sábado, 12 de junho de 2021

A felicidade segundo João Diamantino

Minha vida laboral começou bem cedo. Na sapataria do meu pai, ainda criança, costumava fazer, juntamente com os irmãos Jairo Rodrigues e James Dael, sandálias de boneca que eram vendidas às meninas na calçada da casa dos meus pais por nós mesmos. O pagamento nem sempre se restringia a moeda propriamente dita, mas até carteiras de cigarros vazias, consideradas “dinheiro”, valiosas para nós meninos, principalmente as mais raras como Consul, Astoria, Albany, Malboro, Camel etc.

Depois, fui me aperfeiçoando na profissão paterna e passei a fazer sandálias, alpercatas com solado de pneu e tamancos, que vendia inclusive a colegas de escola. Quanto a esses produtos, eu os deixava para minha mãe entregar, porque saía muito fiado e eu não sabia dizer “não”, como também não sabia cobrar depois, portanto, essa tarefa quase sempre ficava por conta dela.

Após os 18 anos, por influência da minha tia Isaura Almeida, irmã da minha mãe, e pelo bom desempenho na escola (sei lá!), fui trabalhar, em 1977, no Funrural, isto é, Representação Local do Funrural, cujo representante era Milton de Souza Borba, casado com minha ex-professora ginasiana de Matemática, Zenilda de Souza Borba, que efetivamente ficava à frente dos serviços do escritório.

Novais Neto, Milton Borba, Regina Lúcia e Trabalhador Rural. Acervo: Novais Neto. 1977
Trabalhar no Funrural foi um verdadeiro desafio para mim, pois lá já laborava o experiente José Ferreira da Cruz, Zé de Paula, com diploma do antigo Curso Normal (Magistério), professor de Datilografia e servidor público municipal na Câmara de Vereadores da cidade, que iria se desligar. Além dele, a também professora Maria Magalhães (Dô), filha de Tinhô Queiroz, fazia parte da equipe.

Meu trabalho, inicialmente, foi entrevistar os pretendentes à aposentadoria ou pensão, seguindo um questionário preestabelecido. Era muito bom (e divertido) porque eu me deliciava com aquele contato com o pessoal da roça, pois já tinha esse hábito quando trabalhava na tenda de sapateiro do meu pai, que confeccionava principalmente botinas, além de “precata-salga-bunda” para pessoas da zona rural.

Com também gostava de escrever e desempenhava bem as tarefas na máquina de datilografia, cabia a mim redigir documentos, cartas, ofícios, sempre orientado por Seu Milton, que conhecia muito bem a linguagem própria, e acabei aprendendo muito e exercitando tão salutar atividade: escrever.

Seu Milton nos falava muito de seus antigos colegas de escola, dentre eles, o conterrâneo, sociólogo e cosmopolita Clodomir Santos de Morais, um dos expoentes da cultura santa-mariense. Por outro lado, de tanto repetir um ditado improvisado em sala de aula pelo mestre de ambos, João Diamantino de Oliveira, por título “A felicidade”, do qual tão somente se lembrava de dois parágrafos do mesmo, conforme transcreveu para mim.

Manuscrito de Milton Borba, 1978. Acervo: Novais Neto e João Diamantino: Acervo: Flamarion Costa.
Essa lembrança, por parte de Milton Borba, acontecia muitos anos depois, já que, segundo ele, o referido ditado é do ano de 1950, guardado na memória. O autor de tão belo improviso, João Diamantino nasceu em Minas, mas adotou Correntina como sua terra natal, por lá ficou e construiu bela e indelével história.

O famoso “baianeiro” foi professor, orador, poeta e rábula ou provisionado, isto é, advogado sem formação acadêmica em Direito, que obtinha autorização do Poder Judiciário ou entidade de classe para exercício da profissão. Em nossa Santa Maria, conheci alguns desses imprescindíveis profissionais de admiráveis conhecimentos jurídicos, dentre eles, Manoel Cruz, Wilson Afonso e Domício Gramacho.

Quanto especificamente ao lente João Diamantino, ele é sempre lembrado por minha mãe, Jandira Almeida, 91 anos, que com ele conviveu quando ela trabalhou na Tesouraria, da Prefeitura de Santana, sua terra natal, entre os anos de 1947 a 1950, época do mandato do então prefeito João Alkmim.

Relativamente ao ditado improvisado em sala de aula por João Diamantino, por achá-lo tão maravilhoso e expressivo, tomei a ousadia de complementá-lo tomando por base, evidentemente, as palavras contidas no parágrafo inicial, incompleto, como já foi dito. Eis, portanto, “A felicidade” segundo Seu João:

“Verdadeira ilusão a de andar-se à procura da felicidade, porque a ninguém caberá o direito de encontrá-la inteira e completa como a desejamos.

Sustentada pelas alternativas de prazer e sofrimento, pelos momentos odientos e amorosos” [...] (1), a felicidade faz-se verdadeira obsessão, mas se sente inviolável e inatingível como a gênese dos tempos.

Ainda assim, movidos por desejos incontidos, mesmo sabendo da impossibilidade de tê-la prisioneira e privativa, nós, homens e mulheres, incansavelmente a buscamos.

Por isso mesmo, sabiamente, desabafou alguém num momento de sofreguidão: “Aí, felicidade, quanta besteira se comete porque tu sabes fazer desejada”.

Observação:

(1). Até esse ponto, as palavras são de João Diamantino. A partir daí, são palavras minhas.

Referências:

OLIVEIRA, João Diamantino de. Bichão de sorte. In: COSTA, Flamarion et al. Poetas de Correntina e Samavi. V. 2. Brasília, DF: Edição do autor, 2021. 205 p. p. 79. (livro não publicado).


FILARDI, Aldair. Santana: ontem, hoje, sempre...: uma viagem no tempo e na saudade. Salvador, BA: Edição da autora, [20--]. 114 p. p. 14.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Saga da vacina

Primeira dose: O senhor é idoso?


Primeiro de abril, tradicionalmente, “dia da mentira”, foi para mim “dia da verdade”, pois tomei a primeira dose da vacina contra nefasto vírus que a (quase) todos amedronta e que já ceifou precocemente muitas preciosas vidas.

Não seria meu dia de vacinação caso levasse em conta a idade, 63 anos, contudo, por enquadrar-me em grupo prioritário definido pela Secretaria Municipal de Saúde de Salvador: policiais militares e civis, bombeiros, guardas municipais, agentes de trânsito, dentre outros, acima de 50 anos, na ativa, poderia ser vacinado.

Fui de carro com minha filha Lara Novais, biomédica, para o Estádio Metropolitano Governador Roberto Santos, mais conhecido por Estádio de Pituaçu, atrás da tão desejada imunização. Ao apresentar-me a uma profissional que fazia a triagem, ela nos cumprimentou e foi clara e objetiva na pergunta:

— O senhor é idoso?

— Sim, senhora — respondi cordialmente.

A atendente então se virou para um cidadão que estava em uma mesa um pouco afastada e lhe disse: “ele é idoso”. Não ouvi a resposta dele, porém ela assim me disse:

— O senhor é idoso, não é hoje, não — e simplesmente sentou-se numa mesa, não nos dando mais atenção. Entretanto, insisti:

— Respondi que sou idoso, porque foi esta sua pergunta, mas sou profissional do grupo convocado — e ela retrucou:

— O senhor disse que é idoso, não disse que é profissional — mesmo assim me pediu contracheque e carteirinha funcional, conferiu e me encaminhou para outra profissional que iria aplicar a vacina. Antes de sair, no entanto, deixei-lhe gentilmente este ensinamento popular: “Se quiser ouvir a resposta certa, faça a pergunta correta”.

Quanto à atendente responsável pela aplicação da vacina, de prenome Consuelo, foi extremamente gentil, atenciosa, graciosa, sobretudo profissional. Fez tudo “no padrão”, como costumamos dizer.



Novais Neto sendo vacinado. Foto: Lara Novais. 2021



Finalmente, “quase” não seria vacinado pelo simples fato de ser idoso! E num 1º de abril. Quem iria acreditar?

Segunda dose: Sou esquecido.


Bem mais tranquilo, por haver tomado a primeira dose da tão pretendida vacina, teria que esperar 28 dias para receber a dose de reforço, que deveria ser agendada, com hora marcada, por determinação da Secretaria Municipal de Saúde de Salvador, no site do Órgão.

A agenda para marcação, segundo a Secretaria, abriria toda sexta-feira. No dia certo, tentei marcar para 29/4/2021, como está no meu cartão de vacinação, mas não havia vaga disponível. Agendei, então, para 27, já que também não foi possível para o dia 28, sem qualquer rejeição por parte daquela página digital.

No dia agendado, fui ao posto de vacinação. Entretanto, quando a atendente fez a conferência, informou-me que eu não poderia antecipar o dia, portanto, não poderia receber a segunda dose. Resignado, voltei para casa e remarquei para o dia 30 do mesmo mês, no horário das 15 às 16 horas.

Para evitar qualquer imprevisto, cheguei uma hora antes e fui atendido por um senhor que fazia a triagem. Ele apontou para um guichê onde deveria ser atendido. Quando me pediram os documentos, constatei que não havia levado o cartão de vacinação e fui informado de que não poderia ser imunizado.

Decepcionado, cabisbaixo, fui saindo, quando o mesmo senhor que fez o pré-atendimento perguntou o que havia acontecido. Contei-lhe o ocorrido e ele foi muito sensato, prestativo e contundente:

— A falta do cartão não é motivo para deixar de ser vacinado, não. Já pensou? — e completou:

— O senhor disse que esqueceu. E se tivesse mentido, dizendo que perdeu ou foi roubado, iria ficar sem a vacina também? Eu vou procurar a enfermeira — e tomou-me os documentos.

Minutos depois, voltou e pediu-me para aguardar que seria atendido. Uma funcionária, que não a enfermeira, atendeu-me e apenas reforçou que eu teria que apresentar o cartão, obrigatoriamente, do contrário, não poderia tomar a segunda dose.

Saí da sala, nesse jogo de empurra, e fui falar com meu empático anjo da guarda, de carne e osso, que ficou indignado com o tratamento a mim dispensado, e argumentou como a confessar:

— Já vi tanta gente tomar vacina aqui sem o cartão, porque perdeu, porque esqueceu... Vou lá, de novo — foi e voltou, garantindo que a enfermeira, chefe do posto, iria ela mesma me atender.

Sem muita demora, agora, fui atendido pela referida servidora municipal, que me deu um esculacho, um “sabão”, dizendo que não poderia me atender, que deveria ter trazido o cartão, coisa e tal. Não contra-argumentei, fiquei apenas a ouvi-la, afinal, o errado na história era eu!

Houve um momento, quando ela me entregou os documentos dizendo que não poderia me atender sem o cartão, que tentei uma solução, busquei uma alternativa e expus para ela:

— Como moro perto e ainda não está no meu horário agendado, falta mais ou menos uma hora, vou tomar um táxi e pegar o cartão em casa, mas gostaria de ter a garantia da senhora de que, retornando no meu horário de atendimento, serei vacinado.

A servidora refletiu bem, buscou confirmar no site da Secretaria se eu havia tomado a primeira dose mesmo, o que de fato aconteceu, tirou foto do lote do imunizante em mim aplicado, da tela do computador, enviou para uma colega e pediu-me para aguardar em lugar apropriado, fora da sala.

Momentos depois, tudo confirmado conforme eu havia dito, novo cartão foi confeccionado, novo “sabão” tive que ouvir, mil recomendações quanto à guarda do precioso documento, e eu apenas a acenar concordantemente com a cabeça, afinal, quem mandou esquecer?

Por fim, tomei a segunda dose do tão desejado imunizante, tudo certinho, como manda o figurino, restando-me agradecer a todos que me atenderam, principalmente a meu primeiro atendente que se compadeceu de mim e confessou-me, sorridente: “eu também sou é esquecido, do jeitim do senhor”.

Novais Neto. Foto: Selfie. 2021
Resumo da minha saga vacinatória: na primeira dose, eu tremi, mas fui imunizado; na segunda, quem tremeu foi a foto, tirada por mim, mas fui vacinado, e assim, um final feliz concretizou-se.


sexta-feira, 23 de abril de 2021

O palavreado de Seu Luiz

Toda cidadezinha interiorana desfruta de uma figura folclórica. Na minha terra, há inúmeras que mantêm vivos o uso, os causos e a velha máxima popular que assevera: “O povo não inventa, aumenta”.

Lá em Santa Maria, não se foge à regra. Aliás, foge sim! Além de aumentar, existem pessoas como Salvador do Mercado que criam histórias, piadas, jargões enriquecedores do folclore santa-mariense.

Havia, também, pessoas como Seu Luiz Serrano, homem simples, mestre de obra, que se preocupava com a boa fala. Não dispensava um termo rebuscado quase sempre empregado em momento oportuno e corretamente.

Conta-se que, numa ocasião, Seu Luiz foi ao Banco do Brasil repetir uma transação bem corriqueira para ele: solicitar a emissão de uma Ordem de Pagamento.

Todo cerimonioso, entrou na agência e se deteve em frente à bateria de caixas. Um funcionário, ao vê-lo, provocou-o, porque, já o conhecendo, gostaria de ouvir algo novo da nossa língua portuguesa.

— E aí, Seu Luiz, o senhor vai fazer a Ordem de Pagamento?

— Não, meu filho. Vou fazer uma transferência de numerário.

Alguém, noutra oportunidade, aproximou-se dele e lhe deu uma notícia meio triste:

— Seu Luiz, o irmão do senhor está bêbado, caído lá na rodagem que vai pra Santana.

— Obrigado, meu filho. Ele é que sabe se aguenta o peso da Goodyear — evidentemente se referindo a pneus da famosa marca utilizados por automóveis que poderiam atropelá-lo na pista, ali caído.

Era sempre assim: aquele amável senhor dificilmente adentrava o coloquialismo. As respostas fluíam sem qualquer deslize. Seu Luiz nunca vacilava nas respostas, como esta que deu ao prefeito, quando, bem cedinho, chegou à casa do mesmo dando-lhe notícias de uma das filhas adoentada.

— Senhor prefeito, vim aqui pedir-lhe uma ajuda financeira para comprar medicamento para minha filha 
— e mostrando o braço da menina, apontou para uma região bastante avermelhada e inflamada, fato que sensibilizou o prefeito:

— O que foi isso, Seu Luiz? Foi mordida de algum bicho? Você sabe que bicho foi esse?

— Foi, sim, senhor. Foi um aracnídeo que lhe picou a epiderme, causando edema e muita dor.

Ainda com o prefeito, aconteceu algo digno de registro. Por ocasião de uma mudança de residência, Seu Luiz foi chamado pelo governante para orientar carregadores na retirada dos móveis.

Durante o desmonte de um deles, Seu Luiz viu dois ajudantes desmontarem bruscamente uma bonita estante, arrastando-a e forçando-a a ponto de rachar uma das tábuas. Aquele pacato senhor perdeu a paciência ao presenciar tamanha estupidez, e caprichou no vernáculo:

— Seus apedeutas, energúmenos. Será que não percebem que são módulos de sobrepor. Basta levantar cada um com sutileza. E pronto, está resolvido!

Contam também que o mesmo saiu-se com uma resposta digna dos bons trocadilhistas, quando um senhor chamado Penha jogou-se de um prédio ao descobrir que estava sendo traído pela esposa.

— Seu Luiz, pel’amor de Deus, o que foi isso?

— Um homem que se despenha (diz Penha) por uma mulher que disputa (diz puta) — aqui, certamente, a repetir um grande poeta brasileiro, o curitibano Emílio de Menezes, frase a ele atribuída.

Este causo era também contado pelo sempre sorridente Chiquinho da Almasa (Algodoeira Santa Maria S/A, da qual era contador). Chiquinho, ao casar com Milu Assunção, tornou-se Chiquinho de Milu. Elegeu-se prefeito e governou nossa cidade entre os anos de 1983 e 1987. Ele foi meu professor de Práticas Contábeis no Centro Educacional Santamariense, quando ginasiano. Chiquinho partiu prematuramente desta vida.

Ao contrário de Seu Luiz, Chiquinho da Almasa era um bom piadista. Certa feita, alguém noticiou a ele com entusiamo: “Chiquinho, vou me casar”, ao que, de supetão, questionou a sorrir: “contra quem?”.

Seu Luiz é uma “figuuuuura”, diria um poeta conhecido meu. E por falar em poeta, vejam a requintada resposta que ele teria dado àquele senhor que o interrogou sobre um animal que havia sido atropelado.

Cão atropelado. Foto: Reprodução / Vide referências.
— O que foi isso, Seu Luiz? Tadim do bichim! Tão maguim!

— Foi um veículo que, com suas quatro rodas borrachinosas, passou sobre o crânio deste canino, deixando-o inerte nesta praça escaldante — episódio que também ouvi narrado por Chiquinho da Almasa, cujo personagem não era Seu Luiz.

Levando, por fim, o palavreado de Seu Luiz para um Português entendível, sem tanto rebusco, ele apenas quis dizer “que um carro havia passado na cabeça de um cachorro”. Muito simples!

Referências:

ANIMAL atropelado deve ser socorrido por motorista. Disponível em: <https://cdn.autopapo.com.br/box/uploads/2019/05/20101932/animal-atropleado-deve-ser-socorrido-por-motorista.jpg>. Acesso em: 23 abr. 2021.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Eta celularzinho fofoqueiro e mentiroso!

Dia desses, estava eu no ponto de ônibus do Condomínio Solar Boa Vista, no Engenho Velho de Brotas, na capital baiana, juntamente com uma conhecida, que não vou dizer o nome, evidentemente, à espera da tão preciosa e demorada condução. Ela, por certo, para minimizar a chateação da espera, falava despreocupadamente ao celular. E como falava!

Andava para um lado, para o outro, cumprimentava alguém que chegava e dava um verdadeiro show de acrobacia com aquele aparelhinho: levava ao ouvido, levava à boca, era aquele lá e cá que chamava atenção e ela “nem aí pra nada”. Continuava “na dela”, com o “desconfiômetro” desligado. Ora falava alto, ora bem baixinho, como se segredasse. E o infindo diálogo prosseguia animado.
 
Foto: Reprodução / Internet. Vide nota no final.
Eis que chega o tão esperado buzu. Umas três pessoas correram para entrar naquele veículo, inclusive eu e ela, por coincidência. Dei-lhe passagem. Ela subiu primeiro e, logo depois, fiz o mesmo. Que gentileza errada! Minha conhecida, com o celular ao ouvido, apoiado no ombro, tenta pegar dentro de uma gigantesca bolsa que transportava, certamente, uma bolsa menor. E achou. Agora, era procurar dentro dessa bolsinha, o lugar onde estavam as moedas. E encontrou também. Milagre!

Com a bolsinha na mão, retirou dela um porta-moedas, pegou o dinheiro de dentro, colocou na mesinha do cobrador e começou a contar as moedinhas. Quem estava depois de mim, logo começou a resmungar, e ela, falando ao celular, sorrindo, fingia que nada estivesse acontecendo. A pista, como é bem sinuosa naquele local, o ônibus jogava-nos ora para um lado, ora para outro, como se fôssemos charuto em boca de bêbado. Pacientemente esperei, afinal, haveria de compreender que ela “não teve tempo” de contar as “niquinhas” enquanto estava no ponto à espera do ônibus.

Situações como esta não são uma exceção, confirmam a regra. É o que mais se vê, como também vemos muito por aí, o que fez meu colega de trabalho, Nilsolândio. Outro dia, chegando ao batente, lá vinha Nilso (mais fácil de pronunciar) em minha direção, a falar. Quando estava bem próximo dele, perguntei o que era. Ele aponta o polegar para si, aparentando falar consigo mesmo. Nada entendi, pois nem os fios nem o fone de ouvido eu os havia percebido. Só vi um “maluco” a conversar sozinho como tantos e tantos outros que encontramos pelas ruas desta tresloucada metrópole a usar o bluetooth.

Como disse, não é só ele que assim se comporta, coisas piores acontecem quando alguém está conversando ao celular, desde contar a mais “simples mentirinha” a encenar, em teatro sem plateia, “telebrigas” infindas. Foi num cenário desses em que me vi inserto ao tomar um coletivo na Av. Paralela com destino a Estação da Lapa, aqui em Salvador.

Sentei-me, naquela ocasião, bem tranquilamente, ao lado de uma moça que lia um volumoso livro, talvez para “encurtar” a viagem ou mesmo pelo prazer da leitura. Ou pelos dois motivos. Nada tão incomum em situações similares.

A viagem seguia sem anormalidades, quando o celular dela tocou. A moça o atende e aí acabou a minha paz, a nossa paz, digo melhor: o silêncio dentro daquele coletivo. É que ela começou um daqueles bate-papos em voz alta, a expor a própria vida, sem um mínimo de pudor, que deixou a todos constrangidos e boquiabertos sem acreditar no que ouvíamos. Como não havia outro lugar vago para me mudar, fiquei ali mesmo, tentando desviar o pensamento e doído para chegar ao ponto da Arena Fonte Nova, que fica antes da Estação da Lapa, para descer.

Nesse ínterim, creio que o interlocutor lhe perguntou onde ela estava, ao que respondeu, enfática: “Já estou na Lapa, meu bem, aguarde, por favor!”. Tomei um susto e, em voz alta, pensei, digo, questionei: “Oxe, aqui não é a Avenida Bonocô?”. A moça olhou para mim, espantada, botou o dedo indicador na boca, a pedir-me “silêncio!”. Em seguida, tapou o microfone do celular e me alertou com a cara séria, até de desespero: “Cala a boca, misera, é meu namorado, ele vai me matar”. E fez isso em voz alta!

E agora? Minha vergonha só aumentou, deu-me vontade de descer no primeiro ponto que surgisse, de tanto desconforto. Entrei na confusão sem ser chamado. Mas, não. Segui em frente e fiquei pensando como esse aparelhinho tem estimulado a mentira, desde a mais infantil até a mais deslavada, como se inverdade fosse algo tão natural, sem a mínima consequência, uma banalidade ou uma simples brincadeira. Nada tão grave.

Vivemos novos tempos, é sabido (e sentido). Tempos tecnológicos. Tempos em que, para os adeptos de inocentes mentirinhas, o celular, ao meu ver, os incentivou um pouco mais. Inversão de valores? Não. Algo, no entanto, pareceu-me patente, a olhos vistos: o celular banalizou a mentira! E quem dela já gostava, já tinha afinidade, só saiu a ganhar. Ganhar incentivo. E muito!

Nota: Foto disponível em: <https://atcaminhante.files.wordpress.com/2018/06/onibus-celular.jpg>. Acesso em: 2 abr. 2021.

sexta-feira, 12 de março de 2021

A Praça do Réptil e outras praças

Santa Maria da Vitória, seus causos incomuns, jardins e praças de nomes estrambóticos e risíveis. Confiram.

Sempre que conto para amigos ou colegas de trabalho algum causo relacionado a Santa Maria da Vitória ou mesmo falo de alguma peculiaridade da cidade, a reação vem em forma de gracejo na exclamativa frase: Só podia ser em Santa Maria da Vitória ou Santa Maria do Triunfo”, diriam os apaixonados torcedores do Bahia, aliás, do Baêa, tão somente para não pronunciarem o nome do eterno (e necessário) rival, o Esporte Clube Vitória.

“Mas será o Benedito?!”. Será mesmo que estas coisas só acontecem na minha terra? Não! Não é verdade! Toda cidadezinha do interior tem suas figuras folclóricas, seus causos pitorescos, suas singularidades, enfim. Por outro lado, com toda franqueza, não estou totalmente convencido disso. Senão vejam o que por lá acontece.

A cidade já nasceu contrariando a lógica por capricho da topografia local: a Rua de Baixo fica na parte alta e a Rua de Cima, na parte baixa. Tudo isso por conta do sentido que corre o majestoso Rio Corrente, cortando a cidade, causando aparente contradição. De onde vem o rio, é Rua de Cima, e para onde vai, é Rua de Baixa, embora o relevo pareça mostrar o contrário. Por esta razão, lá se pode dizer, sem prejuízo à semântica: “subir para a Rua de Baixo ou descer para a Rua de Cima”.

Antigamente, dois tamarindeiros também já faziam essa diferença:
o atual tamarindeiro (o do barco), perto da ponte Adão Souza, que liga Santa Maria da Vitória a São Félix do Coribe, era chamado tamarindeiro de cima. Outro, também na beira do rio, que ficava no fundo da casa de Manoel Bodeiro, onde é hoje o Jardim Fifa, em frente à Associarte Santa Maria, era o tamarindeiro de baixo.

Tamarindeiro de Cima. Foto (esq.): Rosa Tunes / Tamarindeiro de Baixo. Foto (dir.): Autor desconhecido.
Quanto ao Jardim Fifa, construído no mandato do prefeito Péricles Laranjeira Braga (1966–1970), sempre me questionei o porquê desse apelido. Quem teria botado? No local dele, nos anos 1960, ficavam as residências de Pulu (Apolinário), Manoel Bodeiro e Josefina Borba, demolidas pela Prefeitura para construção da atual praça. No jardim, havia um busto do Desembargador Joaquim Laranjeira, transferido posteriormente para o Fórum da cidade.

Alto da Lavandeira com casas onde é hoje o Jardim Fifa. Foto (esq.): IBGE. Foto (dir.): Desconhecido.

Vistas antiga e atual do Jardim Fifa. Fotos: Acervo do autor.

















Vistas antiga e atual do Jardim Fifa. Fotos: Acervo do autor.







Vista atual da Alto da Lavandeira e Associarte. Fotos: Novais Neto.












Logo após a construção daquela praça, a turma futeboleira para lá se deslocava, à noite, a fim de bater papo e ouvir transmissão de jogos e resenhas esportivas feitas pelas rádios Globo, Bandeirantes, Inconfidência de Minas e a Sociedade da Bahia. Vitor da Costa Neto (irmão de Nini de Paulo Soares, conhecido por Neto), espirituoso e mestre em pôr apelido, começou a chamar o local de Jardim Fifa em alusão àquele organismo esportivo. E o apelido pegou, ficando conhecido até nossos dias.

Quanto a outro episódio que vale a pena narrar, quem nos conta é o conterrâneo Clodomir Santos de Morais, advogado, sociólogo e escritor, no seu livro Conto Verossímeis I. Conta Morais, que Santa Maria foi palco, no final do século antepassado, da separação de dois gêmeos, Pedro e Miguel, que nasceram unidos à altura dos quadris, feita por uma parteira e “cirurgiã” leiga, Sabina Parto Bom.

Depois de separados, Pedro perdeu parte das nádegas e passou a ser conhecido por Pedro Bunda. O segundo ficou com uma proeminência nos quadris, dando a impressão de que portava uma arma, daí adveio o codinome Miguel Revólver. Este último eu o conheci comprando botina, 
“precata salga-bunda” e bruzego” (borseguim) na sapataria do meu pai.

Além destas e de outras curiosidades, há na cidade um jardim, cujo nome — ao olhar das mentes mais imaginativas — vem da “semelhança” (formato triangular com plantas no centro) que originalmente trazia do órgão genital feminino, na forma chula ou popular, como dizem os dicionaristas, no modo diminutivo: Jardim Bucetinha, localizado na Praça Joaquim Queiroz, que já foi Largo Capitão Joaquim Queiroz.

Vistas do antigo Largo Cap. Joaquim Queiroz. Fotos: Acervo do autor.

Vistas do Jardim Bucetinha (debaixo e de cima). Fotos: Novais Neto.
O estapafúrdio apelido ficou tão popular que o logradouro passou a ser conhecido como Praça do Jardim Bucetinha, para reprovação dos mais pudicos, de quem nela mora e, logicamente, dos descendentes do homenageado. Hoje, estão a chamá-lo de Jardim de Tezinho, porque lá, Walter Galhardo (Tezinho Alfaiate) tem um pequeno bar. Ninguém, no entanto, se esquece que o apelido é outro. Tal praça foi pavimentada no primeiro mandato do prefeito Rolando Laranjeira Barbosa (1962–1965).

Outro jardim, bem mais popular e muito famoso, é conhecido por Jardim Jacaré, cujo nome o ilustre santa-mariense, ex-prefeito (1960–1961), dentista e professor, de saudosa memória, Dr. Leônidas Borba se recusava a assim chamá-lo. Quando se referia ao logradouro onde ele está localizado, dizia Praça do Réptil, nunca, Praça do Jacaré, para mostrar total desaprovação ao apelido dado ao logradouro, pois não poderia admitir, jamais, que um desconhecido jacaré houvesse “engolido” o nome de seu amigo, o ex-senador e ex-governador baiano, Luiz Viana Filho, que emprestou nome à praça.

Jardim Jacaré em construção (déc. 1960). Fotos: Shirley Athayde e Novais Neto (déc. 1980).

Antigo Jardim Jacaré (déc. 1980). Foto (esq.): Novais Neto; Foto (dir.): Hermes Novais. Acervo do autor.
Antigo Jardim Jacaré (déc. 1980). Fotos: Novais Neto. Acervo do autor.




Jardim Jacaré. Foto (esq.): Reprodução / Facebook / Rita de Cássia Oliveira; Foto (dir.): Rui Lisboa.







Jardim Jacaré atual. Foto (esq.): Hermes Novais; Foto (dir.): Novais Neto. Acervo do autor.
A Praça do Jardim Jacaré ou Praça do Réptil, como quer Dr. Leônidas, é bom registrar, foi presenteada com duas belas esculturas de “dinos”, em ferro, os Mallerossauros, feitas pelo multiartista Chico Mallero, além de jacarés e sapos a contemplarem sua fonte luminosa.

Tudo isso, no entanto, é fichinha, como diríamos ironicamente, se levarmos em conta que nossa Santa Maria inventou, agora, de considerar ao pé da letra a frase corrente “dobrar esquina”, quando se quer dizer que alguém contornou uma esquina de uma rua qualquer. E há uma explicação para isso.

Quase todo final de ano, Carneirão e Ito de Ponciano promoviam um Carnaval fora de época, algo como uma Micareta. A cidade já festeja, no tempo certo, seu tradicional Carnaval. Mas festa... Festa nunca é demais! É o que pensam muitos.

No entanto, para que a Micareta se realize, algo de extraordinário acontece na Rua Teixeira de Freitas, por onde passa imenso trio elétrico arrastando animada multidão. No início da citada rua, esquina com a Juraci Magalhães, onde ficava a Eletromóveis Janaína, de Nissão, normalmente, o enorme caminhão do trio não passaria, pois não haveria como fazer a curva.

Aí então o extraordinário, o irreal acontece: a calçada e a marquise da loja de Nissão têm que ser cortadas bem rentes à parede, para que o ingente monstro sonoro possa passar, “tirando fino”. Isso acontece quase todo ano, anos a fio. E por muito tempo, as marcas comprobatórias do improvável ficam lá, à mostra, para quem quiser conferir o inimaginável ou dele duvide.


Rua Juracy Magalhães (esq.) e Rua Teixeira de Freitas (dir.). Fotos: Novais Neto.
Onde está, portanto, o extraordinário? O anormal? O excepcional mesmo é lembrar que aquela história de dizer que o “cúmulo da força” é “dobrar uma esquina”, em Santa Maria da Vitória, “o cúmulo da força” é “dobrar a esquina de Nissão”, “dobrar a Eletromóveis Janaína”, para o bem dos foliões e o desespero de quem mora na mais conhecida rua santa-mariense e suas imediações, em razão do ensurdecedor barulho.

Além disso, e por fim, “dobrar uma esquina”, na minha terra — está definitivamente comprovado — não é mera figura de linguagem. Lá, em Santa Maria da Vitória, esquina se dobra na marra, à força, a marretadas, literalmente, para o trio elétrico passar e a festança acontecer. Viram só?!

Outras fotos: Reproduções / Google / Maps


Jardim Bucetinha. Disponível em: <https://www.google.com.br/maps/@-13.3934707,-44.196408,20z>.

Jardim Bucetinha. Disponível em: <https://www.google.com.br/maps/@-13.3934707,-44.196408,20z>.
*  *  * 

Agradecimentos: Registro meus agradecimentos a Antônio Washington, Jair Queiroz e Tião Pedreiro (falecido em 2019), por terem reavivado algumas lembranças minhas dos temos de menino.

Em tempo: Esta crônica já foi publicada no Recanto da Lestras com o título de “A Praça do Réptil e outros bichos”, em 21/12/2013. Hoje está sendo republicada aqui no blog, revista, ampliada e ilustrada. Disponível em: <https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/4620223>. Acesso em: 17/4/2020.

Quem sou

Raimundo Neto, radialista

Anos atrás, exatamente no dia do meu aniversário, 24 de outubro, recebi um áudio da poesia “A doce química do seu olhar volátil”, do amigo R...