porque eu não entendia a razão daquele furo. Porém, segundo ele, “era para não ter hemorroida”. Só isso mesmo?! Sei não! Tenho minhas dúvidas!

Quanto ao apelido Maninho da Churrascaria, já que ele nunca fez e tampouco vendeu churrasco, adveio do nome do ponto, anteriormente, Churrascaria do Gaúcho, que fechou as portas. Maninho mudou-se para o local e sequer tirou o nome, por isso passou a ser conhecido por Maninho da Churrascaria. A bem da verdade, o que ele vendia de origem animal era apenas salsicha, quitute, mortadela e ovo cozido. Vendia também um famoso doce de leite, além de bolo, pinga, cerveja, refrigerantes, refresco de Q-s
uco em garrafa de Sukita, bombons Nilva e batida de limão etc.

O pai de Maninho, seu Joaquinzinho, era fiscal da Prefeitura, que tinha a obrigação, dentre outras, de verificar o cumprimento de uma lei municipal chamada “portas abertas”. Isto é, esta lei tinha por objetivo cobrar imposto de quem comercializava produtos em bodegas, vendas, armazéns etc. Seu Joaquinzinho era, também, dono de uma vendinha em sua casa, onde se podia comprar diversos mantimentos, inclusive uma famosa puxa ou puxa-puxa, doce grudento, de consistência elástica, 
que era uma delícia, feito de melaço de rapadura por sua esposa, dona Lídia. E que acabava logo.

Maninho, cujo verdadeiro nome só vim a saber, quando alinhavava esta crônica, é Manoel Ferreira do Nascimento, como consta no seu batistério, na certidão de nascimento etc. Ao casar-se com Francisca Graia, conhecida por Dita, passou a ser Maninho de Dita, como é costume no interior deste imenso Brasil apelidar as pessoas aditando nome de pai, mãe, cônjuge, algo, fato, profissão, alguma coisa que o identifique melhor. Seguindo a tradição, a esposa do nosso protagonista não ficou ilesa e virou, naturalmente, Dita de Maninho da Churrascaria.


Qualquer que seja o Maninho, é ele o mais famoso “papagaio de pirata” que conheci, sem qualquer conotação pejorativa, diga-se de passagem. Está em quase todas as fotos de acontecimentos importantes da cidade. Tive eu, também, o enorme privilégio de tê-lo numa foto, quando da noite de autógrafo por ocasião do lançamento do meu primeiro livro, Flutuando na Areia, há mais de 30 anos.

Maninho na frente do palco da Filarmônica Seis de Outubro. 1988. Acervo do autor.
A primeira festa de que participei, foi o casamento de Maninho. Eu, com sete anos, e meu amigo Jairo Rodrigues, com seis. Foi ele, inclusive, quem me ensinou a cantar uma de suas canções prediletas, Paixão de um homem, de Waldick Soriano. Esta foi a primeira música que decorei. Ele também me ensinou a contar. Eu sabia fazer isso até 19 e parava por aí. E Maninho então dizia para mim:

— De 19 pula pra 20, e aí vai: 21, 22, 23...

E eu, seu aluno, já a me sentir dono da situação, continuava:

— Vinte e quatro, vinte e cinco... vinte e nove, vinte e dez, vinte e onze...

Maninho abriu um imenso sorriso e me ensinou de novo:

— De 29 pula pra 30 e vai até 39. De 39 vai pra 40, e daí pra frente – e assim, nessa “pegada”, cheguei a 99, parei e perguntei ao meu mestre:

— E agora, Manim, de 99 pula pra quanto?

— De 99 pula pra cem e continua do mesmo jeito.

Uma vez mais, achando-me dono da situação, continuei minha contagem:


— Cem um, cem dois, cem três... — e o professor Manim me corrigiu em cima da bucha:

— Cento e um, cento e dois, cento e três...

— Oxente, Manim, tá errado. Você falou nestante que de 99 pulava pra era cem e não pra cento. Como é então?

— Mas é assim mesmo — tentou ele inutilmente contrariar minha lógica de criança. E mesmo sem entender direito, fiz isso até mil. Ufa! Nunca me esqueci das suas aulas.


Lembro-me como boa recordação e alegria, que o filho de seu Joaquinzinho Fiscal também aprontava comigo, não somente me ensinava a contar e cantar. Juntava-se a Nélson Neves, meu tio, para que eu imitasse, aliás, como eles mesmos diziam, para que eu remedasse os considerados os doidos de meus tempos de menino, tais como Quincão, Chico Doido, Besta Fera e, principalmente, Júlio Doido.

Meu querido conterrâneo tinha uma inseparável companheira: uma bicicleta Monark, vermelha, reluzente, muito bem cuidada, que não emprestava a ninguém, e que lhe servia de transporte rápido para deslocar-se para onde houvesse um acontecimento, uma multidão, um fotógrafo.


Maninho e sua bicicleta Monak. Foto gentilmente cedida por seu filho Diógenes. Acervo familiar.

Santa Maria da Vitória, no entanto, cresceu muito, o que lhe exigiu mais rapidez nos deslocamentos, obrigando Maninho a adquirir um veículo mais ágil. Comprou, portando, uma motocicleta, igualmente vermelha, e uma flanelinha da mesma cor, sempre à sua disposição para limpá-la. As pernas do filho de Joaquinzinho já não tinham mais o desempenho da juventude, o que é normal, porque janeiro dá, janeiro toma”, segundo o adágio popular repetido por colega e amigo xique-xiquense, Paulo Teixeira.

Novais Neto e Maninho. Fotos de celular: Raquel Queiroz. 2019.
Maninho de Dita era dono de um bar na Praça da Bandeira, local muito frequentado por seus amigos, lugar perfeito para pôr o papo em dia. Lá se sabia de tudo que acontecia na cidade. Seus mais fiéis frequentadores eram Zé de Paula, Doxa, Jaime Charuto, Manelinho, Pedrinho, Aroldo Paes, os irmãos Wilson e Zezinho de Henrique, Quinca de Zezito, Quinca de Jaime Novidade, Dui, Tuca Tonhá, Queto de Augusto, Pedro de Afonso, os irmãos Dida e Togim de Protógenes, Tõi de Palu, Tõi da Camab, Isoterano, Fernando Santana, Flávio Bonfim, Daltro, Renato de Naná, Ataidinho, os irmão Tõi Mora e Miranda de Altamiro, Paulinho de Nestor, Zé Sugesta, os irmão João e Robertinho de Gildésio, Bequinha, Chiquinho do Santa Clara etc.

Além desses habituais frequentadores, a turma do futebol sempre se fazia presente, principalmente, depois de jogos. Eu e meus colegas de escola, como Messias Chaves, Juscelino de Tibério, Vandinho Lisboa, os irmãos Saulinho de Milu e Batista de Quinquinha (ou do Correio), Tito Gardel, Neno Graia, Newilton de Gildésio, Agnelo Profissi, Jurandyr, Jaiminho Coruja, Wilton de Afonso, dentre outros, aparecíamos por lá, à noite, nos intervalos ou depois das aulas. Quando havia festa no Clube Dois de Julho, o bar ficava entupido de gente.

Meu compatrício abria o bar bem cedo, porém, era seu sobrinho Litinho (nome fictício) quem tomava conta até perto do meio-dia, quando Maninho vinha liberá-lo para o almoço. Aguardava seu retorno, que não demorava, para só depois ir fazer a mesma coisa: pegar a boia e só voltar lá pelas quatro horas da tarde, quando o Cine União começa a anunciar seus filmes.

Litinho tinha o hábito de tomar um aperitivo antes do almoço, no que era repreendido veementemente por Maninho, motivo de vários sermões. Para tentar ludibriá-lo, Litinho deixava a dose já pronta, bem escondidinha, que era para quando Maninho viesse chegando, lá pelas 11 horas, tivesse tempo de beber sua preciosa e indispensável aguardente, “para abrir o apetite”, dizia ele.

Certa ocasião, Maninho chegou antes do combinado, chegou mais cedo, e Litinho não havia ainda preparado seu aperitivo costumeiro. Ficou, por ali, adiando a saída, à espera de um descuido do tio para tomar sua bebidinha. Maninho, entretanto, começou a dar-lhe pressa, pois precisava que ele fosse almoçar logo e voltar em cima do rastro, visto ter inadiável compromisso bem no início da tarde. E, neste impasse, nesta enrolação toda, eis que repentinamente, do nada, algumas pessoas passam correndo atrás de alguém em direção à Rua de Cima, a gritar:

— Pega o ladrão! Pega o ladrão! Pega o ladrão!

Meu amigo da churrascaria não contou conversa, esqueceu-se do compromisso, passou a fome, montou rapidinho na sua bike e saiu em disparada atrás do ladrão. Aliás, atrás da notícia.

E, Litinho, finalmente aliviado, foi para a calçada do bar, mirou a Igreja Matriz bem a sua frente, ajoelhou-se e, de mãos postas, como o olhar voltado para o Infinito, exclamou, agradecido:

— Ô ladrãozim que caiu do céu! Muito obrigado, meu Deus! — e sorveu, desse modo, sem qualquer pressa, feliz, sua deliciosa e tão desejada cangibrina.

E agora? Agora, só lhe restava esperar e esperar pela volta do dono do boteco, porque somente Deus, o mesmo Deus que lhe mandou o providencial ladrãozinho, poderia trazer Maninho de volta. A que horas? Isso não se poderia prever. E Litinho sabia disso.

domingo, 29 de março de 2020

A justiça divina socorre aos que dormem

Dormir durante viagens é meu forte. Mesmo diante daquilo que poderia me trazer contratempos, não me emendo. Confiram e divirtam-se.

Há um aforismo de origem latina, corrente no meio jurídico, que soa como advertência: Dormientibus non sucurrit lus. Isto é, “O Direito não socorre aos que dormem”, que em bom e entendível Português seria o mesmo que dizer: “a justiça não protege aqueles que dormem no ponto”. Ou, melhor, quem perde o direito por ignorar que há um prazo para exigi-lo; por não saber que tem esse direito, ou quando o descobre, é tarde demais, não pode mais exigi-lo porque o prazo decorreu.

Guardados os propósitos a que o referido alerta jurídico se destina, atenho-me ao verbo “dormir” que, para fins ilustrativos desta crônica, é tomado no restrito sentido denotativo, literal mesmo, principalmente para este escrevinhador que costuma “dormir no ponto”, cair nos braços de Morfeu, o deus do sono, mormente se estiver num ônibus a viajar.

Flagrantes numa dessas viagens. Década de 1990. Foto: Autor não identificado.
Compara
tivamente a estes momentos, meus conterrâneos santa-marienses, por certo, diriam que durmo mais que o cachorro de Detinha, do antigo Sertanejo Hotel, o atual Palace Hotel. Será? É o que veremos.

A propósito do meu salutar hábito de dormir (até certo ponto!), recordo-me das demoradas e cansativas viagens entre Santa Maria e Salvador nas décadas de 1970 a 1990, quando só sabíamos o horário de embarque, porque a chegada à Capital, devido ao péssimo estado de conservação das estradas e a “folga” de alguns motoristas, não havia horário ou mesmo dia certo para se chegar.

Numa dessas aventuras estradeiras, quando o ônibus saía de Santa Maria às 9 horas da manhã, com provável chegada a Salvador durante a madrugada, fui vítima de descuido do motorista ao final da viagem. Ele não observou, ao chegar à rodoviária de Salvador, se havia algum passageiro dormindo, o que penso ser de sua obrigação. Quando finalmente despertei, percebi que algo estava errado:

— Motô, motô, já chegamos?

— Oxente! O que você tá fazendo aí, môss? Já estamos é na garagem da empresa!

Fiz lá meus protestos, reclamei, esperneei, mas tinha pouco a fazer. Como costumo dizer que sou sortudo, a garagem da Viação Novo Horizonte ainda ficava no bairro das Sete Portas, portanto, bem pertinho da antiga Casa do Estudante de Santa Maria, na Ladeira do Hospital Santa Isabel, em Nazaré. Desse modo, só esperei o dia clarear um pouco mais, já que eram 4, 5 horas da manhã, para chegar a meu destino, são, salvo... e feliz.

Em outro momento, quando ia de ônibus de Salvador a Entre Rios, “garrei” no sono e só fui acordar uma cidade depois, ou seja, em Esplanada, aproximadamente distantes 28 km. E, como já foi dito que a sorte está comigo e eu conto sempre com a sorte, quando percebi o descuido, falei com o motorista que prontamente pediu para que um colega seu, que estava em outro ônibus com destino a Entre Rios, me desse carona. E tudo, a contento, foi resolvido.

Depois de haver contado com a sorte em duas ocasiões, falei comigo mesmo: 
vou ver se fico mais atento, não é possível”. É que, nestes momentos, costumamos dizer a nós mesmos que tal coisa não vai mais se repetir, que vamos ficar mais alerta, coisa e tal. Porém, entre teoria e prática há razoável distância, e esta última, a prática, é destino quase inatingível, e descuidos sempre acontecem.

No ano de 2015, viajei de Salvador a Santa Maria de Vitória, e desta, a Anápolis, Goiânia e Brasília, para visitar parentes e amigos. Na volta, de Brasília a Santa Maria, a última cidade, antes do meu destino final, é Correntina, onde os ônibus passam bem cedo, ainda escuro. E foi aí que me atrapalhei. Imaginei que estivesse vindo de Salvador, em que a última cidade é Santana, do lado oposto, passando antes por Brejolândia, Tabocas do Brejo Velho e Serra Dourada, ao lusco-fusco.

Desse modo, quando o ônibus já havia passado por Correntina e chegado a Santa Maria, dia clareando, continuei a dormir tranquilamente, a pensar que ainda fosse Brejolândia. Quando me dei por conta, Sol alto, ainda sonolento, imaginando haver chegado a meu destino, eis o tremendo susto: o sono me roubou, porque já estava em Serra Dourada, depois de Santana, a mais de 90 km de Santa Maria.

— Oxente, motorista, passou por Santa Maria e nem avisou — reclamei, azuretado, no que fui educadamente contestado pelo condutor.

— Avisei, sim, meu senhor. O cidadão é que dormiu no ponto — o que foi confirmado por muitos passageiros, restando-me, então, descer do ônibus, desolado. E ao fazê-lo, ainda lhe pedi ajuda, o que não me foi negado. Ele arrumou carona no ônibus Salvador a Santa Maria que, para sorte minha (uma vez mais!), estava parado na rodoviária a desembarcar passageiros e bagagens.

Ao entrar no veículo, para espanto meu (e imensa alegria), alguém me gritou lá do fundão:

— E aí, poeta, estava na festa? Ou se mudou para Serra Dourada?

Era a cantora Kátia Castro, que voltava de shows em Salvador, acompanhada dos amigos Arnoldo Teixeira e Boião, agora a rirem da minha cara, quando lhes contei minha trapalhada. Confesso: fui um dos trechos mais curtos e divertidos que já percorri. Valeu a pena passar do ponto, portanto.

Depois de tudo isso, sem sombra de dúvida, a justiça divina, ao contrário da justiça humana, em qualquer situação, sempre socorre principalmente aos que “dormem no ponto”. Contudo, por via das dúvidas (ainda!?), ficarei bem mais atento, é o que prometo, so-le-ne-men-te! Afinal, creio já haver esgotado minha cota de sorte — três vezes! — e estaria, doravante, a abusar dela. E ela não merece!

* * *


Após ler esta crônica, a conterrânea e amiga santa-mariense, Valéria Oliveira, contadora, administradora de empresa, advogada e evangélica, que pedi para revisar e fazer suas críticas, indicou-me passagens bíblicas para “sustentação da minha ‘tese’ de proteção divina aos que dormem”. Separei, portanto, três delas para apreciação do caro leitor:

“Em paz me deito e logo adormeço, pois só tu, Senhor, me fazes viver em segurança.” (Salmos 4:8);

“O Senhor é o meu pastor, nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome.” (Salmos 23:1-3);

“A respeito de Benjamim disse: ‘Que o amado do Senhor descanse nele em segurança, pois ele o protege o tempo inteiro, e aquele a quem o Senhor ama, descansa nos seus braços’”. (Deuteronômio 33:12).

* * *

Em tempo: Agradecimentos especiais a Valéria Oliveira, Maurício Paes Inácio e Eusélio Tonhá dos Santos (Zéu de Dona Eli).

domingo, 15 de março de 2020

Um pouco de médico e muito de louco

Quem já passou por algum procedimento médico, deve conhecer alguém, não médico, que é “médico” plantonista de especialidade múltipla. Confiram e divirtam-se.

Muita gente, amparada na sabedoria popular que assegura: “de médico e louco, todo mundo tem um pouco”, assume, sem o devido conhecimento, o seu lado médico, mas quase sempre demonstra a sua face louca, de curandeiro inexperiente.

A propósito destes “médicos loucos”, tenho ouvido, extraídas de um passado remoto de um Brasil pouco assistido, histórias tragicômicas, como daquele senhor que vai ao preparador de garrafadas e narra o estado de saúde do pai. O curador, assim referido, prepara uma porção milagrosa e manda que ele dê ao genitor adoentado.

Tempos depois, o curandeiro encontra aquele cidadão a quem atendeu e lhe pergunta como vai o pai, se havia sarado, coisa e tal, e ouve a seguinte resposta:

— Depois daquela garrafada, meu pai arruinou da caganeira e entregou a alma a Deus!

— Mas morreu curado! — adiantou-se o curador, sem mais conversa ou delonga.

Quanto a mim, em 2008, fui submetido a uma intervenção cirúrgica para retirada de um osteocondroma no fêmur, pequeno tumor ósseo, próximo ao joelho, certamente desenvolvido a partir de um trauma, provocado por uma queda. É que fui subir uma escada a correr, quando criança, tropecei e caí. No local, formou-se um hematoma que logo desapareceu sem deixar aparente sequela.

Muito tempo depois, já adulto, apareceu um caroço que começou a incomodar-me. Os ortopedistas que me assistiram, Paulo Henrique de Figueiredo Cordeiro e Rilson Figueiredo Silva, garantiram que a intervenção seria bem simples, o que me tranquilizou bastante e encorajou-me até a pedir-lhes que gostaria de ver o procedimento, no que foi prontamente atendido.

Aliás, submeter-me a cirurgia já não me apavora mais. Esta é a terceira, e sempre creio — piamente — que será exitosa. Meu único receio é o momento da anestesia, quando ela começa a agir e a gente começa a “viajar”. Aí dá certo medo. Antes e depois, um alívio!

Os dias, entretanto, antecedentes ao evento é que foram um misto de ansiedade, “aconselhamentos” e preocupação por parte de amigos e conhecidos. Dentre eles, um muito sabido, que me meteu paúra:

— E aí, poeta, já marcou a cirurgia?

— Já. Vou fazer dia 4 de novembro, sexta-feira.

— Já fez todos os exames?

— Já, sim. De sangue e um eletrocardiograma.

— Só esses? Num vai fazer de urina e de fezes, não?

— Não. O médico disse que bastavam esses.

— Rapaz! Ó p'aí. Esses doutô de hoje facilita muito, dá muito mole pro azar. É por isso que fica um montão de gente morrendo à toa nas filas do SUS e da UPA. Num quero te meter medo, não, meu bróder. Mas, s’eu fosse você, s'eu tivesse ni seu lugar, procurava outro médico. Procurava ver isso direito. Com cirurgia a gente num brinca, não, meu irmão! Você pode se dá de mal!

Chegou o dia esperado e tudo ocorreu de acordo o previsto, sem nenhuma intercorrência, como dizem os profissionais de saúde. Eu é que fiz uma estripulia por excesso de confiança. Três ou quatro horas após a cirurgia, achei que poderia ir sozinho ao banheiro... E o fiz. As vistas escureceram e eu desabei no chão do banheiro, bem embaixo do chuveiro, que pingava.

Ao recobrar a consciência, comecei a gritar. Fui imediatamente socorrido, repreendido com veemência por uma enfermeira e quedei-me quieto, ensoado, com a cara sambando de menino estripulento. Nem imagino por quanto tempo fiquei desacordado.

Tive alta no dia seguinte e voltei para o meu lar com a recomendação de evitar esforços exagerados, não molhar e tomar dois remédios: um anti-inflamatório e um antibiótico. Só isso. Aliás, Dina Marchesini, amiga e médica homeopata, recomendou-me também Arnica e Syphytum.

Durante os dias pós-cirúrgicos, nada de extraordinário aconteceu, exceto ao encontrar um ex-colega dos tempos de bancário, que foi logo indagando, com a cara de assustado:

Gravura de Jailson Santos. Jão, 2019.
— Poeta, o que foi iiisssooo, meu irmão? Operou dos menisco ou dos ligamento?

— Não, não. Foi só a retirada de um tumor no fêmur.
— Um tuuummmôôô? Foi isso mesmo, meu irmão, que escutei?  Um tumôôô? Já fez biópsia?

— Já mandei fazer. Foi o que o médico solicitou.

— E mapeamento ósseo? Densitometria?

— Não! Num sei nem que diacho é isso, meu amigo. Serve pra quê?

— É um exame muito importante que serve muito e ajuda bastante.

Para que “serve” e a quem “ajuda”, ele não soube me esclarecer. Entretanto, do alto da sua sabedoria hipocrática, e com indisfarçável e profundo conhecimento de causa, ainda me aconselhou, pausada e seriamente, a contrapor protocolos das ciências médicas:

— Rapaz, s’eu tivesse ni seu lugar, procurava ver isso direto. Só biópsia num basta, não. Tô te dizeno, meu bróder... Vai por mim! Você vai se dá de bem!

Diante, portanto, de tudo que vi, ouvi e passei, vai um conselho à classe médica:

— Toma cuidado, doutor, porque na sua “cola”, instruídos pelo “inconteste Dr. Google, há sempre um tudologista de plantão, de múltipla especialidade. Vacile não, meu irmão, o homem é um semideus virtual, um Hipócrates ressureto e hodierno!

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Ninho de Garrincha ou Curruíra

Para celebrar a vida, vejam o que a Natureza me proporcionou mostrando-me o surgimento de novos seres, de novas vidas. Confiram e se emocionem também.

Entre os dias 23 de maio e 9 de junho de 2017, filmei e fotografei a cada dois dias três filhotes de garrincha. Quando eles já estavam quase prontos para alçar voo, filmei e fotografei todos os dias, até que, dia 9 de junho, os vi pela última na parte da manhã... Que sigam seus caminhos e continuem a perpetuação da sua espécie. E viva a Natureza! Viva a Vida!

Foram dias maravilhosos, de ansiedade que, hoje, vendo o filme, nem acredito. Agradeço aos meus colegas e amigos Ilmar (Pacote), Afonso Válido, Cláudio Lima e Chico da Empilhadeira, por guardar segredo até o dia em que os filhotes abandonaram o ninho e alçaram voo.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Convivendo com centenários santa-marienses

Nem sempre nos damos conta, mas num átimo vemos que alguns centenários já cruzaram nossas vidas e outros estão a cruzar. Fiz esta viagem e me encantei. Confira e encante! 

Não é incomum, ao caminhar por cidades do interior, nos depararmos como pessoas centenárias. Tenho observado isso em Santa Maria da Vitória e não por acaso foi esse o principal motivo que me levou a relembrar pessoas longevas com as quais convivi. Claro que não me lembro de todas, por isso mesmo me ative a mencionar aquelas mais próximas a mim (e da minha memória!).

Seu Guarany, o mestre carranqueiro, morador no final da Rua Padre Oton Vieira Lima, apelidada de Rua dos Doidos, certamente foi um dos primeiros conhecidos. Lembro muito bem de vê-lo na sua oficina manejar com sutileza e arte seus instrumentos de trabalho na feitura de carrancas.

Guarany na oficina e na Praça do Jardim Jacaré, aos 100 anos (1983) . Acervo: Jairo Rodrigues da Silva.
Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany (2/4/1882–5/5/1985), Seu Guarany ou Mestre Guarany, como assim o conhecemos, andava desenvolto pelas ruas santa-marienses para além dos 100 anos de vida. Num desses momentos, Tião Fotógrafo ou Tiãozinho Roupa Limpa, como também é conhecido, da Foto Vila Rica, teve a sorte e a sensibilidade de fazer um belo registro do Mestre secular a andar com sua bengala na Praça do Jardim Jacaré. Seu Guarany morreu em 1985, aos 103 anos.

Curiosamente, o mestre das carrancas já havia prometido à escritora Dirce de Assis Cavalcanti, em seu livro O Velho Chico ou A Vida é Amável (Ateliê Editorial, 1998), quando esta esteve em Santa Maria da Vitória, em 1972, para entrevistá-lo, que viveria mais de uma centena de anos. O profeta longevo, à época com 90 anos, não somente cumpriu a promessa, foi além dela.

Aniversário de 110 anos de Seu Aldegundes na AABB. 2013. Acervo: Novais Neto.
Outro morador, o mais longevo que conheci, foi Aldegundes Pereira de Castro (3/3/1903 – 9/10/2014), Seu Aldegundes, vereador inúmeras vezes e ex-vice-prefeito de Santa Maria da Vitória. Um recurso mnêmico muito usado por meu pai para lembrar-lhe a idade do amigo era dizer que ele nasceu no dia “três do três do três”, isto é, 3 de março de 1903. E não mais esqueci.

Aniversário de 110 anos de Seu Aldegundes na AABB ao lado de Marcos Athayde. 2013.
Estive presente em seu aniversário de 100 anos, como também no de 110, festejado na Associação Atlética Banco do Brasil (AABB). Seu Aldegundes nos deixou aos 111 anos que, somados, também dão “três”. É muita afinidade com o número três. Não teria sido com a Santíssima Trindade? Eis o mistério!

Dona Astéria na Igreja Matriz de Santa Maria. Acervo: Maria Cláudia.
Dona Astéria, cujo nome completo é Astéria de Souza Lisboa (8/1/1906–15/11/2013), segundo informações da neta Maria Cláudia Lisboa Borba, minha inteligente e bela ex-colega ginasiana, sua avó, mãe Astéria, assim tratada, nasceu em 8/1/1906 e não 1908, como consta em seus documentos. Ela faleceu, portanto, aos 107, mês e meio antes de completar 108 anos.

Lembro-me de Dona Astéria, já acima dos 100 anos, numa Virada de Ano, na Praça do Jacaré, acompanhada de filhos, netos, bisnetos e uma legião de amigos a festejar a queima de fogos, risonha e feliz, à espera do Ano Novo, para oito dias depois somar mais um ano à centúria existência.

Ainda a lembrar de pessoas como 100 anos ou mais, outubro próximo passado, quando estive em Santa Maria, precisamente na casa de Jairo Rodrigues, ele me pediu para que levasse sua neta Iole Pergentino Borba Rodrigues ao Posto de Saúde Dr. Eliecin Bueno, no Bairro da Sambaíba, onde Norma, sua esposa, trabalha, já que ele não poderia levar-lhe de motocicleta, por que só dispunha de um capacete para si.

Claro que prontamente atendi ao pedido do amigo. E no trajeto, ao começar a subida da ladeira do Alto da Lavandeira, eis que ouço alguém me chamar:

— Novais, tenho um presente aqui para você. Vem pegar!

Capa e contracapa de CD comemorativo dos 100 anos de Seu Henrique. Acervo: Novais Neto.
Era Seu Henrique, competente músico da Filarmônica Seis de Outubro, que no mês passado havia completado um século de vida, e me ofereceu de lembrança um CD com lindíssimas músicas orquestradas e dobrados. Aproveitando o momento, perguntei se podíamos tirar uma foto, no que ele prontamente atendeu. Sem cerimônia.

Foi momento de riso quando, ao fazer uma foto dele com a neta de Jairo, ele perguntou-lhe a idade e ela respondeu que tinha 10 anos. Ao dizer-lhe que tinha 100, Iole fez uma carinha de espanto, pois acabou por descobrir que ele era 10 vezes mais velho do que ela. A esperta e bela decenária ficou sem nada entender e repetiu, desconfiada: “ceeemmm aaannnos!”.

Seu Henrique, Iole Borba e Novais Neto na frente de sua residência. Foto: Novais Neto, 2019.
Seu Henrique nasceu no dia “dezenove do nove de dezenove” (19/9/1919), ensinou-me, também, meu pai este auxílio mnemônico, para lembrar a idade do longevo amigo.

Dia seguinte a este acontecimento, sol a pino, ao sair da casa de Jairo (de novo!), na Rua dos Doidos, fomos cumprimentados por Seu Raimundo, ou melhor, Raimundo Fidélis dos Santos (15/1/1915), que passava, serelepe. Conversamos um pouco, e perguntei-lhe a idade, instigado por Jairo:

Seu Raimundo e Novais Neto na Rua dos Doidos. Foto: Novais Neto, 2019.
— Tô com 104, caminhando pros 105 — respondeu risonho. E andando.

Eu já sabia, por alto, qual era idade de Seu Raimundo. No entanto, é tão contagiante e salutar ouvi-lo repetir com tanta energia, saúde e prazer, que nos parece contraditar o que assegura a sabedoria de que “a vida é tão curta que nem chega a ser pequena”.

Salvador (BA), 8 de dezembro de 2019

Em tempo:


Faço aqui registro especial em memória de João Daniel Neves (13/10/1916–2/8/2019), filho da minha bisavó Maria Eugênia de Novais Neves, que o conheci em 1995, quando ele esteve em Santa Maria da Vitória após 75 anos de ausência, por perseguição política. Meu tio-avô era morador de Lins (SP), onde conheceu o então alfaiate Osório Alves de Castro e que lá estive, juntamente com alguns familiares, por ocasião do seu centésimo aniversário, em outubro de 2016. Ele faleceu em agosto de 2019 aos 102 anos.

Sebastião de Novais Neves (87 anos), Giovana Neves e João Daniel Neves (100 anos). Acervo: Novais Neto. 2016.
João Daniel, ou tio Lelé, como meu pai a ele se referia, foi juiz de futebol amador, são-paulino de carteirinha e um dos primeiros dirigentes do Taguatinga Esporte Clube, lá pelos idos de 1960, nos primórdios da agremiação brasiliense.

Comemoração do centenário de João Daniel Neves. Lins (SP), 2016. Acervo: Novais Neto. 2019.

Comemoração do centenário de João Daniel Neves. Lins (SP), 2016. Acervo: Novais Neto. 2019.

Comemoração do centenário de João Daniel Neves. Lins (SP), 2016. Acervo: Novais Neto. 2019.





Quem sou

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