sábado, 3 de outubro de 2020

Papos risíveis sobre a morte

Falar sobre a morte nem sempre é um bom papo, por isso mesmo muito fogem dele, outros buscam frases ou termos correlatos para suavizá-la. Confiram.



Dia desses, a conversar com a arte-educadora e poetisa Ana Helena Bomfim por ocasião da partida do meu pai, Tião Sapateiro, em junho deste ano de 2020, lembrei-me de um bate-papo que tive com ele, dentre vários, quando me perguntou sobre seus contemporâneos que moram na zona rural do município ou em outra cidade, se ainda estavam vivos:

Novais Neto e Tião Sapateiro. Foto: Glécia Almeida. 2019.
— Cadê Gesulino Cabeça de Fosco fii de Mané Barrão, será que ainda tá vivo lá em Goiânia? 

— Não. Viajou pra cidade dos pés juntos, ano passado — respondi a usar o palavreado que lhe era tão próprio.

Raramente meu pai usava termos como morte, morrer, dizia viagem, viajar ou apelava para eufemismos ou frases equivalentes, quando àquelas palavras tivesse que se referir.

Após minha resposta, ele fez uma pausa, mirou perdidamente o tempo com olhos esverdeados, miúdos e, meditativo, prosseguiu:

— E Pêdo Saia Véa, filho de Zidorim Qué Sê cum Filipa Qui Mama, será que já viajou também?

— Empacotou. Abotoou o paletó de madeira, já faz é um tempão. 

— E Antõi Correto, lá das C’raíba? Tem notícia dele? 
— e elogiou o amigo. — Ali vi um sujeito direito, homem de palavra tava ali. 

— Pegou o chapéu da viagem também. Já faz um bocado de ano.

Ele fez mais um hiato, um pouco mais demorado. Olhou a rua, para cima e para baixo, contemplou o céu vespertino, desnuvioso, de intenso azul, como se antevisse inevitável futuro a aproximar-se dele sem que nada pudesse fazer, uma vez que seus amigos certamente nonagenários como ele, já haviam voltado para a Casa do Pai. E finalizou o desconfortável assunto sem com isso deixar de zombar da morte com indisfarçável e invulgar bom humor:

— É... esse povo parece que não tem o que fazer, só fica morrendo à toa feito besta — e mudamos de conversa.

Pelo dito, a viajar em minhas elucubrações, foi ele por certo que não teve mais nada a fazer entre os pobres mortais do Planeta Terra, e rumou para a Eternidade, onde provavelmente terá assuntos menos indigestos e não aziagos.

Na minha conversa com Ana Helena, por seu turno, a poetisa me contou que, ao acompanhar o féretro de Zé de Júlia Fogão, do Reis Guarany, pelas ruas santa-marienses, ficou a prestar assunto em um papo que rolava, tristemente, entre duas senhoras, bem velhinhas, que faziam o mesmo trajeto:

— Ei, cumade, se não fosse a morte, hein, essa vida era um vidão, num era?

— Era mermo, cumade. Mas aonde é qui Deus ia botar esse tanto véi? Diga aí, hein! 

— É mermo, cumade. Tem qui morrer mermo. Deus tá certim da silva!

Em tempo:

1) Alguns prenomes utilizados neste conto são fictícios, portanto, possíveis semelhanças com nomes reais terá sido fortuita coincidência. Quanto aos sobrenomes (apelidos), estes sim, são verdadeiros e eu costumava ouvi-los em conversas com meu pai, e muitos deles, conhecer seus detentores.

2) Ofereço este modesto conto ao poeta, músico, compositor e jornalista Aloísio Brandão, da coirmã cidade de Santana (BA), residente em Brasília (DF), como retribuição à sensibilíssima, poética e instigante postagem em minha página do Facebook por ocasião da partida de Tião Sapateiro. Obrigado, poeta!

sábado, 19 de setembro de 2020

Crônica para um nome unissex

Ser detentor de nome utilizado tanto para homem quanto para mulher pode trazer alguns contratempos ou motivar gracejos. Confiram e divirtam-se. 

Está escrito na minha Certidão de Nascimento: Adnil Novais Neto, que deveria ser Adnyl Novais Neves Neto, homenagem a meu avo paterno. O registro foi lavrado pela oficial de cartório Elza Gonçalves Rocha, Dona Zazinha, em Santa Maria da Vitória, no dia 28/4/1961. Há época, eu já contava mais de três anos de idade. Tudo feito em letra cursiva, legível e bonita, para que não houvesse dúvida quanto à grafia correta. Porém, nem isso, ao que pude constatar no transcurso dos anos, bastou.

Desde que entrei para a escola, já assinei meu nome de diversas formas: Adenil Novais Neto, Adinil Novais Neto e Adenil Novais Neves. Pelo que se observa, apenas o Novais prevaleceu (até hoje!). Somente quando ingressei no Ginásio (1971) e tive que apresentar a Certidão para a professora Nenza Novaes, é que passei a escrever corretamente meu nome: Adnil Novais Neto.

Adenil Novais Neto, primeiro ano primário, aluno de Rosa Magalhães. 1967. Acervo do autor.

Adinil Novais Neto, primeiro ano primário, aluno de Rosa Magalhães. 1967. Acervo do autor.
































Adenil Novais Neto, terceiro ano primário, aluno de Elde Suely Bueno. 1969. Acervo do autor.



















Adenil Novais Neves, quarto ano primário, aluno de Dilza Borges Soares. 1970. Acervo do autor.
Meu tio, Osias Almeida, juiz de futebol, poeta temporão, cidadão letrado, santa-mariense de inteligência sempre lembrada por seus contemporâneos, preferiu chamar-me apenas por Novais. É que ele via em Adnil um nome de eufonia pouco impactante, além de ser utilizado para nominar homens e mulheres. E assim fiquei conhecido.

E foi certamente pela última razão, por ter nome unissex, que passei por momentos até divertidos, e por outros, nem tanto. Na época de ginasiano, quando, numa brincadeira de ler os nomes dos colegas de trás para frente, acabaram por descobrir (para azar meu) que Adnil virava lindA. Porém, confesso, isso não me perturbou em nada, sempre procurei tirar de letra, levar na esportiva.

Ao entrar para a faculdade, aí sim, a situação foi meio complicada. Recebi uma carta registrada da Universidade Federal da Bahia (UFBA) informando que eu não poderia colar grau porque havia perdido, por falta, em Educação Física. Fiquei assustado, pois estava dispensado dessa disciplina, uma vez que trabalhava e sempre apresentei em todos os semestres atestado comprobatório. Um detalhe, porém, no destinatário da missiva, despertou-me atenção, o que me tranquilizou, de certa forma, porque estava grafado Srª. Adnil, fato que poderia, de antemão, evidenciar algum engano.

Fui à Secretaria Geral de Cursos para saber o que se passava e lá os servidores da UFBA acabaram por descobrir que meu nome não constava na lista de frequência dos homens, mas, das mulheres. Por esta razão, concluíram que meus atestados não poderiam, jamais, chegar às mãos do educador físico correto. Tudo, no entanto, foi corrigido a tempo para se chegar a um final feliz.

Por curiosidade, dia desses, andei a pesquisar meu nome no Google e acabei por descobrir alguns e algumas Adnis, como Adnil Maria, Adnil Regina, Adnil Sônia, porém não vi nenhum Adnil com um segundo nome indiscutivelmente masculino, a torná-lo composto, como, por exemplo, Adnil Manoel ou Adnil Joaquim, o que seria até uma boa opção para mim, vez que estaria a homenagear minha ascendência portuguesa por parte de minha mãe, Jandira Affonso de Almeida, cujo trisavô, André Affonso de Oliveira, é originário da Cidade do Porto, em Portugal.

Ainda como resultado dessa pesquisa no Google, pude constatar que Adnil tem origem hebraica, sendo uma possível variação de Adiel, que significa “meu adorno é Deus”. Já um antigo radialista da Rádio Bandeirantes, Hélio Ribeiro, da década de 1970, no seu programa “O Poder da Mensagem”, ao responder carta minha, disse o seguinte: “Este programa, que muito nos honra e envaidece, é ouvido em Santa Maria da Vitória, na Bahia, por Adnil Novais Neto, que quer saber a origem e significado do seu nome.” — e continuou — “Adnil vem de Adelino, de origem germânica, que significa ‘serpente nobre, serpente da nobreza’”. Pronto! E agora? Sou adorno ou sou serpente?

Por outro lado, talvez por falta de um segundo nome, mesmo havendo um “Neto” no final do meu, o que — em tese — poderia ajudar a definir o gênero masculino, para evitar gafe, não ajuda em nada ou é solenemente ignorado, principalmente, quando alguém que não me conhece, me telefona, o que acontece frequentemente com operadores de telemarketing, cujo diálogo começa quase sempre com o mesmo script:

— Por favor, gostaria de falar com a senhora Adnil — ao que prontamente respondo, sem demonstrar estranheza:

— A senhora Adnil não está no momento. Quem fala aqui é o marido dela, que sou eu, Adnil Novais. Pode continuar, por favor...

Do outro lado, percebo muitas vezes titubeio na voz de quem fez a ligação, que precipita a pedir-me desculpas e noutras tantas vezes, simplesmente, desliga, pensando tratar-se de algum brincalhão — o que não deixa de sê-lo, claro — a fazer gracinha, como normalmente dizemos.

Outro episódio risível aconteceu no final de ano de 2016, quando certo mensageiro deixou na Gerência da Transalvador, Autarquia onde trabalho, com minha colega Cátia Fernandes alguns livros a mim destinados com os seguintes dizeres: “Cara Senhora Adnil Novaes”. Evidentemente que tais palavras me fizeram um “saco de risada” para meus colegas. E com toda razão! Eu riria também!

Papel colado no envelope contendo os livros enviados por Everaldo Augusto. 2016.
Este acontecimento e os demais, acreditem, em nada me chateiam, pelo contrário, até instigam-me a tecer crônicas e mais crônicas. Quanto ao deslize no nome do destinatário dos livros, que também não me indigna, credita-se a assessor menos atento, jamais ao amigo Everaldo Augusto, o remetente, ex-colega do Cursinho Status e do antigo Banco do Estado da Bahia, e destacado ex-vereador soteropolitano, que me presenteou alguns bons exemplares de escritores baianos, pelo que lhe agradeci.

Em tempo:

Antes de publicar esta crônica, enviei-a para apreciação de Everaldo Augusto que, de forma divertida e bem humorada, me respondeu:

Ainda bem que você não é um coronel das barrancas do Rio Corrente, caso fosse, eu estaria em maus lençóis, e esse meu assessor estaria fugindo da Bahia.

Desculpe, meu amigo, vou reclamar com o assessor desassuntado.

Adorei a crônica. Parabéns. Feliz Natal. Abraços.

Salvador (BA), 23/12/2016.


sábado, 5 de setembro de 2020

Dirce de Assis e o carranqueiro Guarany

Na década de 1970, Dirce esteve em Santa Maria da Vitória para conhecer o Mestre Guarany. Descubra quem é Dirce e se surpreenda.

Finalzinho de tarde de um dia qualquer do ano de 2019, temperatura um pouco mais amena, depois de um dia inteirinho de Sol tinindo, estou eu defronte sua casa. Bato duas ou três vezes no portão de ferro ainda bastante quente, olho pela greta entre aquele e a parede, e chamo somente para reforçar:

— Jairo Rodrigues, tem gente! E é de paz!

— Já tô indo abrir o portão, companheiro.

Novais Neto e Jairo Rodrigues. 2020. Foto (selfie): Novais Neto.
Sem demora, ele aparece nu da cintura para cima com um chapéu de palha surrado na cabeça e uma mangueira, aberta, na mão direita, que passa à esquerda. Depois de me cumprimentar efusivamente, ajeita a barbicha há décadas cultivada, enrola as pontas do bigode à Salvador Dalí e, com um largo sorriso que lhe é próprio, me convida:

— Vamos entrar, companheiro poeta. Só vou terminar de molhar as plantas, rapidinho... — e emendou a conversa sem mais nem menos:

— Ganhei um livro de presente de um amigo de Barreiras e quero lhe mostrar. Fiquei abismado com a descoberta!

Entrei e fiquei por ali mesmo a curiar, assuntando tudo, sentado num banco tosco já bem carcomido pelo tempo, a vê-lo terminar a empreitada de molhação de plantas, que habitualmente faz nos fins de tarde. Finda a tarefa de jardinagem, lá vem Jairo com um livro na mão, página já demarcada e me pede que leia. E sem pressa alguma, foi preparar um café com rapadura. O livro é “O Velho Chico ou A vida é amável”, escrito por Dirce de Assis Cavalcanti.

Sem demora, Jairo retorna com a parafernália do café, isto é, com a cheirosa “solução aquosa de rubiácea”. Bastante eufórico, quase a gaguejar, confessou-me ter gostado da obra por três motivos: o primeiro é que a autora, que esteve em Santa Maria em 1975, disse ter amado a cidade e sua gente; o outro é que ela foi lá especialmente para conhecer Guarany, de quem Jairo é guardião de suas ferramentas de trabalho e documentos, e profundo conhecedor da obra do mestre das carrancas; e o terceiro e último motivo refere-se ao prenome da escritora, o mesmo da sua mãe, Dirce. Digo melhor, Dirce de Vavá de Cirilo, para não fugir à regra dos originais apelidos interioranos.

Livro O Velho Chico ou A vida é amável (1998) / Dirce de Assis Cavalcanti / Livro O pai (1990).
Li, reli, trili e assino embaixo. Jairo está coberto de razão. No entanto, dentre os motivos por ele elencados, excluo o último, já que o nome da minha mãe é Jandira (de Tião Sapateiro) e não Dirce, e o substituo por outro: a autora afirma ter feito várias fotos da cidade, inclusive da antiga feira ainda na Praça dos Afonsos, e tenho eu particular interesse nesses registros fotográficos da década de 1970.

E mais ainda. E principalmente: lembrar à renomada escritora da promessa que lhe teria feito o Mestre Guarany, segundo ela mesma conta em seu em livro “O Velho Chico ou A vida é amável”, de que viveria até os 100 anos. Resultado: Seu Guarany não somente cumpriu o dejúrio, mas foi além dele, chegou aos 103 anos.

Guarany pelos traços de Jairo Rodrigues (1982) / Guarany. Foto: Tião Fotógrafo (1983).
Um fato trivial abordado pela escritora foi ter conhecido uma figura muito gentil, morador ao lado da casa Seu Guarany, na antiga Rua das Flores (Rua dos Doídos), pintor de paredes, letreiros, calendários, quadros e barcos, que testava suas tintas na janela da própria casa. Como Dirce é também artista plástica, pensou comprar a janela do pintor, “sua maior obra”, porque a achou kitsch, mas o homem certamente não venderia “um naco da sua casa”. E a negociata ficou apenas na intenção da artista.

Este pintor por ela referido é, certamente, depois de verificações feitas por parte de Jairo Rodrigues e Hermes Novais, João Pereira de Souza, mais conhecido por João Mandhoca (assim mesmo, para ser fiel à pronúncia da minha terra, e não Mandioca), que era analfabeto, no entanto abria (desenhava) letreiros em barcos e casas comerciais em Santa Maria e cidades circunvizinhas.

Depois da leitura, do café com biscoito frito e de um bom bate-papo, já estava na hora de voltar para casa, afinal, acabara de receber intimação materna, via celular. E já como nos conhecemos há muito tempo, bem sabemos que a despedida de Jairo dura o dobro do tempo das conversas, porque um papo sempre puxa outro e outro, e ninguém arreda pé. No entanto, nos despedimos assim mesmo.

De volta a Salvador, adquiri o livro através de site da Internet e aguardei a chegada. Nesse ínterim, pesquisei sobre a escritora, visto meu interesse pelas fotos, o que já dito. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que Dirce é filha de Maria Antonieta de Araújo Jorge com Dilermando Cândido de Assis, o homem que matou Euclides da Cunha, autor de “Os Sertões”, como também o filho deste, Euclides da Cunha Filho. Antonieta, segunda esposa de Dilermando, é prima J. G. de Araújo Jorge, o festejado Poeta do Povo e da Mocidade.

O primeiro casamento de Dilermando foi com Ana da Cunha, viúva de Euclides, com quem já havia tido envolvimento amoroso, ele, há época, cadete do Exercito Brasileiro, com 17 anos de idade e ela com 33, o que culminou em crime passional, conhecido como “A Tragédia da Piedade”, após tentativa de assassinato por parte de Euclides, escritor membro da Academia Brasileira de Letras.

O casal se separou quando ele contava 50 anos. Dilermando relacionou-se em seguida com Antonieta, de cuja união vingou apenas Dirce que, devido ao sofrimento de ser apontada como a filha do “homem que matou Euclides”, escreveu outro livro por título “O Pai”, defendendo o genitor da pecha de assassino, uma vez que, segundo a escritora, ele só matou para livrar a própria vida, nos dois crimes.

Esta também foi a mesma tese defendida pelo advogado de Dilermando, Evaristo de Morais, e aceita pelo corpo de jurados nos dois episódios. O próprio Dilermando, engenheiro civil, escritor e maçom, escreveu o livro “A Tragédia da Piedade” (Edições O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 1951), no qual se defende do estigma de assassino. E, segundo ele próprio, se algum crime cometeu, foi ter amado uma mulher casada de 33 anos, ele, um jovem inexperiente, de 17.

Mesmo após os júris populares, inocentando-o, a sociedade brasileira do início do Século XX jamais os perdoou: ele, pelas mortes de Euclides da Cunha e do filho deste, e Ana, a mulher adúltera. Esse episódio foi motivo de inúmeras peças de teatro, ópera, minissérie da Rede Globo, e extensa reportagem no G1, datada de 9/7/2019 (vide Referências), na seção Pop & Arte.

Dirce de Assis. Foto: Reprodução / G1 (Vide Referências)
Quanto à escritora que tão poeticamente e com incomparável competência escreveu seus livros, tentei manter contato com a mesma desde 6/12/2019, por intermédio da Ateliê Editorial, que publicou  seu livro “O Velho Chico ou A vida é amável” e se prontificou a ajudar-me no intento. Infelizmente, até o momento, não obtivemos êxito.

Referências

AS MORTES DE EUCLIDES DA CUNHA E SEU FILHO. Disponível em: <http://www.oabsp.org.br/sobre-oabsp/grandes-causas/as-mortes-de-euclides-da-cunha-e-seu-filho>. Acesso em: 11 dez. 2019.

CAVALCANTI, Dirce de Assis. O pai. 4. ed. Rio de Janeiro: Casa-Maria Editorial: LTC-Livros Técnicos e Científicos, 1990. 112 p.

______. O Velho Chico ou a vida é amável. São Paulo: Ateliê Editorial, 1998. 160 p.

DESEJO (minissérie). Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Desejo_(miniss%C3%A9rie)>. Acesso em: 11 dez. 2019.

DILERMANDO DE ASSIS. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Dilermando_de_Assis>. Acesso em: 11 dez. 2019.

DIRCE DE A. CAVALCANTI E A TRAGÉDIA DE EUCLIDES DA CUNHA. Disponível em: <http://saboreandooslivros.blogspot.com/2009/02/dirce-de-acavalcanti-e-tragedia-de.html>. Acesso em: 11 dez. 2019.

DIRCE DE ASSIS CAVALCANTI. Biografia. Disponível em: <https://www.atelie.com.br/publicacoes/autor/dirce-de-assis-cavalcanti/>. Acesso em: 11 dez. 2019.

FILHA BUSCA JUSTIÇA HISTÓRICA PARA PAI, QUE MATOU EUCLIDES DA CUNHA. BBC News Brasil. Disponível em: <https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2019/07/09/filha-busca-justica-historica-para-pai-que-matou-euclides-da-cunha.ghtml>. Acesso em: 11 dez. 2019.

FILHA LUTA POR JUSTIÇA HISTÓRICA PARA PAI NA MORTE DE EUCLIDES DA CUNHA. BBC News Brasil. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=CPwQ9HPApwQ>. Acesso em: 11 dez. 2019.

sábado, 22 de agosto de 2020

Ibotirama: um festival de música, poesia e recordações

No mês dos tradicionais festivais de música e poesia da cidade Ibotirama, eis a crônica que lhes apresento como forma de homenagear tão belo evento. Confiram.

O ano já vai distante: 1986, quando se realizou, na Bahia, o I Festival de Poesia de Ibotirama (FEPI). Paralelamente a esse evento, aconteceu também o X Festival de Música Popular de Ibotirama (FEMPI), dos quais não tive conhecimento. Tudo isso, há 34 anos.

Naquela época, eu mo
rava em Salvador, na Casa do Estudante de Santa Maria da Vitória (CAES), já escrevia crônicas e poesias, e costumava expô-las no mural da residência, além de publicá-las no combativo O Posseiro, jornal autogestionário da minha cidade, dirigido por Joaquim Lisboa Neto, do qual fui um de seus colaboradores, assim como integrei, por algum tempo, o Conselho de Direção.

No ano de 1988, incentivado pelos estudantes moradores, fiz minha inscrição no III FEPI, com a poesia intitulada “Desventuras humanas”, que foi selecionada. Declamei-a, porém não logrei classificação para a grande final. Essa poesia, inclusive, foge um pouco a temática das demais que costumo escrever: não é românica, mas de questionamentos.

De que nos vale saber do Yang e do Yin
Se o mundo nos obriga a dizer sim?
Para que servem estruturas estabelecidas
Se sempre agimos pela exceção?
Por que você não tenta rompê-las
Ao invés de corromper-se
E diz um lacônico não?

De que nos adianta a Ciência e seus Princípios
Se seus fins não nos levam à paz?
E eu, que zorra nenhuma entendo,
Admiro as Leis do Tantra,
Inclusive uma que nos diz que o Universo
Vive em êxtase constante.
E nós, terráqueos, sub-raça errante,
Não passamos de excreta desse orgasmo,
Mergulhados no eterno marasmo
Esperando que um dia tudo vai mudar.

Vivo à espera de você, que me ignora,
E, ainda assim, não vejo a hora
De tê-la na cama, mesmo que seja na lama,
Pois acho que sou metade sem você.
Quisera ser (ir)racional ou, pudera,
Agir só pelo instinto, não sentir ciúme
E não ser tão burro a sua espera.

Ah, vou mergulhar no prana
E viver a paz sacana
Sem grana, que até mesmo critiquei.
De que me adianta saber que
O Átomo é o Universo em miniatura,
Se a esta altura 
 que onda!  
Nunca sei o que serei.


Salvador (BA), 16/3/1988
(Do livro Flutuando na areia, 1988, p. 9)


Naquele festival, fui com mais dois poetas: Manoel de Oliveira Santos, natural de Central (BA) e radicado em Santa Maria da Vitória, e Valter Batista Xavier, Doxa, santa-mariense, que nos deixou em 2019, motivo de homenagem que fizemos a ele e a Zeca Bahia no nosso X RPM — Recital Poético-Musical de Santa Maria da Vitória, naquele mesmo ano.

Um episódio, naquele III FEPI, protagonizado por Doxa, tornou-se indelével. Para perder a inibição, isto é, criar coragem para declamar seu poema, o poeta sorveu umas doses de uísque e foi para o desafio. Sua poesia fazia alusão ao então candidato a presidente Fernando Collor de Melo (15/3/1990 a 29/12/1992) que, nos “santinhos” distribuídos para o eleitorado, trazia as letras “Co” e “or” na cor azul e os dois “ll”, nas cores verde e amarela, que nosso poeta Doxa os apelidou de dois palitinhos.

Fernando Collor. Eleições de 1989.
Anunciado para declamar seu poema, do qual não me recordo o título, Doxa subiu, confiante, ao palco e assim começou:

— Dois palitinhos clorofilados e xantofilados... Deu branco.

Fez pequena pausa, vasculhou rapidamente a cachimônia, reencarou a atenta plateia e, de novo, precedido de um “agora vai”, recomeçou seu poema:

— Dois palitinhos clorofilados e xantofilados... Deu branco.

Meu conterrâneo ainda tentou uma terceira vez declamar seu poema, sempre anteposto de um “agora vai”, mas desistiu, fato que deixou o apresentador e o público sem nada entender, visto que aquele “deu branco” pareceu, afinal, ser parte da poesia. Isso, tempos depois, foi motivo das mais belas gargalhadas e, como já disse, ficou a marca da sua poesia: “deu branco!”.

Passadas mais de três décadas, voltei a Ibotirama em 2019, mês de agosto, não para defender uma criação poética, porém para fazer parte da banca de jurados do XXXIII FEPI, convite feito por Abgail Montalvão, indicado que fui pela conterrânea Ângela. Tudo muito bonito, tudo bem organizado. Cidade e evento bem diferentes (para melhor) do que presenciei mais de 30 anos transcorridos.



Paulo Gabiru em apresentação. 2019.

Crisna Imhof e Novais Neto. 2019.

Lembrança de participação no Festival de Música e Poesias de Ibotirama. 2019.
Na ocasião, tive a sorte de hospedar-me no mesmo hotel que ficaram Paulo Gabiru e André Marques, ambos músicos e compositores, quando trocamos experiências e acabamos por descobrir que entre mim e Gabiru havia grau de parentesco, já que somos descendentes da Família Affonso de Oliveira, fundadora da cidade de Santa Maria da Vitória, o que contribuiu por estreitar nossos laços de amizade.

Aproveitei a oportunidade para lhe ofertar meu último livro “Meu lugar é aqui no Centenário de Santa Maria da Vitória”, publicado em 2009, quando o município completou 100 anos de emancipação política e administrativa, e mostrei-lhe minha tentativa de fazer uma coroa de trovas, gênero poético pelo qual nutro grande afeição 
— a trova — tanto a popular quanto a acadêmica. 

Novais Neto, André Marques, Teiú Rocha e Paulo Gabiru. 2019.

Quanto à coroa de sonetos, este gênero sim é bem conhecido dos sonetistas. Por ter o soneto forma rígida, isto é, dois quartetos e dois tercetos, o que totaliza 14 versos, a coroa de sonetos é formada por 15 sonetos assim distribuídos: o último verso do primeiro soneto será o primeiro do segundo soneto; o último verso do segundo soneto será o primeiro do terceiro e assim por diante, até completar 14 sonetos. O décimo quinto, e derradeiro soneto, será formado pelos últimos versos dos 14 sonetos anteriores e deverá representar a síntese deles.

Partindo, portanto, do modelo da coroa de sonetos, tentei fazer uma coroa de trovas, que também tem forma rígida: quatro versos (dez a menos que o soneto) setissilábicos (redondilha maior), com rimas perfeitas, alternadas (abab) e que deve ter sentido completo, isto é, ter princípio, meio e fim. E não leva título. Quanto à forma referida (abab), é a adotada pela União Brasileira de Trovadores (UBT), criada no Rio de Janeiro em 21/8/1966, enquanto que a Seção de Salvador é de 16/4/1969, da qual sou membro desde 1999.

Assim, a coroa de trovas assume a seguinte forma: o último verso da primeira trova deverá ser o primeiro verso da segunda; o último verso da segunda será o primeiro da terceira e assim por diante, até completar quatro trovas. A quinta trova será formada pelos últimos versos das quatro anteriores e deverá, tal qual o soneto, representar uma síntese delas. Vejam, portanto, minha tentativa: 

Meu alvorecer (coroa de trovas) e WhatsApp de Paulo Gabiru.

Além da coroa de trovas, apresentei a Paulo Gabiru a poesia por título “Já vai tarde”, que faz parte do repertório da Folia de Reis de São Francisco, de São Félix do Coribe (BA). Tempos depois, recebo dele um extraordinário presente: a mesma poesia musicada de forma surpreendente, para mim, e com a marca indelével e singular de seu dedilhar (ou acariciar, é melhor) as cordas do violão.


Fiquei por algum tempo a contemplá-la, ouvi inúmeras vezes. Finalmente, decidi por editar o vídeo que segue e, antes de publicá-lo no You Tube, para divulgá-lo, mandei-o para Gabiru, via WhatsApp, que me respondeu com a seguinte mensagem: “Ficou bacana demais. Leve e despretensiosa”. Ei-lo, portanto, para sua apreciação, meu caro leitor:



Obrigado, Mestre Gabiru, pelo não prometido, por isso mesmo, inesperado e surpreendente mimo. Ternamente, aceite meu abraço e gratidão. 

Referências:

ARAÚJO, Carlos; FERREIRA, Edson Alves; PEREIRA, Edvaldo Joaquim. Ibotirama e as canções de agosto. São Paulo: Salvador: SCT, EGBA, 2013. 254p. (Coleção Apoio).

BOMFIM, Tâmara Rossene Andrade. Festival de música popular de Ibotirama: gênese e sobrevivência, na rota contrária a indústria cultural. Grau Zero – Revista de Crítica Cultural, v. 2, n. 2, 2014. Disponível em: <https://www.revistas.uneb.br/index.php/grauzero/article/view/3266>. Acesso em: 18 ago. 2019.

CARUSO, Paulo Roberto de Oliveira. Coroa de trovas às brisas de outono. In: CONCURSO LITERÁRIO POESIAS SEM FRONTEIRAS, 16., 2017. Anais... Disponível em: <http://poesiassemfronteiras.no.comunidades.net/poesias-dos-vencedores-2017>. Acesso em: 31 jul. 2020.

NOVAIS NETO. Conselho de Direção. In: O Posseiro, Santa Maria da Vitória, ano 7, n. 61, p. 2, jun. 1986. Disponível em: <http://www.cpvsp.org.br/upload/periodicos/pdf/PPOSSBA061986061.pdf>. Acesso em: 31 jul. 2020.

______. Colóquio flácido. In: O Posseiro, Santa Maria da Vitória, ano 13, n. 81, p. 8, fev. 1992. Disponível em: <http://www.cpvsp.org.br/upload/periodicos/pdf/PPOSSBA021992081.pdf>. Acesso em: 31 jul. 2020.

______. Contrastes. In: O Posseiro, Santa Maria da Vitória, ano 5, n. 46, p. 2, dez. 1983. Disponível em: <http://www.cpvsp.org.br/upload/periodicos/pdf/PPOSSBA121983046.pdf>. Acesso em: 31 jul. 2020.

______. Flutuando na areia. Salvador: Multipress, 1988. 112p. p. 9.

______. Já vai tarde. In: MALLERO, Chico; BOMFIM, Ana Helena. (Orgs.). Algumas músicas: Reis de São Francisco: São Félix do Coribe, 2017. 16p. p. 10. (Edição dos organizadores).

______. Mensagem ao estudante santa-mariense. In: O Posseiro, Santa Maria da Vitória, ano 5, n. 46, p. 9, dez. 1983. Disponível em: <http://www.cpvsp.org.br/upload/periodicos/pdf/PPOSSBA121983046.pdf>. Acesso em: 31 jul. 2020.

______. Meu lugar é aqui no Centenário de Santa Maria da Vitória. Salvador: Press Color, 2009. 164p. p. 109.

PRIMEIRO PROGRAMA ELEITORAL VAI AO AR NO RÁDIO E NA TELEVISÃO. Panfleto eleitoral de Fernando Collor, 1989. Disponível em: <https://efemeridesdoefemello.com/2014/09/15/primeiro-programa-eleitoral-vai-ao-ar-no-radio-e-na-televisao/>. Acesso em: 29 jul. 2020.

WANKE, Eno Teodoro. A trova. Rio de Janeiro (Guanabara): Pongetti, 1973. 

Em tempo (7/9/2020):

Ao redigi esta crônica, tomei por base publicação em livro, trabalho acadêmico, revistas e sites confiáveis, os quais afirmam que o primeiro festival de poesia ocorreu no ano de 1986. Quando, no entanto, recebi, via e-mail, informação replicada pelo amigo e ativista cultural Cleber Eduão, com base em pesquisa feita por Jarbas Éssi, poeta e cineasta ibotiramense, percebi disparidade entre o ano inicial e o número de edições do referido festival. Voltei a verificar as fontes consultadas, a fim de buscar possível engano por mim cometido. Apaziguei-me, afinal, ao ler esta ressalva no mesmo e-mail, confirmada em postagem na página de Facebook do prefeito Terence Lessa:

[...]

Neste ano, corrigiremos um erro histórico no festival de poesia, acrescentando dois anos mais, que não foram contabilizados pelo poder público na época: festivais de poesia de 1985 e 1986. Sendo assim, completaremos 36 festivais ininterruptos de poesia.

[...]

Fonte consultada:

FESTIVAL CULTURAL VIRTUAL 2020. Disponível em: <https://www.facebook.com/prefeitoterencelessa/posts/2613439708692480>. Acesso em: 7 set. 2020.

domingo, 9 de agosto de 2020

Tião Sapateiro, jogador da Loteca

Hoje, Dia dos Pais, permitam-me lembrar do meu pai, que recentemente partiu, relembrar uma de suas raras paixões, a Loteca, como também seu jeito único de analisar cada jogo. 

A mais tradicional e popular loteria brasileira é certamente a Esportiva, a Loteca, que caiu no gosto do povo, esse povo que alimentou vivas esperanças de ficar milionário nas noites de domingo para segunda-feira ao acertar seus 13 palpites, isto é, não errar os resultados dos 13 jogos propostos.

Volantes antigos, cartão perfurado e volante atual. Vide Referências.
A Loteca foi criada em 27/5/1969, mas o primeiro teste só aconteceu de forma experimental em em 19/4/1970. Um de seus primeiros milionários foi o boiadeiro Miron Vieira de Souza, morador de Ivolândia, no Estado de Goiás. À época, setembro de 1975, o ivolandense acertou os 13 resultados do Concurso 254 e embolsou sozinho 22 milhões de cruzeiros, o que equivaleria hoje, corrigidos pelo IGP-DI, algo em torno de 53 milhões de reais.

Essa esperança anunciada pelo presidente da época, Artur da Costa e Silva (15/3/1967–31/8/1996), como a hora de o “povo fica rico”, não tardou a chegar a Santa Maria da Vitória, não necessariamente lá, mas em Bom Jesus da Lapa, cidade mais próxima. Como o primeiro concurso ocorreu em abril de 1970 e me recordo de ver meu pai marcando seus palpites em volantes em torno do número 30, e que os jogos aconteciam nos finais de semana, deduzo que a Loteca deve ter começado a levar sorte aos santa-marienses ainda naquele mesmo ano, época de Copa do Mundo, ano do Tri.

Um dos primeiros divulgadores da Loteca em Santa Maria, até onde me recordo, foi Quinquinha de Milu, que o perdeu para o jogo de prognósticos, visto tornar-se Quinquinha da Loteria. Posteriormente, veio o mais conhecido deles, o cambista Nanu, que percorria toda a cidade a pé para vender seu famoso e tradicional “bolão da esportiva”, dentre outras loterias. Para ele, Nanu, também lhes aditaram o “sobrenome” Loteria a seu apelido, que virou também Nanu da Loteria.

Naquele tempo, os volantes marcados eram levados a Bom Jesus da Lapa para serem perfurados, melhor dizendo, registrados. O valor mínimo da aposta era de um cruzeiro novo 
— NCr$ (aprox. sete reais), no entanto o apostador pagava dois cruzeiros novos, para custear as despesas de viagem de Quinquinha até Lapa do Bom Jesus, o que acontecia nas tardes de quarta-feira.
Quadro elaborado por Novais Neto. 2020. Fonte: Wikipédia.
Algum tempo depois, Santa Maria da Vitória passou a ter sua Casa Lotérica, cujo proprietário era Manoel Dourado. Ela ficava localizada na esquina da Rua Juracy Magalhães, rua da Farmácia Imperial, de Seu João Alexandre de Oliveira, quase em frente ao Mercado Municipal, onde é atualmente a loja de calçados do casal Eujácio e Neura. 

A Loteria Esportiva, que teve seu último concurso em 4/9/1989, no formato tradicional, o dos 13 pontos, passou por inúmeras modificações. Sobrevivente que foi da CPI dos Anões do Orçamento, episódio que envolveu mais de 30 parlamentares, a Loteca continua a alimentar sonhos de riqueza, sem o glamour de outrora, evidentemente. O último concurso, o de número 893, ocorreu em 16/3/2020. Seu inequívoco legado, no entanto, é mesmo o da imprevisível Zebrinha, que realizou muitos sonhos de tornar-se milionário da noite para o dia. Por outro lado, ela também frustrou outros tantos sonhos.

Quanto a meu pai, Tião Sapateiro, este era apaixonado por esta modalidade de jogo de azar (ou de sorte). Era jogador na acepção precisa do termo. Ele não torcia para qualquer time, apenas marcava o que considerava lógico, depois de noites de estudo no tradicional “O Curingão no Esporte”, informativo que elencava os últimos jogos de cada equipe para orientar o apostador. Escutava também os palpites de especialistas, como os do matemático Oswald Souza ou comentaristas esportivos da Super Rádio Tupy. Ganhou uma ou duas vezes, bem pouco, quando os resultados atendiam à lógica futebolística.

O Coringão no Futebol (vide Referências) e Tião marcando cartela. Foto: Novais Neto. 1982.

Alguns times, entretanto, deixavam-no com a “pulga atrás da orelha”. Um deles era o Flamengo, não porque fosse contra o rubro-negro. Não, não era bem isso. É que meu pai dizia que o Flamengo “só entrava na loteria pra lhe tirar da jogada”. Quando marcava nele, ele perdia; quando marcava no outro, ele ganhava o jogo. Só teria chance de acertar o ponto se gastasse um palpite triplo. 

Descontraído mesmo era vê-lo discutir resultados de jogos com seu amigo de infância, Zé Braga, que ele o tratava por Zezinho, torcedor apaixonado do Corinthians. Por várias vezes, eu os vi nesses embates de palpites, como aconteceu num jogo entre Fortaleza e Corinthians realizado na capital cearense:

— Furtaleza e Curíntia. Quem você acha que ganha, Zezinho? — perguntou meu pai numa evidente provocação.

— Curíntia, já cravei seco – e continuava a discutir os demais jogos e ainda argumentava favoravelmente quanto ao palpite do amigo, mas logo em seguida mudava de ideia:

— É! O Curíntia não vai sair de São Paulo, viajar quase dois mil quilômetros pra perder pro Furtaleza. O Furtaleza também não vai querer fazer feio em casa diante de sua torcida. Esse jogo... num sei, não, viu, Zezinho, tá cheirando mesmo é um empate. O quê que você acha?

— Que empate que nada, Tiãozim, vai dá é Curingão na cabeça. E você ainda tem dúvida, moço?

— Tenho, sim. Tô achando que esse Furtaleza vai endurecer jogo, vai querer fazer bonito, mostrar que é bom de bola também. Eu tô achando que vai dá é Furtaleza na cabeça. Tá é com cara de Furtaleza!

— Cê vai é perder seu ponto, isso sim – e encerravam por hora o lotérico bate-papo.

Na segunda-feira, logo de manhã bem cedo, ainda mais se o Corinthians tenha saído vencedor, lá estava Zé Braga na porta da tenda do filho de Adnyl de Celina, ou seja, Tião Sapateiro:

— E aí, Tiãozim, fez quantos pontos?

— Só fiz 10. E você?

— Também fiz 10. Mas cê perdeu o ponto do Curíntia, num perdeu?

— Perdi nada, Zezinho, botei foi um triplo por garantia — e aí já começavam a discutir os jogos do próximo fim de semana. E assim, a vida de jogadores da Loteca seguia, tranquilamente, sem nenhuma pressa, a acompanhar a rotina de cidadezinha do interior.

Quanto a mim, não era muito diferente assim. Se o Tricolor Carioca estivesse em algum jogo, ele logo perguntava meu palpite, tendencioso, ele sabia. Dizia que eu era puxa-saco do Fluminense:

— O Fluminense vai pegar o Moto Clube lá no Rio. Cumé que tá ele? Será que ele ganha?

Na condição de torcedor ou puxa-saco, segundo ele, fazia minha análise naturalmente passional e lhe afirmava que o tricolor ganharia. Ele também não me contradizia. E me perguntava sobre outros times, se eu sabia como andavam. Eu dava lá meus palpites e ficávamos ali conversando. Eventualmente, diante de uma derrota do Tricolor, considerada imprevista, desacorçoado, eu lhe questionava:

— E aí, perdeu o ponto do Fluminense, num foi? Que zebra disgramada foi aquela! 

A Zebrinha (vide Referências).
— Perdi nada. Esses trastes lá do Rio gostam de fazer isso. Já tô acostumado com eles. Gostam de perder pra esses timecos cabo de taca, meia-pataca. Botei logo foi um duque aberto pra garantir. 

Na linguagem dos amantes da Esportiva, “duque aberto” é o prognóstico duplo no qual o apostador marca dois resultados no mesmo jogo, nesse caso especial, assinalam vitória dos dois times, colunas 1 e 2, por isso chamam de aberto. Deixam de marcar a coluna do meio, indicativa de empate.

Futebol sempre foi a alegria do meu pai, gostava de ver qualquer jogo pela televisão, por isso resolvi trazê-lo a Salvador para assistir a um jogo da Copa do Mundo de 2014. Naquele ano, ele já havia sofrido um AVC isquêmico, que lhe afetou o lado direito do corpo, mas a mente continuou bem ativa, aparentemente, sem sequela.

Embora não alimentasse paixão clubística, torcia pela Seleção Brasileira e tinha notória admiração por Garrincha, Rivelino e Ronaldo Fenômeno. Discretamente, vibrava quando o Fluminense vencia e dizia para minha mãe que era “pra Novais num ficar triste”. No entanto, numa eventual derrota, dizia a ela que eu “estava urrando em Salvador”, ou com “os dentes no quarador”, em caso de vitória, o que quase sempre virava motivo para minha mãe telefonar e contar-me a fuxicaiada do jogo, como diz ela.

Num particular, notadamente em Copas, sempre o via torcer ardorosamente pela Seleção do Japão, o que me aguçou a curiosidade e lhe perguntei, certa vez:

— Porque o senhor torce tanto pelo Japão? Virou japonês, foi?

— Quando fui para São Paulo, nos anos 1950, trabalhei numa sapataria de uns japoneses, que ficaram meus amigos. Todo fim de semana, eles me levavam para suas casas e, pela primeira vez na vida, eu vi comemorar meu aniversário. É um povo muito bom, gosto muito, honesto, humilde e inteligente.

Tião Sapateiro entre seus amigos em São Paulo. Década de 1950.

Meu pai foi para São Paulo ainda muito jovem. Morou em Marília, Garça e Franca, grande polo calçadista, onde aprimorou sua arte de sapateiro e se tornou modelista de calçados femininos. Em Santa Maria, num primeiro momento, foi seleiro, como era seu pai. Ao retornar daquele Estado, continuou a exercer o ofício de sapateiro, principalmente, a fazer botinas, bozerguins (bruzegos), “precatas salga-bunda”, chuteiras, sandálias e botas femininas. E ainda tinha um curtume na Sambaíba, o mais antigo bairro santa-mariense, às margens do Rio Corrente. 

De retorno ao futebol, assistimos, eu, ele, Lara, Glécia e Thiago, ao jogo da Copa 2014, Bósnia-Herzegovina e Irã, na Arena Fonte Nova. Ficou encantado. Pediu até para tirar foto com grandalhões torcedores iranianos, coisa rara, pois não era muito afeito a fotografia. E ainda comentou: “é cada cepa de homem”. E o mais surpreendente, até ola ele fez no estádio, já que era bem tímido, e ainda me chamava atenção: “lá vem a capadoçagem levantando, lá vem, lá vem, prepare”.

Mesmo depois do AVC, continuou a fazer seu “jogo simples”, isto é, o de valor mínimo, da Loteca. Ele mesmo ia à Casa Lotérica pagar a aposta. Como tinha mais de 80 anos, ainda “tirava onda” com quem estivesse aguardando nas filas, dizendo que iria “furar a fila”, o que era recebido com naturalidade pelas demais pessoas, visto que o caixa, quando o via, sem demora lhe chamava.

Numa dessas ocasiões, coincidentemente minha irmã Glécia foi pagar alguma conta na mesma Lotérica e o encontrou na fila. Ela não se fez notar e ficou logo atrás dele. De repente, alguém puxou conversar com ele:

— E aí, Seu Tião, fazendo uma fezinha na Loteca, né?

— É, eu tô aqui tentando a sorte. Eu já disse lá em casa, pode faltar dinheiro pra tudo, até pra comida, mas para meu jogo, não. Jandira sabe disso.

Glécia ouviu tudo aquilo, porém não se deixou notar para ele não ficar sem graça, pois ela sabia, como todos nós, demais filhos e esposa, sabemos de que se tratasse de simples brincadeira, porque ele foi um pai que nunca deixou faltar nada em casa, mesmo a viver de sua pequena sapataria. Sempre procurou nos dar os melhores exemplos de honestidade e humildade. Nunca gostou da arrogância ou da soberba, palavra muito usada por ele, e costumeiramente nos repetia isso.

Sites pesquisados:

Atualização monetária. Disponível em: <https://calculoexato.com.br/result.aspx?codMenu=FinanAtualizaIndice&cce=001>. Acesso em: 22 jul. 2020.

Boiadeiro Miron. Disponível em: <https://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/boiadeiro-miron-de-goias-fica-milionario-com-premio-da-loteria-esportiva-em-1975-10712142#:~:text=Criada%20em%2027%20de%20maio,lot%C3%A9ricas%20e%20revelou%20muitos%20sortudos>. Acesso em: 22 jul. 2020.

Cruzeiro (moeda)
. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Cruzeiro_(moeda)#:~:text=O%20Cruzeiro%20(Cr%24)%20foi,cruzeiro%20equivalia%20a%20mil%20r%C3%A9is>. Acesso em: 29 jul. 2020.

História da Loteca. Disponível em: <https://ganharnaloteria.com/blog/historia-da-loteca/#:~:text=In%C3%ADcio%20da%20Hist%C3%B3ria%20da%20Loteca&text=Sua%20primeira%20rodada%20experimental%20aconteceu,de%20100%20mil%20bilhetes%20distribu%C3%ADdos>. Acesso em: 22 jul. 2020.

Loteca: resultado do concurso 893. Disponível em: <http://loterias.caixa.gov.br/wps/portal/loterias/landing/loteca/>. Acesso em: 27/7/2020.

Os 50 anos da Loteria Esportiva: a origem da zebra e máfia dos resultados. Disponível em: <http://bnldata.com.br/os-50-anos-da-loteria-esportiva-a-origem-da-zebra-e-mafia-dos-resultados/>. Acesso em: 26/7/2020.

Imagens utilizadas:

Concurso nº. 1. Disponível em: <https://agenciach.com.br/wp-content/uploads/2019/04/Loteria-esportiva-teste-1.jpg>. Acesso em: 23 jul. 2020.

Concurso nº. 54. Disponível em: <https://http2.mlstatic.com/volante-da-loteria-esportiva-concurso-54-D_NQ_NP_826059-MLB29857815011_042019-F.jpg>. Acesso em: 23 jul. 2020.

Concurso nº 55. Cartão perfurado. Disponível em: <https://http2.mlstatic.com/volante-da-loteria-esportiva-concurso-54-D_NQ_NP_826059-MLB29857815011_042019-F.jpg>. Acesso em: 23 jul. 2020.

O Coringão no Futebol nº. 253Disponível em: <https://http2.mlstatic.com/o-curingo-no-futebol-253-loteria-esportiva-1975-D_NQ_NP_220901-MLB20445463982_102015-F.jpg>. Acesso em: 23 jul. 2020.

Volante da Loteca atual. Disponível em: <https://br.doctorlotto.com/wp-content/uploads/2019/05/volante-loteca-cartela-1024x862.jpg>. Acesso em: 23 jul. 2020.

ZebrinhaDisponível em: <https://i2.wp.com/www.sitefutebol.com.br/wp-content/uploads/2017/07/ZEBRINHA.jpg?fit=389%2C285&ssl=1&w=640>. Acesso em: 23 jul. 2020.

Quem sou

Raimundo Neto, radialista

Anos atrás, exatamente no dia do meu aniversário, 24 de outubro, recebi um áudio da poesia “A doce química do seu olhar volátil”, do amigo R...